Tecnologia de ponta transformará lixo orgânico em energia elétrica em Bento

Três empresas já manifestaram interesse em construir a Usina de Tratamento e Eliminação dos Resíduos Sólidos Urbanos de Bento Gonçalves, em Parceria Público-Privada (PPP)

Reportagem: André Guillamelau
Edição: Kátia Bortolini
Fotos: André Pellizzari

Três empresas já demonstraram interesse em participar da licitação para a construção da Usina de Tratamento e Eliminação dos Resíduos Sólidos Urbanos de Bento Gonçalves, por pirólise, com edital lançado pela prefeitura no último dia 24 de julho, para a apresentação de propostas até o próximo dia 17 de setembro. A informação é do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Sílvio Bertolini Pasin. A obra será feita em Parceria Público- -Privada (PPP), na modalidade de concessão administrativa de 35 anos, numa área do município, de 3,79 hectares localizada na rua Davile Sandrin, no bairro Pomarosa, onde funciona atualmente a Estação de Transbordo. O modelo vencedor do projeto da usina foi o elaborado pela Planex S/A- Consultoria e Planejamento, de Minas Gerais. A empresa vencedora para a implementação do projeto terá o prazo de doze meses para a execução da obra.

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Bento Gonçalves produz, em média, 110 toneladas de lixo por dia. Desse montante, 24% é reciclado. Os materiais orgânicos são transportados por caminhões até o aterro sanitário de Minas de Leão, por cerca de 180 quilômetros, com um custo mensal de R$ 250 mil. A usina vai gerar 12.346 MW de energia elétrica por mês, entre eles 10.400 MW destinados ao consumo nas repartições e na iluminação pública. O restante da energia poderá ser permutado ou comercializado pela prefeitura.

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O município será pioneiro no Brasil na utilização de uma usina de pirólise para a transformação de resíduos sólidos urbanos em energia elétrica. O processo de transformação inicia com a triagem do lixo, com separação dos recicláveis, restando apenas a parte orgânica para a transformação em energia. A empresa vencedora da próxima licitação irá ganhar os direitos de explorar a energia excedente além de poder comercializar as sobras do lixo, ressaltado como “muito rico” pelo prefeito de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin. Segundo ele, esse é um dos projetos mais importantes da história recente de Bento Gonçalves. O prefeito salienta ainda que os 60 integrantes das associações de recicladores que atuam no município serão convidados a trabalharem na usina, com carteira assinada.

projeto usina

“O projeto da Planex foi adequado a realidade local baseado em modelos internacionais de gestão de resíduos. A Concessionária processará ou gerará as quantidades determinadas pelo Concedente levando em conta o crescimento da demanda energética e as novas necessidades de processamento de resíduos”, explica o Secretário de Desenvolvimento Econômico. Ele ressalta que a usina não causará nenhum impacto ambiental e visual. “Quem passar pela rua que dá acesso ao Vale dos Vinhedos não avistará a usina que terá apenas um discreto chaminé por exigência das normas de segurança. Inclusive, o local será aberto à visitação pública”.

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Obtenção de energia renovável através da pirólise

A pirólise consiste na reação de decomposição por meio do calor na ausência de oxigênio. Este processo requer uma fonte externa de calor para aquecer a matéria, podendo fazer a temperatura variar de 300ºC a mais de 1000°C, ou seja, qualquer processo térmico com temperaturas superiores a 300°C na ausência de oxigênio é considerado método de pirólise que pode ser Lenta, Rápida e Flash Pirólise que possuem condições distintas quanto às condições de operação.

A Pirólise Lenta é um processo que ocorre a temperaturas superiores a 400°C e longos períodos de residência (40min – 1hora) em que a proporção dos produtos obtidos normalmente é 30% líquidos, 35% carbonáceos e 35% gases. A Pirólise Rápida ocorre na temperatura entre 400°C e 600°C e períodos de residência curtos (2 seg.) com produtos obtidos normalmente de 75% líquidos, 12% carbonáceos e 13% gases enquanto a Flash Pirólise é um processo a temperaturas superiores a 800°C e períodos de residência curtos (1 seg.), sendo que a proporção dos produtos obtidos normalmente é de 5% líquidos, 10% carbonáceos e 85% gases.

Cabe esclarecer que estas diferentes condições de operação resultam na obtenção de produtos diferentes. Na indústria, a pirólise é chamada de calcinação, sendo possível produzir produtos como o alcatrão pirolítico ou bio-óleo e o carvão vegetal, que são alternativas de combustíveis para a geração de Energias Renováveis. No caso da usina a ser implementada em Bento, a matéria orgânica presente no RSU será tratada termicamente por pirólise e convertida em gás de síntese (aproximadamente 90% da matéria orgânica seca) e coque/carvão (10% restantes).

Como outros inorgânicos também estarão presentes nos rejeitos sólidos da pirólise, calcula-se que os sólidos da pirólise terão entre 10% e 15% do peso do resíduo bruto. Para que a usina funcione é necessário a queima de cerca de 30% do gás de síntese gerado, fazendo com que este processo seja autossustentável, onde 70% do gás restante serão utilizados para a geração de energia elétrica.

Pirólise deriva dos termos gregos piro, que significa “fogo”, e lise, que significa “quebra”. Literalmente, a pirólise é a “quebra pelo fogo”. Ela está sendo tratada como uma das alternativas à falta de petróleo. Além disso, é uma solução “limpa” para a decomposição do material orgânico (biomassa). Este processo, do ponto de vista ambiental, produz menor quantidade de cinzas e não contém metais pesados, sendo estudado por universidades em vários países, que buscam formas de agregar valor energético e comercial aos resíduos orgânicos.

Usinas de pirólise pelo mundo

Japão e Alemanha foram os principais países que construíram Usinas a Pirólise Lenta a Tambor Rotativo. Um dos grandes motivos que levaram os japoneses a adotar esta tecnologia foi o fato dos modernos sistemas de pirólise criados para tratar RSU serem capazes de produzir e garantir resultados globais muito superiores a outras tecnologias de transformação.

Não foi por acaso que os japoneses implementaram as usinas de Yame, Koga Seibu, Toyohashi, Nishiiburi, Ebetsu e Kyouhoku, citando apenas algumas. Elas foram desenvolvidas por renomadas empresas que realizam constantes pesquisas preocupadas com o tratamento dos resíduos sólidos urbanos sem agredir o meio ambiente e com alto poder de obtenção de energia. Entre outras considerações foi observado que o sistema pode ser instalado em pequenas áreas, tem prazo de construção e instalação relativamente curtos, reduz a dependência de aterros sanitários e, pelo baixo impacto ambiental, facilita a aceitação da população que mora nos arredores. Na Alemanha, a usina de Hamms reflete o sucesso do uso da tecnologia da pirólise e a Dinamarca apresenta uma das taxas mais altas de reciclagem do mundo.

CONSULTE

Licitação foi precedida de Audiência Pública, nos termos do artigo 39, da Lei Federal n.º 8.666/93, tendo sido realizada no dia 06/07/2018 e devidamente divulgada no D.O.E. de 19/07/2018, bem como no sítio eletrônico, www.bentogoncalves.rs.gov.br, http://ppps.bentogoncalves.rs.gov.br.

Bremen-na-Alemanha

SAIBA MAIS

RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS (RSU)

Termo utilizado para denominar o conjunto de todos os tipos de resíduos gerados nas cidades e coletados pelo serviço municipal. Exemplos: a) resíduos gerados em atividades domésticas, compostos de restos de alimentos, embalagens e produtos em geral que são descartáveis pelos munícipes; b) resíduos originários de atividades comerciais (lanchonetes, lojas, etc.), industriais e de serviços (escritórios e empresas de prestação de serviço) cuja responsabilidade pelo manejo não seja atribuída ao gerador, acondicionados em recipientes de capacidade não superior a 100 (cem) litros por dia; c) resíduos gerados nas atividades de varrição de logradouros públicos e desobstrução de galerias e bueiros; d) resíduos provenientes de feiras-livres, mercados municipais, parques municipais, cemitérios e edifícios públicos em geral; e) resíduos provenientes de limpeza e poda de jardins de domicílios e áreas verdes existentes no município.

RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS PROCESSADOS

São os resíduos utilizados efetivamente para tratamento térmico e conversão em energia elétrica. São considerados para este cálculo a totalidade dos RSU acima descritos, extraindo-se os RECICLÁVEIS, VIDROS e METAIS oriundos da triagem do RSU.

TRATAMENTO

Processo que envolve alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas dos RSU e que visa recuperar, separar ou neutralizar determinadas substâncias presentes nos RSU, reduzir massa e volume, ou produzir energia.

TRATAMENTO TÉRMICO

Todo e qualquer processo de TRATAMENTO de RSU cuja operação seja realizada acima da temperatura mínima de 800° (oitocentos) graus Celsius.

TRANSBORDO

O translado do RSU de um VEÍCULO COLETOR a outro veículo com capacidade de carga maior, realizado de forma direta ou indireta.

MATÉRIA ORGÂNICA

Compreende tudo aquilo que provém dos seres vivos da natureza, desde excrementos até restos de seres mortos. Cabe lembrar que o adubo para plantas é feito de matéria orgânica a partir dos excrementos dos animais bovinos

DECOMPOSIÇÃO

É um processo biológico realizado geralmente por bactérias no qual uma matéria orgânica é aos poucos reduzida a uma forma mais simples e tem seus nutrientes devolvidos ao solo. Uma planta morta é decomposta por bactérias e seus nutrientes devolvidos ao solo serão absorvidos por outros vegetais.

INCINERAÇÃO

Cremar; reduzir às cinzas (relativo ao cadáver). Ação ou efeito de incinerar. É também um processo químico industrial de tratamento do lixo sólido urbano, efetuado através de vias térmicas, recuperando a energia calorífica produzida. A incineração do lixo é necessária.

PIRÓLISE

É o processo onde a matéria orgânica é decomposta após ser submetida a condições de altas temperaturas e ambiente desprovido de oxigênio. Apesar de sua definição esclarecer a necessidade da inexistência de oxigênio, vários processos ocorrem com uma pequena quantidade dele. Uma aplicação bastante comum é a carbonização da madeira. Seu propósito é a produção de carvão vegetal, item essencial para o fornecimento de energia em diversas indústrias.

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