DEVOÇÃO: Santa Maria Goretti

Reportagem: Kátia Bortolini
Fotos: André Pellizzari e Kátia Bortolini

Uma História Construída pela fé

Igreja Santa Maria Goretti, construída em mutirão há 55 anos, personifica a união em torno da devoção

O bairro Maria Goretti, um dos mais antigos de Bento Gonçalves, no último dia 8 de julho promoveu a 65ª edição consecutiva da Festa em Honra a Santa Maria Goretti, padroeira da comunidade. Inspirados no lema “Uma História Construída pela Fé”, a equipe de liturgia, casais festeiros e demais lideranças resgataram documentos, cartazes das primeiras festas e da inauguração da igreja, construída em ação comunitária, há 55 anos.

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A primeira edição da festa ocorreu em 2 de agosto de 1953, com procissão solene saindo da Igreja Matriz Santo Antônio até o local onde seria, mais tarde, concretizado o sonho da construção da capela, numa área de 1.800 metros quadrados, doada pela Congregação das Irmãs Carlistas. A missa campal e a bênção da pedra fundamental da igreja Santa Maria Goretti marcaram o início da história que envolveu as famílias do bairro. A padroeira foi escolhida por sugestão do padre Luiz Mascarello, em homenagem à Santa Maria Goretti, cuja canonização aconteceu no dia 24 de junho de 1950.

No dia 14 de julho de 1963 foi inaugurada a igreja, de 286 metros quadrados de área construída, em estilo gótico, e capacidade para 120 fiéis, coroando o trabalho voluntário de inúmeras pessoas, entre elas Emílio Primo Pozza, Maximiliano Ducatti e Bruno Zago, os primeiros fabriqueiros. O templo foi edificado e mobiliado pelos moradores da comunidade, através de várias ações como a promoção das festas que aconteciam, inicialmente ao ar livre, de rifas e mutirões para a obra. As moças e senhoras da comunidade faziam bolos e pudins, entre outros quitutes, para leilões e comercialização nos eventos. O lucro era revertido em fundos para a obra da igreja. Posteriormente, a tradição continuou com as famílias do bairro, preparando e doando pudins para a festa. Além da festa e das rifas para a arrecadação de dinheiro, as famílias contribuíam mensalmente para as compras de materiais de construção.

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Mesmo após a finalização da obra, os moradores continuaram trabalhando a fim de ampliar o espaço. No início da década de 1970, contribuíram financeiramente para a aquisição de mais uma área com 3.132 metros quadrados, ampliando o terreno para 4.932 metros quadrados, visando a instalação do salão comunitário, construído inicialmente em madeira. No início da década de 80 começou a ser construído um novo salão, de alvenaria, concluído em 1989.

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Ações e rifas que marcaram a época

Cartazes de divulgação das primeiras festas, guardados com cuidado pela comunidade, apresentam a programação religiosa e social dos eventos e registram o nome de muitas pessoas e famílias evolvidas. Uma delas foi a família da artista plástica Geni Ferrari Brandalise, formada pelos pais Angelina e Pompílio Ferrari, pela irmã Marines e pelo irmão Roque. Geni, em parceria com um grupo de amigas, entre elas Edite Bertani, promoveram duas rifas que marcaram época. A primeira foi de uma bicicleta e a segunda de uma colcha de retalhos. A artista relata que a amiga Edite, natural de Porto Alegre, mulher dinâmica e à frente de seu tempo, sugeriu e coordenou a arrecadação de ossos, vidros e embalagens de creme dental. “Ela mesma levava o material para ser vendido na capital. Quando o dinheiro arrecadado foi suficiente, comprou uma bicicleta na Importadora Americana para a primeira rifa na comunidade”. Já a colcha de retalhos foi confeccionada pelo grupo de mulheres na casa de Alice Dall´Oglio. “Cada mulher que unia um retalho à colcha bordava seu nome no centro do quadrado”, ressalta Geni.

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“Doações para a Santa”

O pai de Geni, que era caminhoneiro, colaborava transportando materiais de construção adquiridos em Porto Alegre e a lenha para o churrasco das festas. Atuava ainda como assador. Pompílio também foi o encarregado pelo transporte do sino para a igreja, fabricado em Sapucaia do Sul. “Um dos fabriqueiros entregou- -lhe o dinheiro para o pagamento da peça. Mas o valor não foi suficiente e ele completou com o seu dinheiro. Ao retornar e relatar o ocorrido, o fabriqueiro falou que a diferença ficaria como doação para a santa. E assim foi”, conta Geni. O primeiro casamento ocorrido na igreja foi o de Geni, por sugestão do noivo. O banco dos noivos foi doado pelo casal. Na nave, havia apenas seis bancos, ocupados pelos convidados mais próximos. Os demais acompanharam de pé a cerimônia.

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“Caráter devocional das famílias do bairro”

Muitas pessoas colocaram seus dons a serviço da comunidade. Vera Sperotto Frizzo, uma das muitas lideranças, chegou jovem ao bairro. “Lembro de meus pais e de outros casais trabalhando muito. Muitas vezes, após reuniões ou celebrações, permaneciam em frente à Igreja ou ao salão, trocando ideias e projetando ações. Além da amizade, o espírito de comunidade os movia e envolvia. Seu exemplo e dedicação são lembrados, ainda hoje, pelos que os conheceram. A devoção à Santa Maria Goretti nos foi transmitida por eles”.

A comunidade-Igreja faz parte da Paróquia Santo Antônio e realiza suas atividades em comunhão com a matriz e demais comunidades. Atualmente, conta com mais de 700 famílias e cerca de 100 lideranças envolvidas nos mais diversos serviços e pastorais. “A Igreja continua sendo sinal de fé, da união da comunidade, de integração das famílias. Hoje, existem muitos outros interesses que atraem as pessoas, mas ainda assim, muitos não esquecem suas raízes e buscam na Igreja o verdadeiro alimento que os fortalece na fé: Jesus Cristo. Porém, há necessidade de um convite constante à participação, especialmente aos que se afastaram”, ressalta Vera.

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Todos se conheciam”

“Em 1953 participamos da bênção da pedra fundamental da igreja e do churrasco, preparado e servido ao ar livre, entre as árvores”, conta Amabile Orlandi Refatti, natural de Garibaldi, que há um ano namorava Olívio Refatti, morador do bairro. O namoro logo evoluiu para o casamento, com a mudança de endereço de Amabile para o Maria Goretti, onde reside até hoje. Ela afirma que, tanto o falecido marido quantos outros tantos moradores do bairro, se uniram em torno da construção do templo. “A organização das festas em honra a santa, que por um bom tempo continuaram acontecendo entre as árvores, com churrasco, leilões e rifas, mobilizava as famílias. Todos se conheciam”, lembra a moradora.

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Toque do sino para aviso de morte no bairro: tradição que perdura

Antigamente as igrejas geralmente eram construídas nos lugares mais elevados das localidades. As casas eram construídas distante umas das outras. O toque do sino era um meio de comunicação. O sino, situado no alto, era facilmente ouvido e anunciava as festas, missas e as mortes.

A Igreja Santa Maria Goretti é uma das poucas de Bento Gonçalves que mantém viva essa tradição. Quando falece algum morador do bairro, o toque característico alerta os moradores. O sino também é tocado quinze minutos antes das missas celebradas na igreja. O sino foi tocado por 40 anos por Luis Zattera, um dos primeiros moradores do bairro. Ele também ajudou na construção da igreja, carregando e descarregando pedras para a obra, levadas de carroça pelo também morador Ernesto Possamai.

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Há 15 anos, o sino é tocado pelo empresário Azir Zanetti, coordenador da comunidade Santa Maria Goretti. “Quando morre um homem, são doze badaladas. Quando é uma mulher, são nove e quando é criança, são seis. Os toques com os badalos são feitos em intervalos de cinco segundos”, explica Zanetti, que sobe três lances de escadas para prestar o serviço.

Goretti - tia Kátia

Festa 2018: uma história construída pela fé

“Nesse ano dedicado ao laicato, queremos resgatar a história da nossa comunidade, trazendo presente o imenso número de leigos e leigas que fizeram parte da vida da Comunidade Igreja Santa Maria Goretti. Queremos resgatar a história, desde o início, das primeiras famílias, do sonho de construir a capela, da benção da pedra fundamental, as festas, até os nossos dias quando estamos renovando o espaço litúrgico da igreja. Queremos louvar a Deus pelas pessoas que, reunidas pela fé, colocaram-se a serviço, na gratuidade; por tantos braços que unindo forças realizaram as obras necessárias; pelos padres e irmãs que participaram dessa caminhada, evangelizando, orientando e animando o povo; por tantas mãos que se abriram acolhendo o convite de Jesus de ser “SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO”, lema que orienta o Ano do Laicato. Queremos elevar nossa ação de graças ao Senhor pela nossa padroeira, Menina Santa Maria Goretti, sinal do Seu amor e da Sua misericórdia. Ela nos inspira, com seu testemunho de fé e amor inabalável a darmos continuidade à história e fazermos dessa festa um grande chamado a mais cristãos católicos batizados para que assumam o compromisso pessoal e comunitário de ser sal e luz para o mundo”. Casais festeiros

Goretti - Festeiros

Bênção do novo espaço litúrgico da Igreja

No próximo dia 21 de julho, às 17 horas, acontecerá a bênção do novo espaço litúrgico – presbitério e batistério da Igreja Santa Maria Goretti, em missa presidida pelo pároco da Igreja Matriz Santo Antônio, Ricardo Fontana. O espaço foi revitalizado segundo normas litúrgicas, com projeto e orientação dos arquitetos Denise Travi e Dangle Marini, membros da Comissão Diocesana de Arquitetura e Arte Sacra.

GRATIDÃO

A Comunidade Santa Maria Goretti agradece à Equipe Paroquial, nas pessoas dos padres Ricardo Fontana, pároco da Paróquia Santo Antônio, do Padre João Corbelini que a acompanha através do Conselho Comunitário, e a todos os padres e irmãs que participaram da vida da comunidade, orientando, animando e celebrando a vida do povo. Agradece também as lideranças que nos mais diversos serviços, ontem e hoje, ajudaram a construir e a manter viva essa história de fé e a devoção a Santa Maria Goretti. Eleva seu Louvor ao Senhor e suplica que derrame Seu Santo Espírito, fazendo crescer a Igreja presente nessa comunidade.

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