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Os traços da genialidade

os traços da genialidade

Por Elvis Pletsch

É provável que a figura mais conhecida do mundo contemporâneo seja Steve Jobs. A lenda diz que ele começou a Apple em sua garagem (ou seria em seu quarto?) com Wozniak, e após uma série de produtos que colocaram a Apple entre as gigantes do mercado, foi demitido da própria empresa no ano em que lançou um de seus maiores fracassos, o “Macintosh”. Jobs não desistiu, ainda teve tempo para comprar a Pixar, que se tornaria uma das maiores empresas de animação até hoje, e criar a Next, empresa que posteriormente seria comprada pela própria Apple, trazendo-o de volta ao cargo de CEO da vendedora de Icoisas.

O fato é que todo mundo gostaria de conhecer os segredos da genialidade de Jobs, assim como de Mozart, Ada Lovelace, Einstein, Hawking ou Marie Curie. Todos esses gênios desenvolveram produtos ou estudos que revolucionaram a forma como vemos o mundo. Ser um gênio, portanto, não é o mesmo que ser um sábio, que conhece sobre matemática ou sobre a origem da vida. Para ser um gênio é necessário criar algo que será estudado pelo sábio ao ponto de ele falar “nossa, isso é genial!”.

O ser humano anseia por ser um desses sujeitos, e há todo tipo de palestras, livros de autoajuda, documentários e filmes que querem nos contar os segredos para sermos um deles. Com tanto conteúdo até parece fácil!

O problema é que boa parte desse conteúdo estuda as características individuais de cada mente brilhante que passou por nosso planeta, mas costuma ignorar as descobertas dos estudos realizados de forma coletiva.

As características dos gênios

Andrew Robinson apresentou no livro “Genious” uma descoberta quanto a relação familiar dos gênios: a maioria deles perdeu um ou ambos os pais durante a sua infância ou adolescência. É o caso de Darwin, Curie e Beethoven, por exemplo. Para o autor, esse fato não pode desenvolver somente problemas psicológicos como bipolaridade, depressão ou esquizofrenia (muito comum entre os gênios), mas pode também florescer um processo criativo como forma de lidar com a perda dos pais.

Quanto ao local e ao período em que nasceram esses gênios, também existe uma relação. Eric Weiner escreveu o seu livro “Onde nascem os gênios?” (vale a leitura!), relatando as suas viagens em busca da resposta para essa pergunta. Conforme Weiner, é curioso que a maioria dos gênios tenha aparecido em poucos locais e em períodos áureos desses locais. Foi assim na Grécia antiga, Hangzhou durante a dinastia Song, a Florença e a Renascença, Edimburgo e o Iluminismo, Calcutá e o Renascimento Bengalês, Viena da música de Mozart e Beethoven ou de Freud e Menger, e atualmente o Vale do Silício e a China com suas startups de enlouquecer o mercado.

Alguns estudos também apresentaram resultados polêmicos quanto ao desenvolvimento pessoal dessas pessoas. Ao contrário do mainstream, o livro “A origem do gênio: Perspectivas Darwinianas sobre a criatividade” mostra que poucos gênios tiveram educação formal ou qualquer tipo de formação escolar. Em uma pesquisa realizada com 300 gênios, Dean Simonton constatou que “a maioria só chegou até a metade do que se consideraria uma educação moderna de sua épocas”. São diversos os exemplos para esse caso: Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Woody Allen largaram a faculdade antes do estrelato. Thomas Edison largou a escola aos 14 anos. Henry Ford e Abraham Lincoln eram autodidatas e nunca tiveram uma educação formal. Até mesmo Einstein abandonou o ensino médio, e só entrou na universidade após fazer um exame especial.

Segundo o sociólogo J. Rogers Hollingsworth, isso é ainda mais contrastante nos tempos atuais, pois embora a quantidade de diplomas emitidos e teses científicas publicadas tenha crescido exponencialmente nos últimos cinquenta anos, o ritmo em que surgem trabalhos verdadeiramente criativos permaneceu relativamente constante. Ou seja, a educação está gerando pouco impacto em avanço criativo. Aparentemente, apesar do desenvolvimento de habilidades criativas, o ensino formal costuma anular isso ao fornecer o mesmo pensamento para todos, que provavelmente desenvolverão os mesmos resultados finais e dificilmente criarão uma ideia distinta daquela realidade.

Unindo outras características apresentadas por Eric Weiner, as características que acentuam a busca da criatividade e da genialidade em uma sociedade são:

  • Riqueza, pois até mesmo os gênios precisam comer e ser financiados de alguma forma;
  • Liberdade – seja política, religiosa, econômica ou de expressão – pois um ambiente hostil e proibitivo faz com que muitas possibilidades sejam descartadas ou nem venham à tona;
  • Incerteza em pequeno grau, pois alguma incerteza quanto ao futuro tira o indivíduo da zona do conforto e possibilita a resolução de problemas.

Para entender a importância da incerteza para criatividade, é só notar como o nível de autonomia e empreendedorismo aumenta em períodos de desemprego ou desaceleração da economia. É o caso das barbearias masculinas, dos food-trucks, dos vendedores de cupcakes, dos brechós e dos aplicativos de transporte, que fizeram sucesso no Brasil nos últimos anos de recessão.

Entrando para a lista dos gênios

Está procurando a fórmula da genialidade? Não é fácil. Os gênios costumam trabalhar ao menos 10 anos em suas áreas até terem desenvolvido algo realmente inovador. Mas isso, assim como qualquer um dos padrões citados, não é uma garantia de sucesso para você.

Caso queira entrar no hall da fama dos gênios, sugiro que procure desenvolver a criatividade de forma autônoma. Se o ambiente e as pessoas que você convive não possuem elementos essenciais para a criatividade, procure ajuda em livros diferentes daqueles que você está acostumado, converse com pessoas que você nunca falou antes, visite lugares que você nunca conheceu, desligue a televisão e faça algo inusitado: um desenho, um artesanato, um texto ou até um salto de paraquedas.

Nunca se sabe quando e onde você pode encontrar a peça que faltava no seu quebra-cabeça. Jobs encontrou sua peça em uma mescla de elementos: nas habilidades de Wozniak, na persistência para corrigir os erros do “Apple I” ou do “Lisa”, no conhecimento em Design, em seu perfeccionismo irritante e, até mesmo, em sua filosofia espiritual.

Mas, lamento informar, a fórmula da genialidade não existe (se descobrir, me conte!). Por mais que hajam padrões, creio que a única unanimidade é que os gênios são essenciais para a evolução da humanidade. Sem eles, provavelmente estaríamos nos preocupando com a cor da tinta para escrever em um papel pela primeira vez, e não em como encerrar o último parágrafo da coluna de um jornal.