Posts

Faces da Mulher

Livro mostra o perfil empreendedor da mulher na Região Colonial Italiana, com análises de provérbios sob a ótica de Jung

“No perfil psicológico das europeias imigradas para a Serra Gaúcha, a partir de 1875, predomina o animus positivo, que ajudou a forjar nessas mulheres e seus descendentes valores como trabalho, empreendedorismo, vitalidade, austeridade e persistência, para superar as dificuldades em uma sociedade patriarcal”. A avaliação consta no livro “Faces da Mulher na Região Colonial Italiana”, de 155 páginas, de autoria da psicóloga Maria Cristina Filippon, de Bento Gonçalves, lançado no último dia 30 de novembro, pelo Fundo Municipal de Cultura, com ilustrações de Ernani Cousandier.

Maria Cristina - Livro Mosaico

A obra é resultante de dissertação feita por Maria Cristina para mestrado pela UCS em Letras e Cultura Regional. O estudo interpretou 66 provérbios dialetais que se referiam à mulher da Região Colonial Italiana no Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul (RCI), sob a ótica analítica do psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung. O estudo aborda os aspectos psicológicos que se manifestam nesses provérbios para construir o perfil psicológico da mulher na Região Colonial Italiana.

Provérbios fazem parte do inconsciente coletivo

Segundo a autora, o percurso teórico e analítico que resultou no livro traz uma nova abordagem, que amplia a dimensão simbólica e participativa da mulher imigrante italiana na elaboração indenitária no município. Ela acrescenta que os provérbios, muito usados naquela época, fazem parte da linguagem do Inconsciente Coletivo. “A análise desses dizeres, com base nos arquétipos propostos por Carl Gustav Jung, permitiu conhecer um pouco mais sobre a figura feminina, que sempre se fez presente na imigração italiana, e sua fundamental participação para o desenvolvimento dessa região”, acentua. “Não existe uma verdade absoluta, mas em todo tempo e nos mais variados contextos, existe uma verdade a ser desabrochada, dita ou questionada. Cabe a nós encontrar a visão adequada, um método pertinente e as ferramentas para desvendá-la”, reitera.

A obra reporta que no universo feminino da RCI a casa era o templo, o altar era a cozinha e o fogão, o sacrário. “Era em torno desse espaço que a mulher exercia o domínio da casa. Enquanto preparava os alimentos, ouvia, falava, ensinava o catecismo aos filhos, transmitia códigos de valores, cobrava comportamentos e exercia o controle sobre filhas e noras. No ato de preparar e servir refeições também se manifestavam discórdias, o afastamento ou aproximação, o elogio o prêmio e o castigo”, acrescenta.

“Semo done e tanto basta, semo tutti d´una pasta.”
Somos mulheres e isso basta, somos todas da mesma massa, somos parecidas.

“A le dóne ghe la fata gnanca ‘l diáol, chissà i òm.”
As mulheres não se deixam enganar nem pelo diabo, muito menos pelo homem.

“L´é la dóna che fa l´òmo”
É a mulher que faz o homem.

“Done che no le brusa nel leto ghe manca el afeto.”
Mulheres que não queimam no leito precisam de afeto.

Animus Positivo

Jung postulou uma estrutura inconsciente que representa a parte sexual oposta de cada indivíduo. Ele denomina tal estrutura de anima no homem e animus na mulher. Classifica o animus como uma espécie de todas as experiências ancestrais da mulher em relação ao homem. A mulher é compensada por uma natureza masculina e, por isso, o seu inconsciente tem, por assim dizer, um sinal masculino. Em comparação com o homem, isto indica uma diferença considerável. “Correlativamente, designei o fator determinante de projeções presente na mulher com o nome de Animus. Este vocábulo significa razão ou espírito. Como a anima corresponde ao Eros materno, o Animus corresponde ao Logos paterno” (Carl Gustav Jung; AION: Estudos sobre o simbolismo do Si-Mesmo – § 29). É um arquétipo com funções psicológicas muito importantes, pois, além de servir como ponte para as relações com o sexo oposto, também faz a ligação entre o consciente e o inconsciente.

Do mesmo modo que a anima, assim também o Animus tem um aspecto positivo. Sob a forma do pai expressam-se não somente opiniões tradicionais como também aquilo que se chama “espírito” e, de modo particular, certas concepções filosóficas e religiosas universais.