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Como a Venezuela chegou ao caos?

Por Elvis Pletsch

Há 14 anos, Hugo Chávez discursava para um gigantinho lotado em Porto Alegre, bravejando palavras sobre a sua luta na busca pela equidade e igualdade. Provavelmente, ninguém ali desconfiaria de que a promessa daquele presidente “bem intencionado” iria desencadear uma tragédia desumana.

Desde o início desse ano, já foram pelo menos 30 mortes em protestos contra o regime de Maduro, o sucessor de Chávez, além de mais de 800 prisões. Estudos informam que mais de 87% da população está vivendo na pobreza, e que 64% da população pode ter perdido até 11kg só no ano de 2017 devido à escassez de alimentos. A inflação em 2018? Passou do milhão, tornando o dinheiro venezuelano uma moeda menos valiosa que o dinheiro virtual do game “World of Warcraft”.

Até o elenco do Grêmio assustou-se quando teve que viajar para as terras venezuelanas em maio de 2018. O tradicional “papel picado” jogado no campo para a recepção do clube da casa era feito com moeda venezuelana. Isso pode até ser um sinal de riqueza em Dubai, mas ali era apenas a demonstração do trágico poder inflacionário.

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É verdade que a Venezuela não teve muitos momentos de estabilidade em sua história. A economia era pulsante entre os anos 40 e 70, e o país era um dos mais desenvolvidos da américa latina. Esse crescimento foi em meio à diversas crises políticas, desde mãos de ferro de Marcos Pérez Jiménez e Juan Vicente Gómez, este último caracterizado pela forte repressão política, até a sequência de golpes de estado que assombraram a população até o fim da década de 90, quando Hugo Chávez tomou as rédeas do poder.

Quais foram as medidas que causaram essa tragédia?

Na minha concepção, o governo venezuelano, através de Chávez e Maduro, utilizou duas armas para controlar a população e aplicar as suas ideias: o controle da economia e a opressão.

Opressão: Aproveitando-se da teoria humanitária de que acabar com as armas também acabaria a violência, vários ditadores propuseram o desarmamento civil com a intenção de controlar a sua população: desde os senhores feudais japoneses do período Sengoku, até Hitler, Lênin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Idi Amin, Fidel Castro e Nicolae Ceausescu.

Independente da sua opinião sobre o assunto, de fato não parece ser coincidência que após a abolição do comércio de armas para civis na Venezuela, as únicas pessoas armadas sejam as milícias governamentais, que fazem questão de cumprir as ordens de seu comandante, mesmo que isso resulte em prisões e até mortes de centenas de pessoas.

Controle da Economia: Pode-se dizer que o modelo econômico chavista é uma mistura de elementos proclamados por algumas frentes políticas brasileiras, mas que na prática nunca produzem bons resultados.

Na minha primeira coluna, critiquei uma proposta que visava controlar o preço dos livros no Brasil. Coincidentemente, uma medida semelhante para controle de diversos produtos existe na Venezuela desde 2003, e que foi amplificada através da “Lei de Preços Justos” em 2011.

A lei fez com que a escassez de alimentos e bens essenciais aumentasse, já que o preço fixado não era o suficiente para bancar os custos de quem produzia e comercializava os produtos. Isso fez com que diversas empresas fechassem ou saíssem do país. Além disso, construiu-se um mercado negro, onde as pessoas comercializavam através de preços livres não regulamentados, o que salvou muitos venezuelanos de morrer de fome.

Nicolás Maduro não gostou nada disso, e criou o Comando Nacional de Preços Justos, que combateria o mercado negro e garantiria que os venezuelanos não comprariam itens básicos mais que uma vez por semana. Em cadeia nacional, declarou: “Não vamos nos cansar enquanto não vencermos esta batalha em nome do povo.  Estamos aumentando as penas de cárcere pois a lei tem de ser implacável.”

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Existe também uma teoria de que a causa principal foi a queda nos preços de petróleo, o que pode soar como uma grande verdade se você não apurar os fatos detalhadamente. Na verdade, o preço do petróleo estava anormalmente alto, principalmente no ano de 2008, e retornou ao seu preço médio após aquele ano. Além disso, a escassez de itens já acontecia desde 2007, antes mesmo do valor do petróleo desabar e o governo venezuelano encontrar um álibi para sua incompetência.

Objetivo alcançado ou prestes a ruir?

É claro, não dá para dizer que o plano de Hugo Chávez falhou totalmente nas mãos de Nicolás Maduro. Hoje, a população venezuelana vive em grande ritmo de igualdade, assim como prometido em Porto Alegre. Porém, é uma igualdade de pobreza, onde o desigual é unicamente a alta elite protegida por Maduro, que se regalia em uma grande festa da distopia Orwelliana, com direito há grandes banquetes e banheiros com papel higiênico.

Por sorte, há quem possa mudar tudo isso. O presidente interino da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, conseguiu o reconhecimento de mais de 20 países e parte da população para ser o novo presidente da Venezuela e acabar de vez com as ideias centenárias que estão corroendo o estômago do cidadão venezuelano.

Enquanto não há confirmações, nos resta torcer por uma Venezuela livre e próspera novamente.

A infância e o custo de oportunidade

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Por Elvis Pletsch
elvis_pletsch@hotmail.com

Minha mãe conta que quando era criança tinha o costume de subir em qualquer árvore que estivesse ao redor de sua casa. As árvores eram praticamente um segundo lar: servia para aproveitar a sombra, para ler ou até brincar de boneca. Em alguns desses casos, subia em um pé de abacate e colocava uma tábua para passar de uma árvore para outra – sim, ela praticamente inventou o slackline rústico.

Isso acabou refletindo em seu conhecimento: minha mãe sabe tudo sobre árvores. Sabe em quais épocas elas crescem, sabe quais frutos elas dão e sabe o tamanho da sombra que elas irão fornecer, mesmo que não tenha estudado sobre isso.

Já quando eu era criança, lembro que ela tentava fazer com que eu subisse nas árvores – mas eu simplesmente não gostava, sentia que aquilo seria entediante, afinal, o que eu faria lá em cima? Quando desafiado pelos primos e amigos para subir, sentia vergonha, pois a minha habilidade para as escaladas era, no mínimo, deprimente – reflexo das poucas tentativas.

O custo de oportunidade

O “preço” que paguei ao não aceitar as sugestões de minha mãe é o que chamamos na economia de custo de oportunidade, introduzido pelo economista austríaco Friedrich Freiherr von Wieser, da Escola Austríaca de Economia.

Esse senhor de 167 anos nos ensinou que podemos ser verdadeiros gênios econômicos, pois antes de tomar qualquer decisão, calculamos qual é a melhor ação que podemos realizar naquele momento, concluindo que todas as outras coisas que deixamos de fazer não são tão boas ou possíveis quanto a ação que escolhemos.

Segundo Wieser, o custo de oportunidade sempre é calculado de acordo com a sua utilidade, e não somente pelo seu custo monetário. Para perceber isso, ele levou em conta o princípio de que todos os recursos são escassos, e por isso optamos por direcionar o nosso tempo e dinheiro para alguns projetos, e renunciar de outras alternativas.

Logo, o valor mensurado desse custo é tudo aquilo que você abriu mão de fazer em prol de algum benefício maior.

Isso significa que quando você decide construir uma casa, está levando em consideração que o benefício de ter um local novo para morar é maior que usar o dinheiro para ir a um bar, ou usar o terreno para fazer uma horta, mesmo que alguma dessas opções seja mais barata que as outras.

Essas escolhas irão variar conforme a preferência temporal de cada indivíduo, pois há quem prefira poupar e investir para consumir algo de maior valor amanhã, e há quem gaste tudo no momento em que recebe qualquer recurso.

O que um conceito econômico tem a ver com a infância?

Perceba a grandiosidade do intelecto humano. Possuímos a habilidade de calcular o custo de oportunidade mesmo quando somos crianças, uma aptidão precoce que prova a nossa capacidade de nos tornarmos independentes e assumirmos as consequências de nossas ações – e apesar das implicações que isso pode trazer, não deixa de ser uma habilidade incrível.

Nunca fui uma das crianças mais inteligentes do mundo, mas quando tomava a decisão de não participar dessas atividades naturais, estava realizando um cálculo econômico de enorme complexidade que não possui uma fórmula pré-determinada, e essa equação levava em conta diversos fatores que poderiam ser percebidos unicamente por mim: a vontade, o conhecimento, o medo e o tempo disponível.

Mas mesmo que o meu cálculo fosse diferente do dos meus amigos, o resultado era característico da minha geração, pois o benefício de jogar videogame era visto como maior que o de subir em uma árvore. Obviamente, assim como qualquer matemático, os meus cálculos poderiam estar errados (para o alívio das mães leitoras), pois ao tomar essa decisão deixei de aprender e vivenciar o prazer que minha mãe sentia.

Talvez não seja tarde para arriscar-me nas recomendações maternas, mas, infelizmente, a apuração do meu custo de oportunidade possui os mesmos resultados de anos atrás, já que continuo preferindo o conforto dos videogames do que as aventuras radicais contadas por minha mãe.