Aprendizados

Por Rogério Gava

Amar a própria história

Leio esta passagem arrebatadora escrita pelo psicanalista Juan-D. Nasio: “(…) sou neste instante o resultado de tudo o que fui, de todas as experiências agradáveis e desagradáveis por que passei. E diria, como na célebre canção, ‘Non je ne regrette rien’ (Não, eu não me arrependo de nada!), uma vez que tudo o que me precede me leva a ser aquele que sou hoje perante vocês e perante mim mesmo”. Que verdade extraordinária e ao mesmo tempo tão difícil de ser assimilada. Quantas vezes sofremos remoendo o passado, nos arrependendo do que fizemos ou deixamos de fazer. Caminho mais curto para o inferno de espírito. Como disse o Riobaldo, sábio filósofo do sertão: “para trás, não há paz”. Temos que aprender a olhar para o passado com orgulho, como tudo o de bom e ruim que ele nos proporcionou. O caminho da serenidade, aprendi, é aceitar a própria história. Mais do que isso: é preciso sinceramente amá-la.

O verdadeiro “Sapiens”

Conhecimento não é sabedoria; inteligência não é sabedoria. “É preciso forjar muitos pensamentos, não muitos conhecimentos”, já dizia Demócrito, o sábio filósofo de Abdera, há vinte e cinco séculos. Quem já não conheceu algum bobalhão inteligente? Um sabichão imbecil? Ou aquele “geniozinho ambulante” presunçoso e professoral?

Sabedoria é sensibilidade, é saber tocar sons, ouvir cores e sentir o aroma dos gestos. Sábio é o que enxerga sentimentos por entre os dias, canta a vida vivendo, sente sua a dor do mundo, tece poemas ao sol, se angustia por existir. E suspende a angústia existindo. Sabedoria é olhar o mundo por cima do muro das aparências. E enxergar, lá longe, um horizonte muito além do concreto frio e úmido do conhecimento científico.

Medo de ser feliz

A expressão é conhecida: “sem medo de ser feliz!” E faz todo o sentido. Ter medo de ser feliz é fugir inconscientemente da felicidade. É sabotar a si próprio diante de uma conquista difícil e há muito sonhada. É não se crer digno da alegria, lá justamente onde nos encontramos com nossos sonhos. É não se achar merecedor das próprias conquistas. Difícil de acreditar, mas, quantas vezes fazemos de tudo para estragar o que conquistamos? Para nos autodepreciar? Para destruir o que temos? Freud, com a genialidade que lhe era peculiar, escreveu sobre esse estranho comportamento há cem anos, em um ensaio com um título muito singular: “Os arruinados pelo êxito”. Lá pelas tantas do texto, anota o célebre Dr. de Viena:

“Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de médico, se faz a descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem no momento em que um desejo profundamente enraizado e de há muito alimentado atinge a realização. Então, é como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, pois não pode haver dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem”.

A sensação de que somos um embuste está sempre presente em nossas conquistas. É como se “fosse bom demais para ser verdade”, e não acreditamos no que nos tornamos ou alcançamos com árduo esforço. A psicanalista Diana Corso resumiu essa propensão neurótica de forma perfeita: “Levante a mão aquele que não se julgar uma fraude”, escreve; e arremata: “ Enfim, é mais fácil lidar com o fracasso do que com o sucesso, pois, pelo jeito, a melhor parte é continuar querendo”. Dar-se conta de que somos sim, dignos do que conquistamos, também faz parte da complicada e difícil arte de viver.

A caixinha de fósforos

Um velho professor, filósofo, gostava de explicar o mistério da transcendência se valendo de uma pequena caixinha de fósforos: “Mirem esta pequena caixa, quantos lados vocês estão vendo?”, perguntava ele aos alunos. “Três!!”, respondia a classe em coro. O professor então continuava: “E se eu virar a caixa vocês irão ver os lados que antes não viam, e os outros terão agora se escondido, certo?”.

Magnífica alegoria para a transcendência. O que transcende é isso: esse algo que sentimos se esconder por detrás do real. Impossível de ver, mas cuja presença é denunciada justamente por aquilo que vemos. Assim como quando notamos apenas três lados de uma caixa, em detrimento dos outros que fogem à visão. Mas nem por isso deixam de existir. É como se o que não vemos fosse essencial para a existência do que vemos. A transcendência é a experiência de tentar nomear algo que nos escapa e pode, talvez, existir para além da realidade. E não importa o que esse além possa significar para cada um de nós. É aquilo que a filósofa Ana Arendt dizia situar-se “além do ciclo da vida”. Ou, nas sábias e esclarecedoras palavras do pensador francês Luc Ferry: “ a transcendência é uma realidade cuja origem nos escapa”. A vida é palco; a transcendência, bastidor. Subirá, algum dia, o pano?

Ser feliz por antecipação

“O melhor da festa é esperar por ela”, diz o conhecido ditado. Agradável sabedoria. Ser feliz por antecipação já é estar feliz. Sentir o prazer das férias por chegar. De um jantar a dois que se aproxima. De um gole na cerveja que gela. Amostras de uma felicidade vindoura que são, de antemão, a própria felicidade. Ser feliz é sentir o aroma da deliciosa comida ainda no fogo e ter o prazer anunciado de saboreá-la. Sempre na confiança, é claro, de que a felicidade esperada se concretize. Ser feliz é também confiar que tudo vai dar certo. Mesmo, que, saibamos, nada, nunca, estará garantido.

A Luz da Morte

Por Rogério Gava

Da morte, nada sabemos. Apenas que ela é uma imposição. A maior que temos ao longo da vida. Pois até da própria existência podemos abdicar, pela via extrema e triste do suicídio. Da morte, no entanto, não há remissão. Dela, em toda a história, nenhum homem conseguiu escapar. Não há fracasso quando se trata de morrer. Ninguém, até hoje, falhou em partir.

A morte nos assusta, e não poderia ser diferente. O horror do caixão, do corpo físico sem vida e que, sabemos, haverá de se decompor. A dor e o sofrimento de quem se despede. E o que mais arrepia: o “não-ser” para sempre: o “nunca mais” para toda a eternidade. Ato de extrema solidão, já que ninguém pode morrer em nosso lugar, a morte nos desafia e devora. Ficaríamos apavorados com muito menos.

É claro que há a questão da fé. A crença no “outro lado”. Sejamos honestos, no entanto: o que há depois da morte, ninguém conhece. Podemos acreditar em uma vida depois que partirmos, ou não, e as duas posições me parecem defensáveis. Mas, provas concretas dos dois estados, até hoje, nos faltam. Nenhuma evidência. A morte, assim, segue sendo o mistério último. Tão impenetrável quanto nosso próprio nascimento. O enigma do Alfa e do Ômega. De onde viemos? Para onde vamos?

De minha parte, tenho mais pena de morrer do que propriamente medo. Apesar dos pesares, a vida é muito boa. E, afinal, é o que temos: é pegar ou largar. Se não houver nada depois, bem, não haverá dor, nem sofrimento, nem saudade. Enfim, por que se preocupar? Essa era a proposta do filósofo Epicuro. Dizia ele que a morte não deveria tomar nosso tempo: pelo simples fato de que, quando ela chegar, já não estaremos. O bom e velho Epicuro nos ensina algo sublime: nosso foco dever ser a vida “antes da morte”, e não uma possível vida “depois” dela. Agora, se houver um “além”, espero que seja uma viagem boa, repleta de luz, paz e de explicações sobre tudo o que não entendemos. E de reencontro com quem partiu antes de nós.

A sombra da morte, porém, também emana luz. Ela nos lembra, a todo instante, que esse pode ser mesmo nosso último instante. A fragilidade da vida, diante da brutalidade da morte, dá ainda mais brilho a tudo de bom que podemos fazer por aqui. Existe algo mais valioso do que estar vivo? Tenho em meu celular um aplicativo que me lembra, cinco vezes ao dia, de que um dia morrerei. Pode parecer algo de mau gosto, mas é justamente o contrário: às vezes estou lá eu correndo de um lado a outro, preocupado com coisas mil e então o celular apita, lembrando da fugacidade da vida e do milagre que é estar vivo.

E uma última questão que não podemos esquecer: a morte, horrível e imperativa, nada pode contra a felicidade vivida. Nem ela, com seu total poder de aniquilamento, pode nos tirar o que vivemos. A felicidade que senti ao ver nascerem meus filhos, isso a morte jamais vai me roubar. Nossos momentos felizes existirão para todo e sempre. Mesmo depois que formos embora. O que vivemos é um pedacinho da eternidade. Nesse sentido, a vida ganha da morte de goleada!

“Memento mori” – lembre-se de que vais morrer –, diziam, com sabedoria, os antigos latinos. Mas lembre- -se não para se mortificar ou se angustiar. Pelo contrário, a lembrança da morte, sempre viva e presente, lança ainda mais luz sobre a preciosidade que é estarmos vivos. Se não podemos vencer a morte, podemos, sim, usá-la para dar mais sabor à vida.

A morte, afinal, esse mistério sombrio e soturno, é o quinhão da própria existência. Nascemos com ela ao nosso lado. É nossa companheira. Aceitá-la, sem se render a ela, penso ser a opção mais sensata. Buscar na sombra da morte uma mensagem de luz: essa é, acredito, a maior vingança contra nosso inexorável fim.

Este novembro de Finados foi o primeiro sem meu pai, falecido em outubro, aos 85 anos. Ele foi o exemplo mais vivo que tive sobre a serenidade diante da morte, da luz que devemos fazer emanar de nosso próprio fim. Um aprendizado de fé e coragem, do qual serei para sempre grato.

Impressões de Viagem

Por Rogério Gava

Cidades são apenas sentimentos

Bem falou o escritor Donaldo Schüler: “Sentimentos ligam-nos a casas, ruas, montes, rios, aves e homens. Organizam, pela convivência, o mundo familiar. (…) Pelos sentimentos, o mundo estranho converte-se em nosso mundo”.

Cidades são apenas sentimentos. Todo o resto é pedra, tijolo, concreto e paisagem. Pelo menos a mim, uma cidade que não aquela onde cresci e vivi, é somente isso: não bela ou feia (todas as cidades são lindas e horríveis ao mesmo tempo), mas sem nada para me oferecer. Uma cidade estranha é qualquer lugar em que não amo, apenas toneladas e mais toneladas de pedregulhos sobrepostos que me angustiam e que não dizem nada. A cidade que me fala é aquela onde sinto, onde as casas conversam, sorrindo banguelas com suas janelas abertas e fechadas, contando histórias sobre o que fui e o que sou. A cidade mais do que tijolos e pedras e pedras e tijolos empilhados. A cidade que me fala é aquela onde vivo e estou vivo, é onde me reconheço. Longe dela me desintegro e não sou ninguém. Cidades não existem; o que existe é o sentir.

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Brincar de “não-ver”

Às vezes, finjo estar vendo as ruas de minha cidade como pela primeira vez. Me imagino um turista perdido, tentando encontrar o caminho do hotel. E então me envolvo tanto nessa simulação, que até chego a acreditar que realmente nunca vi antes nada do que estou vendo. Até a própria rua onde moro. É uma sensação estranha e estranhamente agradável. Uma maneira de tentar enxergar tudo o que conheço esquecendo de quem sou. O que vejo, igual a sempre, mas em uma percepção diferente. E então me pergunto: onde está o que enxergamos? Fora da gente ou dentro de nós?

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Angústia

O homem é uma aflição que repousa num corpo”, disse o poeta Ferreira Gullar. A angústia existencial que nos acompanha do berço ao túmulo. Pelo menos àqueles que não são tão pueris, a ponto de ter a resposta certa até para o Grande Mistério. Quem pensa que tudo é ralo, simples e claro, ou pensou pouco, ou não pensou direito. A esse respeito, Schopenhauer foi certeiro: “Quanto menos um homem é dotado do ponto de vista intelectual, menos intrigante e misteriosa parece-lhe a própria existência”. E também Comte-Sponville: “Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo”.

Tanto melhor angustiar-se, me parece.

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Antes e depois do homem

Antes do homem era apenas a natureza. Antes dela, o mundo em explosão. Antes ainda, não sabemos. E antes do homem não havia amor, justiça, o belo, a poesia, a cultura, a amizade, o ódio, todas as virtudes e vícios. Tudo somente depois do homem. Antes, não havia mal nem bem, justo ou injusto. Nem ética e moral. O mal como projeto que tanto nos espanta. Antes, apenas o “mal” natural dos animais. Que não têm nunca culpa de nada, pois não escolhem. Tudo o que de mais sublime existe, existe a partir do homem. E tudo o de mais horrível também.

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O tempo que o tempo tem

Os físicos acreditam no tempo. Ao contrário dos filósofos, a quem o tempo não engana. Ou será que são esses últimos que estão enganados? Filósofos acreditam que o tempo é contínuo, eterna e infinitamente divisível. Físicos creem no tempo discreto, medido e domado. Na grande prova do Mistério, qual dos dois grupos terá a resposta certa? Leio que até já se mediu o menor espaço de tempo possível: vale “10 elevado a menos 43”. Um número assombrosamente pequeno, mas, mesmo assim, uma grandeza existente. Trata-se de um segundo dividido em um milhão de pedaços iniciais, cada pedacinho desses equivalendo a um microssegundo. Pois bem, pegue-se esse espantoso microssegundo e dividimo-lo novamente um milhão de vezes. Repita-se cinco vezes esse processo e, ao final, partamos o intervalo que sobra em dez derradeiros pedaços. Pronto, temos em mãos o que a física acredita ser o menor intervalo de tempo possível, batizado de “tempo de Planck”, homenagem ao físico Max Planck, um dos fundadores da mecânica quântica. Essa partícula assombrosamente pequena é o crônon, a menor partícula temporal. Até hoje, porém, jamais se detectou algum fenômeno ocorrido na escala de Planck. Não se sabe se poderemos fazê-lo. Apesar do esforço da física, não se pode afirmar que o tempo é realmente discreto. Ao que um filósofo – não sem uma ponta de maldade com o pobre cientista – perguntaria: e, mesmo detectado, esse crônon não poderia ser dividido?

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Os “deuses” do esporte

Palavras de Xenófanes, filósofo grego, escritas cinco séculos antes de Cristo:

“Se um homem saísse vitorioso nas corridas ou no pentatlo em Olímpia, (…) se vencesse na luta ou na prática do rude pugilato, (…) seria mais glorioso (que antes) para os seus concidadãos, receberia assento de honra, largamente visível, sua nutrição por conta da cidade e uma dádiva preciosa. Se vencedor na corrida de carros, receberia também todas estas (honrarias); mas mesmo assim não teria o meu valor. Pois o nosso saber vale muito mais do que o vigor dos homens e dos cavalos. Tudo isso é mau costume, e não é justo preferir a força ao vigor do saber (…). Não é a presença na cidade de um bom pugilista, nem a de um homem apto a triunfar no pentatlo ou na luta, ou pela velocidade dos pés, que faria a cidade ficar em melhor ordem. Bem pequeno seria o proveito da cidade se alguém, nas margens do Pisa, conquistasse a vitória nos jogos; pois isto não enche os celeiros da cidade”.

Dois mil e quinhentos anos depois, e nada mudou. Todos sabem que é o jogador famoso; ninguém, ou quase, o cientista que inventou uma nova forma para tratar uma doença. Triste mundo que pouco aprende, e segue a venerar os ídolos errados.

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O sentido da vida

GavaE então, em dado momento, nos defrontamos com a pergunta das perguntas: “a vida tem sentido?”. Freud, lembro, não gostava dessa questão. Dizia que quando a colocamos é porque estamos doentes. Será? Não creio. Discordo respeitosamente do bom doutor de Viena. Perguntar pelo sentido da vida me parece tão natural quanto respirar, comer e beber. Mastigar e digerir essa pergunta, construir nossa resposta sincera a ela, pode nos ajudar a viver melhor, mais lúcidos e felizes.

Acreditar que a vida tem, ou não, um sentido, depende, em primeiro lugar, de que tipo de sentido estamos falando. O que essa palavra representa para cada um de nós. Por certo, fazemos muitas coisas que dão sentido à nossa vida: o trabalho, a formação de uma família, vencer uma doença, enfrentar um medo, educar os filhos, lutar pelos objetivos, arriscar um projeto, superar um luto. Tudo isso preenche nossos dias, corações e mentes. Esses sentidos menores (não pela importância, mas pela abrangência) são o que podemos chamar de propósitos.

São os propósitos que nos fazem acreditar que a vida vale a pena. Que nos fazem pular da cama todos os dias. No entanto, temos que ser francos: esses objetivos particulares não dão conta de um “Sentido Maior”, uma motivação derradeira da existência, ou, se preferirmos definir assim, um “Sentido dos sentidos”.

Nossos projetos são ótimos para dar curso e direção à nossa vida, mas estouram como bolhas de sabão quando o assunto é a finalidade última da existência. Ao final, temos que ser francos: o sentido maior, profundo, nos escapa. Diante das questões críticas da vida, os propósitos perdem utilidade.

A morte, por exemplo, nos faz perguntar: “E então? De que vale toda a correria atrás de nossos objetivos e urgências? Para que tudo isso?”. O enigma do sentido, dessa forma, assim se apresenta: haverá, em suma, um sentido maior, que englobe todos os outros sentidos e a tudo explique? Ou esse sentido último é apenas uma quimera; mais do que isso, uma necessidade humana, um esteio que nos salva do caos, do absurdo da existência? Sim, pois admitir um mundo totalmente isento de sentido é uma sensação que flerta perigosamente com a loucura.

Chegamos nesse ponto, a uma bifurcação e seus dois caminhos possíveis: acreditar que há um sentido maior, último, situado em uma dimensão externa, inacessível, para fora da existência material; ou negar esse sentido derradeiro, colocando o sentido da vida somente dentro dela própria. Duas respostas; duas aberturas absolutamente diferentes. Ambas plausíveis. Defensáveis. Amáveis, até. Diante delas, como em um luminoso, a pergunta final não para de piscar: será o sentido da vida uma ilusão?

Crônica publicada originalmente no livro FELICIDADE, Editora Cipó, 2017.

Gratidão

gratidãoTenho visto, no Facebook, as pessoas postarem a bela palavra: “gratidão”. Agradecer: reconhecer a graça de todos os momentos e da própria vida. Ser grato é saber-se “obrigado”, essa palavrinha mágica, tantas vezes esquecida dos bons costumes, e que sempre lembramos às crianças. A língua é sábia: “obligatus”, diziam os antigos latinos, significando “união, ligação”. Assim, o sentimento de gratidão nos enlaça afetivamente; quando dizemos “obrigado” ou “muito grato” um elo de amizade e cooperação se forma. Se quebra um pouco o gelo da falta de interesse pelo outro, do nosso vil egoísmo. Da mecânica insana do mundo.

Buda ensinava a sermos gratos em todo amanhecer. Faz sentido, afinal, ao deitarmos, sempre há a possibilidade de não despertarmos mais. O filósofo romano Cícero dizia que a gratidão era não somente a maior das virtudes, mas mãe de todas as outras. Em um dos textos mais antigos do Novo Testamento, escrito no ano 50 de nossa era, o apóstolo Paulo nos exorta a dar graça por tudo, sempre. Pablo Neruda, o grande poeta chileno, captou a essência do verbo: “Grato pela palavra que agradece. Grato a grato pelo quanto essa palavra derrete neve ou ferro (…) Grato, és pílula contra os óxidos cortantes do desprezo, a luz contra o altar da dureza”. E o nosso Drummond escreveu: “gratidão, essa palavra-tudo”.

Sabemos, no entanto, agradecer? A gratidão, por certo, não é uma virtude fácil. Ela muitas vezes nos falta. Por culpa do nosso ego. Isso porque, ser grato é dividir. É reconhecer que somos sempre devedores de nossa própria felicidade a outras pessoas. Você é feliz sem aqueles que ama? Com certeza que não. Há que sermos gratos, portanto, primeiro e antes de tudo, pela possibilidade de amarmos e sermos amados. Quando falta esse reconhecimento, a gratidão esmorece.

Ser grato é reconhecer que nenhuma alegria seria possível, que a própria felicidade não seria possível, sem a existência de tudo o que nos rodeia. Sem o Sol, não existiríamos. Sem ar, tampouco. Também sem a comida em nosso prato privilegiado, e que a tantos falta. Mesmo que, saibamos, a vida muitas vezes não nos sorri, sempre haverá o que agradecer. O orgulho, no entanto, eclipsa esse sentimento de graça por tudo. A falta de humildade faz da gratidão uma “in-gratidão”. Achamos que tudo o que temos é nosso de direito, e esquecemos de agradecer.

Como sermos mais gratos? Listar as coisas da vida pelas quais deveríamos todos os dias agradecer, e esquecemos, pode ser um bom começo. Dar graças pelas refeições. Pela saúde. Pelo teto que nos abriga. Por uma boa taça de vinho, lembrando quanto de trabalho e suor nela repousam. A escritora Carolina Chagas, em seu belo “O Livro da Gratidão”, sugere que tenhamos em casa um pote vazio, dentro do qual colocamos pequenos bilhetinhos; neles, escrevemos sobre as coisas pelas quais agradecemos. De tempos em tempos, podemos esvaziar o pote e lermos o que depositamos aí. Uma bela maneira de manter viva a chama da gratidão.

A gratidão é gratuita. Ela não é um dever, tampouco uma obrigação. Ela é, sim, uma virtude, e é bom que a cultivemos. Gratidão, afinal, é valorizar todos os dias tudo aquilo que a vida nos concede. Para sermos realmente merecedores dela. Afinal, como bem dizia uma antiga canção, “quem não dá valor ao que tem, não merece ter nada de valor”.

Rir e Chorar

GavaDemócrito e Heráclito foram dois filósofos gregos. Não há certeza sobre quando nasceram e morreram; sabe-se que viveram entre os séculos VI e V antes de Cristo. Demócrito desenvolveu a teoria do átomo; veja só prezado leitor: como é que alguém, há dois mil e quinhentos anos, tem uma ideia dessas? Não era fraco esse Demócrito. Heráclito também teve uma “sacada” genial – muito conhecida, aliás –, nos mostrando que é impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio, lembra? Tudo muda, dizia ele, quem entra no rio e o próprio rio, que nunca é o mesmo. Uma admirável representação da impermanência de todas as coisas, de nossa própria vida que a todo instante se esvai.

Mas há uma historinha menos conhecida sobre os dois filósofos: quem a conta é Montaigne, o grande pensador francês. Ensina ele que Demócrito vivia a debochar e fazer gracejos da condição humana, do ridículo e absurdo da existência. Já Heráclito, piedoso e sentimental, passava a chorar as dores do mundo e da vida. E então Montaigne nos pergunta: riso ou lágrimas? Devemos ser como Demócrito, o “risonho”, ou como Heráclito, o “chorão”?

Montaigne opta pelo riso. Não por ser mais agradável, explica, mas porque mostra que não devemos levar tudo tão a sério. As lágrimas, dizia ele, sempre carregam consigo um tanto de vaidade, do dar-se importância desmedida às coisas. Mas o riso a que se refere Montaigne, repare, não é o riso de escárnio; é o que antes chamaríamos de “alegre bom humor”; essa virtude de ver a vida sob o prisma da leveza de espírito. E de aceitação de tudo, assim como tudo é. Isso, no entanto, nem sempre é tarefa fácil. Há momentos – sabemos todos – em que só as lágrimas nos salvam.

O homem é o único animal que ri e chora. Os outros animais até podem gemer, grunhir, uivar, ou emitir sons parecidos com uma risada, como faz a hiena. Macacos têm dutos lacrimais, mas somente para fins de limpeza. Um cachorro pode verter lágrimas, mas não de emoção. Somente o cérebro humano está capacitado para fazer rir e chorar. Se pararmos para pensar, isso é assombroso. Riso e choro nos distinguem, nos fazem verdadeiramente humanos.

A verdade é que a vida é feita de risos e lágrimas. A realidade nos dá motivos de sobra para essas duas emoções. E muitas vezes elas até mesmo se misturam: choramos de felicidade; rimos por nervosismo. Um olhar lúcido sobre o mundo e nos desesperamos: doença, tragédias, maldade, miséria, guerra, corrupção. Mas esse mesmo olhar nos mostra também o amor, a amizade, a caridade, a simplicidade e a beleza do universo. Razões não faltam, portanto, para rir ou para chorar.

Penso que risos e lágrimas são bênçãos dos céus. Enlouqueceríamos sem as boas gargalhadas da vida; também ficaríamos loucos se nos fosse vedado chorar. Quando perdemos a capacidade de rir, instala-se a melancolia. E quem já tentou chorar e não conseguiu, bem sabe o quão ruim é. Assim, alternando risos e lágrimas, seguimos. Por entre alegrias e tristezas; encantos e sofrimentos. Nesta doce e amarga tragicomédia que se chama vida.

A Mel

MelEscrevo sob os olhares da Mel, a cachorrinha da minha filha Anna. Chegou em nossa casa em um momento de tristeza, de dor pela perda de um ente querido. Frágil e pequenina, quase nos deixou também. Mas a bolinha de pelos venceu a eterna luta pela vida e agora cresce sem parar.

Rebelde e temperamental, cisma em fazer suas necessidades nos melhores tapetes. Adora deitar de barriga, aproveitando o frescor do piso para arrefecer o corpo. E late sem parar, invocada e autoritária, a cada toque da campainha. Eu, que fui iniciado no mundo dos cachorros depois de adulto – temos também o Bob, um vira-lata turbinado e super esperto, que chegou antes, e, como diz minha filha, é agora irmão da Mel –, me maravilho a cada dia com as peripécias caninas.

De pelo marrom claro e branco, focinho proeminente e dentes afiados, a Mel mais parece uma raposinha fugida da floresta. Possessiva, tomou para ela a poltrona da biblioteca onde trabalho. Ali, no silêncio das tardes mansas, enrodilha-se sobre uma almofada e cai no sono.

Olho a Mel em sua animalidade, mas ela me é mais do que um cão. Penso no que estará sentindo, quando a surpreendo me observando. O olhar transparente e piedoso dos cachorros. Que mistérios guardará? O escritor Alberto Manguel comenta que o relacionamento que temos com um animal, põe em cheque a nossa própria identidade e a do animal com quem convivemos. O olhar de um cão nos obriga a sermos sinceros conosco; ele é uma espécie de espelho a refletir o que nem sabemos que somos. Um olhar que captura o nosso próprio olhar e o devolve.

A Mel me entende, e assim é paciente com minhas leituras; dificilmente as interrompe. Pelo contrário, quase sempre me fita, silenciosa, enquanto anoto partes de um livro ou converso com o autor. Fantasio sobre o que ela pensará dos livros. Já flagrei-a escalando cuidadosamente uma pilha de volumes sobre a mesinha, para em segundos desmoronar lá de cima. Esses dias a vi lambendo um exemplar do Umberto Eco; tem bom gosto a pequena. Já um livro de Nietzsche não teve igual sorte: deu-lhe uma boa dentada. Acho que ela não gosta de filósofos materialistas.

Se às vezes a pequena Mel incomoda, sua ausência enche a casa de vazio. A sensação de prover abrigo para um animalzinho tão indefeso é muito boa. O doce sentimento de cuidar de uma vida. De um ser que, como todos nós, não escolheu estar no mundo. Mas que ao mundo veio e agora trata de viver. Ajudamos a Mel a seguir seus dias e ela nos retribui da mesma forma. Trazendo graça e encanto à casa que descobriu como lar.

Anotações de Percurso

rogerio_gavaRogério Gava

Nomes

Os nomes empobrecem as coisas. Penso nas “Três Marias”, as estrelinhas em fileira que todos apontamos ao céu. Pois é, desde que aprendi serem parte do cinturão de Órion, o grande caçador, e que se chamam Alnilam, Alnitak e Mintaka, algo se perdeu. Foi assim também quando gravei a forma das constelações no céu estrelado: nunca mais consegui enxergar apenas estrelas. O saudoso Manoel de Barros, admirável poeta pantanense, contava essa história: quando menino morava junto a um rio que fazia volta atrás da casa onde residia. Então, um homem, belo dia, lhe disse que aquilo se chamava enseada. Desfez-se o encanto. O rio em curva já não era mais um fascinante mistério, que ao poeta menino lembrava uma reluzente e gigante cobra de vidro. Foi, a partir daquele instante, apenas e somente uma enseada. “Acho que o nome empobreceu a imagem”, escreveu ele. Os nomes que damos a tudo depauperam tudo o que nomeamos.

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O mal segundo Schopenhauer

O célebre – e sempre azedo – Schopenhauer era um pessimista nato. Rabugento, sua prosa é uma navalha a cortar qualquer perspectiva de felicidade. Mas isso não impediu (ou, quem sabe, até ajudou) que ele tivesse uma sacada lógica genial a respeito dos males da vida. Dizia o ranzinza filósofo que os infortúnios – que tanto perturbam nosso estado de espírito – podiam ser divididos em apenas dois grupos: os incertos e os indeterminados. Para não perdermos a tranquilidade – articulava ele – habituemo-nos a considerar os incertos como se nunca pudessem ocorrer, e os indeterminados como se não pudessem de modo algum acontecer agora. Reflito a respeito. Os males incertos são aqueles que podem, ou não, acontecer: doença, acidentes, fracassos de toda ordem. Já os indeterminados temos certeza de que irão ocorrer, mas não sabemos em que ponto do percurso de nossa vida. Pergunto: não será um e somente um o mal indeterminado, ou seja, a nossa própria morte?

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O sopro eterno

Anaxímenes de Mileto, um dos primeiros filósofos, a quem tudo era ar, disse assim: “Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o cosmo”.

Leio esse fragmento antiquíssimo e fico pensando em como a alegoria do sopro embala a humanidade, desde os tempos imemoriais. No Gênesis, o sopro é o bafo insuflado por Deus nas narinas do homem. É o pneuma dos gregos, a respiração, o espírito (spiritus) que dá vida ao corpo físico. Também psyche, a “alma do sopro”. É o ruach hebraico, o fôlego, ar vital. É a anima dos latinos, o alento que “dá ânimo” ao corpo. É o ehecatl dos Astecas e o nephesh do Antigo Testamento. O sopro, em suma, é a alma. E sem alma, sabemos, um corpo é apenas um pedaço de carne. O sopro é, assim, o que nos dá substância. Essência. Aragem invisível que a tudo movimenta. “Reflita sobre o que é a respiração: vento, e nem ao menos sempre o mesmo, mas a cada instante expirado, logo aspirado”, escreveu o imperador Marco Aurélio. Somos sopro. Eternamente.

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A poesia é um modo de ver a vida

“É preciso fazer emergir a poesia do cotidiano”, escreveu – poeticamente – Affonso Romano de Sant’anna. Neste mundo em que “tudo nos conduz à superfície do instante”. Brilhante verdade! A poesia, diz um grande amigo, é educada; nunca entra, pois, sem bater. É preciso, assim, abrir as portas para o acaso poético. Deixar uma fresta na janela, ao menos, para que ele adentre sem medo e nos faça respirar ares menos sólidos. Menos rarefeitos. Tudo é poético e nada o é: depende da sensibilidade de quem vê. O poeta é aquele que enxerga de olhos fechados, pois tem a alma aberta.

O Rio do Tempo

Por Rogério Gava

A metáfora do tempo como um rio é antiga. Há quase dois mil anos, Marco Aurélio, o imperador filósofo, escrevia: “O tempo é uma torrente impetuosa, como um rio que tudo carrega. Mal se vislumbra alguma coisa e ei-la que some. Surge outra, e já se vai também”. Mas a alegoria mais famosa sobre isso veio de Heráclito de Éfeso. O leitor deve lembrar: o filósofo grego comparava o fluxo da vida a um rio, em cujas águas era impossível banhar-se duas vezes. Parece pegadinha, mas não é: cada vez que entramos em um rio correm novas águas; assim, em cada mergulho o rio será outro (e nós também). Era esperto esse Heráclito.

O “Rio do Tempo” nos lembra que tudo flui, muda, se esvai. Nada permanece. Tudo o que é, imediatamente já começa a cessar de ser. Gosto da seguinte explicação dada por um pensador: “tente levantar um dedo no futuro: o dedo sobe e esse futuro já não é mais”. E em um milésimo de segundo o dedo em riste já será passado. Isso nos ensina que só existe o momento presente; esse momento que, tão logo ocorre, já desaparece. O presente em perpétuo movimento. Heráclito chamava essa constante transformação de “devir”. A eterna mudança de tudo.

Esse tempo que é mistério, que corre como um rio, não é o tempo que contamos em nossos relógios. Que marcamos em nossos calendários. “Chronos”, o tempo medido, é uma invenção do homem. Uma das maiores invenções humanas, aliás. Já pensou a confusão que seria viver sem os dias da semana? Sem as horas e minutos para organizarmos nossos compromissos? Tudo isso, porém, não passa de pura arbitrariedade. Tem o lado bom: isso quer dizer que as segundas-feiras não existem! E que nossa idade é mero ponto de vista. Em Mercúrio, por exemplo, o ano tem oitenta em oito dias: pelo calendário mercuriano, portanto, eu já teria passado dos duzentos anos. Já em Saturno eu ainda usaria fraldas…. Nossos relógios marcam uma ilusão. Vou devolver o meu na loja.

O Rio do Tempo é nosso eterno enigma. Um mistério que angustiava até mesmo Santo Agostinho: “Se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei; mas, se me perguntam e eu quero explicar, já não sei”, dizia ele. O doutor da igreja, no entanto, sabia das coisas. Ele já advertia não haver passado, nem presente; tampouco futuro. Chamava o presente de “um nada entre dois nadas”. Algo que nunca chega a existir, pois está sempre deixando de ser, falava.

A verdade, enfim, é que nossa vida é um rio; o tempo, um “desva-rio”. Um delírio que nos assombra e encanta, indecifrável e impenetrável. Até mesmo para os filósofos e sábios. Talvez seja melhor mesmo deixar essa questão para os poetas, esses seres iluminados que a tudo clareiam com seus versos. Como fez o Drummond, quando escreveu: “Flui a vida como água, como água se renova. Se a vida me foge, afago-a em cada esperança nova”.

Passa o tempo; segue a vida. Corre o rio.