Notas sobre a Peste

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Leio que um vírus, mede, em média, cem nanômetros. Descubro que um nanômetro equivale à milionésima parte de um milímetro. A cabeça de um alfinete mede um milímetro. Caberiam aí, portanto, cerca de dez mil vírus como o “coronavírus”. Mais uma prova de que tamanho, definitivamente, não é documento. Algo tão pequeno (que nem se sabe ao certo se é ser vivo, ou não, a discussão é grande) simplesmente mostra toda a fragilidade da vida. E a pequenez de todos nós. Se essa tragédia servir para diminuir nossa arrogância, já terá deixado um legado. Do que duvido, entretanto.

O romance, “A Peste”, escrito em 1947 pelo filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960), voltou à baila nestes tempos de epidemia. A história se passa na década de 1940 em Oran, pequena cidade banhada pelo Mediterrâneo, ao norte da Argélia. A vida seguia normal, todos correndo em prol de seus interesses. Trabalhar e ganhar dinheiro. Então, ratos começam a surgir dos esgotos e morrer aos milhares. Logo, as pessoas são infectadas. A doença se dissipa rapidamente. Muitos padecem. Têm febre. As mortes se multiplicam. Os corpos se amontoam nas ruas. O pânico se instala. A cidade é fechada. Inicia-se a quarentena. O exílio de todos em suas próprias casas. A peste não olhava para a cor da pele, classe social, gênero ou idade. Pestes são democráticas; assim como a morte. Em determinado momento, as baixas começam a diminuir. As portas da cidade se abrem. As pessoas voltam a se reunir. Após meses de sofrimento, a peste acaba. A mensagem de Camus: a peste escancara o egoísmo e a insensatez humana; também faz emergir a reflexão sobre a vida que se vive, sobre o individualismo e a solidariedade. Sobre nossa esmagadora precariedade. Triste homem que só aprende com a peste. Ou pior, que talvez nunca aprenda.

Em anedota (mas é na graça que dizemos o sério), leio que o coronavírus é ecológico. Menos aviões nos ares; menos carros nas ruas. Em Veneza, a água brilha, cristalina, como nunca se vira. A salvo dos turistas. A camada de Ozônio se recupera. Em outro lado, há o econômico. Menos poluição, menos produção, mais desemprego e tragédia social. O vírus, anticapitalista, desafia a sociedade do capital. As engrenagens que nos sustentam também nos matam. Difícil cilada essa em que nos metemos.

A peste é a sina do homem. É bíblica. O faraó do Egito que o diga. Em Atenas, quatrocentos anos antes de Cristo, uma praga matou mais de trinta mil pessoas. Em Roma, no século dois antes de nossa era, o que hoje se imagina ter sido varíola, matou mais de cinco milhões. A pior de todas, a peste bubônica, a terrível Peste Negra, varreu a Europa dos tempos medievais. Em quatro anos, metade da população do velho mundo foi dizimada (cinquenta milhões de mortos). No início do século passado, a Gripe Espanhola ceifou cinquenta milhões de almas. Cólera, Tuberculose, Tifo, Febre Amarela, Aids, Ebola, Malária, Sarampo. Cada peste é uma batalha. Pare de as combater, e elas voltam. A guerra nunca estará vencida.

* * *

“E chega talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz.”

Albert Camus

 

Limites

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

um de meus mestres especiais é o francês André Comte-Sponville. Filósofo e escritor, há muito sou seu fã. Vale a pena prestar atenção no que ele diz. Em um de seus textos, André nos fala da questão dos “limites”. Me parece que poucos temas são tão essenciais para a vida em sociedade. Ainda mais nesses tempos um tanto fluidos, onde tudo tem a pretensão de ser permitido.

Perguntar o que é aceito, ou não, é entrar em terreno pantanoso. Pelo simples fato de que algo pode ser certo em meu ponto de vista, mas não para o estimado leitor e a prezada leitora. Ou vice-versa. Quem tem filhos bem o sabe. Cada família tem seus códigos, sua conduta, suas normas de educação. Permite-se algo em um lar que não se admite em outro. Assim nas escolas, empresas e qualquer outra instituição. Nos países e suas culturas.

Creio, no entanto, que todos concordamos em um ponto: “nem tudo pode ser permitido”. Do contrário, seria o caos. Para não dizer, a ‘barbárie”. Que ordem, no entanto, fixa os limites a serem respeitados? A ciência? A religião? A ética? A lei? Todos essas ao mesmo tempo? Afinal, qual a base para decidir se algo pode ser feito, ou não?

Recentemente, um cientista chinês foi condenado a três anos de prisão por ter criado bebês geneticamente modificados. A lei, nesse caso, buscou estabelecer um limite ao que pode ser feito pela ciência. Podemos concordar ou discordar em relação à condenação, se ela foi justa ou não, muito pesada ou até branda demais. Uma coisa, no entanto, é certa: a ciência não é capaz de impor limites a ela própria. A tecnologia apenas nos diz o que é possível ou impossível fazer. Se ‘deve” ser feito, bem, nesse ponto ela “lava as mãos”.

É por isso que precisamos de uma outra ordem, a impor limites na ciência, na economia ou em qualquer outra área técnico-científica. Essa ordem se chama “lei”. Há o que a lei autoriza (o legal) e o que a lei veda (o ilegal). Nas democracias, o povo elege seus representantes, e, esses, fazem as leis que deverão se cumprir. Mesmo que muitos com elas não concordem. Basta ver as recentes discussões sobre a descriminalização da maconha.

A lei, no entanto, não é universal. O aborto é permitido em alguns países; em outros, não. O mesmo acontece com as drogas, a pena de morte, a eutanásia, ou o consumo de bebida alcoólica. A lei é complexa e não resolve tudo. Se assim fosse o mundo não teria tanta desgraça. O fato é que acima da lei deve haver uma terceira ordem. André nos ensina que ela se chama “moral”.

A moral existe para vedar o que a lei não veda. Nenhuma lei proíbe o egoísmo, a maldade, o ódio. Ninguém é preso por desejar o mal a outrem. Quem me veda de ser um crápula não é a lei: é a consciência de que isso é desprezível. A verdade é que há coisas que a lei não veda, e que, no entanto, não devemos realizar. “Non omne quod licet honestum est”, já diziam os romanos, ensinando que “nem tudo o que é legal é honesto”. A consciência de um homem deve ser mais exigente do que a legislação.

A ciência, a lei e a moral são por demais necessárias; não são suficientes, porém. Falta-nos ainda, no entanto, a maior ordem de todas: a ordem do “amor”. O filósofo nos lembra que somente o amor nos dá a capacidade de ascender sobre as outras ordens, sem, no entanto, desprezá-las. Pelo amor vamos além do que é possível, do que é legal e do que é moral.

As quatro ordens se sucedem e completam: nenhuma é mais importante do que outra. Se estou em um supermercado fazendo compras habito a ordem da economia (ordem 1). A lei (ordem 2), me proíbe de ali roubar. Mas não me privo desse delito unicamente por ele ser vedado; me impeço de furtar, pois vivo em reciprocidade com as outras pessoas e, moralmente (ordem 3), sei que certas ações não devem ser praticadas, pois fraturam o bom funcionamento do coletivo. Por fim, ensino aos meus filhos, que amo (ordem 4), o certo a ser feito, pois quero que eles se tornem pessoas íntegras e ajudem a tornar o mundo um lugar melhor.

As ordens impõem limites; limites são fundamentais para a vida em comum. Sem eles, instala-se o caos. É só pensar nos escândalos de corrupção. Na violência. Ou naquele amigo “esperto”, que se gaba de não devolver o troco que veio a maior. Na base de nossos dilemas, quanta ordem subvertida!

Que as ordens não nos garantem tudo, é fato. O mundo real é por demais complexo. Onde a injustiça grassa, as ordens vacilam, dirão alguns. Quem passa fome tem o direito de roubar, já ouvi de outros. É o tal do “jeitinho brasileiro”, lembra ainda um colega. É fato, respondo. Mas sempre replico com uma simples pergunta: sem ordens e limites, como poderemos viver?

 

O Big Bang não explica nada

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

No princípio, era o “Nada”. A total ausência de qualquer coisa. Difícil imaginar. O nada absoluto soa como absurdo. Algo que escapa ao nosso entendimento. É como tentar pensar em um quadrado redondo. Ou o time ser rebaixado no mesmo ano em que é campeão. Dá um nó no cérebro.

Dizem os cientistas de que desse “nada” surgiu o famoso “Big Bang”, a grande explosão primordial. Isso há uns “meros” 13,8 bilhões de anos, um pouco menos, um pouco mais. Até onde se sabe (ou não se sabe), parece que, assim, do “nada”, surgiram o espaço, o tempo e a energia, tudo inconcebivelmente unido e muito, mas muito quente. Uma sopa cósmica colossal, uma espécie de plasma primitivo, que foi se expandindo, expandindo, e de onde tudo se originou (inclusive, você, eu, os Rolling Stones e a Gisele Bündchen).

Esse tal de Big Bang, no entanto, deixa uma pergunta em aberto. Uma questão, aliás, típica das crianças – que ainda não se tornaram adultos presunçosos repletos de certezas e que por isso mesmo fazem indagações inteligentes. O estimado leitor e a prezada leitora acho que alguma vez já se perguntaram: “se tudo era nada, de onde diabos veio essa explosão?” Sim, porque, se algo explodiu, era preciso que algo existisse para justamente explodir. Mas, não acabamos de dizer que no início nada existia? Confusa essa história!

A Bíblia dá a conhecida resposta, nos dizendo que nesse “nada” havia Deus. Foi ele, quem, portanto, criou dali tudo o que veio a existir. Fiat lux! Tão simples quanto acender um fósforo. Mas, eis que novamente a nossa amada criança intervém: “e quem criou Deus?” Impossível responder. Aqui, ou você tem fé, ou não tem. Mas o mistério permanece. Insondável e impenetrável. Para crentes e ateus.

Voltando ao Big Bang, a verdade é que três perguntas nos desafiam: O que explodiu? Por que explodiu? O que havia antes da explosão? Talvez jamais tenhamos as respostas. Quem sabe seja melhor fazer como os índios da tribo Pirarrã, que vivem na Amazônia. Eles acreditam que a terra e o céu sempre existiram, ou seja, ninguém os criou. Certa vez, ao serem questionados por antropólogos sobre o que havia antes do mundo, responderam: “sempre foi assim”. Os Pirarrãs não acreditam em nada que não possa ser visto ou provado. Espertos esses índios.

O filósofo Leibniz – que certamente não era adepto da filosofia dos Pirarrãs – nos repete a pergunta crucial: “por que existe tudo e não o nada?”. Ou seja, por que, afinal, o Universo calhou de existir? Confrontados com essa interrogação, temos dois caminhos: acreditar que há um sentido oculto por detrás de tudo, e que algum dia iremos descobri-lo; ou acreditar que não há sentido algum, e que, portanto, perguntar- se sobre o sentido de tudo é, por si só, uma pergunta sem sentido algum. O universo, nessa última concepção, é o resultado de uma loteria cósmica. O mundo e nós nele, uma grande roleta aleatória, girando ao sabor das probabilidades no cassino do mistério sem fim.

Crenças à parte, o fato é que o tal do Big Bang segue sem elucidar o que havia antes dele próprio. Há os que dizem que é só por enquanto, e que algum dia descobriremos de onde, afinal, tudo se originou. Pode ser, mas, até lá, o Big Bang segue nos devendo uma explicação melhor. Esse Big Bang que nasceu para explicar tudo, mas que até agora parece não ter explicado nada.

big bang

O Dinheiro

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br

“E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando

cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as

aves do céu.”

Érico Veríssimo,

Olhai os Lírios do Campo, 1938.

 

Leio que, na Suíça, mais da metade da população já não usa papel moeda. Uma tendência mundial, dizem os analistas. Em um futuro próximo, ao que parece, o dinheiro – esse papel pintado que enlouquece o mundo – será só virtual.

A notícia me fez pensar. Vivemos, todos, correndo atrás de dinheiro. Mesmo que neguemos sua importância. O dinheiro, por vezes, parece nos possuir. Não por acaso o denominam de “vil metal”. Mas, até onde mesmo vai o poder do dinheiro?

Em uma sociedade em que tudo está à venda, não ter dinheiro é de fato um grande problema. Quem tem poucos recursos ou nenhum terá, é fato, o que chamaríamos de uma vida bem difícil. A afluência de dinheiro – ou a sua falta – torna-se, assim, uma questão crucial da sociedade moderna. Se o dinheiro é o equivalente universal de troca (para usar a expressão de Marx), não o ter trará enormes dificuldades.

No entanto, há o “outro lado da moeda”. Se, como se diz, da morte nada escapará, tampouco e especialmente a riqueza, por que o dinheiro seduz tanto? Por que este esforço insano em acumular? Uma resposta possível: dinheiro traz poder. O poder de usufruir, de possuir. O dinheiro, bem equivalente de todos os outros bens, concede a possibilidade ilimitada de obter bens no futuro. E sendo os bens futuros disponíveis ilimitados e sempre crescentes, não é de se admirar que o fascínio pelo poder do dinheiro só faça aumentar.

Ensina, desde os primórdios, a ciência econômica, que nossas necessidades são – e serão – sempre ilimitadas. Como não desejar aquele que nos leva a saciá-las?

Toda essa questão me traz à memória o livro “Os sete pecados capitais”, do escritor espanhol Fernando Savater. Nele, o autor constrói um diálogo imaginário entre satanás e um escritor. O diabo, ali, tenta convencer seu interlocutor das vantagens em acumular.

Trata-se de um ensaio sobre a avareza, para Savater, o ato de se dar ao dinheiro mais importância do que ele realmente tem. Ato equivocado de transformar um meio em um fim.

O dinheiro, ao final, só vale justamente pelas trocas que proporciona. No fundo, é papel pintado sobre o qual se acordou – socialmente – um valor. Um papel com um número impresso que pode ser trocado por qualquer coisa. Um “vale genérico” compatível com todas as trocas, se quisermos assim entender. A idolatria ao dinheiro emerge quando esse acordo social é esquecido, e o dinheiro é alçado à condição de sumo sacerdote do sentido e da felicidade. O dinheiro, então, de abstração virtual, converte-se no objetivo máximo da vida, e tudo passa a ser acumular. De valor imaginário e arbitrário, o dinheiro passa a ter valor real. Um valor que fascina e, dependendo de nossa relação com ele, nos entorpece e ludibria. Nos engana. O dinheiro é, ao fim e ao cabo, um truque.

rogeriogava

Notas ao Livro dos Mistérios

Por Rogério Gava 

“A existência na terra

é mistério impensável

nasce um, e morre outro

sofrível, insuportável

uns sorrindo, ou cantando;

da vida se lastimando

por viver muito instável”

Abraão Batista,

poeta cordelista cearense

Velhos (des)conhecidos

E então, você encontra aquele amigo de infância, ou de escola, assim, por acaso. E acontece que ele não te diz mais absolutamente nada. Você até se pergunta: como fomos tão amigos? Agora, ele é um “velho desconhecido”. Disse o Nelson Rodrigues que a amizade é uma ilusão. Que amigos não existem. Montaigne, citando Aristóteles, falou o mesmo (não sem uma ponta de ironia): “Ó meus amigos, um amigo é coisa que não existe”. Amigos são navios que se cruzam no vasto oceano, apitando ao longe. Cada qual em seu pequeno pedaço de mar, perdido na vastidão do grande mundo. Nada sabendo de verdade sobre quem vai lá.

Contradições

Queremos que nossos filhos cresçam; queremos que nossos filhos não cresçam jamais. Queremos paz e tranquilidade, mas também dinheiro e reconhecimento. Só nos enxergamos nos outros; que também são – como lembrou Sartre – nosso terrível inferno. Sabemos que vamos morrer; sentimos, no entanto, a imortalidade batendo forte em nosso peito. Somos um só; somos muitos. Pobre homem, essa contradição ambulante. Edgar Morin pergunta: “somos faces contraditórias da mesma pessoa? Ou pessoas contraditórias da mesma face?”. E Walt Whitman emenda: “Eu sou contraditório. Eu sou imenso. Há multidões dentro de mim”. A única verdade absoluta é que vivemos sob verdades contrárias: dúvida e fé; amor e ódio; racionalidade e misticismo; vida e morte. Verdade do homem: somos uma contradição que respira. Mas, afinal, como disse o admirável Quintana: “Quem nunca se contradiz deve estar mentindo”.

Mudar para continuar o mesmo

Imagine um navio que deixa o porto. No caminho do destino, partes lhe vão sendo substituídas. Primeiro, o convés. Depois, a proa. Os mastros, as cabines. Antes de chegar ao fim da jornada, todas

as peças foram trocadas, o casco, tudo, até o último parafuso. Ao atracar, será o mesmo navio? E nós, somos os mesmos após tanta mudança? Não reconheço mais aquele que fui aos vinte anos. Embora eu saiba que aquele que lá fui, é o mesmo que sou agora. A mesma pessoa totalmente diferente. O psicanalista Juan-David Nasio batizou esse fenômeno de “mesmidade”, o “coração atemporal de nosso ser”. Somos essencialmente os mesmos ao longo de todas as idades que vivemos. Morin: “De fato, cada um de nós, com a idade, conservou as idades precedentes”. Mudamos, por certo, ao longo de toda a vida, mas há uma espécie de essência do eu que conservamos, apesar de todas as mudanças. Será essa a sombra luminosa de nossa alma?

A necessidade última

Filosofia do Riobaldo, filósofo de todas as horas: “Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. (…) é todos contra os acasos. (…) Deus existe mesmo quando não há. (…) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo”. Falou o sábio.

O cérebro

Fico sabendo que se contarmos as conexões neuronais de nosso cérebro, chegaríamos ao número 10 seguidos de um milhão de zeros. Precisaríamos de 32 milhões de anos para conferir cada uma delas. Cem bilhões de neurônios pulsam sem parar dentro de nossa cabeça, todos os dias. Um único neurônio, por sua vez, sustenta em média um milhão de bombas de sódio. Ao todo, são cem bilhões de trilhões de bombas de sódio pulsando. Quando lemos um texto simples como esse, cada neurônio troca informações com outros a uma taxa de duzentos milhões de operações por segundo. O cérebro é o inexplicável tentando se explicar. Será o cérebro o começo e o fim de tudo o que somos?

Rogério Gava

O Caminho do Meio

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Já se disse que toda virtude é um ápice entre dois vícios. Um cume entre dois vales. Espécie de média entre dois extremos. O respeito, por exemplo, é um bom termo entre a negligência e o medo exagerado. Um aluno diante de um teste: se ele der de ombros e achar que já sabe tudo, estará sendo negligente, e com certeza se dará mal. Mas se ficar petrificado diante do desafio, tremendo de medo de ser reprovado, possivelmente terá o mesmo destino. Encarando o exame com o respeito que a situação pede – o que pressupõe que se preparará com afinco –, com certeza terá maiores chances de sucesso.

Veja o caso da humildade: ela é o justo balanço entre a arrogância, de um lado, e a submissão, de outro. Ser humilde não é depreciar-se. Tampouco carecer de autoestima. E nem de longe deixar-se humilhar. A humildade é o ponto “ótimo” entre achar-se “o gás da Coca-Cola” e um “João Ninguém”. Ser humilde é sabermo-nos “filhos da terra”, do humus, donde justamente deriva o termo. Pó somos e ao pó voltaremos. Tudo o que a soberba – esse extremo equivocado – esquece.

A simplicidade é outro bom modelo do que estamos falando. Ser simples é estar equidistante da presunção e da ingenuidade. Aliás, é bom que se saiba: ser simples não significa ser “simplório”. A verdadeira simplicidade não pressupõe a tolice, ou a falta de sabedoria. O homem simples, ao contrário, é aquele que não se envaidece de sua própria inteligência, daquilo que julga saber. Ele reconhece que tudo o que sabe não é nada, diante do outro tanto que ignora. Simplicidade é essa leveza de espírito, a boa meia medida entre um ego esvaziado ou inflado demais.

Me parece que tudo na vida, ao final, pede o equilíbrio. Como se diz: nem tanto ao céu, nem tanto à terra. O prazer é um terreno fértil para testar esse princípio. Me diga o leitor com sinceridade: não é muito mais fácil abdicar totalmente de comer doces, do que provar o primeiro brigadeiro e parar por aí? Quem nunca fez regime que atire a primeira pedra. E já disse o poeta Fernando Pessoa: é mais fácil abdicar totalmente de um vício do que tentar moderá-lo.

O “caminho do meio” não é uma lógica nova. Buda já o ensinava. Conta a lenda que o mestre, tendo desmaiado de fome após severo jejum, e recuperado a consciência somente após comer uma tigela de mingau, teve uma iluminação. Ele percebeu então que os extremos – mesmo em causa nobre – nunca são a melhor pedida. A partir daí, passou a pregar aos discípulos as virtudes do meio-termo para o refinamento do espírito.

A essência do meio-termo repousa sobre o equilíbrio, essa difícil arte. Ler é bom; passar os dias lendo é alienação. Sexo é saudável; só pensar em sexo é perversão. Trabalhar para viver é necessário; viver para trabalhar é loucura. E por aí vai. Como ensinava Aristóteles – outro sábio que apreciava a ideia da justa medida –, a falta e o excesso são os dois grandes vilões de nossa felicidade. Dizia ele, por exemplo, que tanto a prática excessiva de exercícios, quanto seu inverso – a indolência do corpo –, eram prejudiciais (atualíssimo nosso bom filósofo, nestes tempos de “neurose fitness”).

Aristóteles, aliás, nos legou algo fundamental sobre toda essa questão: cada qual deve descobrir qual é o seu “meio-termo” particular. Ele nos ensina que o caminho do meio não é questão de pura matemática, assim como seis é a média aritmética entre dez e dois. É o que o mestre chamava de “meio-termo em relação a nós”. Haverá vezes em que nos inclinaremos mais para o excesso; noutras, para a falta. Cada um bem sabe onde lhe apera o sapato…

Acima de tudo, o meio-termo está aí para nos lembrar: se a escuridão nos impede de ver, a claridade excessiva nos cega. Nenhuma das situações é boa; pelo simples fato de serem exageros. O caminho do meio mostra que, entre o escuro e o claro, habitam muitas nuances. Basta procurá-las. E que cada um saiba alcançar a sua “justa medida”.

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O Caminho do Meio

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Já se disse que toda virtude é um ápice entre dois vícios. Um cume entre dois vales. Espécie de média entre dois extremos. O respeito, por exemplo, é um bom termo entre a negligência e o medo exagerado. Um aluno diante de um teste: se ele der de ombros e achar que já sabe tudo, estará sendo negligente, e com certeza se dará mal. Mas se ficar petrificado diante do desafio, tremendo de medo de ser reprovado, possivelmente terá o mesmo destino. Encarando o exame com o respeito que a situação pede – o que pressupõe que se preparará com afinco –, com certeza terá maiores chances de sucesso.

Veja o caso da humildade: ela é o justo balanço entre a arrogância, de um lado, e a submissão, de outro. Ser humilde não é depreciar-se. Tampouco carecer de autoestima. E nem de longe deixar-se humilhar. A humildade é o ponto “ótimo” entre achar-se “o gás da Coca-Cola” e um “João Ninguém”. Ser humilde é sabermo-nos “filhos da terra”, do humus, donde justamente deriva o termo. Pó somos e ao pó voltaremos. Tudo o que a soberba – esse extremo equivocado – esquece.

A simplicidade é outro bom modelo do que estamos falando. Ser simples é estar equidistante da presunção e da ingenuidade. Aliás, é bom que se saiba: ser simples não significa ser “simplório”. A verdadeira simplicidade não pressupõe a tolice, ou a falta de sabedoria. O homem simples, ao contrário, é aquele que não se envaidece de sua própria inteligência, daquilo que julga saber. Ele reconhece que tudo o que sabe não é nada, diante do outro tanto que ignora. Simplicidade é essa leveza de espírito, a boa meia medida entre um ego esvaziado ou inflado demais.

Me parece que tudo na vida, ao final, pede o equilíbrio. Como se diz: nem tanto ao céu, nem tanto à terra. O prazer é um terreno fértil para testar esse princípio. Me diga o leitor com sinceridade: não é muito mais fácil abdicar totalmente de comer doces, do que provar o primeiro brigadeiro e parar por aí? Quem nunca fez regime que atire a primeira pedra. E já disse o poeta Fernando Pessoa: é mais fácil abdicar totalmente de um vício do que tentar moderá-lo.

O “caminho do meio” não é uma lógica nova. Buda já o ensinava. Conta a lenda que o mestre, tendo desmaiado de fome após severo jejum, e recuperado a consciência somente após comer uma tigela de mingau, teve uma iluminação. Ele percebeu então que os extremos – mesmo em causa nobre – nunca são a melhor pedida. A partir daí, passou a pregar aos discípulos as virtudes do meio-termo para o refinamento do espírito.

A essência do meio-termo repousa sobre o equilíbrio, essa difícil arte. Ler é bom; passar os dias lendo é alienação. Sexo é saudável; só pensar em sexo é perversão. Trabalhar para viver é necessário; viver para trabalhar é loucura. E por aí vai. Como ensinava Aristóteles – outro sábio que apreciava a ideia da justa medida –, a falta e o excesso são os dois grandes vilões de nossa felicidade. Dizia ele, por exemplo, que tanto a prática excessiva de exercícios, quanto seu inverso – a indolência do corpo –, eram prejudiciais (atualíssimo nosso bom filósofo, nestes tempos de “neurose fitness”).

Aristóteles, aliás, nos legou algo fundamental sobre toda essa questão: cada qual deve descobrir qual é o seu “meio-termo” particular. Ele nos ensina que o caminho do meio não é questão de pura matemática, assim como seis é a média aritmética entre dez e dois. É o que o mestre chamava de “meio-termo em relação a nós”. Haverá vezes em que nos inclinaremos mais para o excesso; noutras, para a falta. Cada um bem sabe onde lhe apera o sapato…

Acima de tudo, o meio-termo está aí para nos lembrar: se a escuridão nos impede de ver, a claridade excessiva nos cega. Nenhuma das situações é boa; pelo simples fato de serem exageros. O caminho do meio mostra que, entre o escuro e o claro, habitam muitas nuances. Basta procurá-las. E que cada um saiba alcançar a sua “justa medida”.

 

A busca ilusória

“Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa, que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos”.

Vicente de Carvalho (1866-1924)

Poeta brasileiro

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Nunca corremos tanto atrás da felicidade. Ser feliz tornou-se obrigação. Ou pelo menos parecer que se é. Vivemos uma verdadeira “tirania da felicidade”. Isso significa que a felicidade nos é imposta, travestida nos mais diversos objetos, experiências e sensações.

As redes sociais amplificaram essa busca: viramos expectadores e protagonistas de um grande “teatro da felicidade compartilhada”. A felicidade alheia soa hoje como uma bofetada. No campeonato da felicidade total, quem não está feliz é rebaixado.

Essa verdadeira obsessão pela felicidade não tem sido satisfatória. Pelo contrário, ela está nos esmagando. As estatísticas mundiais de depressão (a incapacidade de sentir-se feliz) e do uso de drogas (a busca por uma felicidade artificial) – só para citar dois grandes males de nosso tempo – falam por si só. Adolescentes se mutilam e postam suas cicatrizes na internet. A intolerância virtual prolifera. Algo não está bem. A impressão é que nunca fomos tão infelizes. Por mais que nos esforcemos para não o ser.

A busca da felicidade se transformou em um grande paradoxo: quanto mais procuramos a felicidade, menos a encontramos. Isso ocorre pois nos vendem uma ideia insidiosa: a noção de que a felicidade deve ser caçada, garimpada como a um metal precioso. Essa é uma grande falácia, um engodo, mas que assumiu ares de grande verdade. Como se a felicidade morasse em algum lugar distante, esperando para ser encontrada. É a felicidade das férias, da próxima viagem, do Ano-Novo. Do corpo perfeito. Do emprego dos sonhos.

Temos que aprender que quanto mais buscamos a felicidade desse jeito, menor é a chance de sermos felizes. Embora essa afirmação cause estranheza, sua lógica é encantadoramente simples: correr atrás da felicidade faz acreditar que ela é um estado perene, permanente, um objetivo a ser alcançado. Mais do que isso: um direito que temos.

E algo que pode, sim, ser comprado. E aí nos projetamos como loucos na procura de uma vida feliz. A qual, como diz o poeta, pomos sempre lá onde não estamos.

Essa busca desenfreada pela felicidade esconde outro detalhe perverso: ela nos faz crer que existe um modelo único para uma vida feliz, a ser perseguido por todos de forma padronizada. Nada mais falso. A felicidade, como a nossa impressão digital, é única. Cada um tem a sua. A felicidade do prezado leitor e da estimada leitora é diferente da minha; que por sua vez é diferente da do meu vizinho. Não tem cópia ou imitação.

Prefiro pensar a felicidade como um subproduto de tudo o que fazemos. Nesse sentido, ela chega sempre sem fazer alarde, como que por acréscimo a um momento que estamos vivendo. Como disse o grande Guimarães Rosa, “a felicidade se acha em horinhas de descuido”. Um exemplo corriqueiro: você está junto à família, compartilhando boas gargalhadas em torno de uma comida saborosa: pronto, você está feliz. Note que você não está procurando a felicidade; é ela que surge. Bem falou o filósofo Alain: “a felicidade é uma recompensa que advém àqueles que não a procuram”.

Tal e qual a caricatura do idoso a procurar os óculos por toda a casa, apenas para encontrá-lo sobre o nariz, seguimos buscando a felicidade que se escancara a nossa frente. Procuramos o que já temos? O poeta francês Chamfort nos dá uma pista da resposta: “a felicidade não é coisa fácil: é muito difícil encontrá-la em nós e impossível encontrá-la em outro lugar”.

O culto da felicidade já provou ser um engano. A felicidade não é um dever. Tampouco um prêmio. A felicidade é o que ela é: um mistério; uma brisa que passa; uma gota de orvalho que tão logo nasce já se esvai. Nos resta vivê-la. E parar de procurá-la.

natureza

Sócrates e a Felicidade

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br  

Foi Sócrates (470-399 a.C.) o primeiro filósofo a se preocupar com a vida feliz. Você já ouviu falar dele: o criador da máxima “conhece-te a ti mesmo”. Há dúvidas, na verdade, se foi mesmo Sócrates quem cunhou o adágio, o qual orna a entrada do templo de Apolo, em Delfos; a tradição, no entanto, imputou ao filósofo a ideia. E assim ficou.

Sócrates era um sujeito muito hábil na arte de fazer perguntas. Deixava os interlocutores literalmente tontos com suas indagações em cascata, contraditórias, e que acabavam sempre por dinamitar as certezas defendidas. Era o famoso método socrático, também conhecido como “maiêutica” – de maîa, em grego, “parteira”. Sócrates dizia que, pelo questionamento, buscava “parir” a verdade que se encontrava presente em cada indivíduo; ele apenas ajudava essa verdade vir à luz.

Nosso bom filósofo era extremamente simples, de aparência quase mendicante. Costumava caminhar descalço pelas ruelas de Atenas, disposto a filosofar com qualquer pessoa. Era o filósofo da “praça pública”. Como Jesus, nada escreveu. Foi seu maior discípulo, Platão, quem nos legou os ensinamentos do mestre. No fim da vida, Sócrates foi acusado injustamente pelos governantes de Atenas de corromper a juventude e negar os deuses da cidade. Condenado a beber cicuta, abraçou a morte de forma corajosa e lúcida.

A verdade é que antes de Sócrates os filósofos nunca tinham se preocupado muito com a felicidade. Eles estavam mais interessados em assuntos relativos à natureza das coisas e dos seres. Os chamados “pré- socráticos” viviam fazendo perguntas sobre a origem de todas as coisas, de que era feito o mundo, ou qual era a essência do conhecimento humano.

Sócrates achava aquilo tudo uma perda de tempo. De que adiantava saber qual o tamanho da Terra, ou se o universo era infinito, se o homem não sabia conduzir a própria vida? O que importava, pois, era ajudar as pessoas a saberem o que era bom, justo, enfim, como se deveria viver.

E o que Sócrates ensinava a respeito da felicidade? Ele dizia que ela era alcançada pelo autoconhecimento. Faz sentido: afinal, conhecer-se a si mesmo é refletir sobre quem somos, o que queremos de nossa vida, enfim, o que devemos fazer para ser felizes. Para Sócrates, a ignorância era a principal causa de infelicidade, pois levava ao erro e a uma concepção equivocada da existência.

Mais do que olhar para o próprio umbigo, o autoconhecimento socrático lembra que a felicidade é irmã da sabedoria: se quisermos ser felizes, é preciso que olhemos, antes de tudo, para dentro de nós. O homem feliz é aquele que reflete incansavelmente e sem mentiras sobre si próprio. E não aquele que sai em busca da satisfação de todos os desejos. Reza a lenda, aliás, que Sócrates gostava de contemplar os badulaques vendidos pelos comerciantes de Atenas, só para, como dizia, “ver tudo o quanto não precisava para ser feliz”.

Para Sócrates, o autoconhecimento levava à virtude. “O homem que se conhece saberá como agir, trilhando o caminho correto” – dizia, e arrematava: “quanto mais virtuoso, maior será a chance de que seja feliz, porque fará bem a si e também aos outros”. Ou seja, será mais feliz e ainda ajudará os demais a sê-lo. Depois de Sócrates e para toda a filosofia clássica, a felicidade e a virtude andariam sempre de mãos dadas. Os gregos achavam verdadeira loucura a ideia de um “canalha feliz”. Para eles, era impossível ser “mau” e feliz ao mesmo tempo. Felicidade era sinônimo de bondade.

Esse foi o legado de Sócrates a respeito da felicidade: feliz é aquele que olha para dentro de si. Uma mensagem atual e importante, neste mundo onde o diálogo, consigo mesmo e com os outros, é cada vez mais complicado. Há mais de vinte e cinco séculos, Sócrates continua a nos lembrar: a verdadeira felicidade mora dentro de nós.

socrates

A Provação de Jó

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

A Bíblia conta a história de Jó, que vivia na terra de Uz. Honrado e justo, ele tinha sete filhos e três filhas. Havia construído patrimônio invejável: era dono de um rebanho com mais de dez mil animais, entre ovelhas, camelos e bois. Possuía numerosos servos. Enfim, era o “Bill Gates” da época.

Eis que Satanás, anjo caído e estraga-prazeres de carteirinha, insinua a Deus que Jó só é bom por que a vida lhe sorrira. Afinal, ele era rico e afortunado, nada lhe faltava. Seria de esperar que respeitasse o Senhor. Mas era só lançar a desgraça sobre a vida de Jó – insinuava o diabo – e ele iria amaldiçoar o Todo-poderoso. Para o demônio, Jó não passava de um interesseiro, um mercenário da fé.

Deus – que confiava muito na fidelidade de Jó –, autoriza o Satã a semear a adversidade na vida daquele homem. O “demo”, especialista no assunto, capricha na maldade: primeiro, Jó perde todas as posses; depois, os filhos dele morrem; por fim, ele é acometido por feridas purulentas na pele que o desfiguram. Apesar de toda essa infelicidade e desgraça, Jó permanece fiel a Deus e apenas repete: “Deus deu, Deus tirou”.

Diante de tamanho infortúnio, a esposa de Jó o incita a renegar o Senhor, mas Jó permanece firme em sua fé. Depois, três amigos visitam Jó com o intuito de confortá-lo, mas na verdade querem o fazer confessar que pecou; para eles, só isso explicaria a ira de Deus, que sempre pune os maus e premia os bons. Mas Jó, sem se abalar, afirma que nada fez de perverso e não blasfema. Um quarto personagem, de nome Elihu, se junta ao coro; hostil, ele acusa Jó de se considerar mais virtuoso que o próprio Deus. Ao que Jó, responde de forma resignada: “recebemos o bem das mãos de Deus; por que não receberíamos o mal?”.

Jó, finalmente, extenuado por tanto sofrimento, abre a boca e amaldiçoa o dia do próprio nascimento. Ele exprime sua revolta contra a injustiça do mundo, que se abate contra bons e maus. Nosso protagonista está desnorteado: a vida lhe parece sem sentido, um redemoinho absurdo que escoa para a morte, no qual todos têm o mesmo destino. Em nenhum momento, porém, vemos Jó protestar contra as intenções de Deus.

No entanto, em seu íntimo, Jó não se conforma: quer interrogar o Senhor para entender por que está naquela situação. Afinal, ele não tinha culpa alguma. Era honesto e temente a Deus. Por que estava sendo punido? “Que sentido há na vida, se os bons sofrem e os maus prosperam?” – ele se pergunta. Afinal, que espécie de justiça de Deus era essa? Jó, o leitor já percebeu, queria nada menos do que colocar o Criador no banco dos réus.

Então Deus aparece a Jó em meio a uma tempestade de vento. A voz tonitruante do Todo- poderoso rebomba nos céus. Mas não fornece nenhuma explicação a Jó. Ao contrário, Lhe chama a atenção para a soberba dele em querer interrogar o Criador: “Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?”, pergunta o Senhor. Jó, que não era bobo, entende o recado: quem era ele para cobrar de Deus qualquer explicação? O Criador – Jó aprendeu naquele dia – não aceita reclamações. Afinal, somente Ele tem a chave do mistério. Quem somos nós para julgar seus desígnios?

Deus, no entanto, não aparece a Jó apenas para dar-lhe uma lição. Sabedor da fé daquele homem – inabalável mesmo em meio aos piores sofrimentos –, restaura a vida dele com acréscimo: multiplica seus bens e lhe dá o dobro de filhos perdidos. Jó, então, vive por mais cento e quarenta anos, rodeado de filhos, netos e bisnetos. Morreu feliz, na graça do Senhor.

 

* * *

 

Não sabemos quem escreveu a história de Jó, tampouco quem foi ele ou quando exatamente viveu. Isso não tira, no entanto, o brilho de seu significado. Vinte e cinco séculos depois de ter sido escrito, o Livro de Jó continua sendo uma das narrativas mais reveladoras do Antigo Testamento.

A história de Jó é uma lição de felicidade. Ela nos ensina a importância em termos um propósito, um significado maior na existência. Mesmo que o mundo, injusto como ele só, teime em nos provar que esse significado não exista. O mundo de Jó, aliás, não é tão diferente do nosso: mais de dois mil anos depois, seguimos assistindo o mal, tantas vezes, sobrepujar o bem. Hoje e nos tempos bíblicos, canalhas prosperam e bons sofrem.

Jó, no entanto, nos lembra que é nosso dever exigir um mundo melhor, mais sábio e correto. Que a vida, esse vale de lágrimas, também pode ser um bosque de encantamento. Jó, na verdade, é todos nós: seres errantes em busca de Luz.

O hino à sabedoria de Jó, afinal, nos grita que a vida, apesar de todos os pesares, vale a pena. E que a felicidade, longe de ser uma quimera, é a busca de significado em um mundo tantas vezes injusto e sem sentido.

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