A busca ilusória

“Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa, que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos”.

Vicente de Carvalho (1866-1924)

Poeta brasileiro

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Nunca corremos tanto atrás da felicidade. Ser feliz tornou-se obrigação. Ou pelo menos parecer que se é. Vivemos uma verdadeira “tirania da felicidade”. Isso significa que a felicidade nos é imposta, travestida nos mais diversos objetos, experiências e sensações.

As redes sociais amplificaram essa busca: viramos expectadores e protagonistas de um grande “teatro da felicidade compartilhada”. A felicidade alheia soa hoje como uma bofetada. No campeonato da felicidade total, quem não está feliz é rebaixado.

Essa verdadeira obsessão pela felicidade não tem sido satisfatória. Pelo contrário, ela está nos esmagando. As estatísticas mundiais de depressão (a incapacidade de sentir-se feliz) e do uso de drogas (a busca por uma felicidade artificial) – só para citar dois grandes males de nosso tempo – falam por si só. Adolescentes se mutilam e postam suas cicatrizes na internet. A intolerância virtual prolifera. Algo não está bem. A impressão é que nunca fomos tão infelizes. Por mais que nos esforcemos para não o ser.

A busca da felicidade se transformou em um grande paradoxo: quanto mais procuramos a felicidade, menos a encontramos. Isso ocorre pois nos vendem uma ideia insidiosa: a noção de que a felicidade deve ser caçada, garimpada como a um metal precioso. Essa é uma grande falácia, um engodo, mas que assumiu ares de grande verdade. Como se a felicidade morasse em algum lugar distante, esperando para ser encontrada. É a felicidade das férias, da próxima viagem, do Ano-Novo. Do corpo perfeito. Do emprego dos sonhos.

Temos que aprender que quanto mais buscamos a felicidade desse jeito, menor é a chance de sermos felizes. Embora essa afirmação cause estranheza, sua lógica é encantadoramente simples: correr atrás da felicidade faz acreditar que ela é um estado perene, permanente, um objetivo a ser alcançado. Mais do que isso: um direito que temos.

E algo que pode, sim, ser comprado. E aí nos projetamos como loucos na procura de uma vida feliz. A qual, como diz o poeta, pomos sempre lá onde não estamos.

Essa busca desenfreada pela felicidade esconde outro detalhe perverso: ela nos faz crer que existe um modelo único para uma vida feliz, a ser perseguido por todos de forma padronizada. Nada mais falso. A felicidade, como a nossa impressão digital, é única. Cada um tem a sua. A felicidade do prezado leitor e da estimada leitora é diferente da minha; que por sua vez é diferente da do meu vizinho. Não tem cópia ou imitação.

Prefiro pensar a felicidade como um subproduto de tudo o que fazemos. Nesse sentido, ela chega sempre sem fazer alarde, como que por acréscimo a um momento que estamos vivendo. Como disse o grande Guimarães Rosa, “a felicidade se acha em horinhas de descuido”. Um exemplo corriqueiro: você está junto à família, compartilhando boas gargalhadas em torno de uma comida saborosa: pronto, você está feliz. Note que você não está procurando a felicidade; é ela que surge. Bem falou o filósofo Alain: “a felicidade é uma recompensa que advém àqueles que não a procuram”.

Tal e qual a caricatura do idoso a procurar os óculos por toda a casa, apenas para encontrá-lo sobre o nariz, seguimos buscando a felicidade que se escancara a nossa frente. Procuramos o que já temos? O poeta francês Chamfort nos dá uma pista da resposta: “a felicidade não é coisa fácil: é muito difícil encontrá-la em nós e impossível encontrá-la em outro lugar”.

O culto da felicidade já provou ser um engano. A felicidade não é um dever. Tampouco um prêmio. A felicidade é o que ela é: um mistério; uma brisa que passa; uma gota de orvalho que tão logo nasce já se esvai. Nos resta vivê-la. E parar de procurá-la.

natureza

Sócrates e a Felicidade

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br  

Foi Sócrates (470-399 a.C.) o primeiro filósofo a se preocupar com a vida feliz. Você já ouviu falar dele: o criador da máxima “conhece-te a ti mesmo”. Há dúvidas, na verdade, se foi mesmo Sócrates quem cunhou o adágio, o qual orna a entrada do templo de Apolo, em Delfos; a tradição, no entanto, imputou ao filósofo a ideia. E assim ficou.

Sócrates era um sujeito muito hábil na arte de fazer perguntas. Deixava os interlocutores literalmente tontos com suas indagações em cascata, contraditórias, e que acabavam sempre por dinamitar as certezas defendidas. Era o famoso método socrático, também conhecido como “maiêutica” – de maîa, em grego, “parteira”. Sócrates dizia que, pelo questionamento, buscava “parir” a verdade que se encontrava presente em cada indivíduo; ele apenas ajudava essa verdade vir à luz.

Nosso bom filósofo era extremamente simples, de aparência quase mendicante. Costumava caminhar descalço pelas ruelas de Atenas, disposto a filosofar com qualquer pessoa. Era o filósofo da “praça pública”. Como Jesus, nada escreveu. Foi seu maior discípulo, Platão, quem nos legou os ensinamentos do mestre. No fim da vida, Sócrates foi acusado injustamente pelos governantes de Atenas de corromper a juventude e negar os deuses da cidade. Condenado a beber cicuta, abraçou a morte de forma corajosa e lúcida.

A verdade é que antes de Sócrates os filósofos nunca tinham se preocupado muito com a felicidade. Eles estavam mais interessados em assuntos relativos à natureza das coisas e dos seres. Os chamados “pré- socráticos” viviam fazendo perguntas sobre a origem de todas as coisas, de que era feito o mundo, ou qual era a essência do conhecimento humano.

Sócrates achava aquilo tudo uma perda de tempo. De que adiantava saber qual o tamanho da Terra, ou se o universo era infinito, se o homem não sabia conduzir a própria vida? O que importava, pois, era ajudar as pessoas a saberem o que era bom, justo, enfim, como se deveria viver.

E o que Sócrates ensinava a respeito da felicidade? Ele dizia que ela era alcançada pelo autoconhecimento. Faz sentido: afinal, conhecer-se a si mesmo é refletir sobre quem somos, o que queremos de nossa vida, enfim, o que devemos fazer para ser felizes. Para Sócrates, a ignorância era a principal causa de infelicidade, pois levava ao erro e a uma concepção equivocada da existência.

Mais do que olhar para o próprio umbigo, o autoconhecimento socrático lembra que a felicidade é irmã da sabedoria: se quisermos ser felizes, é preciso que olhemos, antes de tudo, para dentro de nós. O homem feliz é aquele que reflete incansavelmente e sem mentiras sobre si próprio. E não aquele que sai em busca da satisfação de todos os desejos. Reza a lenda, aliás, que Sócrates gostava de contemplar os badulaques vendidos pelos comerciantes de Atenas, só para, como dizia, “ver tudo o quanto não precisava para ser feliz”.

Para Sócrates, o autoconhecimento levava à virtude. “O homem que se conhece saberá como agir, trilhando o caminho correto” – dizia, e arrematava: “quanto mais virtuoso, maior será a chance de que seja feliz, porque fará bem a si e também aos outros”. Ou seja, será mais feliz e ainda ajudará os demais a sê-lo. Depois de Sócrates e para toda a filosofia clássica, a felicidade e a virtude andariam sempre de mãos dadas. Os gregos achavam verdadeira loucura a ideia de um “canalha feliz”. Para eles, era impossível ser “mau” e feliz ao mesmo tempo. Felicidade era sinônimo de bondade.

Esse foi o legado de Sócrates a respeito da felicidade: feliz é aquele que olha para dentro de si. Uma mensagem atual e importante, neste mundo onde o diálogo, consigo mesmo e com os outros, é cada vez mais complicado. Há mais de vinte e cinco séculos, Sócrates continua a nos lembrar: a verdadeira felicidade mora dentro de nós.

socrates

A Provação de Jó

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

A Bíblia conta a história de Jó, que vivia na terra de Uz. Honrado e justo, ele tinha sete filhos e três filhas. Havia construído patrimônio invejável: era dono de um rebanho com mais de dez mil animais, entre ovelhas, camelos e bois. Possuía numerosos servos. Enfim, era o “Bill Gates” da época.

Eis que Satanás, anjo caído e estraga-prazeres de carteirinha, insinua a Deus que Jó só é bom por que a vida lhe sorrira. Afinal, ele era rico e afortunado, nada lhe faltava. Seria de esperar que respeitasse o Senhor. Mas era só lançar a desgraça sobre a vida de Jó – insinuava o diabo – e ele iria amaldiçoar o Todo-poderoso. Para o demônio, Jó não passava de um interesseiro, um mercenário da fé.

Deus – que confiava muito na fidelidade de Jó –, autoriza o Satã a semear a adversidade na vida daquele homem. O “demo”, especialista no assunto, capricha na maldade: primeiro, Jó perde todas as posses; depois, os filhos dele morrem; por fim, ele é acometido por feridas purulentas na pele que o desfiguram. Apesar de toda essa infelicidade e desgraça, Jó permanece fiel a Deus e apenas repete: “Deus deu, Deus tirou”.

Diante de tamanho infortúnio, a esposa de Jó o incita a renegar o Senhor, mas Jó permanece firme em sua fé. Depois, três amigos visitam Jó com o intuito de confortá-lo, mas na verdade querem o fazer confessar que pecou; para eles, só isso explicaria a ira de Deus, que sempre pune os maus e premia os bons. Mas Jó, sem se abalar, afirma que nada fez de perverso e não blasfema. Um quarto personagem, de nome Elihu, se junta ao coro; hostil, ele acusa Jó de se considerar mais virtuoso que o próprio Deus. Ao que Jó, responde de forma resignada: “recebemos o bem das mãos de Deus; por que não receberíamos o mal?”.

Jó, finalmente, extenuado por tanto sofrimento, abre a boca e amaldiçoa o dia do próprio nascimento. Ele exprime sua revolta contra a injustiça do mundo, que se abate contra bons e maus. Nosso protagonista está desnorteado: a vida lhe parece sem sentido, um redemoinho absurdo que escoa para a morte, no qual todos têm o mesmo destino. Em nenhum momento, porém, vemos Jó protestar contra as intenções de Deus.

No entanto, em seu íntimo, Jó não se conforma: quer interrogar o Senhor para entender por que está naquela situação. Afinal, ele não tinha culpa alguma. Era honesto e temente a Deus. Por que estava sendo punido? “Que sentido há na vida, se os bons sofrem e os maus prosperam?” – ele se pergunta. Afinal, que espécie de justiça de Deus era essa? Jó, o leitor já percebeu, queria nada menos do que colocar o Criador no banco dos réus.

Então Deus aparece a Jó em meio a uma tempestade de vento. A voz tonitruante do Todo- poderoso rebomba nos céus. Mas não fornece nenhuma explicação a Jó. Ao contrário, Lhe chama a atenção para a soberba dele em querer interrogar o Criador: “Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?”, pergunta o Senhor. Jó, que não era bobo, entende o recado: quem era ele para cobrar de Deus qualquer explicação? O Criador – Jó aprendeu naquele dia – não aceita reclamações. Afinal, somente Ele tem a chave do mistério. Quem somos nós para julgar seus desígnios?

Deus, no entanto, não aparece a Jó apenas para dar-lhe uma lição. Sabedor da fé daquele homem – inabalável mesmo em meio aos piores sofrimentos –, restaura a vida dele com acréscimo: multiplica seus bens e lhe dá o dobro de filhos perdidos. Jó, então, vive por mais cento e quarenta anos, rodeado de filhos, netos e bisnetos. Morreu feliz, na graça do Senhor.

 

* * *

 

Não sabemos quem escreveu a história de Jó, tampouco quem foi ele ou quando exatamente viveu. Isso não tira, no entanto, o brilho de seu significado. Vinte e cinco séculos depois de ter sido escrito, o Livro de Jó continua sendo uma das narrativas mais reveladoras do Antigo Testamento.

A história de Jó é uma lição de felicidade. Ela nos ensina a importância em termos um propósito, um significado maior na existência. Mesmo que o mundo, injusto como ele só, teime em nos provar que esse significado não exista. O mundo de Jó, aliás, não é tão diferente do nosso: mais de dois mil anos depois, seguimos assistindo o mal, tantas vezes, sobrepujar o bem. Hoje e nos tempos bíblicos, canalhas prosperam e bons sofrem.

Jó, no entanto, nos lembra que é nosso dever exigir um mundo melhor, mais sábio e correto. Que a vida, esse vale de lágrimas, também pode ser um bosque de encantamento. Jó, na verdade, é todos nós: seres errantes em busca de Luz.

O hino à sabedoria de Jó, afinal, nos grita que a vida, apesar de todos os pesares, vale a pena. E que a felicidade, longe de ser uma quimera, é a busca de significado em um mundo tantas vezes injusto e sem sentido.

A-fé-de-Jó-em-Deus-

Coisa boa, coisa ruim… quem sabe?

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br

Numa antiga aldeia vivia um velho camponês. Ele possuía o cavalo mais bonito do lugar. Todos os vizinhos o consideravam o homem mais feliz do povoado por ter um animal como aquele. Certo dia, ao amanhecer, o camponês foi alimentar o cavalo e descobre que esse havia fugido. Ao invés de cair em consternação, o bom homem suspirou por um instante e então seguiu em suas tarefas diárias.

Tão logo souberam da fuga, os moradores foram à casa do camponês para consolá-lo. O encontraram cuidando da horta. “Meu bom amigo, você deve estar muito triste”, comentou um deles, “perder um cavalo como aquele… que lástima!”. Ao que o camponês apenas respondeu: “coisa boa, coisa ruim… quem sabe?”. Todos ficaram se entreolhando, sem entender ao certo o que significavam aquelas palavras. E o camponês seguiu a capinar.

No dia seguinte, inesperadamente, eis que o cavalo está de volta. E não só isso: trazendo uma égua selvagem com ele. Do outro lado da cerca um vizinho presencia a cena, e a notícia se espalha pelo lugarejo. Era um milagre: o cavalo não só havia voltado, mas tinha trazido consigo uma égua jovem e muito bonita.

Novamente a casa do camponês se encontra repleta de gente. “Você tem muita sorte meu amigo, o cavalo voltar desse jeito! E ainda trazer uma égua! Que felicidade em dobro!”. Ao que o camponês, sem pestanejar, responde calmamente: “coisa boa, coisa ruim… quem sabe?”. Novamente aquelas palavras enigmáticas não encontraram quem as compreendesse.

Ao entardecer daquele mesmo dia, o filho do camponês resolve domar a égua selvagem, mas leva um tombo e quebra uma perna. Nova romaria à casa do camponês. “Meu Deus, que azar”, diz uma mulher. “Sim, se o cavalo não tivesse voltado isso não teria acontecido”, retruca outro. Só para ouvirem o camponês repetir o de sempre: “coisa boa,
coisa ruim… quem sabe?”.

Passaram-se alguns dias. Eis que a região onde ficava a aldeia declara guerra a um reino vizinho. Oficiais do exército visitam o povoado para recrutar soldados. O filho do camponês, enfermo, não foi alistado. Novamente os moradores ecoam em uníssono: “mas que felicidade! Se o filho não tivesse quebrado a perna, ele teria ido morrer na guerra! O
bom Deus gosta mesmo de nosso amigo!”

O camponês, sereno, ouvindo aquilo tudo, apenas responde: “coisa boa, coisa ruim… quem sabe?”. Os vizinhos, ainda sem nada entender, tomam seu rumo. E tudo segue como sempre fora.

Moral da história
Nesta vida incerta nada sabemos. O azar pode ser uma sorte; a sorte poderá ser um azar. Infortúnios, muitas vezes, se revelam bênçãos. Sucessos se transformam em fracasso. O velho camponês entendia de felicidade. Aprendera o que muitas vezes esquecemos: nossa passagem pela Terra é feita de coisas boas e outras nem tanto, e a ninguém é
revelado o fim da jornada. Resta-nos, assim, nunca perder a esperança e a alegria de viver. Mesmo porque, se será coisa boa, ou coisa ruim… quem há de saber?

trevo de quatro folhas - Cópia

O Homem Mais Feliz do Mundo

O Homem Mais Feliz do Mundo

Por Rogério Gava 

A narrativa nos foi legada pelo historiador grego Heródoto. Conta ele que no século V antes de Cristo, existia um reino muito poderoso chamado Lídia, localizado na Ásia Menor (onde hoje é a Turquia). Lá, aos trinta e cinco anos de idade, subiu ao trono o rei Creso. Ele era um bom monarca; um tanto esnobe demais, é verdade, mas o povo de Lídia não tinha do que se queixar.

Eis que certo dia chega à Sárdis, capital do reino, um viajante vindo de Atenas, de nome Sólon. Homem muito sábio, logo despertou a vaidade de Creso, que ordenou fosse ao visitante, mostrada toda a opulência do reino. Creso, você já entendeu, queria se exibir.

Após o tour por riquezas extraordinárias, que incluiu até piscinas gigantescas transbordantes de pedras preciosas, Sólon foi levado à presença do rei. Creso o aguardava em seu modelito básico: um manto cravejado de diamantes e bordado em ouro.

“E então, caro Sólon” – disse Creso – “agora que viste as maravilhas de meu reino, me responda: quem é o homem mais feliz do mundo?”.

Sólon, que não se deixara impressionar por toda aquela fenomenal fortuna, responde: “É Telos de Atenas, majestade”.

Creso ficou estarrecido. Perguntou então a Sólon quem era aquele tal de Telos, de quem nunca tinha ouvido falar. Como ele poderia ser o homem mais feliz do mundo?

Sólon então explica o porquê da escolha: “Telos era morador de Atenas, nem pobre, nem rico, com uma família numerosa e bela. Morreu de forma nobre, defendendo a cidade que amava. Até hoje é lembrado com láureas”.

Creso não entendeu muito bem o que Sólon estava querendo dizer. “Como um homem que já morreu pode ser o mais feliz do mundo?”, pensou ele. Creso, então, não satisfeito, perguntou a Sólon quem viria logo após Telos no ranking de felicidade. Afinal, o segundo lugar até que não estaria tão mal.

A resposta de Sólon traz nova decepção: “Cleóbis e Bíton” – diz ele –, “dois irmãos de uma nobre família de Argos, honestos e grandes guerreiros. São verdadeiros heróis nacionais. Morreram de total fadiga, após percorrerem quarenta e cinco estádios puxando a carroça que levava a própria mãe doente ao templo”.

Creso, vendo que nem a medalha de prata da felicidade lhe fora reservada por Sólon, se enfurece de vez e vocifera com o visitante: “E eu, serei menos do que esse Telos e dos dois irmãos heróis? Além disso, estão todos mortos! Por acaso não viste toda a minha riqueza? Eu, o grande rei, vivo e afortunado?”.

Ao que Sólon argumenta: “Prezado rei, vossa majestade realmente é um homem muito poderoso e rico, além de admirado por seus súditos. No entanto, quem garante como estarás amanhã? Veja, só posso dizer se um homem é feliz quando sua vida se esgota, para que saibamos se ele morreu na felicidade ou na desgraça”.

Creso seguiu sem compreender. Ao contrário, ficou ainda mais bravo com Sólon. Assim, ordenou aos soldados que o mandassem embora de mãos vazias, sem nenhum dos presentes que a ele tinha reservado. Creso não admitia que alguém não o considerasse o homem mais feliz do mundo.

O tempo passou. Dois anos depois, Creso começou a se incomodar como os vizinhos Persas (atual Irã), que estavam ampliando o território de forma ameaçadora, sob o comando do rei Ciro. Creso, que não era de levar desaforo para casa, declara então guerra ao reino inimigo. Durante doze dias e doze noites os soldados dos dois lados guerreiam de forma cruel. Ao final, o exército da Lídia é derrotado e o rei condenado à morte.

O fim de Creso estava próximo. Já em seu suplício, ao alto da fogueira e contemplando a própria ruína, ele então começa a gritar: “Sólon, Sólon, Sólon!” Ciro, ouvindo aquilo, chama os intérpretes para interrogar Creso. Quem era esse Sólon que Creso tão fortemente evocava? Creso conta então toda a história sobre o aviso de Sólon a respeito da felicidade.

Ciro, emocionado, perdoa Creso, e ordena que o tirem do fogo. Esse, porém, já está em altas chamas, que em vão os soldados tentam apagar. Com as labaredas lhe alcançando os pés, Creso, em desespero, ergue as mãos para o céu e suplica ao deus Apolo: “senhor dos oráculos, me salve deste fim terrível!”

Creso ainda bradava quando irrompeu uma chuva diluviana sobre o local, apagando de vez o fogo. Ciro, impressionado com a história de Creso, o nomeia conselheiro do rei. Creso, a partir daí, se torna um homem sábio e ponderado. E muito mais humilde. Ele aprendera a lição de Sólon: a felicidade é sempre frágil e provisória, e a nenhum homem – nem mesmo ao mais rico de todos – cabe saber até quando será feliz.

 

Pequeno ABC Filosófico-Sentimental

Por Rogério Gava

Acampamento
A vida é um acampamento
provisório em terra desconhecida.
E nunca sabemos quando será
hora de desarmar as barracas.

Águas do absurdo
Perdendo-se o sentido,
afunda-se.

Ambiguidade
A vida é dúvida com uma certeza:
a vida termina.
A vida é certeza com uma dúvida:
a vida termina?

Algazarra na biblioteca
Da prateleira, meus livros,
silenciosos, falam sem parar

Amor …
é a primeira e única graça.

Antes de tudo
Será a morte o antes de nascer?

As aparências enganam
Ninguém é tão feliz quanto aparenta ser.

Cai o pano
Descobrir a si é descobrir-se;
ficar sem o cobertor macio da ilusão.

Canto da inquietação
Quieto no meu canto, decanto a alma.
E canto a vida.

De profundis
Para mim está resolvido: o Mistério é profundidade.
E só isso.

Diversidade
Por que o outro é semelhante se ele é tão diferente?

Dormir
Será o sono amostra grátis da morte?

Dúvida atroz
Nada sei sobre o pouco que sei.

Esperança
Há algo mais sublime do que adormecer acreditando na alvorada?

Liberdade
Só é verdadeiramente livre quem não inveja, sinceramente, aquilo de que não precisa.

Menos…
Elogios são bacanas; desde que neles não acreditemos.

Metamorfoses
Não me reconheço nos muitos que fui.

Minuto final
Na profundidade do instante me dissolverei.

Pegadas
Se quem fui tivesse deixado pegadas,
iria eu procurar quem já não sou mais?

Persona
Perceber o teatro do mundo
é a grande e maior revelação.

Poesia…
…é tudo o que rompe com a espessura do cotidiano.

Redes sociais
Nunca, em nenhum tempo da história, a solidão foi tão compartilhada.

Rir e chorar
Feliz ou triste, lágrima é sempre benção do céu.

Saturno…
… é um planeta brincando de bambolê.

Ser feliz…
…é acreditar-se não infeliz. Ser infeliz é acreditar-se não feliz.

Sopa de letrinhas
Com tão poucas letras tudo o que é palavra se faz.

Tempo verbal
Viver só se conjuga no presente.

Trabalho…
…é meio, nunca fim. Não se pode apaixonar pelo martelo.

Travessia
O que importa não é chegar; é ir.

Vida
Sequência finita, aleatória e indeterminada de agoras sem retorno.

Vil metal
A maior vantagem em ter dinheiro é não ter de pensar nele.

Viver…
… é catar morangos à beira do precipício.

Vi-ver
Não basta ver: o que importa é como vemos. E vivemos.

O Neandertal que vive em nós

rogeriogava

Por Rogério Gava

Sou fascinado pela história do Homem de Neandertal. Tenho até, em minha biblioteca, uma réplica perfeita de um crânio dessa espécie (o senhor aí da foto). Representa um homem adulto, que viveu cerca de cinquenta mil anos antes de Cristo. Faz parte do esqueleto mais completo de Neandertal até hoje conhecido, encontrado na França em 1909. Olhar para esse fóssil é como mergulhar nos confins do tempo. Me faz lembrar do tipo atarracado e baixinho, ruivo, extremamente forte, nariz de batata e enormes arcadas sobre os olhos, que habitou a Terra por quatrocentos mil anos. Me faz lembrar, na verdade, de nosso irmão! Sim, isso mesmo estimada leitora e caro leitor: os Neandertais e os primeiros Sapiens descendem ambos de um ancestral comum, nosso verdadeiro “pai” genético, que lá pelas tantas cansou do continente africano e resolveu dar uma voltinha pela Europa.

Os Neandertais eram filhos do frio, de tal sorte que conseguiram sobreviver durante centenas de milhares de anos na implacável Era Glacial. Eram extremamente resistentes e conseguiam conviver com as sequelas de uma vida duríssima. Muitos fósseis neandertais mostram diversas fraturas e ferimentos graves. Como o de um indivíduo que fraturou o cotovelo esquerdo na adolescência, e cuja cicatrização lhe impediu de esticar o membro pelo resto da vida. Outro, trazia implicações de artrose nos joelhos e nos tornozelos, além de fraturas nos dedões do pé. Também, não era para menos: sabe lá o que era abater um mamute à unha? Ou enfrentar uma fratura exposta em plena Idade da Pedra?

Por um bom tempo a imagem de nosso irmão extinto foi a de um troglodita com uma clava na mão, bruto e estúpido. Nada mais falso. Os Neandertais possuíam uma organização social rica e complexa. Cozinhavam alimentos, produziam ferramentas, conheciam o poder medicinal de muitas plantas, pintavam as cavernas e utilizavam adereços pessoais, como colares. Mães Neandertais amamentavam seus bebês até cerca dos dois anos de idade. Tomavam conta da prole com zelo e carinho.

Gava - Neandertal 1

Neandertais também cuidavam de seus doentes. Sabemos disso pelos ossos de indivíduos deficientes encontrados, os quais apresentam graves sequelas: uma boca totalmente sem dentes, desgaste na bacia, cegueira, atrofia ou amputação de algum membro. Impossível alguém sobreviver dessa forma, nas duras condições de então, sem o amparo dos outros membros do clã. Um exemplo de solidariedade muito antes da civilização florescer. E um detalhe muito importante: Neandertais também enterravam seus mortos, mostrando uma atitude sofisticada em relação ao fim e talvez, à crença em uma outra vida. Só não sabemos ao certo até que ponto os Neandertais desenvolveram algum tipo de linguagem. Ao que tudo indica, porém, eles se comunicavam de forma bastante eficiente.

Até fisicamente os Neandertais não eram lá tão diferentes de nós. Se um deles desembarcasse de uma máquina do tempo, vestisse um blazer e fosse passear pela cidade, com certeza iria passar desapercebido em meio à multidão. Na Alemanha (onde o primeiro fóssil batizado como da espécie homo neanderthalensis foi encontrado, em 1856, no vale de Neander – daí o nome Neandertal), há um exemplo desses no museu dedicado à espécie. Um Neandertal de camisa social e terno, com os cabelos alinhados e barba feita, na maior beca. Parece até o George Clooney.

Penso que nosso irmão se daria muito bem por aqui, em nossas plagas gaúchas. É que os Neandertais adoravam um churrasquinho. Era abater um colossal mamute ou bisão, para todo o clã se empanturrar por vários dias. Também pudera: para sustentar o corpanzil diante das duras temperaturas um Neandertal tinha que ingerir muita proteína. Assim, um macho precisava comer, por dia, cerca de quatro quilos e meio de carne. Algo assim como uns dois espetos inteiros de picanha. E dos grandes! No cardápio neandertal entravam ainda tartarugas, peixes, caracóis, rãs, pássaros, pequenos roedores, até mesmo insetos; todo animal que atravessava em frente a um Neandertal tinha vida curta: ia logo parar no braseiro. Olha, hipercarnívoro como era e acostumado a uma geada brava, estou para dizer que até uma bombacha o Neandertal toparia usar.

A vida muda, no entanto, quando a vizinhança muda. A chegada dos Sapiens ao continente europeu, foi, aos poucos, tirando o lugar dos Neandertais e empurrando-os para as montanhas, onde tinham menos chance de sobrevivência. Populações cada vez menores foram escasseando a reprodução. O fim se aproximava. Os últimos fósseis neandertais conhecidos foram encontrados em uma caverna, junto ao Estreito de Gibraltar. Pelo o que se sabe, o derradeiro Neandertal caminhou pela Terra há cerca de trinta mil anos.

O crepúsculo dos Neandertais segue envolto em uma nuvem de mistério. O processo de extinção dessa espécie deixou vestígios muito escassos. Mas existem hipóteses bastante plausíveis. Quase todas elas ligadas ao aparecimento do rival Sapiens, mais inovador e adaptável, e, se supõe, desenvolvido culturalmente. Mesmo que menos dotado do ponto de vista físico. A verdade é que nossos ancestrais diretos mudaram a vida neandertal para sempre. E sem retorno. Da mesma forma como os índios da América foram cedendo à supremacia dos invasores europeus.

Recentemente, no entanto, a ciência lançou uma nova luz sobre toda essa história. Em 2010 foi sequenciado 60% do genoma nuclear neandertal. O resultado: europeus e asiáticos compartilham entre 1% e 4% do DNA com os Neandertais (ao contrário dos africanos, pois os Neandertais nunca migraram para a África). Três anos mais tarde, em 2013, era descoberto o primeiro osso pertencente a um filho de pai Sapiens e mãe Neandertal. Sim, houve namoro e casamento entre as duas espécies. Sapiens e Neandertais cruzaram seus genes e isso não foi casual, mas se deu ao longo de centenas de gerações. O sexo no fim do Pleistoceno já era um grande sucesso.

Uma grande parte da humanidade tem um pouquinho de DNA neandertal. Eu e você, muito provavelmente. Guardamos em nossos genes uma parcela dessa história fantástica e que também ajudou a construir nossa espécie. E que deve nos fazer lembrar de nossa fragilidade. Os Neandertais habitaram a Terra por milhares de anos. Comparada à história do Homem de Neandertal, a nossa está apenas começando. Nós, Sapiens, somos meros principiantes na antiquíssima e extraordinária espiral da vida. A saga de nosso irmão extinto tem muito a nos ensinar. A nos advertir. Ele, que sumiu da face da Terra para sempre, mas que ainda vive entre nós.

Aprendizados

Por Rogério Gava

Amar a própria história

Leio esta passagem arrebatadora escrita pelo psicanalista Juan-D. Nasio: “(…) sou neste instante o resultado de tudo o que fui, de todas as experiências agradáveis e desagradáveis por que passei. E diria, como na célebre canção, ‘Non je ne regrette rien’ (Não, eu não me arrependo de nada!), uma vez que tudo o que me precede me leva a ser aquele que sou hoje perante vocês e perante mim mesmo”. Que verdade extraordinária e ao mesmo tempo tão difícil de ser assimilada. Quantas vezes sofremos remoendo o passado, nos arrependendo do que fizemos ou deixamos de fazer. Caminho mais curto para o inferno de espírito. Como disse o Riobaldo, sábio filósofo do sertão: “para trás, não há paz”. Temos que aprender a olhar para o passado com orgulho, como tudo o de bom e ruim que ele nos proporcionou. O caminho da serenidade, aprendi, é aceitar a própria história. Mais do que isso: é preciso sinceramente amá-la.

O verdadeiro “Sapiens”

Conhecimento não é sabedoria; inteligência não é sabedoria. “É preciso forjar muitos pensamentos, não muitos conhecimentos”, já dizia Demócrito, o sábio filósofo de Abdera, há vinte e cinco séculos. Quem já não conheceu algum bobalhão inteligente? Um sabichão imbecil? Ou aquele “geniozinho ambulante” presunçoso e professoral?

Sabedoria é sensibilidade, é saber tocar sons, ouvir cores e sentir o aroma dos gestos. Sábio é o que enxerga sentimentos por entre os dias, canta a vida vivendo, sente sua a dor do mundo, tece poemas ao sol, se angustia por existir. E suspende a angústia existindo. Sabedoria é olhar o mundo por cima do muro das aparências. E enxergar, lá longe, um horizonte muito além do concreto frio e úmido do conhecimento científico.

Medo de ser feliz

A expressão é conhecida: “sem medo de ser feliz!” E faz todo o sentido. Ter medo de ser feliz é fugir inconscientemente da felicidade. É sabotar a si próprio diante de uma conquista difícil e há muito sonhada. É não se crer digno da alegria, lá justamente onde nos encontramos com nossos sonhos. É não se achar merecedor das próprias conquistas. Difícil de acreditar, mas, quantas vezes fazemos de tudo para estragar o que conquistamos? Para nos autodepreciar? Para destruir o que temos? Freud, com a genialidade que lhe era peculiar, escreveu sobre esse estranho comportamento há cem anos, em um ensaio com um título muito singular: “Os arruinados pelo êxito”. Lá pelas tantas do texto, anota o célebre Dr. de Viena:

“Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de médico, se faz a descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem no momento em que um desejo profundamente enraizado e de há muito alimentado atinge a realização. Então, é como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, pois não pode haver dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem”.

A sensação de que somos um embuste está sempre presente em nossas conquistas. É como se “fosse bom demais para ser verdade”, e não acreditamos no que nos tornamos ou alcançamos com árduo esforço. A psicanalista Diana Corso resumiu essa propensão neurótica de forma perfeita: “Levante a mão aquele que não se julgar uma fraude”, escreve; e arremata: “ Enfim, é mais fácil lidar com o fracasso do que com o sucesso, pois, pelo jeito, a melhor parte é continuar querendo”. Dar-se conta de que somos sim, dignos do que conquistamos, também faz parte da complicada e difícil arte de viver.

A caixinha de fósforos

Um velho professor, filósofo, gostava de explicar o mistério da transcendência se valendo de uma pequena caixinha de fósforos: “Mirem esta pequena caixa, quantos lados vocês estão vendo?”, perguntava ele aos alunos. “Três!!”, respondia a classe em coro. O professor então continuava: “E se eu virar a caixa vocês irão ver os lados que antes não viam, e os outros terão agora se escondido, certo?”.

Magnífica alegoria para a transcendência. O que transcende é isso: esse algo que sentimos se esconder por detrás do real. Impossível de ver, mas cuja presença é denunciada justamente por aquilo que vemos. Assim como quando notamos apenas três lados de uma caixa, em detrimento dos outros que fogem à visão. Mas nem por isso deixam de existir. É como se o que não vemos fosse essencial para a existência do que vemos. A transcendência é a experiência de tentar nomear algo que nos escapa e pode, talvez, existir para além da realidade. E não importa o que esse além possa significar para cada um de nós. É aquilo que a filósofa Ana Arendt dizia situar-se “além do ciclo da vida”. Ou, nas sábias e esclarecedoras palavras do pensador francês Luc Ferry: “ a transcendência é uma realidade cuja origem nos escapa”. A vida é palco; a transcendência, bastidor. Subirá, algum dia, o pano?

Ser feliz por antecipação

“O melhor da festa é esperar por ela”, diz o conhecido ditado. Agradável sabedoria. Ser feliz por antecipação já é estar feliz. Sentir o prazer das férias por chegar. De um jantar a dois que se aproxima. De um gole na cerveja que gela. Amostras de uma felicidade vindoura que são, de antemão, a própria felicidade. Ser feliz é sentir o aroma da deliciosa comida ainda no fogo e ter o prazer anunciado de saboreá-la. Sempre na confiança, é claro, de que a felicidade esperada se concretize. Ser feliz é também confiar que tudo vai dar certo. Mesmo, que, saibamos, nada, nunca, estará garantido.

A Luz da Morte

Por Rogério Gava

Da morte, nada sabemos. Apenas que ela é uma imposição. A maior que temos ao longo da vida. Pois até da própria existência podemos abdicar, pela via extrema e triste do suicídio. Da morte, no entanto, não há remissão. Dela, em toda a história, nenhum homem conseguiu escapar. Não há fracasso quando se trata de morrer. Ninguém, até hoje, falhou em partir.

A morte nos assusta, e não poderia ser diferente. O horror do caixão, do corpo físico sem vida e que, sabemos, haverá de se decompor. A dor e o sofrimento de quem se despede. E o que mais arrepia: o “não-ser” para sempre: o “nunca mais” para toda a eternidade. Ato de extrema solidão, já que ninguém pode morrer em nosso lugar, a morte nos desafia e devora. Ficaríamos apavorados com muito menos.

É claro que há a questão da fé. A crença no “outro lado”. Sejamos honestos, no entanto: o que há depois da morte, ninguém conhece. Podemos acreditar em uma vida depois que partirmos, ou não, e as duas posições me parecem defensáveis. Mas, provas concretas dos dois estados, até hoje, nos faltam. Nenhuma evidência. A morte, assim, segue sendo o mistério último. Tão impenetrável quanto nosso próprio nascimento. O enigma do Alfa e do Ômega. De onde viemos? Para onde vamos?

De minha parte, tenho mais pena de morrer do que propriamente medo. Apesar dos pesares, a vida é muito boa. E, afinal, é o que temos: é pegar ou largar. Se não houver nada depois, bem, não haverá dor, nem sofrimento, nem saudade. Enfim, por que se preocupar? Essa era a proposta do filósofo Epicuro. Dizia ele que a morte não deveria tomar nosso tempo: pelo simples fato de que, quando ela chegar, já não estaremos. O bom e velho Epicuro nos ensina algo sublime: nosso foco dever ser a vida “antes da morte”, e não uma possível vida “depois” dela. Agora, se houver um “além”, espero que seja uma viagem boa, repleta de luz, paz e de explicações sobre tudo o que não entendemos. E de reencontro com quem partiu antes de nós.

A sombra da morte, porém, também emana luz. Ela nos lembra, a todo instante, que esse pode ser mesmo nosso último instante. A fragilidade da vida, diante da brutalidade da morte, dá ainda mais brilho a tudo de bom que podemos fazer por aqui. Existe algo mais valioso do que estar vivo? Tenho em meu celular um aplicativo que me lembra, cinco vezes ao dia, de que um dia morrerei. Pode parecer algo de mau gosto, mas é justamente o contrário: às vezes estou lá eu correndo de um lado a outro, preocupado com coisas mil e então o celular apita, lembrando da fugacidade da vida e do milagre que é estar vivo.

E uma última questão que não podemos esquecer: a morte, horrível e imperativa, nada pode contra a felicidade vivida. Nem ela, com seu total poder de aniquilamento, pode nos tirar o que vivemos. A felicidade que senti ao ver nascerem meus filhos, isso a morte jamais vai me roubar. Nossos momentos felizes existirão para todo e sempre. Mesmo depois que formos embora. O que vivemos é um pedacinho da eternidade. Nesse sentido, a vida ganha da morte de goleada!

“Memento mori” – lembre-se de que vais morrer –, diziam, com sabedoria, os antigos latinos. Mas lembre- -se não para se mortificar ou se angustiar. Pelo contrário, a lembrança da morte, sempre viva e presente, lança ainda mais luz sobre a preciosidade que é estarmos vivos. Se não podemos vencer a morte, podemos, sim, usá-la para dar mais sabor à vida.

A morte, afinal, esse mistério sombrio e soturno, é o quinhão da própria existência. Nascemos com ela ao nosso lado. É nossa companheira. Aceitá-la, sem se render a ela, penso ser a opção mais sensata. Buscar na sombra da morte uma mensagem de luz: essa é, acredito, a maior vingança contra nosso inexorável fim.

Este novembro de Finados foi o primeiro sem meu pai, falecido em outubro, aos 85 anos. Ele foi o exemplo mais vivo que tive sobre a serenidade diante da morte, da luz que devemos fazer emanar de nosso próprio fim. Um aprendizado de fé e coragem, do qual serei para sempre grato.

Impressões de Viagem

Por Rogério Gava

Cidades são apenas sentimentos

Bem falou o escritor Donaldo Schüler: “Sentimentos ligam-nos a casas, ruas, montes, rios, aves e homens. Organizam, pela convivência, o mundo familiar. (…) Pelos sentimentos, o mundo estranho converte-se em nosso mundo”.

Cidades são apenas sentimentos. Todo o resto é pedra, tijolo, concreto e paisagem. Pelo menos a mim, uma cidade que não aquela onde cresci e vivi, é somente isso: não bela ou feia (todas as cidades são lindas e horríveis ao mesmo tempo), mas sem nada para me oferecer. Uma cidade estranha é qualquer lugar em que não amo, apenas toneladas e mais toneladas de pedregulhos sobrepostos que me angustiam e que não dizem nada. A cidade que me fala é aquela onde sinto, onde as casas conversam, sorrindo banguelas com suas janelas abertas e fechadas, contando histórias sobre o que fui e o que sou. A cidade mais do que tijolos e pedras e pedras e tijolos empilhados. A cidade que me fala é aquela onde vivo e estou vivo, é onde me reconheço. Longe dela me desintegro e não sou ninguém. Cidades não existem; o que existe é o sentir.

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Brincar de “não-ver”

Às vezes, finjo estar vendo as ruas de minha cidade como pela primeira vez. Me imagino um turista perdido, tentando encontrar o caminho do hotel. E então me envolvo tanto nessa simulação, que até chego a acreditar que realmente nunca vi antes nada do que estou vendo. Até a própria rua onde moro. É uma sensação estranha e estranhamente agradável. Uma maneira de tentar enxergar tudo o que conheço esquecendo de quem sou. O que vejo, igual a sempre, mas em uma percepção diferente. E então me pergunto: onde está o que enxergamos? Fora da gente ou dentro de nós?

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Angústia

O homem é uma aflição que repousa num corpo”, disse o poeta Ferreira Gullar. A angústia existencial que nos acompanha do berço ao túmulo. Pelo menos àqueles que não são tão pueris, a ponto de ter a resposta certa até para o Grande Mistério. Quem pensa que tudo é ralo, simples e claro, ou pensou pouco, ou não pensou direito. A esse respeito, Schopenhauer foi certeiro: “Quanto menos um homem é dotado do ponto de vista intelectual, menos intrigante e misteriosa parece-lhe a própria existência”. E também Comte-Sponville: “Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo”.

Tanto melhor angustiar-se, me parece.

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Antes e depois do homem

Antes do homem era apenas a natureza. Antes dela, o mundo em explosão. Antes ainda, não sabemos. E antes do homem não havia amor, justiça, o belo, a poesia, a cultura, a amizade, o ódio, todas as virtudes e vícios. Tudo somente depois do homem. Antes, não havia mal nem bem, justo ou injusto. Nem ética e moral. O mal como projeto que tanto nos espanta. Antes, apenas o “mal” natural dos animais. Que não têm nunca culpa de nada, pois não escolhem. Tudo o que de mais sublime existe, existe a partir do homem. E tudo o de mais horrível também.

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O tempo que o tempo tem

Os físicos acreditam no tempo. Ao contrário dos filósofos, a quem o tempo não engana. Ou será que são esses últimos que estão enganados? Filósofos acreditam que o tempo é contínuo, eterna e infinitamente divisível. Físicos creem no tempo discreto, medido e domado. Na grande prova do Mistério, qual dos dois grupos terá a resposta certa? Leio que até já se mediu o menor espaço de tempo possível: vale “10 elevado a menos 43”. Um número assombrosamente pequeno, mas, mesmo assim, uma grandeza existente. Trata-se de um segundo dividido em um milhão de pedaços iniciais, cada pedacinho desses equivalendo a um microssegundo. Pois bem, pegue-se esse espantoso microssegundo e dividimo-lo novamente um milhão de vezes. Repita-se cinco vezes esse processo e, ao final, partamos o intervalo que sobra em dez derradeiros pedaços. Pronto, temos em mãos o que a física acredita ser o menor intervalo de tempo possível, batizado de “tempo de Planck”, homenagem ao físico Max Planck, um dos fundadores da mecânica quântica. Essa partícula assombrosamente pequena é o crônon, a menor partícula temporal. Até hoje, porém, jamais se detectou algum fenômeno ocorrido na escala de Planck. Não se sabe se poderemos fazê-lo. Apesar do esforço da física, não se pode afirmar que o tempo é realmente discreto. Ao que um filósofo – não sem uma ponta de maldade com o pobre cientista – perguntaria: e, mesmo detectado, esse crônon não poderia ser dividido?

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Os “deuses” do esporte

Palavras de Xenófanes, filósofo grego, escritas cinco séculos antes de Cristo:

“Se um homem saísse vitorioso nas corridas ou no pentatlo em Olímpia, (…) se vencesse na luta ou na prática do rude pugilato, (…) seria mais glorioso (que antes) para os seus concidadãos, receberia assento de honra, largamente visível, sua nutrição por conta da cidade e uma dádiva preciosa. Se vencedor na corrida de carros, receberia também todas estas (honrarias); mas mesmo assim não teria o meu valor. Pois o nosso saber vale muito mais do que o vigor dos homens e dos cavalos. Tudo isso é mau costume, e não é justo preferir a força ao vigor do saber (…). Não é a presença na cidade de um bom pugilista, nem a de um homem apto a triunfar no pentatlo ou na luta, ou pela velocidade dos pés, que faria a cidade ficar em melhor ordem. Bem pequeno seria o proveito da cidade se alguém, nas margens do Pisa, conquistasse a vitória nos jogos; pois isto não enche os celeiros da cidade”.

Dois mil e quinhentos anos depois, e nada mudou. Todos sabem que é o jogador famoso; ninguém, ou quase, o cientista que inventou uma nova forma para tratar uma doença. Triste mundo que pouco aprende, e segue a venerar os ídolos errados.

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