US+THEM

Por Natália Zucchi

Pink Floyd foi o que eu mais vi ao vivo nessa minha turnê pelas bandas que tanto gosto. Claro, uma parte assisti com Waters e outra com Gilmour, separados desde 1985. The Wall, inclusive, foi meu primeiro show internacional, lá em 2012, na capital. Roger Waters, baixista e um dos fundadores da banda, tocou o álbum na íntegra, enquanto o muro gigantesco era construído, atravessando o Beira Rio.

Comecei minha tour de shows em grande estilo: Roger Waters entregou um concerto repleto de efeitos visuais inesquecíveis. Mas se já não bastasse o título do primeiro show, somado à estrutura surpreendente, o espetáculo me deixou outra marca: aos 14 anos, adolescente, enfrentava o início da separação dos meus pais, quando meu pai saiu de casa nas vésperas. Meu muro estava em construção também.

Já em 2015, foi a hora de ver David Gilmour com toda sua sensibilidade na Arena do Grêmio. Foi INCRÍVEL! Fui pelo Pink Floyd, mas também curtindo o pouco trabalho solo que conheço do cara. A tour Rattle That Lock foi linda, com menos efeitos especiais em comparação ao Waters, mas com direito a lasers dançantes e a animações nas características do Pink passando no telão. Gilmour precisa de pouco. Coming Back To Life ficou como performance inesquecível do show.

Voltando ao Waters

Seis anos depois do The Wall, comprei novamente o ingresso para o show da turnê US +THEM do Roger Waters, em Porto Alegre, no último dia 30 de outubro. Dói admitir que todo o estresse das eleições e manifestações políticas me deram uma boa intoxicada criativa, diga-se de passagem. Acabei anestesiada, sem ansiedade ou expectativa.

Uma pena. Para quem só vive o momento do show, não sabe como é gostoso passar pelos dias que antecedem o espetáculo ouvindo toda a discografia de quem você vai assistir, ficar repassando as letras para não errar nos refrões, relembrar os momentos já vividos com aquelas músicas e sentir aquela energia viva de ansiedade boa e motivadora. O efeito dos shows para mim duram muito, por isso invisto tanto neles. Mas no último show, na verdade, eu não esperava nada até às19h30, quando Renato Borghetti fez as aberturas.

Animals

Felizmente, Waters não decepcionou no repertório, muito menos nos efeitos visuais do show. Misturou sucessos de álbuns como Dark Side of The Moon, Wish You Were Here, The Wall e Animals com suas canções em carreira solo. Another Brick In The Wall foi o momento para o coro do público e novamente cantei contra meu muro interno. Entre latidos de cachorros e grunhidos de porcos, Dogs e Pigs, duas pérolas brilhantes na noite. Dogs pelos mais de 16 minutos de execução impecável e riffs hipnotizantes e Pigs, bom, por ser Pigs. O grande porco passeou pelo estádio com a mensagem #StayHuman. Trump no telão, no mínimo, tirou umas risadas da galera. Importante para descontrair os momentos mais tensos do show, não devido às imagens, mas pelas pessoas.

Pagando para arranjar briga

Roger Waters sempre foi um cara político e não tinha como esperar algo diferente em seus shows. Tudo bem. Mas também me ensinaram que o significado da arte não é gerado somente por quem a cria, mas, sim, pela interpretação de quem com ela interage.

Roger Waters chegou com sua tour no Brasil incendiando ainda mais o conturbado período eleitoral de 2018. Porém, no show que sucedeu a eleição, Waters não tocou no nome do presidente eleito. Nem foi preciso. O público se encarregou de pegar para si toda e qualquer manifestação do telão e retribuir com algum mantra de protesto hit nessas eleições. Totalmente previsível e esperado. Porém, a frequência dos protestos foi exaustiva. Já na metade do show, tenho minhas dúvidas se as vaias eram contrárias ao conteúdo ou se já eram um pedido de basta de quem não aguentava mais o “Ele Não” ou o “Fora PT”. Não acreditei quando percebi os seguranças correndo de um lado para o outro devido às brigas e discussões geradas, muito provavelmente por divergências políticas. Assustador, triste, cansativo e chato. Pra mim, esse show só reforçou que o discurso de ódio e a intolerância são independentes da sigla política.

Ouvidos em outro Estádio

Outro momento inusitado, que me faz questionar o potencial auditivo das pessoas, foi o flagra no senhor que passou o show com fones de ouvido, acompanhando o jogo do Grêmio. Cada um com seu fanatismo

The Great Gig In The Sky

A noite do último dia 30 foi marcada por um temporal feio que atacou o RS. Em Porto Alegre, a eletricidade acima do estádio chegou na parte 02 do show e complementou os efeitos de luzes, com raios rosados iluminados no céu. Interferências naturais durante os shows: comece a observá-las 😉 Pena ter sido o motivo pelo corte de Mother no setlist.

Elipse e Brain Damage

Vivi para ver a capa de Dark Side of The Moon nas proporções do gramado do Beira Rio, pairando no ar. Duvido que quem presenciou um dia irá esquecer as luzes coloridas atravessando o grande prisma. Esperança de que quando passamos pela arte, saímos renovados.

Greta Van Fleet

Por Natália Zucchi
natalia@integracaodaserra.com.br
@nataliazucchi

– Escuta isso!
“Aaaaaaah” de repente, uma super potência vocal em um grito muito enérgico.
– Led Zeppelin se reuniu e lançou música nova?

A comparação é inevitável durante o grito. Os mais fãs que relevem, mas a primeira impressão foi essa mesmo: Greta Van Fleet com seu hit Highway Tune me pareceu totalmente Robert Plant e companhia nos primeiros segundos. O que eu não considero negativo. Afinal, para ser comparado com O Led Zeppelin, é preciso ser muito bom. Já li críticas afirmando que definir os caras como “cover” da banda setentista é muita limitação e falta de crença na nova geração de bandas de rock e derivados. Porém, os próprios membros da Greta afirmaram que a comparação até soa engraçada, mas que é uma honra para eles. Não é mesmo?

Não dá simplesmente para ignorá-los. Até Plant já fez comentários positivos a respeito dos garotos. Entretanto, os riffs e principalmente o timbre de Josh Kiszka fazem muita gente se questionar se eles são ou não um plágio. Eu duvido. Pode ser difícil criar algo tão disruptivo no rock quanto Led Zeppelin naquela época, mas acredito no talento da Greta Van Fleet. Eles ainda estão formando sua identidade, como jovens. Inclusive, que bom que finalmente bandas novas e com bom potencial musical estão ganhando espaço – melhor ainda se for no nível de Led Zeppelin.

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Hora de fazer as devidas apresentações:

Com vocês, Greta Van Fleet!

O quarteto norte-americano foi formado em 2012 em Frankenmuth, Michigan. Três dos membros são irmãos: os gêmeos Josh e Jake Kiszka, respectivamente vocalista e guitarrista com 22 anos, e Sam Kiszka, 19 anos, que assume o baixo. Com eles, o amigo Danny Wagner, com 18 anos, na função de baterista desde 2013. Os jovens criaram uma mistura de rock, hard rock, blues e folk em sua produção autoral, que vem crescendo e expressando muita qualidade.

Em 2017, a banda lançou o EP From The Fires com sete canções. Até agora, minhas músicas preferidas são Black Smoke Rising, Safari Song (mais uma vez o grito na intro e o refrão muito Zeppelin) e a calminha Flower Power (fofa!). É possível notar também outras referências e similaridades. Por exemplo, o refrão de Edge of Darkness lembra Rush pra mim. Também não tem como não se encantar pelo cover de A Change is Gonna Come, gravada originalmente por Sam Cooke e eternizada na voz de grandes nomes como Aretha Franklin.

Se até aqui você já procurou o EP disponível no Spotify ou já partiu para o Youtube para conferir a performance dos rapazes, quem sabe você dá uma chance também para o lançamento oficial do primeiro disco de estúdio em longa versão. Anthem of the Peaceful Army será lançado no próximo dia 19 de outubro, com 10 faixas no LP e 11 na versão digital. Algumas músicas já foram lançadas como single, com videoclipe bem psicodélico!

Greta no Lolla

Para quem já é fã da banda e torce muito para que os caras cresçam ainda mais com um som de qualidade, como já vem acontecendo, a primeira oportunidade para conhecermos a performance ao vivo dessas figuras pode estar bem próxima – ainda mais se você estiver disposto a ir para um festival. Existe rumores de que banda virá ao Brasil em 2019 para a edição do Lollapalooza, que ocorrerá nos dias 05, 06 e 07 de abril no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Mesmo com venda dos passaportes já aberta (preços variam entre R$ 633 e R$ 3270 + taxas para os três dias), até o fechamento desta edição a organização do festival não confirmou a presença da banda, nem divulgou o tão esperado Line-up.

Sonhando alto

Bom seria se os vetchos do Led Zeppelin entrassem em competição com a Greta, se reunissem, produzissem algo novo e saíssem em turnê! Vai dizer que não ia ser massa demais?! Lembrando que neste ano o Led Zeppelin completa 50 anos de existência. Motivos não faltam, hein.

Em outra oportunidade falo sobre a Zepparella, grupo-tributo a Led Zeppelin formado apenas por mulheres. Enquanto isso dá um Google!

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Anthem Of The Peaceful Army

1. Age of Man
2. The Cold Wind
3. When The Curtain Falls
4. Watching Over
5. Lover, Leaver (Taker Believer)
6. You’re The One
7. The New Day
8. Mountain of the Sun
9. Brave New World
10. Anthem
11. Lover, Leaver (Taker, Believer) (Exclusivo do digital)

OTHERSIDE

Por Natália Zucchi

10 de agosto de 2018, sexta-feira. O dia em que meu estômago passou por uma sessão fotográfica. O drama a seguir é pela endoscopia somada a experiência hospitalar, mas que me rendeu uma história que só pode estar aqui por causa da voz do Anthony Kiedis, do Red Hot Chili Peppers. Vou contar rapidinho.

Vou pular a parte em que eu mobilizei uns seis profissionais da saúde diferentes, questionando sobre o que aconteceria e como eu deveria proceder se eu acordasse durante o procedimento (meu pai me contou nas vésperas que ele despertou durante a endoscopia com o cano na garganta. Pra meio paranóico, um pai desses já basta). Já acrescento minha confissão para facilitar o seu entendimento: um dos meus maiores medos, com certeza, é hospital.

Esticada na maca, rapidamente varri a sala com os olhos, localizei um monitor grandão operado por uma enfermeira, mais uns outros equipamentos estranhos e, do meu lado, o monitor cardíaco. Ali estava meu primeiro desafiante.

Logo prenderam meu dedinho e eu passei a acompanhar sonoramente o ritmo do meu coração. Na minha cabeça, eu recitava frases de autoajuda, mas o batuque carnavalesco só aumentava.

As enfermeiras começaram a procurar minhas veias, já que as espertas resolveram sumir – nosso corpo tem reações tão rápidas quando a gente está com medo. Comecei a sentir diversas picadas diferentes, o que fez com que eu procurasse um ponto de concentração para não contabilizar a possibilidade do meu braço se tornar uma peneira. Queridas, elas não tiveram culpa.

Foi aí que percebi a presença de um radinho na sala E TOCAVA RED HOT CHILI PEPPERS. Então eu pensei: pronto, pelo menos uma coisa o universo conspirou em favor.

Mas, não. À medida que eu ia prestando atenção na música, a tradução é inevitável. A canção fala em: morte. Até que I’ve got to take it on the otherside (tenho que levar para o outro lado, em tradução livre). Eu só pensei: É AGORA.

Já era. Chegou minha hora!

“Agora você vai sentir uma leve tonturinha e logo irá apagar”, comunicou docemente a enfermeira. Ansiedade prolonga o tempo mental e para mim já se passavam minutos após aquelas palavras, logo o terror de morrer foi substituído pelo terror de permanecer acordada. Pensei: o negócio não vai fazer efeito e a endoscopia vai ser a seco mesmo. Comecei a reclamar e só elas sabem o que eu devo ter falado. Apenas lembro de reivindicar minha situação desperta até o último momento consciente.

Mas otherside, mesmo, eu fui parar no pós-procedimento, já em casa. Tive uma bela sexta-feira inteira de soninho. How long, how long…

Agradecimento

Obrigada a toda equipe do Hospital Tacchini pela paciência. Vocês, enfermeiras, tenham meu muito obrigado, admiração e respeito! À profe Solange, da escola Cecília Meireles, meu maior obrigado por ter se lembrado de mim da época do ensino médio e por ter conversado comigo para me acalmar durante a espera do procedimento. Admiração por essas profes.