A infância e o custo de oportunidade

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Por Elvis Pletsch
elvis_pletsch@hotmail.com

Minha mãe conta que quando era criança tinha o costume de subir em qualquer árvore que estivesse ao redor de sua casa. As árvores eram praticamente um segundo lar: servia para aproveitar a sombra, para ler ou até brincar de boneca. Em alguns desses casos, subia em um pé de abacate e colocava uma tábua para passar de uma árvore para outra – sim, ela praticamente inventou o slackline rústico.

Isso acabou refletindo em seu conhecimento: minha mãe sabe tudo sobre árvores. Sabe em quais épocas elas crescem, sabe quais frutos elas dão e sabe o tamanho da sombra que elas irão fornecer, mesmo que não tenha estudado sobre isso.

Já quando eu era criança, lembro que ela tentava fazer com que eu subisse nas árvores – mas eu simplesmente não gostava, sentia que aquilo seria entediante, afinal, o que eu faria lá em cima? Quando desafiado pelos primos e amigos para subir, sentia vergonha, pois a minha habilidade para as escaladas era, no mínimo, deprimente – reflexo das poucas tentativas.

O custo de oportunidade

O “preço” que paguei ao não aceitar as sugestões de minha mãe é o que chamamos na economia de custo de oportunidade, introduzido pelo economista austríaco Friedrich Freiherr von Wieser, da Escola Austríaca de Economia.

Esse senhor de 167 anos nos ensinou que podemos ser verdadeiros gênios econômicos, pois antes de tomar qualquer decisão, calculamos qual é a melhor ação que podemos realizar naquele momento, concluindo que todas as outras coisas que deixamos de fazer não são tão boas ou possíveis quanto a ação que escolhemos.

Segundo Wieser, o custo de oportunidade sempre é calculado de acordo com a sua utilidade, e não somente pelo seu custo monetário. Para perceber isso, ele levou em conta o princípio de que todos os recursos são escassos, e por isso optamos por direcionar o nosso tempo e dinheiro para alguns projetos, e renunciar de outras alternativas.

Logo, o valor mensurado desse custo é tudo aquilo que você abriu mão de fazer em prol de algum benefício maior.

Isso significa que quando você decide construir uma casa, está levando em consideração que o benefício de ter um local novo para morar é maior que usar o dinheiro para ir a um bar, ou usar o terreno para fazer uma horta, mesmo que alguma dessas opções seja mais barata que as outras.

Essas escolhas irão variar conforme a preferência temporal de cada indivíduo, pois há quem prefira poupar e investir para consumir algo de maior valor amanhã, e há quem gaste tudo no momento em que recebe qualquer recurso.

O que um conceito econômico tem a ver com a infância?

Perceba a grandiosidade do intelecto humano. Possuímos a habilidade de calcular o custo de oportunidade mesmo quando somos crianças, uma aptidão precoce que prova a nossa capacidade de nos tornarmos independentes e assumirmos as consequências de nossas ações – e apesar das implicações que isso pode trazer, não deixa de ser uma habilidade incrível.

Nunca fui uma das crianças mais inteligentes do mundo, mas quando tomava a decisão de não participar dessas atividades naturais, estava realizando um cálculo econômico de enorme complexidade que não possui uma fórmula pré-determinada, e essa equação levava em conta diversos fatores que poderiam ser percebidos unicamente por mim: a vontade, o conhecimento, o medo e o tempo disponível.

Mas mesmo que o meu cálculo fosse diferente do dos meus amigos, o resultado era característico da minha geração, pois o benefício de jogar videogame era visto como maior que o de subir em uma árvore. Obviamente, assim como qualquer matemático, os meus cálculos poderiam estar errados (para o alívio das mães leitoras), pois ao tomar essa decisão deixei de aprender e vivenciar o prazer que minha mãe sentia.

Talvez não seja tarde para arriscar-me nas recomendações maternas, mas, infelizmente, a apuração do meu custo de oportunidade possui os mesmos resultados de anos atrás, já que continuo preferindo o conforto dos videogames do que as aventuras radicais contadas por minha mãe.

Querem roubar os meus livros

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Por Elvis Pletsch

Digamos que hoje você esteja em uma joalheria e encontrou um belo relógio. Você prova o objeto e percebe que ele fica tão bem no seu pulso quanto no seu bolso. É uma boa notícia: ele está pela metade do preço. Infelizmente, você esqueceu a carteira em casa e decide voltar amanhã para concretizar a compra.

Quando você chega na loja no dia seguinte, o preço subiu muito e está além do seu orçamento. Ao perguntar o motivo ao gerente, descobre que o governo proibiu os descontos para relógios para combater a concorrência opressora.

Frustrante, não é? Infelizmente, estão tentando fazer isso com um dos maiores bens da humanidade e da minha vida – os livros!

A senadora Fátima Bezerra (PT- -RN) apresentou o projeto de lei 49/2015 que procura regulamentar os descontos em livros. Na teoria, é apenas mais uma regulamentação que pode passar despercebida pela maioria. Mas, na prática, o valor dos livros serão tabelados e não poderão ser vendidos por valores inferiores, com exceção para alguns eventos específicos, como as feiras do livro.

Mas para entender essa proposta, você deve lembrar que algumas livrarias estão falindo. A Saraiva e a Livraria Cultura entraram com pedido de recuperação judicial e já anunciaram o fechamento de diversas lojas pelo país.

Os motivos apontados? Crise econômica, sociedade que não lê e concorrência acirrada. E, realmente, todos os fatos são verdadeiros. Segundo a reportagem da folha de São Paulo, o faturamento do mercado livreiro caiu em 21% entre 2006 e 2017, e certamente você já leu alguma estatística como “1 em cada 3 brasileiros nunca comprou um livro”.

Além disso, após a entrada da gigantesca Amazon no mercado brasileiro, o consumo foi todo para lá. O problema é que ela não é uma mera vendedora de livros, ela também é dona do aplicativo “Kindle”, um serviço de assinatura para ler qualquer livro pelo celular, computador, ou pelo próprio aparelho criado pela Amazon, batizado com o mesmo nome.

Porém, em tempos de reclamação quanto à educação da sociedade, como defender uma lei que dificulta o acesso do brasileiro à leitura? Se o brasileiro realmente não lê, e os poucos leitores brasileiros estão gastando menos com livros, porque iríamos colocar a mão no bolso se o produto ficar ainda mais caro? Como poderia ser melhor que eu só possa comprar um livro, quando naturalmente eu poderia comprar dois?

O livro nunca foi e nunca será um produto de necessidade imediata, salvo exigências acadêmicas, onde a variação dos preços afeta pouco o consumo – como o pão ou a água – o que significa que uma alteração na política de vendas certamente afetaria o resultado final e, provavelmente, o efeito para os leitores seria catastrófico.

Mesmo supondo que a proposta fosse aprovada e, de alguma forma, o consumo se mantivesse constante, a probabilidade das livrarias tradicionais fugirem dessa crise é muito pequena, já que a concorrência não jogou sujo em momento algum – ela não obrigou ninguém a consumir os seus livros – ela apenas inovou e colocou o seu modelo de negócio, que mostrou-se muito superior ao convencional.

Estamos vendo isso acontecer em todos os mercados e os benefícios disso estão sendo alastrados por toda a sociedade. As novas iniciativas do mercado estão combatendo a pirataria e facilitando o acesso a material de alta qualidade por um preço menor sem mover qualquer canetada no Congresso – e aparentemente isso está assustando uma galera!

O Netflix e o Spotify estão fechando as locadoras e lojas de mídia, é verdade – mas também estão gerando renda para muito artista que nunca teve a oportunidade de atingir o consumidor fora do seu bairro, além de ter criado uma preguiça enorme para os marmanjos baixarem conteúdo ilegal.

Sou suspeito em falar, admito, me considero adepto e defensor dessas novas tecnologias e faz um bom tempo que abandonei as livrarias tradicionais para comprar os livros na Amazon. O fato de desfrutar das minhas leituras por um preço menor e ainda receber na mesma semana – ou imediatamente para as versões digitais – pesou muito na minha decisão, mesmo que nada supere a experiência de entrar em uma livraria e experimentar o breve sabor dos livros proporcionado pela sinopse de suas contracapas.

Mas, mesmo que não seja o seu caso, não faz sentido que você defenda que eu tenha que pagar mais caro para salvar uma empresa que está perdendo consumidores devido à sua própria ineficiência. Da mesma forma que você quer pagar menos no seu relógio, eu quero pagar menos nos meus livros, e é triste que um burocrata tenha o poder de decidir isso por mim.