Não brinquem com os preços

Por Elvis Pletsch

elvis_pletsch@hotmail.com 

Imagine uma sociedade onde o preço do tomate está alto, digamos que seja oito reais por quilo. Nesta sociedade, há um sujeito chamado João (sempre é o João), que é produtor de tomates. Na visão da população, João é considerado o culpado pelo preço alto do tomate: oras, que ganancioso é o João. Isso até pode ser verdade, João pode estar cobrando um preço bem acima do normal, ou talvez o custo do tomate esteja bem semelhante ao preço que João está vendendo, mas não adianta julgarmos as decisões de João.

O governo, querendo fazer com que todos tenham acesso ao tomate, decide tabelar o preço da fruta. Está definido que os produtores de tomate não poderão cobrar mais que seis reais pelo quilo de seu produto. A população vibra. Aparentemente, o governo está ouvindo as nossas preces!
É uma pena, no entanto, que essa intervenção abra um grande número de possibilidades. João até pode engolir essa intervenção e vender pelo preço mais baixo, mas agora existe um incentivo para João vender seu produto informalmente pelo seu preço original, ou até abandonar a produção de tomates para trabalhar no cultivo de cenouras.
De qualquer forma, o resultado pode ser o contrário da intenção do governo: os produtores vão procurar outras oportunidades de lucro, os mercados vão começar a ficar mais vazios, e a população que conseguirá comprar tomates será ainda menor. Sorte para os mal intencionados: já imaginou se decidirem criar uma grande rede de tráfico de tomates?

Se você acha que isso só acontece quando a intenção do governo é ajudar o consumidor, pensou errado. O governo pode ser muy amigo das empresas, então em uma situação onde João é quem está pedindo ajuda ao governo, um tabelamento que faça subir o preço do tomate pode até colocar João em uma enrascada: o consumo do tomate pode
simplesmente diminuir, ou ele pode até ganhar novos concorrentes, caso o consumo se mantenha estável.

O Brasil intervencionista
Na terra da intervenção de preços, não faltam exemplos para mostrar.

Para lembrar do passado, podemos até olhar para o Plano Cruzado de Sarney, em 1986. Em uma época de inflação galopante, o congelamento de preços foi a gota d’água para muitos empresários desistirem de produzir. Segundo o cientista político Bruno Garschagen, essa foi a época em que o conceito de “fila” transformou-se em uma instituição nacional. Tinha fila nos supermercados, nas feiras, nas distribuidoras de gás, nos postos de gasolina e até nos carrinhos de picolé.
Anos depois, Dilma não deixou passar em branco a ideia de congelar preços. A “presidenta” praticou o congelamento de preços da Petrobras de 2011 até o final de 2014. Só naquela brincadeira, houve um prejuízo de R$ 71 bilhões de reais à empresa, valor maior até que as estimativas dos últimos desvios de corrupção da estatal.
Ainda nesse ano, os “liberais” (será?) Bolsonaro e Macri também quiseram deixar sua marca nessa história. O presidente argentino resolveu congelar o preço de 60 itens da cesta básica por seis meses, e pode colocar o país em um caminho semelhante ao da Venezuela. Enquanto isso, Bolsonaro aparentemente tentou imitar Dilma e vetou um reajuste da Petrobras no preço do diesel. No mesmo dia o mercado respondeu, e as ações da estatal fecharam em queda de 8%. Após a turbulência, Paulo Guedes comentou que o presidente aprendeu a lição.

O que defender então?
Seria injusto não reconhecer que os argumentos em defesa à interferência nos preços parecem razoáveis. O preço fixado pode parecer a solução para o consumidor pagar menos, além de auxiliar o cálculo de custos e receitas do empresário. Não é à toa que os caminhoneiros estão brigando pelo tabelamento de fretes e que a população esteja
constantemente pedindo pela diminuição no valor do combustível. Mas é preciso enfatizar que qualquer medida que interfira nos preços altera algum fator significativo da economia – e isso raramente é bom.
Para o economista Donald Boudreaux, o sistema de preços, quando pode funcionar livremente, é um engenhoso método de comunicação e coordenação capaz de aprimorar as condições de vida dos seres humanos. Isso porque a formação de preços é um processo social, onde cada consumidor colabora em sua elaboração.

A interferência governamental nesse processo é, portanto, uma distorção no processo social que resulta em uma informação falsa daquilo que está acontecendo na sociedade. É por isso que devemos ter cuidado ao pedir a interferência do governo, mesmo quando queremos um preço mais justo, pois a verdadeira formação de preços só poderá acontecer enquanto estiver na mão do mercado e do consumidor.
Medidas como o tabelamento de fretes, por exemplo, podem criar um incentivo para as empresas comprarem os próprios caminhões e deixarem de contratar transportadoras ou motoristas autônomos. A diminuição artificial no combustível também pode distorcer toda a lógica de preços e fazer com que todos paguem pelos prejuízos da Petrobras. Lembre-se que não há como uma empresa vender seus produtos por um preço mais barato do que
seu custo por tanto tempo. Por sorte (e para nosso azar), a estatal pode contar com a ajuda dos impostos para bancar suas contas.
A nossa única alternativa é abraçar medidas como a abertura comercial, a diminuição de impostos, o fim dos subsídios, a desburocratização, a defesa por uma moeda mais forte (afinal, o real pode até ser mais estável do que o cruzado, mas não é nenhum franco suíço) e outras medidas de longo prazo que facilitam a entrada de novos concorrentes no mercado, mantém o nosso poder de compra e tornam os preços mais atrativos para a população. Portanto, como membro consumidor e parte desta interação social que conhece as trágicas possibilidades das políticas econômicas, faço um encarecido pedido para aqueles que tratam de emitir leis, decretos e tabelamentos em nosso país: por favor, estudem essas medidas e não brinquem com os preços.

SAO PAULO - SP - BRASIL - 26.11.2015 - Black Friday Supermercado Extra da Avenida Ricardo Jafet  Foto  Reinaldo Canato


Foto Reinaldo Canato

O pote cultural: sobre metas e sonhos

O pote cultural: sobre metas e sonhos

Por Elvis Pletsch

Há algum tempo, sentia-me perdido quanto ao o que queria para a minha vida. Tinha muitos problemas para organizar minhas ideias, pois queria fazer muita coisa e não sabia por onde começar. A ansiedade, assim como a pressão do ambiente para tomar decisões rápidas, transformou-me em um verdadeiro estrangeiro – no sentido Gessinger da palavra – sem metas definidas e sem rumo certo para seguir.

Foi através dessa frustração que, juntamente a Natália Zucchi (namorada, jornalista e colunista deste mesmo jornal), desenvolvemos aquilo que apelidamos de “pote cultural”.

O nome surgiu por acaso. A intenção inicial era colocar frases e trechos de livros e músicas que gostaríamos de lembrar, mas a ideia não pegou. Por isso, reaproveitamos o nome para criar um procedimento para armazenar objetivos, metas e ideias em um velho pote de cerâmica.

O que aconteceu após o uso dessa metodologia foi inesperado: escrevemos ao menos 50 papéis com aquilo que gostaríamos de fazer, dobrando-os e separando-os em metas de curto, médio e longo prazo. Aos poucos, enchemos o pote com lugares para viajar e restaurantes para conhecer, além de metas de vida, como empreender, terminar a graduação, aumentar os investimentos na bolsa, voltar a escrever, fazer cursos ou ver o show de algumas bandas. Se ao longo do ano houvesse algo novo que poderia ser feito, fazíamos um novo papel para ser adicionado aos outros.

Quase um ano depois, não haviam muitas lembranças daquilo que estava escrito no pote, pois não tínhamos o hábito de olhar o que estava por lá. Mas, após um breve momento de dúvidas quanto ao futuro, resolvemos rever todos os papéis. O resultado nos surpreendeu. Cumprimos muita coisa que havíamos esquecido, e boa parte das outras metas e ideias estavam sendo encaminhadas.

 

Faça você mesmo

Não é difícil aplicar essa metodologia em casa. É necessário um recipiente qualquer, caneta e papel. No nosso caso, utilizamos um pote de cerâmica, caneta hidrográfica e papel colorido.

Após conseguir esses itens, basta anotar tudo aquilo que você quiser fazer, seja amanhã ou em cinco anos. Pode ser qualquer ideia. Comece lembrando das coisas pequenas, como visitar um amigo ou conhecer algum lugar, para depois se aprofundar e colocar seus maiores desejos, como viajar para outro país, conseguir um novo emprego ou ter filhos. Não existe ideia ruim, até porque, posteriormente, você vai mudar sua personalidade e descartar aquilo que não desejar mais.

Também há a possibilidade de criar uma gamificação, escrevendo prêmios atrás de cada folha para gratificar-se ao cumprir com aquilo que foi escrito. Mas lembre-se de ir com cautela, pois isso pode lhe deixar sem dinheiro algum. Em nosso caso, não desenvolvemos nenhum sistema de recompensas por nossas metas, até porque entendemos que alcançar as metas é a própria recompensa.

Por fim, basta trabalhar para alcançá-las e estabelecer um período para verificar o que está dentro do pote. Nós pretendemos olhar os papéis uma vez por ano, sem o compromisso de ficar verificando-os regularmente, mas nada lhe impede de fazer isso com frequência.

Para marcar aquilo que foi alcançado, nós colocamos os papéis desdobrados no fundo do pote, para futuramente lembrarmos de tudo aquilo que conquistamos, além de desfrutar da mesma sensação de olhar para um antigo álbum de fotografias.

O verdadeiro aprendizado

Já havia ouvido falar sobre a necessidade de uma definição de metas, mas por acreditar na habilidade humana perante a incerteza, sempre achei que uma organização de objetivos pessoais era besteira.

É claro que eu estava errado. Apesar da nossa fórmula focar somente no resultado, e não nos meios para alcançá-lo, colocar os objetivos no papel tornou-se um método inconsciente de organizar aquilo que é mais significativo.

Foi através dessa experiência que conseguimos perceber a mudança da nossa mentalidade durante todo esse ano. Várias conquistas realmente foram grandiosas para a nossa realidade, mas como amadurecemos e nossos gostos mudaram, vários objetivos já não faziam mais sentido e simplesmente foram rasgados. Assim, a possibilidade de encarar alguns velhos sonhos e deixá-los para trás ficou mais fácil, pois conseguimos visualizar todos os outros sonhos prestes a entrar no forno.

A experiência também serviu como uma injeção motivacional – veja só, rendeu até um texto. Não somos diferentes da maioria. Assim como nossos pais e avós, muitas vezes reclamamos que o ano passou rápido e temos convicção de que não fizemos nada. Mas quando tiramos os papéis e vimos que muita coisa foi conquistada, acabamos deixando de lado o pensamento rotineiro de que as coisas não andam bem. Na verdade, boa parte da cobrança diária por novas conquistas só existia porque criamos o costume de esquecer as nossas conquistas anteriores.

Seguindo os passos de Eric Ries, chegamos à conclusão de que até não falarmos a nossa ideia atual, nunca vamos ter uma melhor. É por isso que nessa última revisão de metas, outros dez papéis foram escritos, e esperamos que boa parte deles possam ser colocados no final do pote pelos próximos anos. Caso isso não aconteça, ao menos teremos aprendido uma grande lição: sem valorizar o presente e o passado, vamos viver sempre pelo futuro – e quem é que sabe o que vem por aí?

 

O pote cultural: sobre metas e sonhos

O pote cultural

Por Elvis Pletsch

Há algum tempo, sentia-me perdido quanto ao o que queria para a minha vida. Tinha muitos problemas para organizar minhas ideias, pois queria fazer muita coisa e não sabia por onde começar. A ansiedade, assim como a pressão do ambiente para tomar decisões rápidas, transformou-me em um verdadeiro estrangeiro – no sentido Gessinger da palavra – sem metas definidas e sem rumo certo para seguir.

Foi através dessa frustração que, juntamente a Natália Zucchi (namorada, jornalista e colunista deste mesmo jornal), desenvolvemos aquilo que apelidamos de “pote cultural”.

O nome surgiu por acaso. A intenção inicial era colocar frases e trechos de livros e músicas que gostaríamos de lembrar, mas a ideia não pegou. Por isso, reaproveitamos o nome para criar um procedimento para armazenar objetivos, metas e ideias em um velho pote de cerâmica.

O que aconteceu após o uso dessa metodologia foi inesperado: escrevemos ao menos 50 papéis com aquilo que gostaríamos de fazer, dobrando-os e separando-os em metas de curto, médio e longo prazo. Aos poucos, enchemos o pote com lugares para viajar e restaurantes para conhecer, além de metas de vida, como empreender, terminar a graduação, aumentar os investimentos na bolsa, voltar a escrever, fazer cursos ou ver o show de algumas bandas. Se ao longo do ano houvesse algo novo que poderia ser feito, fazíamos um novo papel para ser adicionado aos outros.

Quase um ano depois, não haviam muitas lembranças daquilo que estava escrito no pote, pois não tínhamos o hábito de olhar o que estava por lá. Mas, após um breve momento de dúvidas quanto ao futuro, resolvemos rever todos os papéis. O resultado nos surpreendeu. Cumprimos muita coisa que havíamos esquecido, e boa parte das outras metas e ideias estavam sendo encaminhadas.

Faça você mesmo

Não é difícil aplicar essa metodologia em casa. É necessário um recipiente qualquer, caneta e papel. No nosso caso, utilizamos um pote de cerâmica, caneta hidrográfica e papel colorido.

Após conseguir esses itens, basta anotar tudo aquilo que você quiser fazer, seja amanhã ou em cinco anos. Pode ser qualquer ideia. Comece lembrando das coisas pequenas, como visitar um amigo ou conhecer algum lugar, para depois se aprofundar e colocar seus maiores desejos, como viajar para outro país, conseguir um novo emprego ou ter filhos. Não existe ideia ruim, até porque posteriormente você vai mudar sua personalidade e descartar aquilo que não desejar mais.

Também há a possibilidade de criar uma gamificação, escrevendo prêmios atrás de cada folha para gratificar-se ao cumprir com aquilo que foi escrito – mas lembre-se de ir com cautela, pois isso pode lhe deixar sem dinheiro algum. Em nosso caso, não desenvolvemos nenhum sistema de recompensas por nossas metas, até porque entendemos que alcançar as metas é a própria recompensa.

Por fim, basta trabalhar para alcançá-las e estabelecer um período para verificar o que está dentro do pote. Nós pretendemos olhar os papéis uma vez por ano, sem o compromisso de ficar verificando-os regularmente, mas nada lhe impede de fazer isso com frequência.

Para marcar aquilo que foi alcançado, nós colocamos os papéis desdobrados no fundo do pote, para futuramente lembrarmos de tudo aquilo que conquistamos, além de desfrutar da mesma sensação de olhar para um antigo álbum de fotografias.

O verdadeiro aprendizado

Já havia ouvido falar sobre a necessidade de uma definição de metas, mas por acreditar na habilidade humana perante a incerteza, sempre achei que uma organização de objetivos pessoais era besteira.

É claro que eu estava errado. Apesar da nossa fórmula focar somente no resultado, e não nos meios para alcançá-lo, colocar os objetivos no papel tornou-se um método inconsciente de organizar aquilo que é mais significativo.

Foi através dessa experiência que conseguimos perceber a mudança da nossa mentalidade durante todo esse ano. Várias conquistas realmente foram grandiosas para a nossa realidade, mas como amadurecemos e nossos gostos mudaram, vários objetivos já não faziam mais sentido e simplesmente foram rasgados. Assim, a possibilidade de encarar alguns velhos sonhos e deixá-los para trás ficou mais fácil, pois conseguimos visualizar todos os outros sonhos prestes a entrar no forno.

A experiência também serviu como uma injeção motivacional – veja só, rendeu até um texto. Não somos diferentes da maioria. Assim como nossos pais e avós, muitas vezes reclamamos que o ano passou rápido e temos convicção de que não fizemos nada. Mas quando tiramos os papéis e vimos que muita coisa foi conquistada, acabamos deixando de lado o pensamento rotineiro de que as coisas não andam bem. Na verdade, boa parte da cobrança diária por novas conquistas só existia porque criamos o costume de esquecer as nossas conquistas anteriores.

Seguindo os passos de Eric Ries, chegamos à conclusão de que até não falarmos a nossa ideia atual, nunca vamos ter uma melhor. É por isso que nessa última revisão de metas, outros dez papéis foram escritos, e esperamos que boa parte deles possam ser colocados no final do pote pelos próximos anos. Caso isso não aconteça, ao menos teremos aprendido uma grande lição: sem valorizar o presente e o passado, vamos viver sempre pelo futuro – e quem é que sabe o que vem por aí?

Os traços da genialidade

os traços da genialidade

Por Elvis Pletsch

É provável que a figura mais conhecida do mundo contemporâneo seja Steve Jobs. A lenda diz que ele começou a Apple em sua garagem (ou seria em seu quarto?) com Wozniak, e após uma série de produtos que colocaram a Apple entre as gigantes do mercado, foi demitido da própria empresa no ano em que lançou um de seus maiores fracassos, o “Macintosh”. Jobs não desistiu, ainda teve tempo para comprar a Pixar, que se tornaria uma das maiores empresas de animação até hoje, e criar a Next, empresa que posteriormente seria comprada pela própria Apple, trazendo-o de volta ao cargo de CEO da vendedora de Icoisas.

O fato é que todo mundo gostaria de conhecer os segredos da genialidade de Jobs, assim como de Mozart, Ada Lovelace, Einstein, Hawking ou Marie Curie. Todos esses gênios desenvolveram produtos ou estudos que revolucionaram a forma como vemos o mundo. Ser um gênio, portanto, não é o mesmo que ser um sábio, que conhece sobre matemática ou sobre a origem da vida. Para ser um gênio é necessário criar algo que será estudado pelo sábio ao ponto de ele falar “nossa, isso é genial!”.

O ser humano anseia por ser um desses sujeitos, e há todo tipo de palestras, livros de autoajuda, documentários e filmes que querem nos contar os segredos para sermos um deles. Com tanto conteúdo até parece fácil!

O problema é que boa parte desse conteúdo estuda as características individuais de cada mente brilhante que passou por nosso planeta, mas costuma ignorar as descobertas dos estudos realizados de forma coletiva.

As características dos gênios

Andrew Robinson apresentou no livro “Genious” uma descoberta quanto a relação familiar dos gênios: a maioria deles perdeu um ou ambos os pais durante a sua infância ou adolescência. É o caso de Darwin, Curie e Beethoven, por exemplo. Para o autor, esse fato não pode desenvolver somente problemas psicológicos como bipolaridade, depressão ou esquizofrenia (muito comum entre os gênios), mas pode também florescer um processo criativo como forma de lidar com a perda dos pais.

Quanto ao local e ao período em que nasceram esses gênios, também existe uma relação. Eric Weiner escreveu o seu livro “Onde nascem os gênios?” (vale a leitura!), relatando as suas viagens em busca da resposta para essa pergunta. Conforme Weiner, é curioso que a maioria dos gênios tenha aparecido em poucos locais e em períodos áureos desses locais. Foi assim na Grécia antiga, Hangzhou durante a dinastia Song, a Florença e a Renascença, Edimburgo e o Iluminismo, Calcutá e o Renascimento Bengalês, Viena da música de Mozart e Beethoven ou de Freud e Menger, e atualmente o Vale do Silício e a China com suas startups de enlouquecer o mercado.

Alguns estudos também apresentaram resultados polêmicos quanto ao desenvolvimento pessoal dessas pessoas. Ao contrário do mainstream, o livro “A origem do gênio: Perspectivas Darwinianas sobre a criatividade” mostra que poucos gênios tiveram educação formal ou qualquer tipo de formação escolar. Em uma pesquisa realizada com 300 gênios, Dean Simonton constatou que “a maioria só chegou até a metade do que se consideraria uma educação moderna de sua épocas”. São diversos os exemplos para esse caso: Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Woody Allen largaram a faculdade antes do estrelato. Thomas Edison largou a escola aos 14 anos. Henry Ford e Abraham Lincoln eram autodidatas e nunca tiveram uma educação formal. Até mesmo Einstein abandonou o ensino médio, e só entrou na universidade após fazer um exame especial.

Segundo o sociólogo J. Rogers Hollingsworth, isso é ainda mais contrastante nos tempos atuais, pois embora a quantidade de diplomas emitidos e teses científicas publicadas tenha crescido exponencialmente nos últimos cinquenta anos, o ritmo em que surgem trabalhos verdadeiramente criativos permaneceu relativamente constante. Ou seja, a educação está gerando pouco impacto em avanço criativo. Aparentemente, apesar do desenvolvimento de habilidades criativas, o ensino formal costuma anular isso ao fornecer o mesmo pensamento para todos, que provavelmente desenvolverão os mesmos resultados finais e dificilmente criarão uma ideia distinta daquela realidade.

Unindo outras características apresentadas por Eric Weiner, as características que acentuam a busca da criatividade e da genialidade em uma sociedade são:

  • Riqueza, pois até mesmo os gênios precisam comer e ser financiados de alguma forma;
  • Liberdade – seja política, religiosa, econômica ou de expressão – pois um ambiente hostil e proibitivo faz com que muitas possibilidades sejam descartadas ou nem venham à tona;
  • Incerteza em pequeno grau, pois alguma incerteza quanto ao futuro tira o indivíduo da zona do conforto e possibilita a resolução de problemas.

Para entender a importância da incerteza para criatividade, é só notar como o nível de autonomia e empreendedorismo aumenta em períodos de desemprego ou desaceleração da economia. É o caso das barbearias masculinas, dos food-trucks, dos vendedores de cupcakes, dos brechós e dos aplicativos de transporte, que fizeram sucesso no Brasil nos últimos anos de recessão.

Entrando para a lista dos gênios

Está procurando a fórmula da genialidade? Não é fácil. Os gênios costumam trabalhar ao menos 10 anos em suas áreas até terem desenvolvido algo realmente inovador. Mas isso, assim como qualquer um dos padrões citados, não é uma garantia de sucesso para você.

Caso queira entrar no hall da fama dos gênios, sugiro que procure desenvolver a criatividade de forma autônoma. Se o ambiente e as pessoas que você convive não possuem elementos essenciais para a criatividade, procure ajuda em livros diferentes daqueles que você está acostumado, converse com pessoas que você nunca falou antes, visite lugares que você nunca conheceu, desligue a televisão e faça algo inusitado: um desenho, um artesanato, um texto ou até um salto de paraquedas.

Nunca se sabe quando e onde você pode encontrar a peça que faltava no seu quebra-cabeça. Jobs encontrou sua peça em uma mescla de elementos: nas habilidades de Wozniak, na persistência para corrigir os erros do “Apple I” ou do “Lisa”, no conhecimento em Design, em seu perfeccionismo irritante e, até mesmo, em sua filosofia espiritual.

Mas, lamento informar, a fórmula da genialidade não existe (se descobrir, me conte!). Por mais que hajam padrões, creio que a única unanimidade é que os gênios são essenciais para a evolução da humanidade. Sem eles, provavelmente estaríamos nos preocupando com a cor da tinta para escrever em um papel pela primeira vez, e não em como encerrar o último parágrafo da coluna de um jornal.

Como a Venezuela chegou ao caos?

Por Elvis Pletsch

Há 14 anos, Hugo Chávez discursava para um gigantinho lotado em Porto Alegre, bravejando palavras sobre a sua luta na busca pela equidade e igualdade. Provavelmente, ninguém ali desconfiaria de que a promessa daquele presidente “bem intencionado” iria desencadear uma tragédia desumana.

Desde o início desse ano, já foram pelo menos 30 mortes em protestos contra o regime de Maduro, o sucessor de Chávez, além de mais de 800 prisões. Estudos informam que mais de 87% da população está vivendo na pobreza, e que 64% da população pode ter perdido até 11kg só no ano de 2017 devido à escassez de alimentos. A inflação em 2018? Passou do milhão, tornando o dinheiro venezuelano uma moeda menos valiosa que o dinheiro virtual do game “World of Warcraft”.

Até o elenco do Grêmio assustou-se quando teve que viajar para as terras venezuelanas em maio de 2018. O tradicional “papel picado” jogado no campo para a recepção do clube da casa era feito com moeda venezuelana. Isso pode até ser um sinal de riqueza em Dubai, mas ali era apenas a demonstração do trágico poder inflacionário.

papel picado gremio

É verdade que a Venezuela não teve muitos momentos de estabilidade em sua história. A economia era pulsante entre os anos 40 e 70, e o país era um dos mais desenvolvidos da américa latina. Esse crescimento foi em meio à diversas crises políticas, desde mãos de ferro de Marcos Pérez Jiménez e Juan Vicente Gómez, este último caracterizado pela forte repressão política, até a sequência de golpes de estado que assombraram a população até o fim da década de 90, quando Hugo Chávez tomou as rédeas do poder.

Quais foram as medidas que causaram essa tragédia?

Na minha concepção, o governo venezuelano, através de Chávez e Maduro, utilizou duas armas para controlar a população e aplicar as suas ideias: o controle da economia e a opressão.

Opressão: Aproveitando-se da teoria humanitária de que acabar com as armas também acabaria a violência, vários ditadores propuseram o desarmamento civil com a intenção de controlar a sua população: desde os senhores feudais japoneses do período Sengoku, até Hitler, Lênin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Idi Amin, Fidel Castro e Nicolae Ceausescu.

Independente da sua opinião sobre o assunto, de fato não parece ser coincidência que após a abolição do comércio de armas para civis na Venezuela, as únicas pessoas armadas sejam as milícias governamentais, que fazem questão de cumprir as ordens de seu comandante, mesmo que isso resulte em prisões e até mortes de centenas de pessoas.

Controle da Economia: Pode-se dizer que o modelo econômico chavista é uma mistura de elementos proclamados por algumas frentes políticas brasileiras, mas que na prática nunca produzem bons resultados.

Na minha primeira coluna, critiquei uma proposta que visava controlar o preço dos livros no Brasil. Coincidentemente, uma medida semelhante para controle de diversos produtos existe na Venezuela desde 2003, e que foi amplificada através da “Lei de Preços Justos” em 2011.

A lei fez com que a escassez de alimentos e bens essenciais aumentasse, já que o preço fixado não era o suficiente para bancar os custos de quem produzia e comercializava os produtos. Isso fez com que diversas empresas fechassem ou saíssem do país. Além disso, construiu-se um mercado negro, onde as pessoas comercializavam através de preços livres não regulamentados, o que salvou muitos venezuelanos de morrer de fome.

Nicolás Maduro não gostou nada disso, e criou o Comando Nacional de Preços Justos, que combateria o mercado negro e garantiria que os venezuelanos não comprariam itens básicos mais que uma vez por semana. Em cadeia nacional, declarou: “Não vamos nos cansar enquanto não vencermos esta batalha em nome do povo.  Estamos aumentando as penas de cárcere pois a lei tem de ser implacável.”

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Existe também uma teoria de que a causa principal foi a queda nos preços de petróleo, o que pode soar como uma grande verdade se você não apurar os fatos detalhadamente. Na verdade, o preço do petróleo estava anormalmente alto, principalmente no ano de 2008, e retornou ao seu preço médio após aquele ano. Além disso, a escassez de itens já acontecia desde 2007, antes mesmo do valor do petróleo desabar e o governo venezuelano encontrar um álibi para sua incompetência.

Objetivo alcançado ou prestes a ruir?

É claro, não dá para dizer que o plano de Hugo Chávez falhou totalmente nas mãos de Nicolás Maduro. Hoje, a população venezuelana vive em grande ritmo de igualdade, assim como prometido em Porto Alegre. Porém, é uma igualdade de pobreza, onde o desigual é unicamente a alta elite protegida por Maduro, que se regalia em uma grande festa da distopia Orwelliana, com direito há grandes banquetes e banheiros com papel higiênico.

Por sorte, há quem possa mudar tudo isso. O presidente interino da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, conseguiu o reconhecimento de mais de 20 países e parte da população para ser o novo presidente da Venezuela e acabar de vez com as ideias centenárias que estão corroendo o estômago do cidadão venezuelano.

Enquanto não há confirmações, nos resta torcer por uma Venezuela livre e próspera novamente.

A infância e o custo de oportunidade

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Por Elvis Pletsch
elvis_pletsch@hotmail.com

Minha mãe conta que quando era criança tinha o costume de subir em qualquer árvore que estivesse ao redor de sua casa. As árvores eram praticamente um segundo lar: servia para aproveitar a sombra, para ler ou até brincar de boneca. Em alguns desses casos, subia em um pé de abacate e colocava uma tábua para passar de uma árvore para outra – sim, ela praticamente inventou o slackline rústico.

Isso acabou refletindo em seu conhecimento: minha mãe sabe tudo sobre árvores. Sabe em quais épocas elas crescem, sabe quais frutos elas dão e sabe o tamanho da sombra que elas irão fornecer, mesmo que não tenha estudado sobre isso.

Já quando eu era criança, lembro que ela tentava fazer com que eu subisse nas árvores – mas eu simplesmente não gostava, sentia que aquilo seria entediante, afinal, o que eu faria lá em cima? Quando desafiado pelos primos e amigos para subir, sentia vergonha, pois a minha habilidade para as escaladas era, no mínimo, deprimente – reflexo das poucas tentativas.

O custo de oportunidade

O “preço” que paguei ao não aceitar as sugestões de minha mãe é o que chamamos na economia de custo de oportunidade, introduzido pelo economista austríaco Friedrich Freiherr von Wieser, da Escola Austríaca de Economia.

Esse senhor de 167 anos nos ensinou que podemos ser verdadeiros gênios econômicos, pois antes de tomar qualquer decisão, calculamos qual é a melhor ação que podemos realizar naquele momento, concluindo que todas as outras coisas que deixamos de fazer não são tão boas ou possíveis quanto a ação que escolhemos.

Segundo Wieser, o custo de oportunidade sempre é calculado de acordo com a sua utilidade, e não somente pelo seu custo monetário. Para perceber isso, ele levou em conta o princípio de que todos os recursos são escassos, e por isso optamos por direcionar o nosso tempo e dinheiro para alguns projetos, e renunciar de outras alternativas.

Logo, o valor mensurado desse custo é tudo aquilo que você abriu mão de fazer em prol de algum benefício maior.

Isso significa que quando você decide construir uma casa, está levando em consideração que o benefício de ter um local novo para morar é maior que usar o dinheiro para ir a um bar, ou usar o terreno para fazer uma horta, mesmo que alguma dessas opções seja mais barata que as outras.

Essas escolhas irão variar conforme a preferência temporal de cada indivíduo, pois há quem prefira poupar e investir para consumir algo de maior valor amanhã, e há quem gaste tudo no momento em que recebe qualquer recurso.

O que um conceito econômico tem a ver com a infância?

Perceba a grandiosidade do intelecto humano. Possuímos a habilidade de calcular o custo de oportunidade mesmo quando somos crianças, uma aptidão precoce que prova a nossa capacidade de nos tornarmos independentes e assumirmos as consequências de nossas ações – e apesar das implicações que isso pode trazer, não deixa de ser uma habilidade incrível.

Nunca fui uma das crianças mais inteligentes do mundo, mas quando tomava a decisão de não participar dessas atividades naturais, estava realizando um cálculo econômico de enorme complexidade que não possui uma fórmula pré-determinada, e essa equação levava em conta diversos fatores que poderiam ser percebidos unicamente por mim: a vontade, o conhecimento, o medo e o tempo disponível.

Mas mesmo que o meu cálculo fosse diferente do dos meus amigos, o resultado era característico da minha geração, pois o benefício de jogar videogame era visto como maior que o de subir em uma árvore. Obviamente, assim como qualquer matemático, os meus cálculos poderiam estar errados (para o alívio das mães leitoras), pois ao tomar essa decisão deixei de aprender e vivenciar o prazer que minha mãe sentia.

Talvez não seja tarde para arriscar-me nas recomendações maternas, mas, infelizmente, a apuração do meu custo de oportunidade possui os mesmos resultados de anos atrás, já que continuo preferindo o conforto dos videogames do que as aventuras radicais contadas por minha mãe.

Querem roubar os meus livros

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Por Elvis Pletsch

Digamos que hoje você esteja em uma joalheria e encontrou um belo relógio. Você prova o objeto e percebe que ele fica tão bem no seu pulso quanto no seu bolso. É uma boa notícia: ele está pela metade do preço. Infelizmente, você esqueceu a carteira em casa e decide voltar amanhã para concretizar a compra.

Quando você chega na loja no dia seguinte, o preço subiu muito e está além do seu orçamento. Ao perguntar o motivo ao gerente, descobre que o governo proibiu os descontos para relógios para combater a concorrência opressora.

Frustrante, não é? Infelizmente, estão tentando fazer isso com um dos maiores bens da humanidade e da minha vida – os livros!

A senadora Fátima Bezerra (PT- -RN) apresentou o projeto de lei 49/2015 que procura regulamentar os descontos em livros. Na teoria, é apenas mais uma regulamentação que pode passar despercebida pela maioria. Mas, na prática, o valor dos livros serão tabelados e não poderão ser vendidos por valores inferiores, com exceção para alguns eventos específicos, como as feiras do livro.

Mas para entender essa proposta, você deve lembrar que algumas livrarias estão falindo. A Saraiva e a Livraria Cultura entraram com pedido de recuperação judicial e já anunciaram o fechamento de diversas lojas pelo país.

Os motivos apontados? Crise econômica, sociedade que não lê e concorrência acirrada. E, realmente, todos os fatos são verdadeiros. Segundo a reportagem da folha de São Paulo, o faturamento do mercado livreiro caiu em 21% entre 2006 e 2017, e certamente você já leu alguma estatística como “1 em cada 3 brasileiros nunca comprou um livro”.

Além disso, após a entrada da gigantesca Amazon no mercado brasileiro, o consumo foi todo para lá. O problema é que ela não é uma mera vendedora de livros, ela também é dona do aplicativo “Kindle”, um serviço de assinatura para ler qualquer livro pelo celular, computador, ou pelo próprio aparelho criado pela Amazon, batizado com o mesmo nome.

Porém, em tempos de reclamação quanto à educação da sociedade, como defender uma lei que dificulta o acesso do brasileiro à leitura? Se o brasileiro realmente não lê, e os poucos leitores brasileiros estão gastando menos com livros, porque iríamos colocar a mão no bolso se o produto ficar ainda mais caro? Como poderia ser melhor que eu só possa comprar um livro, quando naturalmente eu poderia comprar dois?

O livro nunca foi e nunca será um produto de necessidade imediata, salvo exigências acadêmicas, onde a variação dos preços afeta pouco o consumo – como o pão ou a água – o que significa que uma alteração na política de vendas certamente afetaria o resultado final e, provavelmente, o efeito para os leitores seria catastrófico.

Mesmo supondo que a proposta fosse aprovada e, de alguma forma, o consumo se mantivesse constante, a probabilidade das livrarias tradicionais fugirem dessa crise é muito pequena, já que a concorrência não jogou sujo em momento algum – ela não obrigou ninguém a consumir os seus livros – ela apenas inovou e colocou o seu modelo de negócio, que mostrou-se muito superior ao convencional.

Estamos vendo isso acontecer em todos os mercados e os benefícios disso estão sendo alastrados por toda a sociedade. As novas iniciativas do mercado estão combatendo a pirataria e facilitando o acesso a material de alta qualidade por um preço menor sem mover qualquer canetada no Congresso – e aparentemente isso está assustando uma galera!

O Netflix e o Spotify estão fechando as locadoras e lojas de mídia, é verdade – mas também estão gerando renda para muito artista que nunca teve a oportunidade de atingir o consumidor fora do seu bairro, além de ter criado uma preguiça enorme para os marmanjos baixarem conteúdo ilegal.

Sou suspeito em falar, admito, me considero adepto e defensor dessas novas tecnologias e faz um bom tempo que abandonei as livrarias tradicionais para comprar os livros na Amazon. O fato de desfrutar das minhas leituras por um preço menor e ainda receber na mesma semana – ou imediatamente para as versões digitais – pesou muito na minha decisão, mesmo que nada supere a experiência de entrar em uma livraria e experimentar o breve sabor dos livros proporcionado pela sinopse de suas contracapas.

Mas, mesmo que não seja o seu caso, não faz sentido que você defenda que eu tenha que pagar mais caro para salvar uma empresa que está perdendo consumidores devido à sua própria ineficiência. Da mesma forma que você quer pagar menos no seu relógio, eu quero pagar menos nos meus livros, e é triste que um burocrata tenha o poder de decidir isso por mim.