Sócrates e a Felicidade

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br  

Foi Sócrates (470-399 a.C.) o primeiro filósofo a se preocupar com a vida feliz. Você já ouviu falar dele: o criador da máxima “conhece-te a ti mesmo”. Há dúvidas, na verdade, se foi mesmo Sócrates quem cunhou o adágio, o qual orna a entrada do templo de Apolo, em Delfos; a tradição, no entanto, imputou ao filósofo a ideia. E assim ficou.

Sócrates era um sujeito muito hábil na arte de fazer perguntas. Deixava os interlocutores literalmente tontos com suas indagações em cascata, contraditórias, e que acabavam sempre por dinamitar as certezas defendidas. Era o famoso método socrático, também conhecido como “maiêutica” – de maîa, em grego, “parteira”. Sócrates dizia que, pelo questionamento, buscava “parir” a verdade que se encontrava presente em cada indivíduo; ele apenas ajudava essa verdade vir à luz.

Nosso bom filósofo era extremamente simples, de aparência quase mendicante. Costumava caminhar descalço pelas ruelas de Atenas, disposto a filosofar com qualquer pessoa. Era o filósofo da “praça pública”. Como Jesus, nada escreveu. Foi seu maior discípulo, Platão, quem nos legou os ensinamentos do mestre. No fim da vida, Sócrates foi acusado injustamente pelos governantes de Atenas de corromper a juventude e negar os deuses da cidade. Condenado a beber cicuta, abraçou a morte de forma corajosa e lúcida.

A verdade é que antes de Sócrates os filósofos nunca tinham se preocupado muito com a felicidade. Eles estavam mais interessados em assuntos relativos à natureza das coisas e dos seres. Os chamados “pré- socráticos” viviam fazendo perguntas sobre a origem de todas as coisas, de que era feito o mundo, ou qual era a essência do conhecimento humano.

Sócrates achava aquilo tudo uma perda de tempo. De que adiantava saber qual o tamanho da Terra, ou se o universo era infinito, se o homem não sabia conduzir a própria vida? O que importava, pois, era ajudar as pessoas a saberem o que era bom, justo, enfim, como se deveria viver.

E o que Sócrates ensinava a respeito da felicidade? Ele dizia que ela era alcançada pelo autoconhecimento. Faz sentido: afinal, conhecer-se a si mesmo é refletir sobre quem somos, o que queremos de nossa vida, enfim, o que devemos fazer para ser felizes. Para Sócrates, a ignorância era a principal causa de infelicidade, pois levava ao erro e a uma concepção equivocada da existência.

Mais do que olhar para o próprio umbigo, o autoconhecimento socrático lembra que a felicidade é irmã da sabedoria: se quisermos ser felizes, é preciso que olhemos, antes de tudo, para dentro de nós. O homem feliz é aquele que reflete incansavelmente e sem mentiras sobre si próprio. E não aquele que sai em busca da satisfação de todos os desejos. Reza a lenda, aliás, que Sócrates gostava de contemplar os badulaques vendidos pelos comerciantes de Atenas, só para, como dizia, “ver tudo o quanto não precisava para ser feliz”.

Para Sócrates, o autoconhecimento levava à virtude. “O homem que se conhece saberá como agir, trilhando o caminho correto” – dizia, e arrematava: “quanto mais virtuoso, maior será a chance de que seja feliz, porque fará bem a si e também aos outros”. Ou seja, será mais feliz e ainda ajudará os demais a sê-lo. Depois de Sócrates e para toda a filosofia clássica, a felicidade e a virtude andariam sempre de mãos dadas. Os gregos achavam verdadeira loucura a ideia de um “canalha feliz”. Para eles, era impossível ser “mau” e feliz ao mesmo tempo. Felicidade era sinônimo de bondade.

Esse foi o legado de Sócrates a respeito da felicidade: feliz é aquele que olha para dentro de si. Uma mensagem atual e importante, neste mundo onde o diálogo, consigo mesmo e com os outros, é cada vez mais complicado. Há mais de vinte e cinco séculos, Sócrates continua a nos lembrar: a verdadeira felicidade mora dentro de nós.

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Um fuzil na cabeça ou algumas noites sem banho?

Por Carina Furlanetto 

Conhecemos uma carioca, em um dos passeios que fizemos em Santiago, que, com a maior naturalidade do mundo, conta que foi assaltada na porta de casa à mão armada – com direto a fuzil e tudo. Fiquei pensando na última tentativa de assalto que sofri e em como isso me abalou por algumas semanas.

Foi há quatro anos. Tentaram roubar meu celular enquanto fazia o trajeto de casa até o trabalho a pé. Era por volta das 8h, o dia já havia amanhecido e tinha muitos carros passando. Como de costume, atalhei por uma rua estreita e pouco transitada. Quando fui virar a esquina, sinto uma mão puxando meu celular. Pensei ser algum conhecido fazendo uma brincadeira, mas em poucas frações de segundo me dei conta da real situação e, quando vi, já estava correndo aos berros atrás do pivete (não devia ter nem 15 anos) para que devolvesse o que era meu. Corria ladeira abaixo e só temia que minhas pernas não dessem conta do recado. Insanidade total da minha parte, altamente não recomendado pelas autoridades em segurança, mas deu certo: o guri pacientemente colocou o aparelho no cordão da calçada e fugiu pelas escadas da praça.

Fiquei muito tempo sem querer passar por essa rua, até mesmo acompanhada, e passei a sair com o celular bem escondido em algum bolso de difícil acesso. Se estivesse na pele dessa carioca, é certo que, mais do que medidas de segurança, optaria por mudar-me para uma cidade mais calma – em geral não sou fã de grandes centros. Ela, porém, pouco ou nada abalou-se com o fato: acontece com todo mundo, justificou.

Pouco depois conversamos sobre a nossa viagem. Quando contamos que dormimos oito noites seguidas no carro e ficamos quatro dias consecutivos sem tomar banho – não que a gente se orgulhe disso, mas é o ônus de uma aventura de baixo orçamento – a situação lhe pareceu insuportável. Parabenizou a nossa coragem, desejou sorte no caminho, mas disse que jamais faria algo assim. O marido corroborou as boas vibrações, mas também acrescentou que não suporta muito tempo longe das suas coisas.

Um fuzil na cabeça ou umas noites sem banho parecem situações tão antagônicas que jamais poderiam figurar em uma questão de múltipla escolha. Não sabíamos quais eram os nossos limites e foi para testá-los que saímos de casa. Ao final, as doses de sofrimento que alguém pode carregar sempre são individuais.

Crônica Integração

Sou um bom cidadão?

Por César Anderle 

Diretor da Anderle Transportes 

Muitas vezes me pergunto o que posso fazer para melhorar o ambiente em que vivo. Em que posso contribuir para que a minha comunidade seja mais feliz? Em qual atitude eu devo mudar para os meus relacionamentos serem mais fraternos?

Essas indagações são constantes para aqueles que querem evoluir como pessoa. Somos seres inacabados, necessitamos um do outro para viver em sociedade, eu não sou ninguém sem você e a reciproca é verdadeira; se fosse ao contrário viveríamos nômades e solitários e, neste sentido, poucos assim vivem.

No mundo econômico em que estamos inseridos, nós precisamos produzir, consumir, testar; vivenciar diferentes emoções para nos sentirmos mais pertencentes à sociedade, as mídias bombardeiam novas ideias de consumo, novos produtos e novos serviços e, isso, não é ruim, não, por assim dizer. Vivemos numa era capitalista, trabalhamos para satisfazer nossas necessidades primárias e nossos prazeres, os anúncios nos fazem querer mais, nos enchem os olhos e ficamos ávidos de desejo do TER.

Por outro lado, a comunidade precisa de pessoas, de líderes, para opinar, para decidir, para executar. A praça da cidade ficará em ordem e atraente para tomar o chimarrão no final de semana, se as pessoas trabalharem nela. Se a comunidade exercer a cidadania de fiscalizar os entes públicos, se não jogarmos lixo no chão, se apanharmos o lixo que está no chão, que mal há em se abaixar e recolhê-lo e simplesmente o jogá-lo na lixeira?

Já o relacionamento pessoal e fraterno entre o casal, família e amigos estará fortalecido se tivermos a capacidade de comunicação sem obstáculos, respeito das ideias individuais, de posição política e social, se debatermos os assuntos sem preconceitos, sem estereótipos.

Seremos melhores se eu for grato, se eu exercer a gratidão por você estar ao meu lado; se eu for grato ao alimento que se apresenta à minha mesa; se eu for grato ao trabalho que me dignifica; se eu for grato aos meus antepassados; enfim, se eu for grato a quem me deu a vida, o ar, o sol, a chuva…

A busca de um real sentido de Vida preocupa os pensadores e nos faz pensar também – Será que é necessário tudo isso? Nesta busca incessante de equilíbrio físico-emocional me deparo com estas questões e penso mais: o que de fato posso fazer para melhorar a condição da sociedade?

Envolvimento, talvez essa seja uma das respostas. Se eu me envolver nos debates, se eu me envolver nos problemas comunitários e governamentais, se eu interagir com as pessoas que decidem, se eu me posicionar no grupo de amigos, se eu tiver senso crítico para questionar o porquê das coisas, talvez eu mude a sociedade, mas se eu ficar na inércia, no apenas observar e criticar os que fazem, com certeza nada mudará, pois assim os outros decidirão por mim e por nós, cabe aqui essa análise individual.

O que eu posso fazer para mudar o mundo?

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Tratamento de Inverno em Frutíferas Temperadas

Por Melissa Maxwell Bock 

Engenheira Agrônoma Emater/RS-Ascar Pinto Bandeira 

Durante o inverno, as fruteiras de clima temperado entram no período de dormência, ocorrendo a perda total das folhas, fazendo com que a planta fique exposta. Este é o momento ideal para a realização do tratamento de inverno, a fim de diminuir a fonte de inóculo de pragas e de doenças, deixando que as plantas tenham sua sanidade assegurada no próximo ciclo.

Primeiramente é necessário eliminar todos os galhos e ramos secos, doentes e mal posicionados, bem como os ramos improdutivos através de podas. Em segundo lugar, coletar todos os frutos que ficaram no pomar e estão mumificados, bem como as folhas doentes que permanecem na planta e queimá-los e/ou enterrá-los longe dos pomares. No caso das podas é necessário proteger os cortes da entrada de microorganismos patogênicos com pasta bordalesa ou tinta plástica.

Após este processo, fazer o tratamento de inverno, aplicando produtos fungicidas/inseticidas à base de cobre e enxofre, como a Calda Bordalesa e a Calda Sulfocácica, além dos fungidas cúpricos. Porém, é necessário fazer a correta regulagem dos bicos dos pulverizadores, a fim de evitar desperdício e deposição destes produtos no solo, pois como sabemos, nossos solos estão com alto índice de cobre, o que prejudica o crescimento e desenvolvimento das plantas.

Estes tratamentos fitossanitários são as práticas mais utilizadas dentro do Manejo Integrado de Pragas e Doenças, pois além de reduzir os efeitos das moléstias, através de práticas simples e menos agressivas ao homem e ao meio ambiente, também melhoram a qualidade final do produto.

Para as recomendações de dosagem e regulagem de pulverizadores para a realização do tratamento de inverno procure um técnico.

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Educação sem universidades

Por Elvis Pletsch 

elvis_pletsch@hotmail.com  

Uma das melhores formas de refletir em soluções para problemas é criar uma realidade absurda. Por isso que, ao ver os protestos pela educação, imaginei o que faríamos se o dinheiro acabasse e as universidades deixassem de existir. Será que a educação não existiria? As pessoas não iriam buscar conhecimento? Viveríamos no abismo da ignorância?

Esse questionamento já havia surgido há alguns anos, quando duas situações despertaram meu interesse em contestar axiomas educacionais.

A primeira situação foi quando comecei a participar voluntariamente de um grupo de estudos voltado para a economia, filosofia e política. Ali encontrei um formato que funcionava para mim: não havia um tutor ou uma apostila, havia apenas a interação com aquelas pessoas que possuíam uma busca de um conhecimento em comum.

Esse grupo funcionava através de debates, compartilhamento de conteúdos e de encontros de leitura. Dessa forma, cada membro do grupo participava de forma espontânea, auxiliando naquilo que possuía mais facilidade.

A segunda situação foi através de um professor universitário, que tinha o costume de sugerir diversos livros como leitura complementar após finalizar algum conteúdo. Segundo ele, o que havia ensinado naquele momento era apenas “um ponto de vista”.

Curioso sobre seu posicionamento, resolvi questioná-lo sobre diversos assuntos e, para elucidar minhas dúvidas, não era raro que trouxesse inúmeros livros, revistas e artigos (muitas vezes em inglês) que, de outra forma, jamais teria ouvido falar. Não à toa, costumava reforçar a ideia de que todos deveriam aprender inglês para poder encontrar materiais que nunca foram traduzidos para o nosso idioma.

Através disso cheguei à conclusão de que a sociedade possui um vício na institucionalização do aprendizado. As especializações e os diplomas são tratados como referência para o conhecimento. Deixamos de utilizar os métodos dos nossos avós para levar em conta apenas a bibliografia dos cursos.

A diferença salarial entre os níveis de ensino pode ser o grande incentivador desse abandono, já que uma pessoa graduada pode ganhar cerca de 140% a mais que uma pessoa que cursou apenas o ensino médio, segundo pesquisa divulgada pela OCDE, em 2017. Mas será que não existe nada melhor que um profissional graduado? Será que o método acadêmico é dono da absoluta verdade?

Para quem costuma se vangloriar de seus títulos, o currículo acadêmico parece bem enxuto. Ele leva em conta apenas uma parcela do conhecimento disponível para cada área de atuação. Certamente você já conheceu Sócrates, Hobbes e Kant quando estudou filosofia, mas dificilmente ouviu falar em Eric Voegelin, Ivan Illich ou Ayn Rand no ambiente escolar.

Isso não significa que as instituições ou os seus profissionais sejam ineficientes. Na verdade, elas lembram a antiga educação grega, que tentava abraçar todos os assuntos – do preparo militar ao debate intelectual – mesmo que fosse impossível abordar todos os assuntos curriculares de forma satisfatória. Até por isso, diversos cursos são continuamente substituídos por novas especializações, com o objetivo de agregar outras fontes intelectuais.

Contrapondo-se a isso, em uma distópica sociedade sem universidades, fica claro que há a possibilidade de desenvolver uma metodologia de investigação independente, consultando as filosofias divergentes de cada campo, e não somente buscando a verdade na opinião do currículo escolar.

Acredito que a solução para isso seja uma dose de liberdade, permitindo buscar uma instrução adequada para sua individualidade, evitando assim uma eventual prisão da opinião popular, que costuma ignorar as múltiplas realidades a serem exploradas, por mais contestadas que sejam.

Essa constatação não é pura rebeldia e nem quer minimizar a importância das instituições de ensino para a evolução da sociedade, especialmente na área de pesquisas. A intenção é mostrar que o mundo é maior que o seu quarto (ou que a sua universidade), deixando claro que a formalização do ensino não é a única opção para a educação e que, portanto, não devemos limitar o termo “educação” ao método institucional.

Atualmente, podemos aprender de formas tão diversas e abundantes que a escolha de metodologias ficou tão difícil quanto decidir o filme que queremos assistir no Netflix, e não há dúvidas que a tendência é a criação de formas de ensino ainda mais diferenciadas. É por isso que o mercado está sendo bombardeado por “Edtechs” ou por novos métodos, que envolvem a aprendizagem através da arte, do esporte, ou da tutoria individual.

Mas, mesmo assim, sem questionarmos a metodologia tradicional e os dogmas da educação, será que vamos conseguir mudar a realidade brasileira com essas novidades?

Ou vamos acreditar que a educação de qualidade só virá com mais repasses do governo?

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Aprender…

Por Ancilla Dall’ Onder Zatt 

ancila@italnet.com.br 

A cada dia aprendemos coisas novas e, então, nos damos conta da celeridade das mudanças a que assistimos e também de algumas das quais participamos ou realizamos em nossas vidas.

Leonardo Da Vinci costumava dizer que “aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”. Com efeito, todos nós humanos, nascemos com um potencial enorme a ser explorado e desenvolvido, ou seja, todos somos capazes de aprender, se os estímulos oferecidos forem adequados. Mas não é suficiente termos potencial, é preciso “querer aprender”, o que requer disciplina e acreditar no próprio potencial, com suas possibilidades.

O estudo proporciona conhecimento, abre horizontes para o futuro e aponta caminhos desconhecidos. Convém lembrar que a informação pode ser dada e/ou buscada, enquanto o conhecimento é construído com o estudo, interações, empenho e perseverança. Aliás, a perseverança esteve presente na vida do criador da lâmpada, Thomas Alva Edison, que, após mais de mil experimentos, ou tentativas, nos brindou com o seu invento.

Contudo, é a educação e não o ter que acrescenta valor à formação do caráter da pessoa que, no entender de Kaut: “O ser humano é aquilo que a educação faz dele”. Percebe-se, assim, que investir em educação em todos os níveis de escolaridade é investir no desenvolvimento em todos os aspectos. Investir recursos na educação dos filhos, dos estudantes e dos cidadãos – jovens e adultos – é essencial, todavia, é preciso que haja vontade de aprender. A reflexão sobre o processo de aprender demanda questionamentos de caráter pessoal, institucional e populacional. O que realmente desejo aprender?

Pertencemos a uma instituição aprendente? Que aprendizagens são essenciais a cada um, às organizações e a todo cidadão para que promova seu desenvolvimento pessoal e possa contribuir com o seu saber e sua experiência para o bem da coletividade?

Estes questionamentos e outros mais permitem uma reflexão simples no caminho do enfrentamento das mudanças pelas quais a sociedade passa nos costumes e hábitos, nas empresas, na comunicação, na gestão das empresas, no empreendedorismo e em inúmeras outras circunstâncias que nos induzem a aprender e aprender continuamente.

Não basta aceitar as mudanças, mas assimilá-las, adequando-as às necessidades cotidianas, como é o caso da tecnologia, em qualquer nível e, quiçá, promovê-las, aperfeiçoando ou até substituindo, com o intuito de conquistar melhorias.

Em resumo, é preciso aprender continuamente.

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A Provação de Jó

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

A Bíblia conta a história de Jó, que vivia na terra de Uz. Honrado e justo, ele tinha sete filhos e três filhas. Havia construído patrimônio invejável: era dono de um rebanho com mais de dez mil animais, entre ovelhas, camelos e bois. Possuía numerosos servos. Enfim, era o “Bill Gates” da época.

Eis que Satanás, anjo caído e estraga-prazeres de carteirinha, insinua a Deus que Jó só é bom por que a vida lhe sorrira. Afinal, ele era rico e afortunado, nada lhe faltava. Seria de esperar que respeitasse o Senhor. Mas era só lançar a desgraça sobre a vida de Jó – insinuava o diabo – e ele iria amaldiçoar o Todo-poderoso. Para o demônio, Jó não passava de um interesseiro, um mercenário da fé.

Deus – que confiava muito na fidelidade de Jó –, autoriza o Satã a semear a adversidade na vida daquele homem. O “demo”, especialista no assunto, capricha na maldade: primeiro, Jó perde todas as posses; depois, os filhos dele morrem; por fim, ele é acometido por feridas purulentas na pele que o desfiguram. Apesar de toda essa infelicidade e desgraça, Jó permanece fiel a Deus e apenas repete: “Deus deu, Deus tirou”.

Diante de tamanho infortúnio, a esposa de Jó o incita a renegar o Senhor, mas Jó permanece firme em sua fé. Depois, três amigos visitam Jó com o intuito de confortá-lo, mas na verdade querem o fazer confessar que pecou; para eles, só isso explicaria a ira de Deus, que sempre pune os maus e premia os bons. Mas Jó, sem se abalar, afirma que nada fez de perverso e não blasfema. Um quarto personagem, de nome Elihu, se junta ao coro; hostil, ele acusa Jó de se considerar mais virtuoso que o próprio Deus. Ao que Jó, responde de forma resignada: “recebemos o bem das mãos de Deus; por que não receberíamos o mal?”.

Jó, finalmente, extenuado por tanto sofrimento, abre a boca e amaldiçoa o dia do próprio nascimento. Ele exprime sua revolta contra a injustiça do mundo, que se abate contra bons e maus. Nosso protagonista está desnorteado: a vida lhe parece sem sentido, um redemoinho absurdo que escoa para a morte, no qual todos têm o mesmo destino. Em nenhum momento, porém, vemos Jó protestar contra as intenções de Deus.

No entanto, em seu íntimo, Jó não se conforma: quer interrogar o Senhor para entender por que está naquela situação. Afinal, ele não tinha culpa alguma. Era honesto e temente a Deus. Por que estava sendo punido? “Que sentido há na vida, se os bons sofrem e os maus prosperam?” – ele se pergunta. Afinal, que espécie de justiça de Deus era essa? Jó, o leitor já percebeu, queria nada menos do que colocar o Criador no banco dos réus.

Então Deus aparece a Jó em meio a uma tempestade de vento. A voz tonitruante do Todo- poderoso rebomba nos céus. Mas não fornece nenhuma explicação a Jó. Ao contrário, Lhe chama a atenção para a soberba dele em querer interrogar o Criador: “Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?”, pergunta o Senhor. Jó, que não era bobo, entende o recado: quem era ele para cobrar de Deus qualquer explicação? O Criador – Jó aprendeu naquele dia – não aceita reclamações. Afinal, somente Ele tem a chave do mistério. Quem somos nós para julgar seus desígnios?

Deus, no entanto, não aparece a Jó apenas para dar-lhe uma lição. Sabedor da fé daquele homem – inabalável mesmo em meio aos piores sofrimentos –, restaura a vida dele com acréscimo: multiplica seus bens e lhe dá o dobro de filhos perdidos. Jó, então, vive por mais cento e quarenta anos, rodeado de filhos, netos e bisnetos. Morreu feliz, na graça do Senhor.

 

* * *

 

Não sabemos quem escreveu a história de Jó, tampouco quem foi ele ou quando exatamente viveu. Isso não tira, no entanto, o brilho de seu significado. Vinte e cinco séculos depois de ter sido escrito, o Livro de Jó continua sendo uma das narrativas mais reveladoras do Antigo Testamento.

A história de Jó é uma lição de felicidade. Ela nos ensina a importância em termos um propósito, um significado maior na existência. Mesmo que o mundo, injusto como ele só, teime em nos provar que esse significado não exista. O mundo de Jó, aliás, não é tão diferente do nosso: mais de dois mil anos depois, seguimos assistindo o mal, tantas vezes, sobrepujar o bem. Hoje e nos tempos bíblicos, canalhas prosperam e bons sofrem.

Jó, no entanto, nos lembra que é nosso dever exigir um mundo melhor, mais sábio e correto. Que a vida, esse vale de lágrimas, também pode ser um bosque de encantamento. Jó, na verdade, é todos nós: seres errantes em busca de Luz.

O hino à sabedoria de Jó, afinal, nos grita que a vida, apesar de todos os pesares, vale a pena. E que a felicidade, longe de ser uma quimera, é a busca de significado em um mundo tantas vezes injusto e sem sentido.

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O Juízo Final

Por Dr Antônio Carlos Koff

Ao inserir-se no mundo físico e ter que enfrentá-lo o ser, muitas vezes, não percebe o verdadeiro significado da vida, que é a eterna luta entre o bem e o mal. Oculta frequentemente sob a superfície é renhida, é constante essa luta e se prolonga até o fim da existência.

Bem e mal andam sempre juntos, lado a lado, porque tem a mesma origem e são eternos. Convém então manter vigilância constante, porque o mal está sempre aguardando oportunidade para entrar em sua vida, muitas vezes disfarçado e preparando ciladas. O mal não quer a sua felicidade, sua realização, seu sucesso e luta para que isso não aconteça. Nele não há verdade, nem justiça. O egoísmo torna a pessoa cega e surda.

Não devemos nos deixar enganar pelas aparências, mas procurar enxergar com os olhos do espírito. Atração engana, imaginação engana, intuição engana, raciocínio engana, porém, consciência e sentimento interno não enganam. Deus fala através do sentimento interno e de nenhuma outra forma mais. Quando sentir dúvida e conflito é porque você está trilhando o caminho errado, mas quando tiver certeza e paz estará no caminho certo.

Saiba que existe um reto e estreito caminho e que estreita é a porta que conduz à vida. Assim diz a lei: “Guardai-vos de praticar a iniquidade”. Quem pratica o mal sabe o que está fazendo, e uma vez que está feito é para sempre. Ele existe e é muito poderoso, não mais do que o bem, mas é muito poderoso.

Assim fala o Senhor: “Por acaso não vos dei a minha lei? Amai-vos uns aos outros assim como Eu vos tenho amado, e sempre que fizerdes algum mal a um dos meus filhos, a Mim próprio estais fazendo”.

Vivendo uma realidade enganosa que muda a cada momento e que um dia se dissipará, pode passar despercebido ao ser, um mundo que nada mais é do que uma miragem, e o ente muitas vezes se entrelaça num labirinto onde pode se dar mal, porque nem sempre as histórias têm um final feliz. Importa pois não perder tempo na prática do bem com ações que não levam a nada. Hoje é o dia, agora é a hora. A vida é breve. Ainda que se viva cinquenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa ou cem anos, mesmo assim a vida é breve, um nada perante a eternidade, um relâmpago apenas. A omissão pode ser uma falta grave. Deus pedirá conta de seu tempo e de seus atos e é inútil querer começar quando é preciso acabar.

O universo terá fim. Vai demorar, mas tudo está condenado ao desaparecimento e ao esquecimento. Não restará pedra sobre pedra.

Tudo o que se faz, pensa ou diz, fica consignado nos registros acásicos e incorporado na personalidade-alma, esse o grande livro da vida. E se não fosse dessa maneira, não poderia haver Deus, nem justiça e nem julgamento. Mas não é assim, ele virá e, querendo ou não, chegará a hora da prestação de contas. Há hora de semear e hora de colher o que se semeou. Dívidas materiais têm prazo e prescrição, mas dívidas espirituais, morais ou cósmicas não prescrevem e, se não perdoadas, são eternas.

Sua consciência está interligada permanentemente com a consciência de Deus e, por isso tudo, o que você pensa, sabe, faz ou planeja fazer Deus também sabe, tornando-se impossível enganar ou esconder. O juízo final não será neste mundo. ‘’Tiveram sua oportunidade!”, assim lhes será dito, e a cada um segundo seus méritos: ou a luz perpétua ou as trevas eternas, e quem for lançado a elas pode perder as esperanças, não tornará a ver a luz.

O inferno existe sim, mas não é fogo, são trevas. Naquele dia terrível não haverá mais o tempo, nem justificativa, nem consideração, nem amor e nem perdão, apenas julgamento. Deus nunca muda os seus propósitos.

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Crônicas na bagagem: nossa própria filosofia

Por João Paulo Mileski 

Assim que chegamos em Viedma, na entrada da Patagônia, fomos recebidos pela Claudia. Quando nos mostrou a casa, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a quantidade de livros de Filosofia, dos mais variados autores. Explicamos a nossa história e contei que antes de pegarmos a estrada eu estudava Filosofia. Ela, então, reagiu dizendo que a nossa filosofia seria a própria viagem.

A Claudia tinha razão. Quase todo os dias, na estrada, nos pegamos matutando algo sobre o qual não pensávamos antes ou, então, conhecemos alguém que nos ensina alguma coisa que, por mais simples que pareça, acaba mudando nossa forma de pensar.

Em El Calafate, conhecemos a Vale. Trocamos experiências e ela nos contou sobre a reação “negativa” de algumas pessoas quando descobrem que ela viaja pedindo carona, sozinha. Para a Vale, às vezes, o que gera medo não é a situação em si, mas como as pessoas reagem diante dela. Até agora, ela não teve nenhum problema na estrada. Pelo contrário, encontrou não apenas pessoas que garantiram carona aos lugares, como também lhe ofereceram hospedagem em suas casas. “Se eu tenho uma energia boa, acho que também posso atrair pessoas boas, não?”, disse.

Com essa frase, pensei na quantidade de pessoas que não saem de casa ou deixam de fazer coisas que gostariam por medo do que pode acontecer, e esse medo quase sempre é reflexo não de uma experiência própria, mas do que ouvimos no dia a dia, seja de um amigo, colega de trabalho ou quando ligamos a televisão.

Não posso dizer que o mundo não é perigoso porque não conheço todos os lugares e todas as pessoas, mas posso afirmar que também, assim como a Vale, estamos descobrindo um mundo diferente daquele que sempre nos contaram – onde não seria possível ser feliz jogando tudo para o alto e percorrendo a América dormindo em um Sandero.

Não sei qual filosofia vou descobrir ao final de tudo isso, mas ando cada vez mais convencido de que, por mais que lemos, ouvimos ou assistimos, só é possível enxergar o mundo real quando olhamos com os próprios olhos.

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Coisa boa, coisa ruim… quem sabe?

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br

Numa antiga aldeia vivia um velho camponês. Ele possuía o cavalo mais bonito do lugar. Todos os vizinhos o consideravam o homem mais feliz do povoado por ter um animal como aquele. Certo dia, ao amanhecer, o camponês foi alimentar o cavalo e descobre que esse havia fugido. Ao invés de cair em consternação, o bom homem suspirou por um instante e então seguiu em suas tarefas diárias.

Tão logo souberam da fuga, os moradores foram à casa do camponês para consolá-lo. O encontraram cuidando da horta. “Meu bom amigo, você deve estar muito triste”, comentou um deles, “perder um cavalo como aquele… que lástima!”. Ao que o camponês apenas respondeu: “coisa boa, coisa ruim… quem sabe?”. Todos ficaram se entreolhando, sem entender ao certo o que significavam aquelas palavras. E o camponês seguiu a capinar.

No dia seguinte, inesperadamente, eis que o cavalo está de volta. E não só isso: trazendo uma égua selvagem com ele. Do outro lado da cerca um vizinho presencia a cena, e a notícia se espalha pelo lugarejo. Era um milagre: o cavalo não só havia voltado, mas tinha trazido consigo uma égua jovem e muito bonita.

Novamente a casa do camponês se encontra repleta de gente. “Você tem muita sorte meu amigo, o cavalo voltar desse jeito! E ainda trazer uma égua! Que felicidade em dobro!”. Ao que o camponês, sem pestanejar, responde calmamente: “coisa boa, coisa ruim… quem sabe?”. Novamente aquelas palavras enigmáticas não encontraram quem as compreendesse.

Ao entardecer daquele mesmo dia, o filho do camponês resolve domar a égua selvagem, mas leva um tombo e quebra uma perna. Nova romaria à casa do camponês. “Meu Deus, que azar”, diz uma mulher. “Sim, se o cavalo não tivesse voltado isso não teria acontecido”, retruca outro. Só para ouvirem o camponês repetir o de sempre: “coisa boa,
coisa ruim… quem sabe?”.

Passaram-se alguns dias. Eis que a região onde ficava a aldeia declara guerra a um reino vizinho. Oficiais do exército visitam o povoado para recrutar soldados. O filho do camponês, enfermo, não foi alistado. Novamente os moradores ecoam em uníssono: “mas que felicidade! Se o filho não tivesse quebrado a perna, ele teria ido morrer na guerra! O
bom Deus gosta mesmo de nosso amigo!”

O camponês, sereno, ouvindo aquilo tudo, apenas responde: “coisa boa, coisa ruim… quem sabe?”. Os vizinhos, ainda sem nada entender, tomam seu rumo. E tudo segue como sempre fora.

Moral da história
Nesta vida incerta nada sabemos. O azar pode ser uma sorte; a sorte poderá ser um azar. Infortúnios, muitas vezes, se revelam bênçãos. Sucessos se transformam em fracasso. O velho camponês entendia de felicidade. Aprendera o que muitas vezes esquecemos: nossa passagem pela Terra é feita de coisas boas e outras nem tanto, e a ninguém é
revelado o fim da jornada. Resta-nos, assim, nunca perder a esperança e a alegria de viver. Mesmo porque, se será coisa boa, ou coisa ruim… quem há de saber?

trevo de quatro folhas - Cópia