Aprender…

Por Ancilla Dall’ Onder Zatt 

ancila@italnet.com.br 

A cada dia aprendemos coisas novas e, então, nos damos conta da celeridade das mudanças a que assistimos e também de algumas das quais participamos ou realizamos em nossas vidas.

Leonardo Da Vinci costumava dizer que “aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”. Com efeito, todos nós humanos, nascemos com um potencial enorme a ser explorado e desenvolvido, ou seja, todos somos capazes de aprender, se os estímulos oferecidos forem adequados. Mas não é suficiente termos potencial, é preciso “querer aprender”, o que requer disciplina e acreditar no próprio potencial, com suas possibilidades.

O estudo proporciona conhecimento, abre horizontes para o futuro e aponta caminhos desconhecidos. Convém lembrar que a informação pode ser dada e/ou buscada, enquanto o conhecimento é construído com o estudo, interações, empenho e perseverança. Aliás, a perseverança esteve presente na vida do criador da lâmpada, Thomas Alva Edison, que, após mais de mil experimentos, ou tentativas, nos brindou com o seu invento.

Contudo, é a educação e não o ter que acrescenta valor à formação do caráter da pessoa que, no entender de Kaut: “O ser humano é aquilo que a educação faz dele”. Percebe-se, assim, que investir em educação em todos os níveis de escolaridade é investir no desenvolvimento em todos os aspectos. Investir recursos na educação dos filhos, dos estudantes e dos cidadãos – jovens e adultos – é essencial, todavia, é preciso que haja vontade de aprender. A reflexão sobre o processo de aprender demanda questionamentos de caráter pessoal, institucional e populacional. O que realmente desejo aprender?

Pertencemos a uma instituição aprendente? Que aprendizagens são essenciais a cada um, às organizações e a todo cidadão para que promova seu desenvolvimento pessoal e possa contribuir com o seu saber e sua experiência para o bem da coletividade?

Estes questionamentos e outros mais permitem uma reflexão simples no caminho do enfrentamento das mudanças pelas quais a sociedade passa nos costumes e hábitos, nas empresas, na comunicação, na gestão das empresas, no empreendedorismo e em inúmeras outras circunstâncias que nos induzem a aprender e aprender continuamente.

Não basta aceitar as mudanças, mas assimilá-las, adequando-as às necessidades cotidianas, como é o caso da tecnologia, em qualquer nível e, quiçá, promovê-las, aperfeiçoando ou até substituindo, com o intuito de conquistar melhorias.

Em resumo, é preciso aprender continuamente.

livro

Valores

Por Ancila Dall’Onder Zat 

Professora

ancila@italnet.com.br 

O ritmo acelerado das inovações tecnológicas, aliadas ao crescente volume de informações advindas de diferentes formas, são algumas das características que impactam na educação no Século XXI. Educar é necessário, mas como?

Ouve-se, com frequência, que a educação vem “de casa”, isto é, um direito e um dever dos pais. Todavia, é milenar a prática e o desejo de passar os valores familiares aos descendentes. Entretanto, a convivência familiar de outrora permitia mais tempo dos pais com os seus filhos, situação nem sempre possível na modernidade, em que a escola dá continuidade a esse processo. Não falo do ensino, mas de valores, aprendidos pelo exemplo e pela convivência.

Piangers escreveu recentemente, em Donna ZH, sua reflexão sobre valores, ao ser perguntado sobre “Quais valores você quer passar para suas filhas?”. Explica que nem sempre se consegue o que se deseja passar, mas vale a pena tentar. Desejaria que suas filhas aprendessem o valor da vida em família e que saibam dizer “com licença, por favor e
obrigado”.

A reflexão sobre valores nos remete a valorar a vida, a convivência familiar, a saúde, o respeito às diferenças, nas formas de pensar e ser, e ao meio ambiente, o planeta, nossa casa maior. Não podemos esquecer a força da amizade que inicia na família, com os vizinhos próximos, com os colegas de escola ou de trabalho, com quem se pode dialogar, dividir preocupações e sucessos, pois nunca se está só quando se tem amigos. Mário Quintana costumava dizer que “a amizade é o amor que nunca morre”.

Quando pensamos em valores, muito poderia ser dito, entretanto, lembramos que a leitura, como disse Piangers, “talvez seja um deles”, trazendo à nossa mente a figura dos pais de família lendo para seus filhos. A reflexão em valores é um tema que não se esgota ao lembrar o amor ao trabalho, cantado em versos por Olavo Bilac, e expresso em nossa região pelo Monumento ao Imigrante. Aqui, faço um parêntese para lembrar meu ingresso na escola estadual, cujo pórtico de entrada estava e está escrito “Labor Omnia Vincit”, quando eu tentava decifrar o seu significado. Ou seja, “o trabalho sempre vence”, salientando a importância do trabalho para a sobrevivência e para a dignidade do ser humano.

Enfim, cultivar valores é educar para um mundo melhor.

educação

Do livro à leitura

Do livro à leitura

Por Ancilla Dall’ Onder Zat

Professora 

Comemora-se, no dia 23 de abril, o Dia Mundial do Livro, mas pouco se reflete sobre o seu significado através dos tempos.

O homem utilizou os mais diferentes materiais para registrar sua passagem pela terra desde a pintura rupestre (escrita e pintura no rochedo) ao e-Book dos dias atuais.  Assim, ao olhar para a pequena Gabriela, de oito meses, virando curiosamente as páginas de seu livro de pano, percebe-se o significado inicial dado pelos dicionários ao livro: “reunião de folhas ou cadernos presos por um dos lados em capa flexível ou rígida”. Através dos tempos variaram as folhas de papiro, pergaminho, papel e/ou virtual, conservando a essência da sua finalidade.

É interessante lembrar que a escrita no papiro deu surgimento à classe dos escribas, enquanto o pergaminho, de maior durabilidade, favoreceu a conservação de ideias e da história.

Na Idade Média, os mosteiros eram os guardiões dos livros sagrados, inclusive a Bíblia, e os copistas transcreviam obras do pensamento grego e atuais daquela época. Convém lembrar a invenção da prensa por Gutemberg para estudar melhor o processo de evolução para o livro impresso. Hoje, o livro digitalizado pode ser lido no seu celular ou tablet, facilitando o acesso às obras e a leitura das mesmas.

Em 1926, a Câmara de Barcelona oficializou o Dia do Livro, 5 de abril, data de nascimento do escritor Miguel de Cervantes, que foi proposta pelo escritor Valenciano Vincet Clavel Andrés. Entretanto, em 1995, foi criado o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, organizado pela Unesco, para promover o prazer da leitura, a publicação de livros e a proteção dos direitos autorais de quem escreve. Esse dia, 23 de abril, lembra a data de morte de William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Graciliano de la Vega. Na tradição catalã, que comemora São Jorge nesse dia, é costume dar uma rosa para quem compra um livro.

Em abril, dia 18, comemora-se também o Dia do Livro Infantil, em homenagem a Monteiro Lobato, numa referência à data de seu nascimento. Aliás, no Brasil comemora-se o Dia Nacional do Livro e a Semana da Biblioteca, de 23 a 29 de outubro, desde 1980, para incentivar o ensino, a pesquisa e extensão.

As datas não são apenas lembretes, mas um incentivo à leitura, cujo hábito deve ser desenvolvido desde cedo em casa pelos pais e na escola pelos professores. A leitura abre as portas para o conhecimento e dá asas à imaginação. Este é o significado e o sentido do livro, não importando se for de pano, papel ou virtual.

Dezembro

ancila

Ancilla Dall´Onder
Professora
ancila@italnet.com.br Zat

O mês de dezembro é pródigo em comemorações e datas significativas em muitos e variados aspectos. É o de fato chamado mês dos presentes. Inicia com o dia primeiro, lembrando o bem-aventurado Charles de Foucauld, pela sua luta contra a Aids e, poucos dias depois, comemora-se o lendário São Nicolau de Mira, origem figurativa do Papai Noel.

A Imaculada Conceição de Nossa Senhora é comemorada em 8 de dezembro, juntamente com o Dia Nacional da Família e também o da Justiça. Comemora-se, dias depois, o da Bíblia dos Direitos Humanos e de Nossa Senhora de Guadalupe. Não podemos esquecer Santa Luzia, protetora dos olhos, e São João da Cruz, com sua afirmação: “Quem ama não se cansa e não cansa os outros”.

Em dezembro também comemoramos o Dia Internacional do Migrante, do passado e da atualidade, na sensibilidade humana em relação ao processo migratório. Por outro lado, a Primavera, que nos brindou com o espetáculo da exuberância da natureza, cede espaço ao verão, com o seu calor natural e, por derivação, espera-se também o calor humano entre as pessoas.

Mas a data máxima de dezembro e do ano é o Natal, quando celebramos o nascimento de Jesus, em família, entre abraços e presentes, precedidos pela oração. Não podemos esquecer que Jesus de Nazaré nasceu em Belém, por um chamamento dos pais Maria e José, para responder ao censo ordenado pelo imperador romano César Augusto. Na manjedoura, que lhe serviu de berço, revelou a sua humildade para crescer em virtudes e sabedoria: “amar ao próximo como a ti mesmo”, em princípio de igualdade e respeito entre as pessoas. O Natal imprime em todos nós sentimentos nobres de amor ao próximo, de solidariedade, de partilha e, sobretudo, de esperança.

Após o Natal lembramos Santo Estevão, o primeiro mártir da Igreja, e a Sagrada Família, comemorada em trinta de dezembro, enquanto aguardamos o findar de mais um ano em 31 de dezembro, o dia da Esperança.

A esperança sempre esteve presente entre os seres humanos pois encerra, em seu significado e sentido, o desejo de realização de que algo de bom aconteça, isto é, motiva e estimula o alcance de objetivos em qualquer idade.

Todo final de ano é propício para uma reflexão sobre a trajetória realizada. É nesse clima de reflexão e de esperança que desejamos um Ano Novo de muita alegria, saúde e paz.

Avaliar…

ancila

Por Ancila Dall’Onder Zat

É comum, no período que antecede o Natal e o final de ano, observar-se na mídia diversas premiações com que pessoas, empresas, instituições e organizações são distinguidas pelo seu desempenho.

Da mesma forma, instituições de ensino, bem como seus estudantes, recebem o chamamento para o Enem, para o Enade e/ou vestibular de ingresso para a universidade. Aliás, os estudantes do Ensino Médio, Fundamental e Superior deparam-se com trabalhos e provas no final do ano ou semestre, preparados ou não, participam desses procedimentos regulamentares. Concluintes da graduação ou da pós-graduação preocupam-se com seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) ou monografias que, além do pensamento científico em suas abordagens, requer a expressão escrita e oral, esta perante a banca examinadora, com boa dose de argumentação.

Tais fatos são reais e se repetem anualmente, como forma de constatar o desempenho regulamentar ou não, para verificar o real alcance dos objetivos estabelecidos, previstos no planejamento de origem. Poder-se-ia afirmar que em todas essas circunstâncias têm-se a presença inevitável da avaliação. Mas o que se entende realmente por avaliação? Será medir? Mede-se estaturas, altura de prédios, pesos, temperaturas, e pode-se quantificar número de respostas corretas ou adequadas, mas o conhecimento poderia ser medido ou quantificado?

Contudo, sabe-se pela taxionomia de Bloom, que para compreender algo há a necessidade de conhecer e que para aplicar, por exemplo, uma adição num problema matemático é preciso primeiro entender o que é e em que circunstâncias se aplica a adição. Assim, ao analisar algo, é preciso desmembrar esse algo em seus elementos, que poderão ser reorganizados de forma idêntica ou inovadora (criatividade) em síntese. Percebe-se que avaliar não é tão simples por basear-se em elementos dispostos de forma ascendente no conhecer, fazer ser e conviver, porque ao avaliar também julga-se, porém com base em objetivos claros, critérios e normas definidas no planejamento específico de cada situação.

A avaliação encerra um ciclo iniciado pelo planejamento, mas se for efetuada em critérios claros, bem definidos, ameniza a sua complexidade e poderá oferecer subsídios, isto é, elementos para o planejamento de um novo ciclo.

A avaliação é também um processo de acompanhamento de cada situação expresso em nota, conceito ou parecer, fruto de exaustiva reflexão realizada pelo avaliador.

Avaliar é preciso, seja de forma pessoal, escolar, institucional, de desempenho profissional e outras formas, por elencar elementos e perspectivas de crescimento e aperfeiçoamento. Portanto, avaliar vai muito além de medir ou quantificar por requerer o julgamento de uma situação, isto é, uma profunda reflexão circunstanciada.

Entre o ensinar e o aprender

Por Ancilla Dall´Onder Zat
Professora
ancila@italnet.com.br 

O processo de ensinar e aprender, embora distintos, se entrelaçam, não obstante o primeiro se concretize quando acontece o segundo. O “aprender precedeu o ensinar, ou, em outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender” (Freire).

Ao realizar a semeadura, o agricultor seleciona o tipo de cultura adequado ao solo que conhece e as influências climáticas a que está sujeito, sem esquecer a produtividade. É imprescindível a vontade para aprender, pois esta é decisão do aluno, por isso busca-se com propriedade o conhecimento das possibilidades, dificuldades e desafios inerentes ao grupo onde a docência encontra a discência, ou seja, a realidade concreta. Esta busca se traduz na sondagem e avaliação diagnóstica realizada pelo docente. Freire lembra que, ao descobrir-se, é possível ensinar, não apenas como tarefa no aprender, mas como processo, este é capaz de despertar no aprendiz a curiosidade que pode torna-lo mais criativo.

Percebe-se ser indispensável o envolvimento do estudante na sua formação e aprendizagem, de cujo processo deriva a ação, sem ativismo ou conteudismo, mas uma ação consciente do sujeito que se constrói por ser inacabado. Contudo, enfatiza-se a necessidade do educador criar condições para que o educando se desenvolva de forma biopsicossocial, mas o querer aprender é um valor construído historicamente pelo envolvimento, experiência e socialização.

Para despertar o interesse e a atuação do estudante, o professor, na contemporaneidade, adota metodologias ativas, que parecem propiciar essas perspectivas, se contrapondo à educação bancária criticada por Freire. Entretanto, para não cair no ativismo da ação pela ação, é preciso ir mais além dos conteúdos, isto é, ensinar a pensar certo. Assim, para desencadear esse processo, o professor propõe projetos, problemas, jogos e outras formas em que o estudante participe, leia, pesquise e esteja atento na construção do seu próprio saber.

Ao professor cabem tarefas árduas como planejar, propor, dialogar, mediar, orientar e avaliar, mas ao estudante cabe a escolha, o querer aprender, no exercício do direito à educação.

Docência e discência são os lados de uma moeda ou, sem discência não há docência, mas ambos são artífices da construção de uma sociedade digna, justa e solidária.

Nossa homenagem às crianças, presente e futuro do país, e aos professores pelo trabalho de construção de uma sociedade melhor.

Setembro!

Ancilla Dall´Onder Zat

Professora ancila@italnet.com.br

O incêndio que recentemente atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, fato lamentável, mas previsto, chamou a atenção dos brasileiros para um bem maior, o “nosso patrimônio histórico”, que guarda a memória da nossa identidade cultural. Assim como os pais procuram ensinar aos seus filhos os costumes e as tradições da família, que guardam suas origens, um povo também procura a transmissão intergeracional para que não se percam as raízes.

Cada país adota uma língua pátria falada pelos seus habitantes, os filhos da pátria, que pelo idioma escrito e falado mantém o elo de ligação nacional. Algumas variações podem ocorrer, como no sotaque, da língua culta para a coloquial ou popular. No italiano temos os dialetos derivados dos diferentes contextos de origem e locais. Entretanto, os descendentes dos italianos guardam em sua cultura o “Talian”. Mas falar e escrever corretamente a língua pátria, no nosso caso, a Língua Portuguesa, é, antes de mais nada, um gesto de amor à Pátria.

Aliás, o amor à pátria é também amor à cultura e à tradição de um povo, que não se expressa apenas na Semana da Pátria, mas cotidianamente, cada um fazendo a sua parte pelo bem comum. Nosso país é rico em diversidade cultural, colonizado pelos portugueses, habitado por índios de diversas tribos, recebeu os africanos, os alemães, os italianos, os poloneses e de muitos outros países, inclusive no pós-guerra da Segunda Guerra mundial. Recentemente, vieram os haitianos, senegaleses e estão chegando os venezuelanos. O Brasil e um país acolhedor e rico culturalmente. Apesar da variedade de costumes e de idiomas, a convivência sadia respeita as manifestações culturais de cada povo, inclusive que a tradição gaúcha se expresse de forma significativa. Não me refiro apenas às manifestações que ocorrem na Semana Farroupilha, mas a todo um cenário conservado, como é o caso de Piratini, que respira história, uma história bem conservada. E o que dizer do Castelo de Pedras Altas?

O Estado respira cultura tradicionalista nos CTGs, nas cavalgadas, na referência aos seus ícones, como o que perdemos recentemente, Paixão Cortes, compositor, folclorista, radialista e pesquisador da cultura gaúcha.

Como se percebe, setembro é um mês especial, evidencia a Pátria e a cultura gaúcha em especial. Lamento não ter podido visitar o Museu Nacional quando realizei curso de pesquisa para orientadores de estudos monográficos na UFRJ, mas, em compensação, guardo com carinho o nascimento do Museu do Imigrante, em 1965, no Mestre Santa Bárbara. É a nossa história!

Enfim, setembro nos brinda com uma nova estação: a Primavera.

Educação para a Cidadania

matemáticaOs Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) indicam, entre outros, como objetivos do Ensino Fundamental, que os alunos sejam capazes de “compreender a cidadania como participação social e política…” e, em consequência, o exercício de direitos e deveres.

A afirmação nos remete, inicialmente, ao conceito de cidadania explicitado com propriedade pelo dicionário Aurélio como “qualidade ou estado de cidadão”, que é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Já na filosofia grega, o cidadão da polis – cidade –  submetia-se às suas leis na vivência da cidadania.

O escocês Gert Biesta, em seu artigo intitulado “Boa Educação na era da mensuração”, analisa e comenta os resultados das avaliações educacionais à luz das finalidades da educação. Ao fazê-lo lembra que uma boa educação precisa fazer distinção entre três funções: qualificação, socialização e subjetivação. Nesse sentido, apresenta duas propostas de educação para a cidadania baseadas na literatura e na matemática, ou melhor, na educação matemática.

Percebe-se o vigor da proposta ao enfatizar o sentido social da matemática no ensinar/aprender, norteado pela satisfação que o indivíduo sente ao usar a ciência no seu cotidiano, resolvendo problemas na condição de cidadão. É nesse sentido que a formação de hábitos, como o estudo diário e atitudes como o predispor-se a fazê-lo, favorecem a construção dos conceitos quantitativos e operatórios básicos para aprendizagens mais avançadas, que vivificam a convivência social em sua complexidade.

É curioso observar que o sentido social de uma educação matemática se revela desde cedo em pequenas ações de estimativas, de troco, de partilha, de troca e/ou conversão de moedas de países diferentes, na adoção de um sistema comum de medidas entre os países e em muitas outras situações.

Uma proposta de educação para a cidadania baseada na educação matemática deixa claro a necessidade de qualificação, ou seja, do conhecimento, das habilidades de cálculo, do raciocínio e, sobretudo, da compreensão matemática para tornar-se proeficiente e, assim, poder vivenciar no social a subjetivação em valores como a disciplina, o rigor, a correção e a justiça no pleno exercício dos direitos e deveres do cidadão.

Considero que a afirmação de Biesta mostra que a educação matemática tem muito a contribuir para a cidadania.

Alteridade: a visão do outro

ancilaAncila Dall´Onder Zat

Estava participando de um seminário de pesquisa qualitativa, quando tive contato pela primeira vez com o termo. Um tanto distraída anotei literalidade, mas a colega ao lado advertiu-me que era “alteridade”.

Fui ao dicionário Aurélio: “caráter ou qualidade do que é outro”. A explicação não era suficiente, porque pensava que outras palavras também tinham algo a ver “com o outro”, como solidariedade, bondade, piedade, amizade… pois não existiriam sem o outro. Mas, não poderia generalizar com a simples dedução. Por isso, prossegui na busca de significado no Aurélio (1ª ed., p.75). Para surpresa, não encontrei o vocábulo, entretanto explicava o significado de “alter ego”, no latim “outro eu”, ou seja, “amigo íntimo no qual se pode confiar, tanto como em si mesmo”.

A busca de outras fontes remeteu à Antropologia, que estuda “o homem inteiro” em todas as sociedades de forma contextualizada e salienta a importância da palavra “alteridade”. Todavia, a Antropologia, por estudar o Homem em sua plenitude e os fenômenos que o envolvem, é considerada a ciência da alteridade. Laplantine (2007), em sua obra, destaca a descoberta da alteridade, ou seja, a relação que nos permite identificar nossa pequena província de humanidade com a humanidade e, ao mesmo tempo, reconhecer o “outro” como semelhante, embora distinto com suas características peculiares. Ainda, a alteridade é distinta da empatia que “é identificar-se totalmente com o outro”.

Cortella (2015) refere-se à “capacidade de ver o outro como outro, e não como estranho”. Como somos para nós e para os outros? O autor exemplifica a arrogância como a incapacidade de alguém ter a visão de alteridade. Relaciona a arrogância e a ganância nessa perspectiva, explicando que a pessoa ambiciosa é a que quer mais, enquanto a gananciosa quer mais só para si.

Voltando ao termo, li que alter significa “o outro” e alius indica “o estranho”, termos que possibilitam entender o significado de: alienado, alheio, alien, alienígena, forasteiro e/ou estrangeiro para aquele que não é como nós ou assim considerado, evidenciando a não alteridade. A palavra também nos remete à filosofia de Platão, à lógica de Hegel e ao existencialismo do século XX.

Enfim, retornando ao caderno de anotações do Seminário de Pesquisa, observei ter escrito ao lado da palavra “alteridade”: a chegada do outro, fator humano e social, reconhecer-me também! Esta é a minha visão de alteridade!

As festas de junho

Por Ancila Dall Onder Zat

As folhas coloridas formam tapetes nos jardins, pomares, encostas e até mesmo nas calçadas: é o outono, que logo mais se despede e anuncia a proximidade do inverno. É o mês de junho chegando com suas festas religiosas.

A primeira delas é a de Santo Antônio, nosso padroeiro, celebrada no dia 13 não só pelos paroquianos, mas também pelos fiéis peregrinos que acorrem pela fé, devoção e graças alcançadas. Denominado de Santo Casamenteiro, atraiu para a véspera de sua festa a data dos namorados. Entretanto, a fé dos devotos atribui ao grande Santo também a recuperação da saúde e de objetos perdidos, entre outras inúmeras graças. A ele nossa devoção e homenagem, gratos por termos sido festeiros de uma de suas festas.

Poucos dias após a festa de Santo Antônio e antecedendo os festejos coloridos de São João, junho lembra o protetor dos jovens, São Luiz, que expressa a pureza da juventude.

São João também é festejado em junho. Seus festejos ocorrem na véspera de 24 de junho ou na mesma semana. Sobressai-se pela alegria das músicas, danças, trajes típicos, arraiais coloridos, fogueiras e festas nas escolas. É uma forma de reverenciar o anúncio do seu nascimento. Em meio a tanta alegria, quem resiste às delícias como pinhão, pipoca, amendoim ou quentão…

O mês encerra os festejos em 29 de junho, com São Pedro, fiel apóstolo de Jesus. A ele foram confiadas as chaves do céu, como aprendemos desde cedo. Do tempo de criança, guardamos a fé dos imigrantes e seus descendentes, entre os quais me incluo. Passei minha infância onde nasci, no distrito de São Pedro, também conhecido por Caminhos de Pedra. Guardo na memória a “Sagra”, como era chamada a festa máxima da localidade.

A festa de São Pedro consistia numa missa solene pela manhã e almoço, quase sempre em família. À tarde, havia a reza do terço, do qual participavam, principalmente, as mulheres, os jovens e as crianças.

As festividades comemorativas ao Santo padroeiro eram esperadas com ansiedade por todos, entretanto, para os jovens era a oportunidade de se reunirem com outros jovens e, quem sabe, na troca de olhares, encontrarem o futuro namorado ou namorada. Enquanto isso, as crianças brincavam sem desperdiçar um instante, era a imaginação acalentando sonhos e esperança no porvir. Tudo acontecia sob o olhar atento das mães, que conversavam entre si.

Entre os jogos oferecidos estava a pesca, o pau de sebo, do qual não cheguei a participar; as bochas e as cartas eram as preferidas pelos homens. Para o dia da festa, os cabelos e as unhas eram aparados, ganhávamos roupas e sapatos novos. O almoço em casa era melhorado. Não faltava sopa de capeletti, frango e doces. Era uma delícia! Essa era a Sagra de São Pedro vivida na fé e no aconchego da família.

Junho, pródigo na fé e na devoção, se despede após a festa de São Pedro.