Entre o ensinar e o aprender

Por Ancilla Dall´Onder Zat
Professora
ancila@italnet.com.br 

O processo de ensinar e aprender, embora distintos, se entrelaçam, não obstante o primeiro se concretize quando acontece o segundo. O “aprender precedeu o ensinar, ou, em outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender” (Freire).

Ao realizar a semeadura, o agricultor seleciona o tipo de cultura adequado ao solo que conhece e as influências climáticas a que está sujeito, sem esquecer a produtividade. É imprescindível a vontade para aprender, pois esta é decisão do aluno, por isso busca-se com propriedade o conhecimento das possibilidades, dificuldades e desafios inerentes ao grupo onde a docência encontra a discência, ou seja, a realidade concreta. Esta busca se traduz na sondagem e avaliação diagnóstica realizada pelo docente. Freire lembra que, ao descobrir-se, é possível ensinar, não apenas como tarefa no aprender, mas como processo, este é capaz de despertar no aprendiz a curiosidade que pode torna-lo mais criativo.

Percebe-se ser indispensável o envolvimento do estudante na sua formação e aprendizagem, de cujo processo deriva a ação, sem ativismo ou conteudismo, mas uma ação consciente do sujeito que se constrói por ser inacabado. Contudo, enfatiza-se a necessidade do educador criar condições para que o educando se desenvolva de forma biopsicossocial, mas o querer aprender é um valor construído historicamente pelo envolvimento, experiência e socialização.

Para despertar o interesse e a atuação do estudante, o professor, na contemporaneidade, adota metodologias ativas, que parecem propiciar essas perspectivas, se contrapondo à educação bancária criticada por Freire. Entretanto, para não cair no ativismo da ação pela ação, é preciso ir mais além dos conteúdos, isto é, ensinar a pensar certo. Assim, para desencadear esse processo, o professor propõe projetos, problemas, jogos e outras formas em que o estudante participe, leia, pesquise e esteja atento na construção do seu próprio saber.

Ao professor cabem tarefas árduas como planejar, propor, dialogar, mediar, orientar e avaliar, mas ao estudante cabe a escolha, o querer aprender, no exercício do direito à educação.

Docência e discência são os lados de uma moeda ou, sem discência não há docência, mas ambos são artífices da construção de uma sociedade digna, justa e solidária.

Nossa homenagem às crianças, presente e futuro do país, e aos professores pelo trabalho de construção de uma sociedade melhor.

Setembro!

Ancilla Dall´Onder Zat

Professora ancila@italnet.com.br

O incêndio que recentemente atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, fato lamentável, mas previsto, chamou a atenção dos brasileiros para um bem maior, o “nosso patrimônio histórico”, que guarda a memória da nossa identidade cultural. Assim como os pais procuram ensinar aos seus filhos os costumes e as tradições da família, que guardam suas origens, um povo também procura a transmissão intergeracional para que não se percam as raízes.

Cada país adota uma língua pátria falada pelos seus habitantes, os filhos da pátria, que pelo idioma escrito e falado mantém o elo de ligação nacional. Algumas variações podem ocorrer, como no sotaque, da língua culta para a coloquial ou popular. No italiano temos os dialetos derivados dos diferentes contextos de origem e locais. Entretanto, os descendentes dos italianos guardam em sua cultura o “Talian”. Mas falar e escrever corretamente a língua pátria, no nosso caso, a Língua Portuguesa, é, antes de mais nada, um gesto de amor à Pátria.

Aliás, o amor à pátria é também amor à cultura e à tradição de um povo, que não se expressa apenas na Semana da Pátria, mas cotidianamente, cada um fazendo a sua parte pelo bem comum. Nosso país é rico em diversidade cultural, colonizado pelos portugueses, habitado por índios de diversas tribos, recebeu os africanos, os alemães, os italianos, os poloneses e de muitos outros países, inclusive no pós-guerra da Segunda Guerra mundial. Recentemente, vieram os haitianos, senegaleses e estão chegando os venezuelanos. O Brasil e um país acolhedor e rico culturalmente. Apesar da variedade de costumes e de idiomas, a convivência sadia respeita as manifestações culturais de cada povo, inclusive que a tradição gaúcha se expresse de forma significativa. Não me refiro apenas às manifestações que ocorrem na Semana Farroupilha, mas a todo um cenário conservado, como é o caso de Piratini, que respira história, uma história bem conservada. E o que dizer do Castelo de Pedras Altas?

O Estado respira cultura tradicionalista nos CTGs, nas cavalgadas, na referência aos seus ícones, como o que perdemos recentemente, Paixão Cortes, compositor, folclorista, radialista e pesquisador da cultura gaúcha.

Como se percebe, setembro é um mês especial, evidencia a Pátria e a cultura gaúcha em especial. Lamento não ter podido visitar o Museu Nacional quando realizei curso de pesquisa para orientadores de estudos monográficos na UFRJ, mas, em compensação, guardo com carinho o nascimento do Museu do Imigrante, em 1965, no Mestre Santa Bárbara. É a nossa história!

Enfim, setembro nos brinda com uma nova estação: a Primavera.

Educação para a Cidadania

matemáticaOs Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) indicam, entre outros, como objetivos do Ensino Fundamental, que os alunos sejam capazes de “compreender a cidadania como participação social e política…” e, em consequência, o exercício de direitos e deveres.

A afirmação nos remete, inicialmente, ao conceito de cidadania explicitado com propriedade pelo dicionário Aurélio como “qualidade ou estado de cidadão”, que é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Já na filosofia grega, o cidadão da polis – cidade –  submetia-se às suas leis na vivência da cidadania.

O escocês Gert Biesta, em seu artigo intitulado “Boa Educação na era da mensuração”, analisa e comenta os resultados das avaliações educacionais à luz das finalidades da educação. Ao fazê-lo lembra que uma boa educação precisa fazer distinção entre três funções: qualificação, socialização e subjetivação. Nesse sentido, apresenta duas propostas de educação para a cidadania baseadas na literatura e na matemática, ou melhor, na educação matemática.

Percebe-se o vigor da proposta ao enfatizar o sentido social da matemática no ensinar/aprender, norteado pela satisfação que o indivíduo sente ao usar a ciência no seu cotidiano, resolvendo problemas na condição de cidadão. É nesse sentido que a formação de hábitos, como o estudo diário e atitudes como o predispor-se a fazê-lo, favorecem a construção dos conceitos quantitativos e operatórios básicos para aprendizagens mais avançadas, que vivificam a convivência social em sua complexidade.

É curioso observar que o sentido social de uma educação matemática se revela desde cedo em pequenas ações de estimativas, de troco, de partilha, de troca e/ou conversão de moedas de países diferentes, na adoção de um sistema comum de medidas entre os países e em muitas outras situações.

Uma proposta de educação para a cidadania baseada na educação matemática deixa claro a necessidade de qualificação, ou seja, do conhecimento, das habilidades de cálculo, do raciocínio e, sobretudo, da compreensão matemática para tornar-se proeficiente e, assim, poder vivenciar no social a subjetivação em valores como a disciplina, o rigor, a correção e a justiça no pleno exercício dos direitos e deveres do cidadão.

Considero que a afirmação de Biesta mostra que a educação matemática tem muito a contribuir para a cidadania.

Alteridade: a visão do outro

ancilaAncila Dall´Onder Zat

Estava participando de um seminário de pesquisa qualitativa, quando tive contato pela primeira vez com o termo. Um tanto distraída anotei literalidade, mas a colega ao lado advertiu-me que era “alteridade”.

Fui ao dicionário Aurélio: “caráter ou qualidade do que é outro”. A explicação não era suficiente, porque pensava que outras palavras também tinham algo a ver “com o outro”, como solidariedade, bondade, piedade, amizade… pois não existiriam sem o outro. Mas, não poderia generalizar com a simples dedução. Por isso, prossegui na busca de significado no Aurélio (1ª ed., p.75). Para surpresa, não encontrei o vocábulo, entretanto explicava o significado de “alter ego”, no latim “outro eu”, ou seja, “amigo íntimo no qual se pode confiar, tanto como em si mesmo”.

A busca de outras fontes remeteu à Antropologia, que estuda “o homem inteiro” em todas as sociedades de forma contextualizada e salienta a importância da palavra “alteridade”. Todavia, a Antropologia, por estudar o Homem em sua plenitude e os fenômenos que o envolvem, é considerada a ciência da alteridade. Laplantine (2007), em sua obra, destaca a descoberta da alteridade, ou seja, a relação que nos permite identificar nossa pequena província de humanidade com a humanidade e, ao mesmo tempo, reconhecer o “outro” como semelhante, embora distinto com suas características peculiares. Ainda, a alteridade é distinta da empatia que “é identificar-se totalmente com o outro”.

Cortella (2015) refere-se à “capacidade de ver o outro como outro, e não como estranho”. Como somos para nós e para os outros? O autor exemplifica a arrogância como a incapacidade de alguém ter a visão de alteridade. Relaciona a arrogância e a ganância nessa perspectiva, explicando que a pessoa ambiciosa é a que quer mais, enquanto a gananciosa quer mais só para si.

Voltando ao termo, li que alter significa “o outro” e alius indica “o estranho”, termos que possibilitam entender o significado de: alienado, alheio, alien, alienígena, forasteiro e/ou estrangeiro para aquele que não é como nós ou assim considerado, evidenciando a não alteridade. A palavra também nos remete à filosofia de Platão, à lógica de Hegel e ao existencialismo do século XX.

Enfim, retornando ao caderno de anotações do Seminário de Pesquisa, observei ter escrito ao lado da palavra “alteridade”: a chegada do outro, fator humano e social, reconhecer-me também! Esta é a minha visão de alteridade!

As festas de junho

Por Ancila Dall Onder Zat

As folhas coloridas formam tapetes nos jardins, pomares, encostas e até mesmo nas calçadas: é o outono, que logo mais se despede e anuncia a proximidade do inverno. É o mês de junho chegando com suas festas religiosas.

A primeira delas é a de Santo Antônio, nosso padroeiro, celebrada no dia 13 não só pelos paroquianos, mas também pelos fiéis peregrinos que acorrem pela fé, devoção e graças alcançadas. Denominado de Santo Casamenteiro, atraiu para a véspera de sua festa a data dos namorados. Entretanto, a fé dos devotos atribui ao grande Santo também a recuperação da saúde e de objetos perdidos, entre outras inúmeras graças. A ele nossa devoção e homenagem, gratos por termos sido festeiros de uma de suas festas.

Poucos dias após a festa de Santo Antônio e antecedendo os festejos coloridos de São João, junho lembra o protetor dos jovens, São Luiz, que expressa a pureza da juventude.

São João também é festejado em junho. Seus festejos ocorrem na véspera de 24 de junho ou na mesma semana. Sobressai-se pela alegria das músicas, danças, trajes típicos, arraiais coloridos, fogueiras e festas nas escolas. É uma forma de reverenciar o anúncio do seu nascimento. Em meio a tanta alegria, quem resiste às delícias como pinhão, pipoca, amendoim ou quentão…

O mês encerra os festejos em 29 de junho, com São Pedro, fiel apóstolo de Jesus. A ele foram confiadas as chaves do céu, como aprendemos desde cedo. Do tempo de criança, guardamos a fé dos imigrantes e seus descendentes, entre os quais me incluo. Passei minha infância onde nasci, no distrito de São Pedro, também conhecido por Caminhos de Pedra. Guardo na memória a “Sagra”, como era chamada a festa máxima da localidade.

A festa de São Pedro consistia numa missa solene pela manhã e almoço, quase sempre em família. À tarde, havia a reza do terço, do qual participavam, principalmente, as mulheres, os jovens e as crianças.

As festividades comemorativas ao Santo padroeiro eram esperadas com ansiedade por todos, entretanto, para os jovens era a oportunidade de se reunirem com outros jovens e, quem sabe, na troca de olhares, encontrarem o futuro namorado ou namorada. Enquanto isso, as crianças brincavam sem desperdiçar um instante, era a imaginação acalentando sonhos e esperança no porvir. Tudo acontecia sob o olhar atento das mães, que conversavam entre si.

Entre os jogos oferecidos estava a pesca, o pau de sebo, do qual não cheguei a participar; as bochas e as cartas eram as preferidas pelos homens. Para o dia da festa, os cabelos e as unhas eram aparados, ganhávamos roupas e sapatos novos. O almoço em casa era melhorado. Não faltava sopa de capeletti, frango e doces. Era uma delícia! Essa era a Sagra de São Pedro vivida na fé e no aconchego da família.

Junho, pródigo na fé e na devoção, se despede após a festa de São Pedro.