Rogério Gava

Limites

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

um de meus mestres especiais é o francês André Comte-Sponville. Filósofo e escritor, há muito sou seu fã. Vale a pena prestar atenção no que ele diz. Em um de seus textos, André nos fala da questão dos “limites”. Me parece que poucos temas são tão essenciais para a vida em sociedade. Ainda mais nesses tempos um tanto fluidos, onde tudo tem a pretensão de ser permitido.

Perguntar o que é aceito, ou não, é entrar em terreno pantanoso. Pelo simples fato de que algo pode ser certo em meu ponto de vista, mas não para o estimado leitor e a prezada leitora. Ou vice-versa. Quem tem filhos bem o sabe. Cada família tem seus códigos, sua conduta, suas normas de educação. Permite-se algo em um lar que não se admite em outro. Assim nas escolas, empresas e qualquer outra instituição. Nos países e suas culturas.

Creio, no entanto, que todos concordamos em um ponto: “nem tudo pode ser permitido”. Do contrário, seria o caos. Para não dizer, a ‘barbárie”. Que ordem, no entanto, fixa os limites a serem respeitados? A ciência? A religião? A ética? A lei? Todos essas ao mesmo tempo? Afinal, qual a base para decidir se algo pode ser feito, ou não?

Recentemente, um cientista chinês foi condenado a três anos de prisão por ter criado bebês geneticamente modificados. A lei, nesse caso, buscou estabelecer um limite ao que pode ser feito pela ciência. Podemos concordar ou discordar em relação à condenação, se ela foi justa ou não, muito pesada ou até branda demais. Uma coisa, no entanto, é certa: a ciência não é capaz de impor limites a ela própria. A tecnologia apenas nos diz o que é possível ou impossível fazer. Se ‘deve” ser feito, bem, nesse ponto ela “lava as mãos”.

É por isso que precisamos de uma outra ordem, a impor limites na ciência, na economia ou em qualquer outra área técnico-científica. Essa ordem se chama “lei”. Há o que a lei autoriza (o legal) e o que a lei veda (o ilegal). Nas democracias, o povo elege seus representantes, e, esses, fazem as leis que deverão se cumprir. Mesmo que muitos com elas não concordem. Basta ver as recentes discussões sobre a descriminalização da maconha.

A lei, no entanto, não é universal. O aborto é permitido em alguns países; em outros, não. O mesmo acontece com as drogas, a pena de morte, a eutanásia, ou o consumo de bebida alcoólica. A lei é complexa e não resolve tudo. Se assim fosse o mundo não teria tanta desgraça. O fato é que acima da lei deve haver uma terceira ordem. André nos ensina que ela se chama “moral”.

A moral existe para vedar o que a lei não veda. Nenhuma lei proíbe o egoísmo, a maldade, o ódio. Ninguém é preso por desejar o mal a outrem. Quem me veda de ser um crápula não é a lei: é a consciência de que isso é desprezível. A verdade é que há coisas que a lei não veda, e que, no entanto, não devemos realizar. “Non omne quod licet honestum est”, já diziam os romanos, ensinando que “nem tudo o que é legal é honesto”. A consciência de um homem deve ser mais exigente do que a legislação.

A ciência, a lei e a moral são por demais necessárias; não são suficientes, porém. Falta-nos ainda, no entanto, a maior ordem de todas: a ordem do “amor”. O filósofo nos lembra que somente o amor nos dá a capacidade de ascender sobre as outras ordens, sem, no entanto, desprezá-las. Pelo amor vamos além do que é possível, do que é legal e do que é moral.

As quatro ordens se sucedem e completam: nenhuma é mais importante do que outra. Se estou em um supermercado fazendo compras habito a ordem da economia (ordem 1). A lei (ordem 2), me proíbe de ali roubar. Mas não me privo desse delito unicamente por ele ser vedado; me impeço de furtar, pois vivo em reciprocidade com as outras pessoas e, moralmente (ordem 3), sei que certas ações não devem ser praticadas, pois fraturam o bom funcionamento do coletivo. Por fim, ensino aos meus filhos, que amo (ordem 4), o certo a ser feito, pois quero que eles se tornem pessoas íntegras e ajudem a tornar o mundo um lugar melhor.

As ordens impõem limites; limites são fundamentais para a vida em comum. Sem eles, instala-se o caos. É só pensar nos escândalos de corrupção. Na violência. Ou naquele amigo “esperto”, que se gaba de não devolver o troco que veio a maior. Na base de nossos dilemas, quanta ordem subvertida!

Que as ordens não nos garantem tudo, é fato. O mundo real é por demais complexo. Onde a injustiça grassa, as ordens vacilam, dirão alguns. Quem passa fome tem o direito de roubar, já ouvi de outros. É o tal do “jeitinho brasileiro”, lembra ainda um colega. É fato, respondo. Mas sempre replico com uma simples pergunta: sem ordens e limites, como poderemos viver?

 

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