Amazonia

A Amazônia é

Por Júlia Beatriz de Freitas

juliabofsv@gmail.com 

Sou grande”, gritei internamente, e tive o silêncio como resposta. Depois, ouvi os cantares dos pássaros, o vento e os sons dos sapos.

Na Amazônia, o silêncio é preenchido pelo barulho dos sapos. Seja na cidade, seja no mato.

Cheguei aqui portada e carregada do imaginário da Amazônia. O que é a Amazônia para quem passou a vida longe dela? Área verde, uniforme, reta e quadrada. Talvez já se tenha, em inconsciente, as manches amarronzadas de desmate em expansão.

Cheguei e descobri, aos poucos, que a Amazônia é cheia de cidades, de gente e florestas diferentes.

Tem os feitiços, as visagens. As plantas que curam. A flor de algodão roxo ajuda bebê a nascer. A mungubeira explode em algodão que, na mão de humano, travesseiro vira; na de bicho-preguiça, comida.

Pra onde vim, no coração da Amazônia, a água desce e a água sobe. Os peixes que aqui estavam agora se espalham, os jacarés, em questão de meses, se adentram na mata alagada. Só são vistos à noite pelos olhos que brilham.

As casas de palafita estão preparadas: separam piso do chão, que logo é coberto pela água escura. É cheia, é tempo de chuva.

A água começa a descer e é bom pra pegar pirarucu, peixe gigante. Bom pra cultivar a mandioca, que depois vira farinha, redonda, amarelinha, que se come com o peixe ou se vende.

Vem e vai, vem e vai: eu descobri que a Amazônia é redonda.

“Eu tenho pra mim”, é como começam muitas das frases dos ribeirinhos da região pra onde vim. Respondem assim quando vão opinar ou lembrar de algum acontecimento.

Me lembraram, sem querer, da subjetividade dos acontecimentos. Parecem se eximir, inconscientemente, de dar algo como posto, como dado inquestionável. Cada experiência é uma.

O que aconteceu, aconteceu pra ‘mim’ assim. O outro pode ‘ter pra ele’ outra coisa.  Tem-se a certeza da experiência individualizada e única. Não se uniformiza, não a generaliza como fazem nossas pesquisas, de opinião e científica. Penso que é expressão de bondade.

Há, claro, os fatos, os bons e os ruins.

Os fatos estampados, às vezes, em manchetes que dão origem à estampa de sangue na terra, corroboram a existência de projetos de poder centrados na desmantelação e assassinato do que é vivo e bom, do que é sagrado, do que é humano, vegetal e animal. São projetos de lei, frases e decisões injustas aos que não tem o poder e são frágeis como as árvores, que sustentam o mundo.

Quem sustenta o mundo é frágil: rapidamente está no chão. De morte matada.

Copio aqui os ribeirinhos, com licença.

Eu tenho pra mim que a Amazônia é bonita e dolorosa. Fez-me me ver pequena em meio às árvores que nada querem e tudo são. Paradas se movem: largam suas sementes na água da cheia, que as leva para longe, onde nunca vão elas mesmo chegar. Ao menos não como indivíduo sozinho. Chegam como coletivo. Algumas das plantas da várzea, esse ecossistema alagável que mantém tudo embaixo d’água por metade do ano, tem memória.

Olhar os riscos de floresta cortados pelos rios pulsantes arranca de mim os meus fatos falsos. Tenho pra mim de que enchi-me de mim mesma, me adorno em postagens bonitas nas redes sociais, autosabotagem e de autoafirmações que escondem rios de insegurança, alimentados por um sistema que assim o deseja.

Tenho pra mim que a Amazônia é, em essência, feminina. É fato que é na Amazônia onde vive ‘dona’ Benta, indígena que criou a primeira associação de mulheres de uma área de mais de um milhão de hectares, no meio da Amazônia, cheia de centenas de comunidades. Ribeirinhos, indígenas dali, quilombolas, seringueiros, nordestinos, indígenas fugidos.

Tenho pra mim que a Amazônia não é nada romântica. Com o corpo lá, presente, a Amazônia não é ‘good vibes only’ como poses bonitas no Instagram. Ela domina e ensina a quem a ela se integra.

É fato que ensina a esses povos todos a sobreviver e lutar pelo viver em meio às interpéries de um bioma forte e ainda um tanto misterioso. Povos que enfrentam no diário a falta de escuta dos que mandam nas coisas dos homens, que estão ali embaixo, onde acreditam ser o centro do mundo.

Domina também, no macro da Terra. Mantém as terras férteis, o ar puro. Se efetivado, o ponto irreversível de sua destruição nos mostrará a importância dessa dominação amorosa e cheia de sons: de pulos de botos às palavras dos que ali estão, do português ou não.

As crianças aproveitam aqui as cheias para pular das árvores. Sobem e pulam e repetem de novo, como o ciclo da várzea. É fato. De novo, tenho pra mim que a Amazônia é redonda.

As previsões da crise climática mostram cheias ficando cada vez mais cheias e as secas, cada vez mais secas. A crise climática é fato.

Tenho pra mim que a Amazônia é o centro do mundo. De frente a ela, sou pequena sozinha. Junto dela, e de todos os outros que a olham, sinto que somos, existimos. Isso basta.

Foto: Júlia Beatriz de Freitas 

Ilustração: @mariangelica.chiang 

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