Hilda

Exposição no MIS-SP traz desenhos, aquarelas e retratos inéditos de Hilda Hilst

‘Revelando Hilda Hilst’ exibe registros da autora feitos pelos fotógrafos Fernando Lemos, Gal Oppido, Edu Simões e Eder Chiodetto 

Aos 21 anos, Jurandy Valença embarcou num ônibus em Maceió com destino a São Paulo. Queria conhecer Hilda Hilst (1930-2004), escritora, poeta e dramaturga que ele lia desde os 17 anos. Valença sonhava ser, para Hilda, o que Samuel Beckett fora para James Joyce – lendo uma biografia de Joyce, ele soube que, antes de esperar Godot, Beckett foi secretário do autor de “Ulisses”.

Valença descobriu o telefone de Hilda, exilada desde os anos 1960 na Casa do Sol, em Campinas, para se dedicar à literatura. Ligou para lá de um orelhão. Após três tentativas, Hilda atendeu e acabou convidando-o para visitá-la. Os dois ficaram amigos até que, em março de 1991, Hilda perguntou se Valença não queria morar com ela, ser seu assistente, seu Beckett.

— Ela falou: “Ju, quero te oferecer casa, comida e tempo. Só não posso dar dinheiro, porque não tenho” — conta Valença. — Morei de 1991 a 1994 com Hilda na Casa do Sol e, depois da morte dela, a convite dos herdeiros, dirigi o Instituto Hilda Hilst por dois anos.

Na Casa do Sol, Jurandy percebeu que Hilda gostava de desenhar. Enquanto falava ao telefone, ela aproveitava para rabiscar figuras antropomórficas.

— Hilda pegava uma caneta Bic e ia desenhando uma única linha contínua que terminava sempre num ponto final — recorda. — Ela presentava amigos com esses desenhos. Ganhei dois autorretratos dela. Em um deles, ela aparece defecando flores. No outro, ela fuma um cachimbo, mas saem flores em vez de fumaça.

Hilda, que completaria 90 anos em 21 de abril, chegou a ilustrar um de seus livros, “Da morte. Odes mínimas”, de 1980. Ela deixou mais de 150 desenhos e aquarelas, hoje guardados no Centro de Documentação Alexandre Eulálio (Cedae), na Unicamp. A exposição “Revelando Hilda Hilst”, que estreou no último dia 1º no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, apresenta 15 desenhos e aquarelas da escritora e abre as comemorações dos 50 anos do museu.

— As aquarelas de Hilda Hilst têm forte influência surrealista: abstratas, coloridas, cheias de seres híbridos, meio animais, meio vegetais. Ela gostava muito da surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996) — diz Valença, curador da exposição que vai até 15 de março (os desenhos que ganhou não foram incluídos por suas dimensões diminutas).

“Relevando Hilda Hilst” traz ainda 24 retratos inéditos da escritora, tirados por fotógrafos tarimbados, como o português Fernando Lemos (1926-2019) e os brasileiros Gal Oppido, Edu Simões e Eder Chiodetto. Também estarão expostas as primeiras edições de 15 livros de Hilda cujas capas foram assinadas por artistas como Tomie Ohtake, Millôr Fernandes e Jaguar.

Os retratos foram feitos em diferentes momentos da vida da escritora. Lemos fotografou Hilda em 1959, quando ela estava com 29 anos. Já Oppido, em 1990, em São Paulo, durante uma entrevista ao escritor Caio Fernando Abreu para a “Revista A/Z”. Oppido se lembra que, naquele dia, Hilda estava bem humorada:

— Conversando com ela sobre os ensaios que eu faço, muito ligados ao corpo, perguntei se ela faria algumas leituras poéticas de fotos minhas. Ela disse: “Não vou conseguir, mas se você quiser fotografar os meus seios, eles são púberes”.

Chiodetto fotografou Hilda em 1997, para o livro “O lugar do escritor” (Cosac Naify), que traz 36 autores brasileiros. Já Simões foi até Campinas em busca de retratos para os “Cadernos de Literatura Brasileira”, editados pelo Instituto Moreira Salles (IMS). Fotografou Hilda em frente à famosa figueira da Casa do Sol, rodeada pelos cachorros de que ela tanto gostava. Era 1999 e Simões se lembra que Hilda “já estava muito debilitada”.

— Fotógrafos obsessivos às vezes esquecem que é difícil para as pessoas passarem tanto tempo sendo fotografadas. Sem mover uma linha do rosto, Hilda me disse: “Se você fizer mais um clique, eu vou começar a chorar na sua frente”. Foi emocionante e inesperado. Ela era uma figura.

A poeta declama

Além de retratos, desenhos e aquarelas, a exposição traz a instalação sonora “Rede telefônica”, que permite ao visitante ouvir a própria Hilda declamando 23 de seus poemas. Também serão exibidos os filmes “Hilda Hilst pede contato”, de Gabriela Greeb, que recorda das tentativas da escritora de se comunicar com o além, e “Unicórnio”, inspirado em dois contos da escritora.

Na programação paralela, atores como Bete Coelho, Glamour Garcia e Matheus Nachtergaele farão leituras dos textos de Hilda, inclusive das peças “O visitante” e “As aves da noite”, escritas durante o regime militar.

— Quando veio a ditadura, Hilda percebeu que não podia dar voz a seu descontentamento pela poesia, aí foi para o teatro, que é mais próximo do público — diz Valença. — Em “O visitante”, ela escala um personagem corcunda como alegoria da deformação que era o regime militar. São textos que dialogam muito com o momento atual.

Serviço:

“Revelando Hilda Hilst”
Onde: 
Museu da Imagem e do Som (MIS). Avenida Europa, 158, São Paulo (SP)
Quando: 
de 1º/2 a 15/3
Grátis

Fonte: Ruan de Sousa Gabriel/ O Globo 

desenho de Hilda

“Figura antropomórfica e passarinho”, desenho da escritora Hilda Hilst Foto: Divulgação

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