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O Dinheiro

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br

“E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando

cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as

aves do céu.”

Érico Veríssimo,

Olhai os Lírios do Campo, 1938.

 

Leio que, na Suíça, mais da metade da população já não usa papel moeda. Uma tendência mundial, dizem os analistas. Em um futuro próximo, ao que parece, o dinheiro – esse papel pintado que enlouquece o mundo – será só virtual.

A notícia me fez pensar. Vivemos, todos, correndo atrás de dinheiro. Mesmo que neguemos sua importância. O dinheiro, por vezes, parece nos possuir. Não por acaso o denominam de “vil metal”. Mas, até onde mesmo vai o poder do dinheiro?

Em uma sociedade em que tudo está à venda, não ter dinheiro é de fato um grande problema. Quem tem poucos recursos ou nenhum terá, é fato, o que chamaríamos de uma vida bem difícil. A afluência de dinheiro – ou a sua falta – torna-se, assim, uma questão crucial da sociedade moderna. Se o dinheiro é o equivalente universal de troca (para usar a expressão de Marx), não o ter trará enormes dificuldades.

No entanto, há o “outro lado da moeda”. Se, como se diz, da morte nada escapará, tampouco e especialmente a riqueza, por que o dinheiro seduz tanto? Por que este esforço insano em acumular? Uma resposta possível: dinheiro traz poder. O poder de usufruir, de possuir. O dinheiro, bem equivalente de todos os outros bens, concede a possibilidade ilimitada de obter bens no futuro. E sendo os bens futuros disponíveis ilimitados e sempre crescentes, não é de se admirar que o fascínio pelo poder do dinheiro só faça aumentar.

Ensina, desde os primórdios, a ciência econômica, que nossas necessidades são – e serão – sempre ilimitadas. Como não desejar aquele que nos leva a saciá-las?

Toda essa questão me traz à memória o livro “Os sete pecados capitais”, do escritor espanhol Fernando Savater. Nele, o autor constrói um diálogo imaginário entre satanás e um escritor. O diabo, ali, tenta convencer seu interlocutor das vantagens em acumular.

Trata-se de um ensaio sobre a avareza, para Savater, o ato de se dar ao dinheiro mais importância do que ele realmente tem. Ato equivocado de transformar um meio em um fim.

O dinheiro, ao final, só vale justamente pelas trocas que proporciona. No fundo, é papel pintado sobre o qual se acordou – socialmente – um valor. Um papel com um número impresso que pode ser trocado por qualquer coisa. Um “vale genérico” compatível com todas as trocas, se quisermos assim entender. A idolatria ao dinheiro emerge quando esse acordo social é esquecido, e o dinheiro é alçado à condição de sumo sacerdote do sentido e da felicidade. O dinheiro, então, de abstração virtual, converte-se no objetivo máximo da vida, e tudo passa a ser acumular. De valor imaginário e arbitrário, o dinheiro passa a ter valor real. Um valor que fascina e, dependendo de nossa relação com ele, nos entorpece e ludibria. Nos engana. O dinheiro é, ao fim e ao cabo, um truque.

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