Rogério Gava

Notas ao Livro dos Mistérios

Por Rogério Gava 

“A existência na terra

é mistério impensável

nasce um, e morre outro

sofrível, insuportável

uns sorrindo, ou cantando;

da vida se lastimando

por viver muito instável”

Abraão Batista,

poeta cordelista cearense

Velhos (des)conhecidos

E então, você encontra aquele amigo de infância, ou de escola, assim, por acaso. E acontece que ele não te diz mais absolutamente nada. Você até se pergunta: como fomos tão amigos? Agora, ele é um “velho desconhecido”. Disse o Nelson Rodrigues que a amizade é uma ilusão. Que amigos não existem. Montaigne, citando Aristóteles, falou o mesmo (não sem uma ponta de ironia): “Ó meus amigos, um amigo é coisa que não existe”. Amigos são navios que se cruzam no vasto oceano, apitando ao longe. Cada qual em seu pequeno pedaço de mar, perdido na vastidão do grande mundo. Nada sabendo de verdade sobre quem vai lá.

Contradições

Queremos que nossos filhos cresçam; queremos que nossos filhos não cresçam jamais. Queremos paz e tranquilidade, mas também dinheiro e reconhecimento. Só nos enxergamos nos outros; que também são – como lembrou Sartre – nosso terrível inferno. Sabemos que vamos morrer; sentimos, no entanto, a imortalidade batendo forte em nosso peito. Somos um só; somos muitos. Pobre homem, essa contradição ambulante. Edgar Morin pergunta: “somos faces contraditórias da mesma pessoa? Ou pessoas contraditórias da mesma face?”. E Walt Whitman emenda: “Eu sou contraditório. Eu sou imenso. Há multidões dentro de mim”. A única verdade absoluta é que vivemos sob verdades contrárias: dúvida e fé; amor e ódio; racionalidade e misticismo; vida e morte. Verdade do homem: somos uma contradição que respira. Mas, afinal, como disse o admirável Quintana: “Quem nunca se contradiz deve estar mentindo”.

Mudar para continuar o mesmo

Imagine um navio que deixa o porto. No caminho do destino, partes lhe vão sendo substituídas. Primeiro, o convés. Depois, a proa. Os mastros, as cabines. Antes de chegar ao fim da jornada, todas

as peças foram trocadas, o casco, tudo, até o último parafuso. Ao atracar, será o mesmo navio? E nós, somos os mesmos após tanta mudança? Não reconheço mais aquele que fui aos vinte anos. Embora eu saiba que aquele que lá fui, é o mesmo que sou agora. A mesma pessoa totalmente diferente. O psicanalista Juan-David Nasio batizou esse fenômeno de “mesmidade”, o “coração atemporal de nosso ser”. Somos essencialmente os mesmos ao longo de todas as idades que vivemos. Morin: “De fato, cada um de nós, com a idade, conservou as idades precedentes”. Mudamos, por certo, ao longo de toda a vida, mas há uma espécie de essência do eu que conservamos, apesar de todas as mudanças. Será essa a sombra luminosa de nossa alma?

A necessidade última

Filosofia do Riobaldo, filósofo de todas as horas: “Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. (…) é todos contra os acasos. (…) Deus existe mesmo quando não há. (…) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo”. Falou o sábio.

O cérebro

Fico sabendo que se contarmos as conexões neuronais de nosso cérebro, chegaríamos ao número 10 seguidos de um milhão de zeros. Precisaríamos de 32 milhões de anos para conferir cada uma delas. Cem bilhões de neurônios pulsam sem parar dentro de nossa cabeça, todos os dias. Um único neurônio, por sua vez, sustenta em média um milhão de bombas de sódio. Ao todo, são cem bilhões de trilhões de bombas de sódio pulsando. Quando lemos um texto simples como esse, cada neurônio troca informações com outros a uma taxa de duzentos milhões de operações por segundo. O cérebro é o inexplicável tentando se explicar. Será o cérebro o começo e o fim de tudo o que somos?

Rogério Gava

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