A UNIÃO NO COMBATE À DOR

A hipnóloga Liara Nunes e a pediatra e oncopediatra Ângela Rech Cagol aliam a hipnose com a medicina para diminuir a dor e a ansiedade em crianças e adolescentes com doenças oncológicas

HIPNOSE CLÍNICA

Aliada no tratamento de crianças e adolescentes com doenças oncológicas

Por Rodrigo De Marco 

Edição Kátia Bortolini 

No Brasil, o câncer lidera as causas de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos. A leucemia representa o maior percentual de incidência (26%), seguida dos linfomas (14%) e tumores do Sistema Nervoso Central – SNC (13%). Nessa faixa etária, a doença geralmente afeta as células do sistema sanguíneo, o sistema nervoso e os tecidos de sustentação. Palidez, manchas roxas, dores nas pernas, caroços e inchaços indolores, perda de peso inexplicável, aumento da barriga, dor de cabeça e sonolência são sintomas que devem ser investigados.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), em 2018 surgiram 12.500 novos casos de câncer infantil, e 2.704 mortes. Em todo o mundo, segundo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), estima-se que, todos os anos, 215.000 casos são diagnosticados em crianças menores de 15 anos, e cerca de 85.000 em adolescentes entre 15 e 19 anos.

Em Bento Gonçalves, a oncopediatra Dra. Ângela Rech Cagol, além de tratar os sintomas clínicos, atua em conjunto com a hipnóloga Liara Nunes para diminuir a dor e a ansiedade em crianças e adolescentes com doenças oncológicas, submetidas a procedimentos dolorosos. Essa associação é explicada por elas na entrevista concedida ao Jornal Integração da Serra. Confira!

Liara Nunes

LIARA NUNES – HIPNÓLOGA

“O controle emocional do paciente possibilita

a otimização do processo medicamentoso”

Integração – O que é Hipnose Clínica?

Liara – É uma ferramenta terapêutica para promoção e restabelecimento da saúde física e emocional. A pessoa permanece consciente durante todo o processo terapêutico. Não é nada mágico e muito menos sobrenatural, é uma técnica séria e comprovada cientificamente. O Conselho Federal de Medicina propõe a indicação médica de hipnose clínica como auxiliar no tratamento de diversas enfermidades ou de diagnóstico, entre elas, o câncer.

Integração – Há estudos que comprovem a eficácia da hipnose no tratamento oncológico?

Liara – Vários estudos comprovam a eficácia da hipnose clínica como uma ferramenta terapêutica complementar no auxílio da dor, controle dos sintomas da quimioterapia, diminuição da ansiedade e no pré e pós-operatório, favorecendo o relaxamento, diminuindo a tensão pré-cirúrgica e potencializando a cicatrização pós-cirúrgica. Segundo o Instituto de Hipnoterapia (OMNI) do Brasil, no decorrer desse ano, o uso da hipnose clínica como aliada aos tratamentos de combate ao câncer cresceu significativamente entre pessoas de todas as classes sociais nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Conforme o CEO da OMNI Brasil, Michael Arruda, o uso da hipnose para alívio da dor começou na década de 50, nos Estados Unidos, quando foi constatado que a técnica aciona substâncias que tem uma ação analgésica que o corpo produz naturalmente. Quando falamos em promoção e restabelecimento da saúde temos que pensar na integralidade do ser humano, que envolve o físico e o emocional. O profissional de saúde deve se aliar a essa luta para, cada vez mais, proporcionar saúde e bem-estar a todos aqueles que buscam o seu auxílio.

Integração – De que forma você observa a utilização da hipnose para o tratamento do câncer?

Liara – Como uma ferramenta promotora de equilíbrio emocional, controle da dor, motivação, esperança, relaxamento e autoestima. O controle emocional do paciente possibilita a otimização do processo medicamentoso.

Integração – O paciente que tem câncer pode ter a garantia de que, com o tratamento da hipnose, a doença tem mais chances de ser vencida?

Liara – Não. Acredito que nenhuma terapia pode dar esta garantia. O que podemos afirmar é que a hipnose proporciona a sensação de alívio físico e emocional ao paciente, contribuindo para a restauração da saúde.

Integração – Explique as diferenças entre os diferentes tipos de hipnose.

Liara – Hipnose Clássica (1723): estamos falando em uso de induções diretas, comandos diretos. Um nome expoente da Hipnose Clássica é Dave Elman. Essa linha de hipnose baseia-se na ideia de que é possível dizer a uma pessoa de que forma agir e como fazer com que a mente acate a essa ordem. Como nessa linha de hipnose segue-se um tom de comando, algumas pessoas podem acreditar que estão obedecendo a ordens e podem não se entregar ao processo. O paciente aceita as sugestões que melhor atende às suas necessidades. Dave Elman foi o primeiro hipnólogo a conduzir a hipnose para a medicina em geral. Hipnose Ericksoniana (1927): Milton Hyland Erickson foi o criador do método que leva seu nome. Psiquiatra, ele se especializou em hipnose clínica e terapia familiar. Foi um dos fundadores da Sociedade Americana de Hipnose Clínica, em 1957, como presidente da instituição. Ele também criou o American Journal of Clinical Hypnosis (Revista Americana de Hipnose Clínica) e foi seu editor por dez anos. A hipnose Ericksoniana estabelece sua forma de atuar a partir da linguagem de cada paciente para que o inconsciente ofereça menos resistência ao método. Utiliza metáforas e sugestões. As sugestões são indiretas e permissivas. A hipnose Ericksoniana é uma linha que vem sendo aplicada ao Coaching, auxiliando o processo de mudança de pensamentos, comportamentos e atitudes sabotadoras, que impedem a pessoa de alcançar o que deseja. Hipnose condicionativa (1983): criada por Luiz Carlos Crozera, a hipnose condicionativa é uma técnica usada para livrar a mente do paciente de bloqueios que interfiram diretamente em sua saúde física e emocional. A indução é progressiva, um relaxamento corporal profundo e uma diminuição da sua frequência cerebral. O hipnólogo guia o paciente aos registros traumáticos e, nesse ponto, o profissional retira a carga emocional registrada, desassociando o trauma à determinada situação. Na hipnose condicionativa, o paciente não interage com o hipnólogo. Todas as linhas seguem um caminho diferente para chegar a um mesmo ponto: o benefício terapêutico.

Integração – Que mensagem você deixa para as pessoas que ainda não compreendem de fato os benefícios da hipnose clínica e que enxergam com uma certa desconfiança essa prática?

Liara – A hipnose é registrada na história da humanidade desde a Idade Antiga, seguindo pela Idade Moderna e Contemporânea. A hipnose na medicina não aconteceu por acaso. Assim, a ideia equivocada de que hipnose é algo místico ou esotérico deve ser definitivamente abolida. A hipnose clínica é cientificamente comprovada, é segura, confiável, com resultados comprovados. O paciente/cliente permanece o tempo todo consciente, participando ativamente do processo terapêutico. A hipnose não tem ligação nenhuma com religiosidade ou crenças. Entre as várias vantagens da utilização da hipnose clínica como ferramenta terapêutica, podemos salientar que o método apresenta resultados muito rápidos, percebidos já nas primeiras sessões. Pesquise sobre os benefícios da hipnose clínica e, acima de tudo, procure um profissional sério e habilitado para exercer a hipnoterapia.

CONTATO

Centro Clínico Oswaldo Cruz,

10º andar, sala 1001

Rua: General Osório, 309

Cel/WhatsApp (54) 99197 8034

angela cagol

DRA. ÂNGELA RECH CAGOL – PEDIATRA E ONCOPEDIATRA

“A dor é um dos sintomas mais angustiantes

apresentado por crianças com câncer”

Integração – Trabalhar com crianças e adolescentes com câncer é difícil para a maioria das pessoas. Como é para você?

Ângela – Escolhi a especialização nessa área da medicina de forma natural. Sinto que é um dom.

Integração – Como a hipnose clínica chegou a você como ferramenta de tratamento?

Ângela – Através da Liara, amiga antiga e querida. Nesses 16 anos de clínica como oncopediatra nunca tinha ouvido falar sobre os benefícios da técnica. Nos últimos anos, ocorreu considerável melhora na sobrevida das crianças com câncer. Entretanto, apesar da crescente conscientização sobre as causas do câncer infantil e da evolução de medicações para o combate da dor, estudos mostram que essas crianças continuam a experimentar diariamente sintomas angustiantes, físicos e emocionais causados pela doença e seu tratamento.

Integração – Quais são os tipos de câncer mais comuns na infância?

Ângela – As leucemias, os linfomas e os tumores do sistema nervoso central são as neoplasias mais comuns na infância, sendo que as leucemias correspondem a cerca de 30% de todas as doenças malignas em pacientes com menos de 15 anos de idade. Nos últimos 25 anos, houve sensível melhora na sobrevida de todas as grandes séries de câncer na infância. Nos anos 1970, a sobrevida em cinco anos ficava em torno de 50%, passando para 80% nas últimas décadas. Grandes avanços ocorreram no tratamento das neoplasias pediátricas, principalmente devido à centralização do tratamento em instituições especializadas, às novas terapias medicamentosas e aos transplantes de medula óssea. No entanto, essas novas terapias podem se associar a uma série de efeitos indesejáveis, incluindo a dor e o comprometimento das funções orgânicas.

Integração – O câncer é uma doença que assusta pela agressividade que age no organismo. De que forma os pacientes podem minimizar a dor que os acomete ao longo de um tratamento?

Ângela – A dor é um dos sintomas mais comuns e angustiantes apresentados por crianças com câncer. Além da dor causada pelo tumor propriamente dito, esses pacientes são submetidos a protocolos de tratamento em que procedimentos potencialmente dolorosos estão inseridos com finalidades diagnóstica e terapêutica. Além disso, práticas empíricas de avaliação geralmente levam a não valorização da dor na criança, resultando no seu subtratamento. O reconhecimento da dor a partir das escalas de avaliação, o conhecimento técnico-científico acerca da fisiopatologia da dor e do arsenal terapêutico disponível, a sensibilidade para o problema e a mudança de comportamento no sentido de uma abordagem multidisciplinar são de suma importância para minimizar o sofrimento enfrentado por esses pacientes.

Integração – O controle da dor é feito de que forma?

Ângela – Comumente é necessária a associação de várias modalidades de medicações para o controle da dor, sendo que o modo de emprego e a eficácia de cada uma dessas alternativas ainda necessitam ser determinados por pesquisas futuras, dificultando uma recomendação padrão. A dor relacionada ao tumor propriamente dito é resultado da invasão direta pelo tumor dos nervos, ossos, partes moles, ligamentos, fáscia e, ainda, causada por dor visceral a partir dos mecanismos de distensão e obstrução. Além da dor associada ao tumor, a maioria dessas crianças necessita ser submetida a procedimentos dolorosos para diagnóstico ou tratamento do câncer ou das complicações relacionadas à doença. A dor resultante do tratamento do câncer, ou seja, da quimioterapia, frequentemente tem também característica de dor neuropática.

Na maioria das vezes, a fisiopatologia da dor determina a seleção dos medicamentos utilizados. Por exemplo, os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) são utilizados para dor nociceptiva e traumática em partes moles e ossos; os antiespasmódicos são utilizados para dor visceral; e os corticoides, anticonvulsivantes e antidepressivos são utilizados para dor neuropática. Comumente é necessária a associação de várias modalidades de medicações para o controle da dor, sendo que o modo de emprego e a eficácia de cada uma dessas alternativas ainda necessitam ser determinados por pesquisas futuras, dificultando uma recomendação padrão.

Integração – A hipnose pode, de fato, auxiliar no tratamento contra o câncer?

Ângela – Sim. A hipnose vem sendo utilizada ao longo da história como um método terapêutico útil no alívio da dor associada a diversas causas, entre elas o câncer, em pacientes adultos e pediátricos. Wild e Espie realizaram revisão sistemática sobre a eficácia da hipnose

na redução da dor e ansiedade em pacientes pediátricos oncológicos e concluíram que a ferramenta pode ser uma terapia coadjuvante valiosa na diminuição da dor. São poucos estudos ainda que atestam esta afirmativa, mas não devemos ignorá-la, pois tudo vem a somar para o alivio da dor enfrentada por crianças com doenças oncológicas submetidas a procedimentos dolorosos.

CONTATO

Rua José Mário Mônaco, 227

Edifício Serrano, 5º andar, Sala 504

Fone: (54) 2621 3615

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