DOUGLAS CECCAGNO

ENTREVISTA ESPECIAL

“O escritor precisa estudar, praticar, conhecer um pouco de psicologia, um pouco de teoria literária, ler muito e ter muita empatia pela humanidade…”

Por Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br

É com esse sutil recorte que começo a descrever Douglas Ceccagno, o escritor homenageado da 34ª Feira do Livro de Bento Gonçalves. O trecho acima compreende parte da entrevista exclusiva concedida por Ceccagno ao Jornal Integração da Serra. É graduado em Letras de língua portuguesa e inglesa, mestre em Letras pela Universidade de Caxias do Sul e doutor em Teoria da Literatura pela PUC-RS, com estágio doutoral em Paris. Ceccagno é autor do livro de poemas “Rábula”, lançado em 2015, e dos contos “Ópera Subterrânea”, publicado em 2018, ambos pelo Fundo Municipal de Cultura.

INTEGRAÇÃO: Como foi receber a notícia de que tu serias o homenageado da 34ª Feira do Livro de Bento Gonçalves?

CECCAGNO: Posso estar dizendo o óbvio, mas foi mesmo uma surpresa. Eu realmente não esperava, porque nunca fiz muitos trabalhos na Feira do Livro, apesar de sempre frequentá-la. Mas escrevia, dava aula de literatura… Até que a Eunice Pigozzo me chamou para dar uma oficina de escrita criativa e uma palestra sobre literatura fantástica, há uns dois ou três anos. Aqueles eventos foram muito importantes, porque a palestra levou o público à universidade, desmistificou aquela coisa do “escritor que só escreve para a academia”, porque eu nunca fui esse tipo de escritor. E a oficina foi fundamental, porque as pessoas viram o quanto algum conhecimento de teoria literária pode ajudar na escrita. E foi o que deu origem ao Projeto Contantes, que transformou aquelas três horas de oficina em quarenta. Eu vejo essa homenagem, portanto, como resultado de uma parceria que deu certo muito rapidamente, e acho que é uma consequência do momento em que o meu trabalho começou a ter alguma visibilidade dentro das feiras do Livro anteriores. Além, é claro, da publicação, no ano passado, do meu livro de contos “Ópera Subterrânea”, que já é o meu terceiro livro.

INTEGRAÇÃO: Tu já é um escritor conhecido na região e tem uma importante contribuição para a área cultural. O que representa para sua carreira no universo literário ser um dos protagonistas da Feira do Livro deste ano?

CECCAGNO: É uma grande satisfação. Significa que as pessoas estão vendo a qualidade do meu trabalho. Bento Gonçalves já não é uma cidade pequena, não tem mais aquela coisa de “o escritor da cidade”, porque tem muita gente produzindo, e produzindo coisas muito diferentes, que são expressão também das suas vivências e das suas leituras. Só com a oficina do Projeto Contantes, onde dei aula de escrita ficcional durante seis meses este ano, tem quinze novos contistas, todos de Bento, que vão publicar juntos uma antologia nos próximos meses. Então, tem muita gente escrevendo. A gente vê isso nos jornais também, em rede social… E, no meio desse pessoal todo, ser homenageado, é muito gratificante. Significa que as pessoas estão percebendo a seriedade do nosso trabalho.

INTEGRAÇÃO: Quais são as suas principais influências na literatura?

CECCAGNO: Eu já tive tanta influência, que hoje não sei mais o que me influencia. Eu tenho consciência de que o discurso literário é uma construção de várias vozes, principalmente das leituras do autor. Então, no começo, a gente tenta imitar os autores que admira, e isso é natural, porque precisamos aprender a escrever. Com o tempo, se tenta construir um estilo, achar a própria voz. Mas hoje, eu não me preocupo tanto com estilo, e aí eu percebo algumas vozes de outros escritores aparecendo no que eu escrevo. Teve um crítico que leu “Rábula”, meu livro de poesia de 2015, e disse que encontrou muitas intertextualidades ali. Tem algumas citações: Fernando Pessoa, por exemplo, e muitas intertextualidades mesmo, que podem ser uma palavra, uma expressão, certa maneira de cortar um verso… Aliás, é isso o estilo: a palavra tem a mesma raiz de estilete, então é o modo como a gente corta o texto. E esse corte a gente aprende com as coisas que lê.

INTEGRAÇÃO: Nos últimos anos Bento Gonçalves ganhou um importante impulso na cultura, principalmente com os projetos do Fundo Municipal da Cultura. Mas, na sua visão, o que ainda poderia ser feito para que a cidade ganhasse ainda mais destaque na área cultural?

CECCAGNO: Muita coisa está sendo feita, mas é claro que é preciso ir além. Se você não vê espetáculos de teatro, de dança, de música, ou não vai a exposições de bons artistas, a arte não dialoga, e fechada em si mesma ela não vai a lugar nenhum: fica só se repetindo. Agora os círculos de leitura estão aparecendo, os de escrita também. Mas precisamos incentivar a produção e também o consumo. Então, é necessário facilitar a montagem de espetáculos, a exposição de arte, a publicação de livros, mas também pensar na formação do artista, do escritor e, principalmente, do público e do leitor. É necessário incentivar as pessoas a frequentar espaços culturais, até que o sujeito que vai assistir ao ator da Globo no teatro também vá assistir aos atores daqui. Isso é algo a ser construído aos poucos, mas precisa ser incentivado sempre. Outra coisa importante é a qualificação. Então, se um pintor de Bento vê exposições de boas pinturas e consegue também fazer oficinas com bons profissionais, ele será um pintor melhor. Eu acredito que os artistas e escritores de Bento vão continuar, cada vez mais, a ter destaque fora da cidade, porque muitas dessas ideias já estão sendo postas em prática. Mas esse movimento precisa continuar crescendo.

INTEGRAÇÃO: A conjuntura atual do Brasil externa uma situação delicada no campo social e artístico. Como que tu analisa a situação do país e de que forma isso tem impactado nas tuas criações?

CECCAGNO: Interessante essa pergunta, porque a gente pensa que a situação do país não vai impactar na nossa produção, mas, quando vai ver, acabou escrevendo algo que cai como uma luva na política atual. Estive relendo “Rábula”, o livro que lancei em 2015, e vi ali uma revolta que passou a fazer ainda mais sentido após o golpe de 2016 e a eleição de 2018. Então, já existia um imaginário que acabou aparecendo no texto. No “Ópera Subterrânea”, tem conto fantástico e uma certa perspectiva do absurdo da vida, mas também estão presentes temas como o futuro da tecnologia, o desaparecimento político, a violência urbana, o embate entre os valores das diferentes classes sociais… Machado de Assis dizia que o escritor deve ter um sentimento íntimo que o torne um homem do seu tempo e do seu país. Eu penso que não há como fugir da sociedade em que a gente vive. De alguma forma, ela sempre aparece, mesmo na poesia lírica ou nos relatos íntimos, porque a literatura carrega as marcas do seu tempo. Nós realmente enfrentamos no Brasil um momento conturbado em relação às artes: quem não agrada a ideologia oficial está sendo perseguido. Eu acredito que não exista justificativa possível para a proibição de qualquer manifestação artística. As pessoas falam de ideologia, mas todo discurso é ideológico, até o pretensamente imparcial: a imparcialidade também serve a certos interesses. Então esse critério da ideologia não deveria ser levado em conta. Nem o critério moral, porque a arte está além da moral: ela nos faz questionar a moral.

INTEGRAÇÃO: Quais são as tuas projeções para 2020 na literatura?

CECCAGNO: Escrever. Continuar escrevendo. Estou trabalhando em uma história que eu ainda não sei o que vai virar. Também tenho algumas centenas de textos narrativos curtos que precisam de edição e tenho um livro de poemas que eu talvez tente publicar. Mas tudo são apenas conjecturas.

Foto: Divulgação 

Douglas Ceccagno- abertura da Feira do Livro)

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