Crônicas na Bagagem

Só basta acreditar

Por Carina Furlanetto

Falar em religião é polêmico, mas às vezes ouso meter-me em alguns vespeiros. Não quero aqui discutir suas crenças, até mesmo porque, quando se acredita em algo, as justificativas não são necessárias – o coração sente e ponto final.

Venho de família muito religiosa, estudei em escola católica e fui criada com valores bíblicos muito sólidos. No meio disso tudo, desenvolvi a minha própria forma de ligar-me a algo superior, sem a necessidade de praticar rituais há anos eternizados e transmitidos por gerações. Antes desta viagem, sentia algo a me proteger dos perigos e acreditava que até mesmo as situações mais cabeludas deveriam ter um propósito – aquele lance de não ganhar uma cruz maior do que a que podemos carregar. Mas até por piloto automático, em alguns apuros, rezava um par de “pai-nossos” ou “ave-marias”, como uma espécie de mantra para me acalmar.

Minha relação com Deus ou com o que quer que seja que há de superior a nós – o nome pouco importa – mudou desde que saí de casa há seis meses. Em silêncio, diante de uma paisagem estonteante, sempre fecho os olhos por alguns segundos e recito mentalmente um “obrigada”. Quando as adversidades tomam conta do dia, repito em pensamento os mesmos mantras de antes e, às vezes, quase que instantaneamente, uma solução aparece – como quando, no meio de uma trilha puxada, em um dia de sol escaldante, várias nuvens surgem no céu acompanhadas de uma brisa, refrescando o clima e permitindo seguir em frente. Pode ser apenas coincidência, mas há momentos em que a providência divina parece ser a única explicação plausível para as benesses que nos ocorrem.

Claro que nem sempre tudo acontece como gostaríamos. Se pudesse escolher, preferia sempre ter uma casa para ficar do que dormir nos bancos de um carro. Mas quem foi que disse que o melhor para a gente é sempre realizar os nossos desejos? Há um porquê, mesmo que só o entendamos às vésperas de partir dessa vida. Há quem acredite – e tendo a também ir por essa via, mesmo desconhecendo explicações plausíveis – que de alguma forma escolhemos de antemão os caminhos que trilharemos e as pessoas com as quais compartilharemos nossa jornada. Mesmo sem saber onde chegarei, sigo caminhando com a certeza de que há algo de bom reservado para nós.

Crônicas na Bagagem

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *