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“Uma sociedade de oportunistas é uma sociedade de gente desconfiada”, afirma Clóvis de Barros Filho na Expoagas 2019

Jornalista e professor de Ética da USP, Clóvis de Barros Filho defende a confiança como base das relações em sociedade 

O jornalista e professor de Ética da USP Clóvis de Barros Filho esteve na manhã desta quarta-feira (21) na 38ª Expoagas, onde arrancou aplausos a frente da palestra “Confiança: o motor das organizações”. A discussão partiu do conceito de moral, o qual ele define como “o discernimento de como devo agir quando não há ninguém olhando”, pois, para o palestrante, a confiança só é possível quando há a convicção de que o outro age moralmente, de modo que o controle é dispensável.  “A consciência moral garante liberdade”, afirma.

Clóvis de Barros Filho convida seus ouvintes a imaginarem uma sociedade em que a moral prevalece. “Essa sociedade é regida pela confiança, todos respeitam escrupulosamente os direitos dos demais, não pelas instâncias repressivas, mas por que acham justo que seja assim”. Nesse sentido, quando não há moral, não há confiança, e essa regra se aplica a todos. “Alguém deixou de pagar a conta da padaria, agora eu não posso comprar fiado”, exemplifica o palestrante para destacar o empobrecimento da convivência baseada na desconfiança. Esta realidade é naturalizada a ponto de as pessoas deixarem de indignar-se com a falta de confiança mútua em suas relações. Afinal, conforme explica o palestrante, se a moral é universal, a indignidade existente na desconfiança também é para todos.

Da moral que depende da consciência individual, Clóvis de Barros Filho parte para a ética, que é coletiva. “Dada a fragilidade da consciência de cada um, só a ética pode dar conta da convivência harmônica. A ética é construída a partir de valores complexos, que dependem de diálogo e consenso: é a liberdade de uma sociedade definir o jeito mais justo de conviver”. Complexidade e liberdade são elementos indispensáveis à ética, pois somente quem participa da relação estabelecida tem condições de avaliar quais os princípios aos quais a moral deve obedecer. Aí também reside a confiança em que as pessoas irão seguir os princípios acordados. “A confiança é a certeza a respeito do que não podemos nem verificar, nem demonstrar”, define. E complementa: “A matéria-prima da confiança está em um princípio de conduta respeitado pelo outro ao longo da convivência”.

Segundo ele, a relação de confiança baseada no que é acordado previamente tem alicerces na fidelidade. “Ser fiel é, na hora de tomar uma decisão, respeitar o que já foi dito, ou seja, quando promessa e decisão estão alinhadas”. No entanto, alerta para o tempo existente entre a promessa e a decisão: “é neste período que serão separados os fiéis dos oportunistas. O oportunista abre mão da sua palavra para aproveitar oportunidades que surgem pelo caminho. “Se você me promete algo e não faz, eu deixo de confiar, pois você preferiu a oportunidade à fidelidade”, aponta Clóvis de Barros Filho. Ao aproveitar uma oportunidade que não condiz com o que já foi dito, o oportunista quebra sua relação de confiança com seu ouvinte, por isso o palestrante afirma: “uma sociedade de oportunistas é uma sociedade de gente desconfiada”.

A infidelidade, destaca o professor, não estraga somente o presente, mas também o futuro imaginário. Esta lógica está presente nos debates acerca da sustentabilidade. “Você limita o seu ganho para proteger o ganho de amanhã”. A construção da confiança está no pensar no outro e no coletivo. “Ganharemos todos em uma sociedade onde cotas equivalentes de felicidade sejam vivenciadas por todos”, afirma. Clóvis ressalta a corresponsabilidade de todos com o futuro da sociedade: “A cada vitória de um desonesto, a sociedade adoece, e a confiança é o sintoma”.

Foto: Dani Villar

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