Como tirar uma ideia do papel em 54 horas

Por Elvis Pletsch

elvis_pletsch@hotmail.com 

Você já teve uma ideia que acreditava ser o negócio do século, mas não levou adiante pois não sabia como transformar ela em um negócio de verdade?

O CIC de Bento Gonçalves foi tomado por diversas pessoas que já passaram por isso, pois elas tiveram que encarar o desafio de tentar tirar as suas ideias do papel e montar uma startup em 54 horas no final de semana do dia 19 de julho.

Eu era uma dessas pessoas. Tive a oportunidade de participar pela segunda vez do Startup Weekend, um evento que reúne aprendizado, networking e empreendedorismo. O “SW” é uma imersão desenvolvida nos Estados Unidos, onde os participantes trabalham uma ideia de negócio e verificam se ela é viável.

O método apresentado no evento é chamado de “Zero to Hero”, pois direciona as ideias apresentadas na sexta-feira (Zero) para um caminho onde ela será testada em todos os aspectos possíveis, e provavelmente alterada inúmeras vezes, até ser apresentada no domingo (Hero), tudo isso com o auxílio de mentores experientes, workshops, dinâmicas e muito café.

Coluna Elvis

“Esqueça o conceito de tranquilidade”

É com essa frase que tudo deveria começar, mas o apresentador (ou facilitador) inicia a noite com um entusiasmado “boa noite” para depois convidar os participantes (que geralmente não sabem muito bem o que vai acontecer) para comentar a ideia de negócios que tiverem em um minuto.

O ambiente é imediatamente tomado por olhares desconfiados da plateia, já que o palco pode amedrontar os mais tímidos, mas logo alguém toma a frente para aquilo que se tornará um tsunami de ideias – das mais bizarras até as “como ninguém nunca pensou nisso?”, enquanto os participantes tentam descobrir quem ali tem potencial para ser o próximo Elon Musk.

As melhores ideias são votadas em seguida e os participantes devem montar grupos multidisciplinares para trabalhar com as ideias vencedoras.

 

“Ok, mas qual é o problema?”

No dia seguinte, após um café da manhã reforçado, a primeira lição do dia é que não adianta pensar em soluções focadas na sua ideia antes de descobrir qual é o problema que você vai solucionar. Acreditem, na primeira oportunidade que participei, isso se tornou quase um trauma para o nosso grupo. Ouvi tanto a pergunta “qual é o problema?”, que passei dias sonhando com isso.

Os mentores – também conhecidos como “polenteiros” por causa da camiseta amarela – são incisivos com essa etapa chamada de “validação do problema”, em que você deve ir para a rua entrevistar pessoas e compreender se as suas hipóteses realmente são dificuldades reais da sociedade.

Esse momento é o mais importante do evento, porque irá definir o sucesso do seu negócio. Caso a sua entrevista não seja bem feita ou o problema não seja tão importante quanto você pensava, a sua startup terá que “pivotar” – ou seja, ser modificada conforme os resultados que você obteve.

Se você ignorar isso, provavelmente estará gastando tempo para solucionar algo que é apenas uma “marolinha” e, eventualmente, o seu negócio vai quebrar. É por isso que é comum ver que uma ideia de aplicativo de transporte apresentada na sexta acabe se transformando em uma solução voltada para floriculturas no sábado.

 

“Nem todo problema tem solução”

Com o problema validado, parte-se para a elaboração e validação da solução. Ali vale tudo: pode fazer a validação por celular, e-mail ou pessoalmente. O importante é você encontrar alguma forma viável de solucionar o problema que você encontrou.

Se o problema é que as pessoas não têm tempo para ir ao mercado e precisam de alguém que faça compras por elas, ainda não é a hora de revolucionar o mundo e montar um aplicativo que faça essa intermediação. A simplificação é a regra: encontre alguém com o problema e alguém que possa ir fazer as compras, trabalhando a comunicação das partes pelo celular. Se der certo e você ganhar uma porcentagem do valor com isso, sua solução está validada. Se não deu, talvez o seu problema não tenha solução e será hora de “pivotar” novamente.

A placa das mesas apontando “quero polenta” sinaliza o papel fundamental dos mentores nessa etapa, já que provavelmente vão sugerir opções que são “escaláveis” e que possam ser replicadas através da tecnologia posteriormente.

Elvis coluna2

MVP e Pitch

Com a solução feita, os grupos iniciam o “MVP”, onde é elaborada uma versão muito básica do produto ou serviço que se deseja oferecer. É muito comum que a maioria dos grupos do Startup Weekend pensem em aplicativos, softwares e sites para escalar a solução, mas basta produzir a simulação das telas em programas de edição de imagem para que a fase seja concluída.

Nessa hora todo mundo já está quase maluco e o cansaço está batendo na porta. Por isso o evento conta com dinâmicas diversas, como o campeonato de “pedra, papel ou tesoura”, que auxilia muito para levantar a moral e não pedir as contas.

O domingo também é voltado ao treinamento do “pitch”, uma apresentação de quatro minutos, que deve surpreender os jurados, demonstrando como a sua startup poderá atingir o mercado e ganhar dinheiro.

Enquanto alguns membros irão se dedicar aos slides, outro será escolhido para apresentar a startup, e o restante terá de continuar todo o trabalho de pesquisa que foi iniciado na solução, descobrindo o tamanho do mercado de atuação, os concorrentes, os custos, as formas de monetização e possíveis problemas que o negócio pode enfrentar.

A hora do “pitch” chega ao pôr do sol. A pessoa mais comunicativa do grupo deverá estar preparada, pois de nada adiantará fazer um bom produto e não saber vendê-lo ao público.

Todo o trabalho do final de semana será colocado à prova e está nas mãos desse representante. A presença de jurados conceituados em suas áreas de atuação dá credibilidade para o momento, ainda mais quando a maioria deles não facilita nos questionamentos.

Apesar do nervosismo, as apresentações passam rápido e o alívio e a sensação de sucesso logo tomam conta. Mesmo que, posteriormente, a organização faça uma premiação simbólica para as três ideias mais viáveis (incluindo uma pré-aceleração com uma entidade apoiadora do evento), a verdadeira gratificação fica pelo aprendizado durante todas aquelas horas de dedicação.

 

Muito mais que uma metodologia

O conhecimento que é agregado durante um final de semana é imenso. Aprender que devemos deixar de lado a nossa opinião e ir para a rua para validar as ideias e reconhecer o que todos têm a dizer é fundamental para o início de um negócio.

O trabalho com pessoas de outras áreas também mostrou-se essencial no momento em que cada um podia se dedicar para aquilo que mais se identificava, seja na visão de negócios, na tecnologia, na comunicação ou no design. Mesmo para quem não quer empreender, compreender que pessoas diferentes criam soluções diferentes pode ser o diferencial no desenvolvimento de projetos e na procura de soluções para o seu trabalho.

Além disso, entender o conceito do “erro rápido”, permite que você veja a possibilidade de testar uma solução para qualquer problema da forma mais rápida possível, conseguindo amenizar as consequências dos seus erros.

Se ainda levarmos em conta as amizades formadas durante o evento e o acesso à uma nova rede de networking que está diretamente envolvida com inovação, não precisa pensar muito para entender que o Startup Weekend é justamente o que a nossa região precisa para transformar nossas dificuldades em soluções rentáveis. Se for em 54 horas, melhor ainda.

GLOSSÁRIO

Pitch – Apresentação de 3 a 5 minutos com objetivo de despertar o interesse da outra parte

(investidor ou cliente) pelo seu negócio.

MVP – Prática de administração de empresas que consiste em lançar um novo produto ou

serviço com o menor investimento possível.

Pivotar – Mudar o rumo de um negócio que não teve o sucesso esperado com base na

experiência adquirida.

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *