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Sócrates e a Felicidade

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br  

Foi Sócrates (470-399 a.C.) o primeiro filósofo a se preocupar com a vida feliz. Você já ouviu falar dele: o criador da máxima “conhece-te a ti mesmo”. Há dúvidas, na verdade, se foi mesmo Sócrates quem cunhou o adágio, o qual orna a entrada do templo de Apolo, em Delfos; a tradição, no entanto, imputou ao filósofo a ideia. E assim ficou.

Sócrates era um sujeito muito hábil na arte de fazer perguntas. Deixava os interlocutores literalmente tontos com suas indagações em cascata, contraditórias, e que acabavam sempre por dinamitar as certezas defendidas. Era o famoso método socrático, também conhecido como “maiêutica” – de maîa, em grego, “parteira”. Sócrates dizia que, pelo questionamento, buscava “parir” a verdade que se encontrava presente em cada indivíduo; ele apenas ajudava essa verdade vir à luz.

Nosso bom filósofo era extremamente simples, de aparência quase mendicante. Costumava caminhar descalço pelas ruelas de Atenas, disposto a filosofar com qualquer pessoa. Era o filósofo da “praça pública”. Como Jesus, nada escreveu. Foi seu maior discípulo, Platão, quem nos legou os ensinamentos do mestre. No fim da vida, Sócrates foi acusado injustamente pelos governantes de Atenas de corromper a juventude e negar os deuses da cidade. Condenado a beber cicuta, abraçou a morte de forma corajosa e lúcida.

A verdade é que antes de Sócrates os filósofos nunca tinham se preocupado muito com a felicidade. Eles estavam mais interessados em assuntos relativos à natureza das coisas e dos seres. Os chamados “pré- socráticos” viviam fazendo perguntas sobre a origem de todas as coisas, de que era feito o mundo, ou qual era a essência do conhecimento humano.

Sócrates achava aquilo tudo uma perda de tempo. De que adiantava saber qual o tamanho da Terra, ou se o universo era infinito, se o homem não sabia conduzir a própria vida? O que importava, pois, era ajudar as pessoas a saberem o que era bom, justo, enfim, como se deveria viver.

E o que Sócrates ensinava a respeito da felicidade? Ele dizia que ela era alcançada pelo autoconhecimento. Faz sentido: afinal, conhecer-se a si mesmo é refletir sobre quem somos, o que queremos de nossa vida, enfim, o que devemos fazer para ser felizes. Para Sócrates, a ignorância era a principal causa de infelicidade, pois levava ao erro e a uma concepção equivocada da existência.

Mais do que olhar para o próprio umbigo, o autoconhecimento socrático lembra que a felicidade é irmã da sabedoria: se quisermos ser felizes, é preciso que olhemos, antes de tudo, para dentro de nós. O homem feliz é aquele que reflete incansavelmente e sem mentiras sobre si próprio. E não aquele que sai em busca da satisfação de todos os desejos. Reza a lenda, aliás, que Sócrates gostava de contemplar os badulaques vendidos pelos comerciantes de Atenas, só para, como dizia, “ver tudo o quanto não precisava para ser feliz”.

Para Sócrates, o autoconhecimento levava à virtude. “O homem que se conhece saberá como agir, trilhando o caminho correto” – dizia, e arrematava: “quanto mais virtuoso, maior será a chance de que seja feliz, porque fará bem a si e também aos outros”. Ou seja, será mais feliz e ainda ajudará os demais a sê-lo. Depois de Sócrates e para toda a filosofia clássica, a felicidade e a virtude andariam sempre de mãos dadas. Os gregos achavam verdadeira loucura a ideia de um “canalha feliz”. Para eles, era impossível ser “mau” e feliz ao mesmo tempo. Felicidade era sinônimo de bondade.

Esse foi o legado de Sócrates a respeito da felicidade: feliz é aquele que olha para dentro de si. Uma mensagem atual e importante, neste mundo onde o diálogo, consigo mesmo e com os outros, é cada vez mais complicado. Há mais de vinte e cinco séculos, Sócrates continua a nos lembrar: a verdadeira felicidade mora dentro de nós.

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