Crônica Integração

Um fuzil na cabeça ou algumas noites sem banho?

Por Carina Furlanetto 

Conhecemos uma carioca, em um dos passeios que fizemos em Santiago, que, com a maior naturalidade do mundo, conta que foi assaltada na porta de casa à mão armada – com direto a fuzil e tudo. Fiquei pensando na última tentativa de assalto que sofri e em como isso me abalou por algumas semanas.

Foi há quatro anos. Tentaram roubar meu celular enquanto fazia o trajeto de casa até o trabalho a pé. Era por volta das 8h, o dia já havia amanhecido e tinha muitos carros passando. Como de costume, atalhei por uma rua estreita e pouco transitada. Quando fui virar a esquina, sinto uma mão puxando meu celular. Pensei ser algum conhecido fazendo uma brincadeira, mas em poucas frações de segundo me dei conta da real situação e, quando vi, já estava correndo aos berros atrás do pivete (não devia ter nem 15 anos) para que devolvesse o que era meu. Corria ladeira abaixo e só temia que minhas pernas não dessem conta do recado. Insanidade total da minha parte, altamente não recomendado pelas autoridades em segurança, mas deu certo: o guri pacientemente colocou o aparelho no cordão da calçada e fugiu pelas escadas da praça.

Fiquei muito tempo sem querer passar por essa rua, até mesmo acompanhada, e passei a sair com o celular bem escondido em algum bolso de difícil acesso. Se estivesse na pele dessa carioca, é certo que, mais do que medidas de segurança, optaria por mudar-me para uma cidade mais calma – em geral não sou fã de grandes centros. Ela, porém, pouco ou nada abalou-se com o fato: acontece com todo mundo, justificou.

Pouco depois conversamos sobre a nossa viagem. Quando contamos que dormimos oito noites seguidas no carro e ficamos quatro dias consecutivos sem tomar banho – não que a gente se orgulhe disso, mas é o ônus de uma aventura de baixo orçamento – a situação lhe pareceu insuportável. Parabenizou a nossa coragem, desejou sorte no caminho, mas disse que jamais faria algo assim. O marido corroborou as boas vibrações, mas também acrescentou que não suporta muito tempo longe das suas coisas.

Um fuzil na cabeça ou umas noites sem banho parecem situações tão antagônicas que jamais poderiam figurar em uma questão de múltipla escolha. Não sabíamos quais eram os nossos limites e foi para testá-los que saímos de casa. Ao final, as doses de sofrimento que alguém pode carregar sempre são individuais.

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