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Mistérios no Vale do Rio das Antas

 

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Por Rodrigo De Marco 

Edição Kátia Bortolini 

Cenário, de cartão-postal, concentra relatos de fenômenos sobrenaturais 

Vale do Rio das Antas: durante o dia, linda paisagem, com a natureza de pano de fundo, relevando a sinuosidade do rio correndo entre as montanhas e a Ponte Ernesto Dornelles, também conhecida como Ponte do Rio das Antas ou Ponte dos Arcos, ligando os municípios de Bento Gonçalves e Veranópolis. Imagem de cartão-postal. Durante a noite, um campo propício para manifestações de fenômenos sobrenaturais e aparições de fantasmas, decorrentes de centenas de mortes ocorridas entre o entorno da ponte e a estação férrea de Jaboticaba, situada há cerca de seis quilômetros, durante as construções da ponte e do trecho ferroviário, por afogamentos e por homicídios.

No período de construção da ponte, de 1942 a 1952, foram empregados uma média de 150 homens, a maioria vinda de outras localidades, que ficavam alojados próximo ao local da construção. A ponte era necessária para a população local, que fazia a travessia do rio com balsas de madeira, dificultada pelas cheias. Em 1944, durante a fase de testes, a ponte desabou, acarretando em oito mortes. A obra foi retomada apenas em 1950 e concluída em 1952.

Outras centenas de mortes acidentais teriam ocorrido no período de construção do trecho ferroviário Bento Gonçalves – Jaboticaba, coordenado pelo 1º Batalhão Ferroviário, sediado em Bento Gonçalves. O trecho, de 48 quilômetros, foi construído entre 1936 a 1965, mobilizando cerca de 1.500 pessoas. As mortes teriam sido ocasionadas por soterramentos nas aberturas de alguns dos oito túneis cavados no trecho, feito para servir de ramal da construção do Tronco Principal Sul da ferrovia de carga, ligando Porto Alegre ao centro do país.

O trecho está desativado há cerca de três décadas. Os trilhos, os oito túneis e as pontes foram encobertos pela mata e hoje só habitam no imaginário da população mais antiga.

Já a Ponte do Rio das Antas, após concluída, em diversas ocasiões foi o local escolhido por moradores de Bento Gonçalves e outros municípios da região para suicídios.

Moradores ribeirinhos das imediações relatam experiências fantasmagóricas impressionantes que, em função dos inúmeros óbitos ocorridos no local, podem ir além de simples crenças populares.

Confira!

O milagre de Keti

Bento Pedro, de 62 anos, vigilante aposentado e natural da costa do Rio das Antas, lembra de fatos envolvendo assombrações que o impressionam até hoje. Um deles ocorreu há mais de 30 anos, em acampamento com afamília na “Prainha”, hoje coberta pelas águas em função do alagamento para a instalação da Usina Hidrelétrica 14 de Julho, da Ceran. Aquele acampamento, com a esposa e a filha, então com seis anos, seria interrompido de madrugada pelos latidos desesperados de Keti, a cachorra mascote da família.

“Era véspera de Natal e também do meu aniversário. O dia estava lindo. Convidei a esposa e a filha para acamparmos na beira do rio, perto da prainha, onde no dia seguinte tinha um jogo de futebol para apitar.

Quando estávamos colocando a barraca e utensílios no Chevette, nossa cachorrinha Keti entrou no carro, mas a tiramos porque não havíamos planejado de levar ela junto. Ela retornou, insistindo em permanecer no veículo.

Decidimos então levá-la junto ao acampamento. À noite o céu estava claro e o rio havia recuado em torno de dois metros da margem. Após o churrasco e algumas cervejas, fomos dormir. Horas depois, fui acordado por latidos da Keti, que tinha ficado do lado de fora da barraca. Eu saí da barraca e vi um gato branco em meio à escuridão, indo em direção ao rio, onde sumiu. Olhei o tempo, que me pareceu firme, e voltei a dormir, até novamente ser acordado pela cachorra que começou a acuar muito forte. Ao abrir a barraca, me deparei com o rio bem perto. Saí da barraca com a chave do Chevete na mão e acordei a minha mulher aos gritos, pedindo que ela e a menina saíssem rápido da barraca porque tínhamos que ir embora. A água do rio já tinha invadido o assoalho do carro, que sempre apanhava para dar partida, mas na ocasião, por milagre, arrancou na primeira tentativa. Tinha chovido muito nas cabeceiras do rio, que cresceu de forma assustadora de uma hora para outra. Se não fosse os latidos da cachorra, teríamos sido levados pela água. Keti ficou conosco até morrer, quando foi substituída por outra cadela, também chamada Keti”, relata.

Depoimentos

Acampamento assombrado em Jaboticaba

Ele conta que em outro acampamento, em Jaboticaba, com amigos e parentes, também viu e ouviu manifestações sobrenaturais.

“Na noite que passamos lá, vimos um caico (barco de pesca) passando vazio na nossa frente e escutamos música de gaita numa região que é silenciosa. Um tio que estava junto, hoje falecido, dizia para nós não nos preocuparmos porque era coisa de espíritos”, recorda. A surpresa e o espanto tomaram conta do grupo na manhã seguinte, quando foram desarmar a barraca.

“Quando fomos tirar a lona da barraca tinha uma cruz embaixo dela (da lona) com os nomes de cinco pessoas. Depois fomos descobrir que os nomes eram de militares do 1º Batalhão Ferroviário, que trabalhavam na construção da ferrovia, mortos por afogamento no local.

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“Estouro de pedras caindo”

“Estávamos pescando e escutamos o estouro de pedras caindo, mas na verdade não eram pedras. A gente só escutava o barulho. As pessoas que percorrerem esse trecho a pé à noite, pensando no assunto, também vão ver e ouvir essas manifestações. Elas abrem o caminho para manifestações de espíritos que ali estiverem vagando. Não duvide, porque se duvidar é pior. Tem tanta alma perdida na beira de rio que é bom não duvidar”.

A relação de Bento com o rio é de medo, respeito e precaução. “Eu não brinco com a água, esse rio é muitoperigoso. Muitas pessoas que sabiam nadar que nem peixe morreram afogadas. Antigamente, quando o rio era mais procurado no verão para acampamentos e banhos, era difícil passar um final de semana sem algum afogamento. Uma vez, salvei uma moradora de Bento Gonçalves, na época com 18 anos, que foi levada pela água. Consegui salvar puxando-a pelos cabelos”.

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Trem fantasma

O comerciante Alessandro Medeiros, de 42 anos, morador de Jaboticaba, lembra de episódios assustadores vividos na infância. Um deles é de um suposto trem fantasma.

“Estávamos varando o túnel em quatro pessoas quando escutamos barulho de trem e de buzina. Saltamos do trilho e encostamos no paredão, quando constamos que não havia nenhum trem passando”.

Ele também relata que na infância viu um fantasma ao lado de um casaco que seu tio tinha tirado do corpo de um homem morto. “Meu tio era do tipo que não estava nem aí. Viu o defunto, gostou do casaco e pegou a peça de roupa para uso próprio. O caso aconteceu na casa da minha vó, em plena luz da manhã. Estava acordando quando olhei para uma cadeira do quarto e vi nela um homem sentado. Comecei a gritar de pavor. Ao contar o caso para a nona, ela disse que o fantasma poderia ser do dono do casaco, que estava pendurado ao lado da cadeira. Além de mim, outras pessoas viram o fantasma em torno do casaco”.

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Barca em nevoeiro assusta pescadores

O também comerciante Verlei Colao Merlo, de 50 anos, lembra de uma história que presenciou há 35 anos, no restaurante de propriedade de sua família, localizado logo após a ponte, em território de Veranópolis.

“Já era noite alta quando um grupo de homens que pescava na beira do rio, aqui perto, adentrou o bar expressando medo. Eles estavam apavorados, mais brancos que vela. Após se acalmarem, contaram ter visto uma barca, com várias pessoas, deslizando no rio, no meio de um nevoeiro, sem fazer qualquer barulho”.

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As histórias de Nelson

O aposentado Nelson Staquini, 69 anos, relata uma história que vivenciou aos 19 anos, época que um dos seus passatempos era caçar na beira do rio com amigos, mas um episódio de caça mal sucedida mudou sua relação com as armas.

“Era 8 de dezembro, Dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Fomos roçando para abrir a trilha até o rio. Na descida, começamos a atirar nos pássaros que passavam, mas o chumbo saía do cano e caía no chão.

Meu amigo disse que os cartuchos estavam carregados como sempre. Eu tentei de novo e acontecia a mesma coisa. Eu atirava e os chumbos não iam, os chumbos caiam na frente do cano. Minha falecida sogra, quando me viu com a espingarda na mão, ficou braba, porque, segundo ela, não se devia caçar passarinhos em dia santo. Ao retornar para casa, testei a espingarda, que funcionou normalmente. Mesmo assim, nunca mais me animei a caçar passarinhos”, conta.

A esposa Nair, também criada na beira do rio, relatou um caso envolvendo primos e primas que na juventude, na noite de finados, teriam sido perseguidos por luzes de velas ao retornarem às suas casas após uma festa na comunidade.

Nair e Nelson também contam que mulheres da comunidade que lavavam roupas no rio viam corpos e caixões subindo a correnteza, em plena luz do dia.

“Antigamente, esse trecho do rio foi muito usado para desova de cadáveres. Na época da construção do ramal ferroviário, os peões brigavam de faca. Era matar, enterrar e deu, não acontecia nada. Penso que essas manifestações eram almas penadas presas ao lugar”, conclui Nelson.

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“Vou me jogar da ponte”

“Vou me jogar da Ponte do Rio das Antas”. A afirmação é cultural, por ser fala recorrente entre muitos bento- gonçalvenses em situações de dificuldades financeiras ou de estresse emocional. Mas, infelizmente, várias pessoas, em quadro de depressão, foram às vias de fato do suicídio utilizando a ponte. O comerciante aposentado Adelino Tomasi, 66 anos, que nasceu, se criou e teve tenda nas proximidades da ponte, conseguiu salvar seis pessoas que estavam se afogando e uma mulher prestes a se suicidar. Mas, também testemunhou suicídios e um homicídio.

“Um primo, com então 18 anos, se atirou da ponte. Lembro que ele nunca vinha sozinho para cá. Só que naquele dia, ele veio. Estava estranho. Ao ir embora, disse que pegaria o ônibus do outro lado da ponte. Minha prima viu ele em cima do arco, sentado com as pernas para fora. Ele se jogou. Lembro que estava com o abrigo do colégio. Fomos lá ver, minha mãe foi também. Tinha pouca água e dava para ver bem ele lá embaixo morto, de uniforme escolar”, recorda.

“Em outra ocasião, um conhecido que já tinha morado por aqui e residia em Bento, apareceu transtornado, dizendo que queria se jogar da ponte. Avisamos a família e vieram dois irmãos para buscar ele. Almoçaram juntos mas, mesmo assim ele fugiu dos irmãos, subiu no arco e se jogou. O rio estava seco, e caiu em cima de uma pedra sentado. Lembro do sangue correndo na água. Eu fui ajudar a resgatar o corpo lá embaixo. Só tinha pedaços dele”, conta.

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“Uma vez eu vi um homem sendo jogado da ponte, com as mãos e os pés amarrados. Ele não morreu na queda, morreu porque quebrou a perna. Gritava por socorro, só que já tinha passado da meia noite e ninguém foi lá. Ele se arrastou, se desamarrou, mas acabou morrendo no local”, lembra Tomasi.

Tomasi relata ainda que numa noite de inverno observou uma moça sentada sobre o arco, com as pernas para fora da ponte. “Me aproximei sem que ela percebesse e a agarrei, para tirá-la do local”. Na opinião dele, a ponte é procurada para suicídios “porque ali é fácil de se jogar no rio”.

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