Elaine Michelon - Foto Rita Michelin

Mulheres do século XXI: PERFIL ELAINE MICHELON- CEO do Hotel Villa Michelon

É o sorriso de Elaine Michelon que encanta os hóspedes do Hotel Villa Michelon. A acolhida com abraços, tanto aos visitantes quanto aos 50 funcionários que ajudam a compor a história do Complexo Turístico, é uma característica marcante da mulher que formou seu caráter de liderança ao lado do pai, Moysés Luiz Michelon, falecido em outubro de 2017.

Sua trajetória profissional ao lado do empresário, que mudou o perfil do Vale dos Vinhedos, começou ainda na infância, aos nove anos, na época da Massas Isabela, administrada por ele. Elaine Michelon é formada em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), tendo pós-graduação em Qualidade e em Marketing pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Participou ativamente do processo de idealização e fundação do Villa Michelon, em 2001, assumindo a gerência geral, cargo que exerceu até a passagem do patriarca Michelon.

INTEGRAÇÃO – Com o falecimento do teu pai, o saudoso empresário Moysés Luiz Michelon, em outubro de 2017, assumiste a direção do hotel onde já atuavas na gerência. Quais foram os desafios enfrentados nessa mudança sucessória? Quantas pessoas o hotel emprega?

ELAINE – De uma maneira natural, meu pai me preparou para dar continuidade ao que ele construiu. Falando em especial de nossa trajetória no Villa Michelon, as reuniões diárias com ele me fizeram conhecer a fundo os projetos e a forma de trabalhar com hotelaria que meu pai desenvolveu de maneira única. Ele carregava consigo o entusiasmo pelo desenvolvimento do Vale dos Vinhedos, e não é exagero dividir a história do roteiro enoturístico entre antes e depois do Villa Michelon. Fomos o primeiro hotel e restaurante da região, construímos uma história e uma trajetória de reputação irreparável, tanto no tratamento dos nossos hóspedes quanto dos 50 colaboradores que trabalham conosco. É lógico que durante nossos 18 anos de existência, os desafios se apresentam diariamente. Lidamos com pessoas, e não há nada mais instigante e prazeroso do que isso. Com o falecimento do meu pai e consequente transição, automaticamente iniciamos um trabalho de lidar com o luto, com a ausência, e deixar a equipe segura de que o “jeito Michelon” iria continuar.

INTEGRAÇÃO – Começaste a trabalhar ao lado do teu pai ainda criança. Como foi acompanhar essa trajetória de liderança e de que forma isso contribuiu para encarar a fase de transição?

ELAINE – Meu pai sempre foi um pioneiro. Em agosto de 1956 foi convidado para dirigir a Massas Alimentícias Ltda, sem experiência no setor. Assumiu o desafio que me fez nascer e ser criada no chão de fábrica da Isabela S/A Produtos Alimentícios (que passou a se chamar assim em 1965). Foi aos nove anos que iniciei minha trajetória “empreendedora” com meu pai, auxiliando onde me era permitido pela idade. Sempre estive ao lado dele: em premiações, em crises, no dia a dia da empresa, nas inovações, nos erros e acertos. E isso me ensinou muito mais que qualquer faculdade que eu poderia cursar. Logicamente, nossa trajetória foi um caminho de preparação, seja na Isabela, seja no Villa Michelon. Hoje posso dizer que meu pai foi meu mestre, o melhor professor que eu poderia ter: em marketing, em administração, em gestão de pessoas e, principalmente, em perseverança.

INTEGRAÇÃO – Entre o setor alimentício e o de turismo há diferenças. As técnicas administrativas são as mesmas?

ELAINE – Há diferenças no campo de atuação. Alimentação é um item de primeira necessidade, cuja inovação não precisa ser tão frequente. Turismo precisa ser reinventado constantemente. A maneira de consumir muda com as tecnologias, com o acesso à informação. O hóspede quer viver experiências, guardar memórias e precisamos trabalhar arduamente para despertar o sentimento de desejar retornar e recomendar nosso estabelecimento. Então, é lógico que há diferença entre as técnicas administrativas. Preparar uma equipe de colaboradores para receber de maneira humanizada passa longe de preparar funcionários para produção em larga escala, como ocorre em uma fábrica de alimentos, por exemplo.

 

INTEGRAÇÃO – O turismo no Vale dos Vinhedos, alavancado pela construção do Villa Michelon, há 18 anos, tem crescido dia a dia. Acompanhaste essa evolução na gerência e agora na direção do hotel. No cenário atual do Vale, que aspectos do destino são apontados pelos hóspedes como positivos e negativos?

ELAINE – Trabalhamos muito com o feedback do hóspede. Temos pesquisa de satisfação dentro do hotel, acompanhamos as avaliações no Booking, Trip, Google, redes sociais, lançamos mão de um Livro Ouro para entender suas expectativas e sugestões. Uma coisa é unânime: o jeito hospitaleiro natural de quem vive e trabalha no Vale dos Vinhedos é uma das principais razões que fazem as pessoas visitarem nosso roteiro e voltarem para cá. Em 18 anos – o Villa Michelon abriu as portas em 2001 – acompanhamos a evolução do turismo, suas mudanças, a maneira de consumir uma estada em hotel. Nos preocupamos sempre em oferecer uma experiência completa, e acredito, sem falsa modéstia, que o Vale dos Vinhedos absorveu isso, esse modus operandi Michelon. O que vejo como ponto negativo não se refere propriamente à estrutura dos estabelecimentos aqui situados. Temos como empecilhos para crescer ainda mais problemas quanto à sinalização, estradas, ausência de ciclovia e de transporte para os hóspedes. Acredito que a partir do momento que as atenções se voltarem para esses itens, teremos um crescimento ainda mais acentuado no fluxo de turistas, que se sentirão seguros para desbravar todas as belezas e nossa estrutura hoteleira e gastronômica.

INTEGRAÇÃO – Elaine, és uma pessoa simpática e simples. De que forma concilias essas características na gestão da equipe?

ELAINE – Somos privilegiados por trabalharmos com uma equipe que tem, em sua totalidade, a vocação para receber. Não trabalhamos com métodos engessados de gestão, de treinamento. No momento da seleção, levamos muito em conta a desenvoltura e a disposição para lidar diariamente com os diversos tipos de hóspedes que temos aqui. Deixo claro que todos devem ser tratados de maneira igualitária, e isso vale também para os colaboradores. Formamos uma grande família aqui no Villa Michelon, estamos juntos sete dias por semana, passamos Natal, Ano Novo e outras datas juntos, sempre no intuito de oferecer uma atmosfera agradável aos nossos hóspedes. Não há maneira melhor de alcançar esse objetivo do que dando o mesmo tratamento aos nossos funcionários. Quer um exemplo? Minha mesa não fica em lugar isolado. Trabalho junto com o setor de reservas, com a gerência operacional, setor de eventos e de recursos humanos. Não tenho sala, os colaboradores do Villa Michelon podem chegar aqui sem hora marcada para expressar suas dúvidas, descontentamentos e alegrias. Almoço com eles, circulo pelo hotel, atuo em setores desde a recepção até a cozinha do Villa Michelon. Minha mãe atua na lavanderia, cuidando do enxoval dos hóspedes pessoalmente. Esse é o segredo: entender que o Villa Michelon é a nossa casa e que todos que estão aqui fazem parte de uma família que precisa estar entrosada para que tudo funcione perfeitamente.

INTEGRAÇÃO – Os aprendizados e as trocas na lida diária com pessoas são variados. Os que predominam para ti para nortear a administração do estabelecimento?

ELAINE – Trabalhar com pessoas implica em aprender a ouvir. Para mim, esse é um dos nortes da administração. É lógico que preciso assumir uma posição de liderança, mas ela é sempre exercida em uma caminhada conjunta com os colaboradores, para que não haja ruídos na comunicação. As decisões são tomadas e comunicadas, mas também são discutidas. Resumindo: saber ouvir e entender que uma liderança não precisa ser imposta, mas discutida, são as principais lições que tomamos diariamente.

Foto: Rita Michelin 

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