SAO PAULO - SP - BRASIL - 26.11.2015 - Black Friday
Supermercado Extra da Avenida Ricardo Jafet 
Foto  Reinaldo Canato

Não brinquem com os preços

Por Elvis Pletsch

elvis_pletsch@hotmail.com 

Imagine uma sociedade onde o preço do tomate está alto, digamos que seja oito reais por quilo. Nesta sociedade, há um sujeito chamado João (sempre é o João), que é produtor de tomates. Na visão da população, João é considerado o culpado pelo preço alto do tomate: oras, que ganancioso é o João. Isso até pode ser verdade, João pode estar cobrando um preço bem acima do normal, ou talvez o custo do tomate esteja bem semelhante ao preço que João está vendendo, mas não adianta julgarmos as decisões de João.

O governo, querendo fazer com que todos tenham acesso ao tomate, decide tabelar o preço da fruta. Está definido que os produtores de tomate não poderão cobrar mais que seis reais pelo quilo de seu produto. A população vibra. Aparentemente, o governo está ouvindo as nossas preces!
É uma pena, no entanto, que essa intervenção abra um grande número de possibilidades. João até pode engolir essa intervenção e vender pelo preço mais baixo, mas agora existe um incentivo para João vender seu produto informalmente pelo seu preço original, ou até abandonar a produção de tomates para trabalhar no cultivo de cenouras.
De qualquer forma, o resultado pode ser o contrário da intenção do governo: os produtores vão procurar outras oportunidades de lucro, os mercados vão começar a ficar mais vazios, e a população que conseguirá comprar tomates será ainda menor. Sorte para os mal intencionados: já imaginou se decidirem criar uma grande rede de tráfico de tomates?

Se você acha que isso só acontece quando a intenção do governo é ajudar o consumidor, pensou errado. O governo pode ser muy amigo das empresas, então em uma situação onde João é quem está pedindo ajuda ao governo, um tabelamento que faça subir o preço do tomate pode até colocar João em uma enrascada: o consumo do tomate pode
simplesmente diminuir, ou ele pode até ganhar novos concorrentes, caso o consumo se mantenha estável.

O Brasil intervencionista
Na terra da intervenção de preços, não faltam exemplos para mostrar.

Para lembrar do passado, podemos até olhar para o Plano Cruzado de Sarney, em 1986. Em uma época de inflação galopante, o congelamento de preços foi a gota d’água para muitos empresários desistirem de produzir. Segundo o cientista político Bruno Garschagen, essa foi a época em que o conceito de “fila” transformou-se em uma instituição nacional. Tinha fila nos supermercados, nas feiras, nas distribuidoras de gás, nos postos de gasolina e até nos carrinhos de picolé.
Anos depois, Dilma não deixou passar em branco a ideia de congelar preços. A “presidenta” praticou o congelamento de preços da Petrobras de 2011 até o final de 2014. Só naquela brincadeira, houve um prejuízo de R$ 71 bilhões de reais à empresa, valor maior até que as estimativas dos últimos desvios de corrupção da estatal.
Ainda nesse ano, os “liberais” (será?) Bolsonaro e Macri também quiseram deixar sua marca nessa história. O presidente argentino resolveu congelar o preço de 60 itens da cesta básica por seis meses, e pode colocar o país em um caminho semelhante ao da Venezuela. Enquanto isso, Bolsonaro aparentemente tentou imitar Dilma e vetou um reajuste da Petrobras no preço do diesel. No mesmo dia o mercado respondeu, e as ações da estatal fecharam em queda de 8%. Após a turbulência, Paulo Guedes comentou que o presidente aprendeu a lição.

O que defender então?
Seria injusto não reconhecer que os argumentos em defesa à interferência nos preços parecem razoáveis. O preço fixado pode parecer a solução para o consumidor pagar menos, além de auxiliar o cálculo de custos e receitas do empresário. Não é à toa que os caminhoneiros estão brigando pelo tabelamento de fretes e que a população esteja
constantemente pedindo pela diminuição no valor do combustível. Mas é preciso enfatizar que qualquer medida que interfira nos preços altera algum fator significativo da economia – e isso raramente é bom.
Para o economista Donald Boudreaux, o sistema de preços, quando pode funcionar livremente, é um engenhoso método de comunicação e coordenação capaz de aprimorar as condições de vida dos seres humanos. Isso porque a formação de preços é um processo social, onde cada consumidor colabora em sua elaboração.

A interferência governamental nesse processo é, portanto, uma distorção no processo social que resulta em uma informação falsa daquilo que está acontecendo na sociedade. É por isso que devemos ter cuidado ao pedir a interferência do governo, mesmo quando queremos um preço mais justo, pois a verdadeira formação de preços só poderá acontecer enquanto estiver na mão do mercado e do consumidor.
Medidas como o tabelamento de fretes, por exemplo, podem criar um incentivo para as empresas comprarem os próprios caminhões e deixarem de contratar transportadoras ou motoristas autônomos. A diminuição artificial no combustível também pode distorcer toda a lógica de preços e fazer com que todos paguem pelos prejuízos da Petrobras. Lembre-se que não há como uma empresa vender seus produtos por um preço mais barato do que
seu custo por tanto tempo. Por sorte (e para nosso azar), a estatal pode contar com a ajuda dos impostos para bancar suas contas.
A nossa única alternativa é abraçar medidas como a abertura comercial, a diminuição de impostos, o fim dos subsídios, a desburocratização, a defesa por uma moeda mais forte (afinal, o real pode até ser mais estável do que o cruzado, mas não é nenhum franco suíço) e outras medidas de longo prazo que facilitam a entrada de novos concorrentes no mercado, mantém o nosso poder de compra e tornam os preços mais atrativos para a população. Portanto, como membro consumidor e parte desta interação social que conhece as trágicas possibilidades das políticas econômicas, faço um encarecido pedido para aqueles que tratam de emitir leis, decretos e tabelamentos em nosso país: por favor, estudem essas medidas e não brinquem com os preços.

SAO PAULO - SP - BRASIL - 26.11.2015 - Black Friday Supermercado Extra da Avenida Ricardo Jafet  Foto  Reinaldo Canato


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