Matéria sobre trânsito (Foto de Luciano André Lemos)

Maio Amarelo: a dor da perda e a busca da conscientização pela segurança no trânsito

Por Rodrigo De Marco | rodrigo@integracaodaserra.com.br

Acidentes de trânsito deixam milhares de mortos todos os anos nas estradas gaúchas. De acordo com um levantamento do Detran-RS divulgado em fevereiro deste ano, 1612 pessoas perderam a vida nas estradas do Rio Grande do Sul em 2018, uma redução de 7,6% quando comparado a 2017, que teve 1745 mortes. Neste mês de maio, na tentativa de frear a carnificina nas ruas e estradas do país estão sendo promovidas campanhas em todo o território brasileiro. Entre elas, o Maio Amarelo e a 5ª Semana Global de Segurança no Trânsito, organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Vida Urgente: atuando em parceria com a ONU

Em adesão ao Maio Amarelo, o Jornal Integração da Serra contatou a ONG Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, de Porto Alegre, promotora da campanha Vida Urgente, voltada à conscientização no trânsito. A organização foi instituída em 13 de maio de 1996 pelo casal Régis e Diza Gonzaga após a perda prematura do filho Thiago, aos 18 anos em acidente de trânsito.  A ONG, coordenada por Régis Gonzaga, no decorrer de sua atuação, promoveu várias campanhas e atendeu mais de 600 famílias, entre outras iniciativas.

“Penso que o grande mérito da fundação ao longo de sua trajetória foi incluir no trânsito a questão do comportamento, humanizando esse tema.  Os que circulam nas ruas não são máquinas, são vidas. Criamos o jeito Vida Urgente de fazer. Lá em 1996, quando saímos para bares e danceterias nas madrugadas com nossos jovens voluntários, com um bafômetro na mão e uma “borboleta” no peito era quase uma aventura. Éramos vistos como sonhadores. Na época, não existia a “Lei Seca”, que nós chamamos “Lei da Vida”, pois ela tem salvo milhares de vida desde sua implantação”, ressalta Gonzaga.

“A ideia é que todos se façam ouvir”

Neste mês, em parceria com a ONU a ONG trabalha na 5ª Semana Global de Segurança no Trânsito. “Com o Vida Urgente, atuamos o ano inteiro por um trânsito mais humano e seguro. Mas, nestes dias em especial, a ideia é que todos se façam ouvir, identifiquem o que deve ser melhorado no trânsito e, principalmente, façam a sua parte na mudança. Então, nesse trabalho conjunto com a ONU, convidamos todos para serem líderes pela segurança no trânsito. Que cada um possa registrar no site www.unroadsafetyweek.org as suas demandas e trabalhar conosco pela preservação da vida, pela educação para o trânsito”, convida.

Ainda de acordo com Gonzaga as crianças também são prioridades nas campanhas e para este mês tem a estreia de um espetáculo teatral voltado para os menores com idades até sete anos. “Temos a estreia da temporada 2019 do “Conta Comigo”, espetáculo teatral para crianças de três a sete anos de idade, que vai até escolas públicas e privadas de Porto Alegre. De um jeito lúdico, promovemos a educação para o trânsito para a criançada. Até o final do ano, cerca de cinco mil crianças devem participar do projeto.  Também seguimos com as atividades do Vida Urgente como o Grupo de Apoio para pais e mães que perderam filhos em acidentes de trânsito, entre outras”, ressalta ele.

REGIS SPEAK UP - BRENDA PARMEGGIANI DIVULGAÇÃO FTMG (10) (1) PROJETO DA VIDA URGENTE (TRÂNSITO) - BRENDA PARMEGGIANI DIVULGAÇÃO FTMG (84)

A despedida de um jovem de 19 anos atropelado na calçada

“Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”. A frase é do jovem Gabriel Marques, que em 2014, aos 19 anos, foi vítima de um atropelamento fatal na Avenida Dom Pedro II, a Terceira Perimetral, em Porto Alegre. Em um depoimento emocionado para o Jornal Integração da Serra, Patricia Freitas Marques, 55 anos, mãe de Gabriel, lembrou o episódio trágico que vitimou o seu filho. Pouco mais de 4 anos após perder Gabriel, um dos seus quatro filhos, Patrícia não esquece daquele fim de tarde fatídico.

Gabriel concluiu os estudos na escola militar de Porto Alegre. A mãe lembra que o jovem era um leitor voraz e muito estudioso. Gabriel colecionava amigos, sorrisos, e aos 19 anos tinha o sonho de seguir carreira militar, de fazer parte da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), no Rio de Janeiro. Naquele 20 de dezembro chuvoso ele esperava o ônibus para voltar para casa após um dia de trabalho. No momento do atropelamento Gabriel conversava com a mãe e a namorada por mensagens no celular.

De acordo com Patricia o motorista que atropelou e matou seu filho estava alcoolizado e dirigindo em alta velocidade na faixa destinada aos ônibus. “Ele entrou na avenida antes da curva em alta velocidade, subiu na calçada, atropelou, arrastou e arremessou o Gabriel de cima do viaduto. Como ele estava numa velocidade alta voou com o carro de cima do murro de contenção. Ele (o motorista) não sofreu nada grave, nenhum machucado, muito embora na época tenha sido passado na mídia que ele corria o risco de ficar tetraplégico e ficar hospitalizado. Ele ficou poucos dias no hospital e passou o ano novo em casa com a família dele”, afirma.

No momento que a conversa com Gabriel foi abruptamente interrompida Patricia imaginou que a bateria do celular de seu filho havia acabado. Ela estava se arrumando para uma festa naquele sábado chuvoso.

“Eu estava me arrumando e falando com ele e de repente o sinal foi interrompido. Pensei que a bateria do celular dele tivesse acabado. Terminamos de nos arrumar, aconteceu o temporal e aí tivemos que esperar um tempo para poder sair de casa. Fomos para o aniversário e um tempo depois o celular tocou. Era a Mari, a namorada dele, avisando que o Gabriel não havia chegado ainda”, recorda.

Angústia, lágrimas e superação

A preocupação pela demora da chegada de Gabriel começou a ganhar um tom mais escuro próximo das 23 horas daquele sábado. Sem ter respostas do jovem a família descobriu numa pesquisa na internet que havia acontecido um acidente na zona norte. Patrícia chegou a ir num hospital para tentar encontrar respostas. Já se aproximava do domingo quando a família descobriu que Gabriel havia sido vítima de um atropelamento. Ele estava no Instituto Médico Legal (IML) sem identificação. Após o atropelamento os pertences de Gabriel foram furtados. Patrícia recorda com lágrimas nos olhos do momento que soube da morte do filho.

“Eu acho que o dia que sentir a sensação de estar morrendo não vai doer tanto como eu sofri quando soube da morte do meu filho. Quando eu soube da morte do Gabriel eu queria morrer. O meu ímpeto foi de me matar, de me jogar da ponte do rio Guaíba, e eu só não consegui porque me trancaram dentro de casa. Comecei a bater com a cabeça na parede chorando muito, por muitas horas. Queria sumir. Naquele dia fazia um ano e seis meses que havia perdido o meu marido”, se emociona.

Pouco mais de um mês após a morte do filho Patrícia começou a reagir e buscar ajuda. A mãe, amada pelos filhos estava abatida, revoltada. Foi pensando neles, segundo ela, que encontrou forças para começar uma nova etapa no processo de elaboração da perda.

“Eu me dei conta que meus filhos tinham perdido o pai e também o irmão e estavam perdendo a mãe porque eu estava um trapo e só queria morrer. Percebi que eles precisavam muito de mim e eu tinha que reagir. Não sei como, mas literalmente peguei a minha dor, deixei de lado e tentei ser o apoio deles. E eles sempre me estimulando a ficar bem”, conta.

Patrícia lembra que além dos filhos, a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga foi importante naquele momento.

“Eu então procurei o Vida Urgente e comecei a frequentar a reunião de pais. A primeira vez que fui conversei muito com a Diza Gonzaga, mãe do Thiago e naquela época presidente da fundação. É muito interessante, frequentei por alguns meses. A terapia ajuda bastante. Se divide muito as experiências. No Vida Urgente se divide muito as dores e alegrias. Tem casais lá que estão desde a fundação, por muitos anos. Eu levei muito tempo para sorrir, é muito recente que voltei a sorrir”, diz.

Matéria sobre trânsito (Foto de Luciano André Lemos)

Movimento pela paz no trânsito

No dia 3 de janeiro de 2015 familiares e amigos de Gabriel realizaram uma caminhada no parque da Redenção. O objetivo do ato foi de conscientização sobre os perigos do trânsito. Centenas de pessoas vestindo camisetas brancas com a foto de Gabriel participaram do ato. Esse foi apenas o início do movimento. Patricia mantém uma página no facebook para recordar Gabriel e conscientizar as pessoas. Intitulada “Gabriel Marques paznotransitopaznavida”, com mais de quatro mil curtidas.

Patrícia, mulher de um largo sorriso e doces palavras, diz estar forte e mantendo acessa a lembrança de um filho alegre e que amava a vida. “Hoje eu tento fazer o que ele gostava de fazer e então eu diria isso para essas pessoas, para fazeres coisas que os filhos gostavam de fazer. É muito importante também estarmos com pessoas que amem a gente verdadeiramente”, acrescenta.

No final de 2018, o atropelador teve uma sentença de quatro anos em regime semiaberto, mas que segundo Patrícia, foi convertido por trabalho social. Patrícia entrou com um processo recorrendo da decisão e diz esperar por justiça.

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Natal de dor e lágrimas

O dia 25 de dezembro de 2012 não foi de festa para a caxiense Maria Ribeiro de Souza, de 62 anos, conhecida por Mari. Naquele dia ela recebia a notícia da morte da filha, dos dois netos e do genro, vítimas de um acidente fatal próximo ao município de Eldorado do Sul, ocorrido por volta das 4h50 da manhã. O carro em que os quatro ocupantes estavam se chocou de frente com um caminhão. Emocionada, Mari diz não conseguir esquecer da filha, netos e genro.

“Como esquecer dos meus netos? Só quero ficar com a imagem deles saudáveis, amorosos e sorridentes. Esta imagem que quero guardar para sempre. Minha filha uma pessoa amorosa sempre preocupada com a família e o meu genro uma pessoa trabalhadora, enfim todos com a vida repleta de sonhos e um futuro promissor”, se emociona.

Mais de seis anos após o trágico acidente ela mantém viva na memória aquele dia. Mari, mulher batalhadora e sempre disposta a ajudar o próximo, diz que encontra forças amparando outras pessoas através do trabalho social.

“A perda é um trauma que permanece para sempre. É um aprendizado contínuo. O tempo é um aliado razoável. Mas a fé nos garante efeitos mais positivos para a alma e assim aprende-se a lidar com a perda. Eu procuro amenizá-la ajudando outras pessoas por meio de trabalho social. Ajudar o outro é gratificante e nos dá força para ir em frente”, afirma.

“Campanhas já existem. Precisamos de mais empenho das autoridades no que tange a medidas mais eficazes. Não digo multas. Porém medidas legais como mudanças no Código Brasileiro de Trânsito. O Detran cria provas no intuito de educar o motorista antes da liberação da carteira de motorista. Sabemos que cada dia são colocados nas ruas muitos veículos com tecnologia de ponta, mas ao mesmo tempo frágeis. É só reparar nos abalroamentos. Os veículos transformam-se em materiais retorcidos”, observa ela.

Netos de Mari Souza

 

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