Crônicas na Bagagem

O passo mais difícil

Por João Paulo Mileski

Quando completamos a sexta noite consecutiva dormindo no carro, com temperatura inferior a 10 graus e um vento congelante de 40 km/h, com o Sandero estacionado na beira da rua onde um “zorro” caminhava sossegadamente, no pequeno povoado de Cerro Sombrero – na parte chilena da Terra do Fogo – publicamos uma foto nas redes sociais do nosso “dormitório” e algumas pessoas escreveram ressaltando que era preciso coragem para isso.

 

Pensei por um tempo naquilo e, analisando o contexto, de fato talvez tivemos que ser um pouco audaciosos para simplesmente dormir em um carro pequeno, em local público, em uma cidade desconhecida. Mas a verdade é que, na hora, nos pareceu como algo natural. Havia bons motivos para nos acomodarmos em Cerro Sombrero por uma noite: os banheiros públicos mais limpos que eu já conheci, ducha quente e wi-fi grátis, além de referências de outros viajantes que já haviam passado por lá anteriormente. Todos esses fatores, somados ao peso do cansaço, fez com que não titubeássemos quando levantamos a hipótese de ali ficar.

 

Antes disso, já havíamos ficado dois dias consecutivos sem banho e nos arriscado em estradas bastante ameaçadoras para um veículo sem tração – tanto é que atolamos uma vez. Mesmo assim, apesar de tudo o que já vivemos nesses quase dois meses de expedição, talvez nosso principal ato de coragem tenha sido antes disso tudo começar, quando decidimos largar tudo para gastar todas as nossas economias e viver dois anos na estrada. Tanto que consideramos a hipótese em 2015 e somente em meados de 2018 vencemos o medo e decidimos levar a ideia adiante.

 

Aquele não foi apenas o primeiro passo, mas o mais difícil, o que mais nos custou dias de discussão, análises e noites de sono. O que estava em jogo era abrir mão de trabalho, trancar a faculdade e, possivelmente, voltar a Bento Gonçalves com a poupança raspada.

 

Hoje, no “final do mundo” – escrevo de Ushuaia -, refletindo sobre o que passou para que chegássemos até aqui, no entanto, começo a me dar conta de que o maior medo talvez nunca tenha sido deixar tudo isso para trás, mas sim “dar um tempo” em uma forma de vida que, em algum momento, se convencionou como a correta e que, de certa maneira, sem nos darmos conta, acaba moldando tudo o que fazemos.

 

Nós abrimos mão de praticamente tudo para ver e descobrir como é viver exatamente como a gente quer. E por mais difícil e custoso que esteja sendo, a sensação, isso eu posso garantir, é libertadora. Essa é uma experiência que não durará para sempre, mas hoje já não vemos o mundo sob uma única perspectiva, e isso, por si só, faz tudo valer a pena. Quando isso terminar, já não seremos os mesmos que éramos antes.

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