O pote cultural: sobre metas e sonhos

O pote cultural

Por Elvis Pletsch

Há algum tempo, sentia-me perdido quanto ao o que queria para a minha vida. Tinha muitos problemas para organizar minhas ideias, pois queria fazer muita coisa e não sabia por onde começar. A ansiedade, assim como a pressão do ambiente para tomar decisões rápidas, transformou-me em um verdadeiro estrangeiro – no sentido Gessinger da palavra – sem metas definidas e sem rumo certo para seguir.

Foi através dessa frustração que, juntamente a Natália Zucchi (namorada, jornalista e colunista deste mesmo jornal), desenvolvemos aquilo que apelidamos de “pote cultural”.

O nome surgiu por acaso. A intenção inicial era colocar frases e trechos de livros e músicas que gostaríamos de lembrar, mas a ideia não pegou. Por isso, reaproveitamos o nome para criar um procedimento para armazenar objetivos, metas e ideias em um velho pote de cerâmica.

O que aconteceu após o uso dessa metodologia foi inesperado: escrevemos ao menos 50 papéis com aquilo que gostaríamos de fazer, dobrando-os e separando-os em metas de curto, médio e longo prazo. Aos poucos, enchemos o pote com lugares para viajar e restaurantes para conhecer, além de metas de vida, como empreender, terminar a graduação, aumentar os investimentos na bolsa, voltar a escrever, fazer cursos ou ver o show de algumas bandas. Se ao longo do ano houvesse algo novo que poderia ser feito, fazíamos um novo papel para ser adicionado aos outros.

Quase um ano depois, não haviam muitas lembranças daquilo que estava escrito no pote, pois não tínhamos o hábito de olhar o que estava por lá. Mas, após um breve momento de dúvidas quanto ao futuro, resolvemos rever todos os papéis. O resultado nos surpreendeu. Cumprimos muita coisa que havíamos esquecido, e boa parte das outras metas e ideias estavam sendo encaminhadas.

Faça você mesmo

Não é difícil aplicar essa metodologia em casa. É necessário um recipiente qualquer, caneta e papel. No nosso caso, utilizamos um pote de cerâmica, caneta hidrográfica e papel colorido.

Após conseguir esses itens, basta anotar tudo aquilo que você quiser fazer, seja amanhã ou em cinco anos. Pode ser qualquer ideia. Comece lembrando das coisas pequenas, como visitar um amigo ou conhecer algum lugar, para depois se aprofundar e colocar seus maiores desejos, como viajar para outro país, conseguir um novo emprego ou ter filhos. Não existe ideia ruim, até porque posteriormente você vai mudar sua personalidade e descartar aquilo que não desejar mais.

Também há a possibilidade de criar uma gamificação, escrevendo prêmios atrás de cada folha para gratificar-se ao cumprir com aquilo que foi escrito – mas lembre-se de ir com cautela, pois isso pode lhe deixar sem dinheiro algum. Em nosso caso, não desenvolvemos nenhum sistema de recompensas por nossas metas, até porque entendemos que alcançar as metas é a própria recompensa.

Por fim, basta trabalhar para alcançá-las e estabelecer um período para verificar o que está dentro do pote. Nós pretendemos olhar os papéis uma vez por ano, sem o compromisso de ficar verificando-os regularmente, mas nada lhe impede de fazer isso com frequência.

Para marcar aquilo que foi alcançado, nós colocamos os papéis desdobrados no fundo do pote, para futuramente lembrarmos de tudo aquilo que conquistamos, além de desfrutar da mesma sensação de olhar para um antigo álbum de fotografias.

O verdadeiro aprendizado

Já havia ouvido falar sobre a necessidade de uma definição de metas, mas por acreditar na habilidade humana perante a incerteza, sempre achei que uma organização de objetivos pessoais era besteira.

É claro que eu estava errado. Apesar da nossa fórmula focar somente no resultado, e não nos meios para alcançá-lo, colocar os objetivos no papel tornou-se um método inconsciente de organizar aquilo que é mais significativo.

Foi através dessa experiência que conseguimos perceber a mudança da nossa mentalidade durante todo esse ano. Várias conquistas realmente foram grandiosas para a nossa realidade, mas como amadurecemos e nossos gostos mudaram, vários objetivos já não faziam mais sentido e simplesmente foram rasgados. Assim, a possibilidade de encarar alguns velhos sonhos e deixá-los para trás ficou mais fácil, pois conseguimos visualizar todos os outros sonhos prestes a entrar no forno.

A experiência também serviu como uma injeção motivacional – veja só, rendeu até um texto. Não somos diferentes da maioria. Assim como nossos pais e avós, muitas vezes reclamamos que o ano passou rápido e temos convicção de que não fizemos nada. Mas quando tiramos os papéis e vimos que muita coisa foi conquistada, acabamos deixando de lado o pensamento rotineiro de que as coisas não andam bem. Na verdade, boa parte da cobrança diária por novas conquistas só existia porque criamos o costume de esquecer as nossas conquistas anteriores.

Seguindo os passos de Eric Ries, chegamos à conclusão de que até não falarmos a nossa ideia atual, nunca vamos ter uma melhor. É por isso que nessa última revisão de metas, outros dez papéis foram escritos, e esperamos que boa parte deles possam ser colocados no final do pote pelos próximos anos. Caso isso não aconteça, ao menos teremos aprendido uma grande lição: sem valorizar o presente e o passado, vamos viver sempre pelo futuro – e quem é que sabe o que vem por aí?

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