O Neandertal que vive em nós

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Por Rogério Gava

Sou fascinado pela história do Homem de Neandertal. Tenho até, em minha biblioteca, uma réplica perfeita de um crânio dessa espécie (o senhor aí da foto). Representa um homem adulto, que viveu cerca de cinquenta mil anos antes de Cristo. Faz parte do esqueleto mais completo de Neandertal até hoje conhecido, encontrado na França em 1909. Olhar para esse fóssil é como mergulhar nos confins do tempo. Me faz lembrar do tipo atarracado e baixinho, ruivo, extremamente forte, nariz de batata e enormes arcadas sobre os olhos, que habitou a Terra por quatrocentos mil anos. Me faz lembrar, na verdade, de nosso irmão! Sim, isso mesmo estimada leitora e caro leitor: os Neandertais e os primeiros Sapiens descendem ambos de um ancestral comum, nosso verdadeiro “pai” genético, que lá pelas tantas cansou do continente africano e resolveu dar uma voltinha pela Europa.

Os Neandertais eram filhos do frio, de tal sorte que conseguiram sobreviver durante centenas de milhares de anos na implacável Era Glacial. Eram extremamente resistentes e conseguiam conviver com as sequelas de uma vida duríssima. Muitos fósseis neandertais mostram diversas fraturas e ferimentos graves. Como o de um indivíduo que fraturou o cotovelo esquerdo na adolescência, e cuja cicatrização lhe impediu de esticar o membro pelo resto da vida. Outro, trazia implicações de artrose nos joelhos e nos tornozelos, além de fraturas nos dedões do pé. Também, não era para menos: sabe lá o que era abater um mamute à unha? Ou enfrentar uma fratura exposta em plena Idade da Pedra?

Por um bom tempo a imagem de nosso irmão extinto foi a de um troglodita com uma clava na mão, bruto e estúpido. Nada mais falso. Os Neandertais possuíam uma organização social rica e complexa. Cozinhavam alimentos, produziam ferramentas, conheciam o poder medicinal de muitas plantas, pintavam as cavernas e utilizavam adereços pessoais, como colares. Mães Neandertais amamentavam seus bebês até cerca dos dois anos de idade. Tomavam conta da prole com zelo e carinho.

Gava - Neandertal 1

Neandertais também cuidavam de seus doentes. Sabemos disso pelos ossos de indivíduos deficientes encontrados, os quais apresentam graves sequelas: uma boca totalmente sem dentes, desgaste na bacia, cegueira, atrofia ou amputação de algum membro. Impossível alguém sobreviver dessa forma, nas duras condições de então, sem o amparo dos outros membros do clã. Um exemplo de solidariedade muito antes da civilização florescer. E um detalhe muito importante: Neandertais também enterravam seus mortos, mostrando uma atitude sofisticada em relação ao fim e talvez, à crença em uma outra vida. Só não sabemos ao certo até que ponto os Neandertais desenvolveram algum tipo de linguagem. Ao que tudo indica, porém, eles se comunicavam de forma bastante eficiente.

Até fisicamente os Neandertais não eram lá tão diferentes de nós. Se um deles desembarcasse de uma máquina do tempo, vestisse um blazer e fosse passear pela cidade, com certeza iria passar desapercebido em meio à multidão. Na Alemanha (onde o primeiro fóssil batizado como da espécie homo neanderthalensis foi encontrado, em 1856, no vale de Neander – daí o nome Neandertal), há um exemplo desses no museu dedicado à espécie. Um Neandertal de camisa social e terno, com os cabelos alinhados e barba feita, na maior beca. Parece até o George Clooney.

Penso que nosso irmão se daria muito bem por aqui, em nossas plagas gaúchas. É que os Neandertais adoravam um churrasquinho. Era abater um colossal mamute ou bisão, para todo o clã se empanturrar por vários dias. Também pudera: para sustentar o corpanzil diante das duras temperaturas um Neandertal tinha que ingerir muita proteína. Assim, um macho precisava comer, por dia, cerca de quatro quilos e meio de carne. Algo assim como uns dois espetos inteiros de picanha. E dos grandes! No cardápio neandertal entravam ainda tartarugas, peixes, caracóis, rãs, pássaros, pequenos roedores, até mesmo insetos; todo animal que atravessava em frente a um Neandertal tinha vida curta: ia logo parar no braseiro. Olha, hipercarnívoro como era e acostumado a uma geada brava, estou para dizer que até uma bombacha o Neandertal toparia usar.

A vida muda, no entanto, quando a vizinhança muda. A chegada dos Sapiens ao continente europeu, foi, aos poucos, tirando o lugar dos Neandertais e empurrando-os para as montanhas, onde tinham menos chance de sobrevivência. Populações cada vez menores foram escasseando a reprodução. O fim se aproximava. Os últimos fósseis neandertais conhecidos foram encontrados em uma caverna, junto ao Estreito de Gibraltar. Pelo o que se sabe, o derradeiro Neandertal caminhou pela Terra há cerca de trinta mil anos.

O crepúsculo dos Neandertais segue envolto em uma nuvem de mistério. O processo de extinção dessa espécie deixou vestígios muito escassos. Mas existem hipóteses bastante plausíveis. Quase todas elas ligadas ao aparecimento do rival Sapiens, mais inovador e adaptável, e, se supõe, desenvolvido culturalmente. Mesmo que menos dotado do ponto de vista físico. A verdade é que nossos ancestrais diretos mudaram a vida neandertal para sempre. E sem retorno. Da mesma forma como os índios da América foram cedendo à supremacia dos invasores europeus.

Recentemente, no entanto, a ciência lançou uma nova luz sobre toda essa história. Em 2010 foi sequenciado 60% do genoma nuclear neandertal. O resultado: europeus e asiáticos compartilham entre 1% e 4% do DNA com os Neandertais (ao contrário dos africanos, pois os Neandertais nunca migraram para a África). Três anos mais tarde, em 2013, era descoberto o primeiro osso pertencente a um filho de pai Sapiens e mãe Neandertal. Sim, houve namoro e casamento entre as duas espécies. Sapiens e Neandertais cruzaram seus genes e isso não foi casual, mas se deu ao longo de centenas de gerações. O sexo no fim do Pleistoceno já era um grande sucesso.

Uma grande parte da humanidade tem um pouquinho de DNA neandertal. Eu e você, muito provavelmente. Guardamos em nossos genes uma parcela dessa história fantástica e que também ajudou a construir nossa espécie. E que deve nos fazer lembrar de nossa fragilidade. Os Neandertais habitaram a Terra por milhares de anos. Comparada à história do Homem de Neandertal, a nossa está apenas começando. Nós, Sapiens, somos meros principiantes na antiquíssima e extraordinária espiral da vida. A saga de nosso irmão extinto tem muito a nos ensinar. A nos advertir. Ele, que sumiu da face da Terra para sempre, mas que ainda vive entre nós.

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