Aprendizados

Por Rogério Gava

Amar a própria história

Leio esta passagem arrebatadora escrita pelo psicanalista Juan-D. Nasio: “(…) sou neste instante o resultado de tudo o que fui, de todas as experiências agradáveis e desagradáveis por que passei. E diria, como na célebre canção, ‘Non je ne regrette rien’ (Não, eu não me arrependo de nada!), uma vez que tudo o que me precede me leva a ser aquele que sou hoje perante vocês e perante mim mesmo”. Que verdade extraordinária e ao mesmo tempo tão difícil de ser assimilada. Quantas vezes sofremos remoendo o passado, nos arrependendo do que fizemos ou deixamos de fazer. Caminho mais curto para o inferno de espírito. Como disse o Riobaldo, sábio filósofo do sertão: “para trás, não há paz”. Temos que aprender a olhar para o passado com orgulho, como tudo o de bom e ruim que ele nos proporcionou. O caminho da serenidade, aprendi, é aceitar a própria história. Mais do que isso: é preciso sinceramente amá-la.

O verdadeiro “Sapiens”

Conhecimento não é sabedoria; inteligência não é sabedoria. “É preciso forjar muitos pensamentos, não muitos conhecimentos”, já dizia Demócrito, o sábio filósofo de Abdera, há vinte e cinco séculos. Quem já não conheceu algum bobalhão inteligente? Um sabichão imbecil? Ou aquele “geniozinho ambulante” presunçoso e professoral?

Sabedoria é sensibilidade, é saber tocar sons, ouvir cores e sentir o aroma dos gestos. Sábio é o que enxerga sentimentos por entre os dias, canta a vida vivendo, sente sua a dor do mundo, tece poemas ao sol, se angustia por existir. E suspende a angústia existindo. Sabedoria é olhar o mundo por cima do muro das aparências. E enxergar, lá longe, um horizonte muito além do concreto frio e úmido do conhecimento científico.

Medo de ser feliz

A expressão é conhecida: “sem medo de ser feliz!” E faz todo o sentido. Ter medo de ser feliz é fugir inconscientemente da felicidade. É sabotar a si próprio diante de uma conquista difícil e há muito sonhada. É não se crer digno da alegria, lá justamente onde nos encontramos com nossos sonhos. É não se achar merecedor das próprias conquistas. Difícil de acreditar, mas, quantas vezes fazemos de tudo para estragar o que conquistamos? Para nos autodepreciar? Para destruir o que temos? Freud, com a genialidade que lhe era peculiar, escreveu sobre esse estranho comportamento há cem anos, em um ensaio com um título muito singular: “Os arruinados pelo êxito”. Lá pelas tantas do texto, anota o célebre Dr. de Viena:

“Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de médico, se faz a descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem no momento em que um desejo profundamente enraizado e de há muito alimentado atinge a realização. Então, é como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, pois não pode haver dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem”.

A sensação de que somos um embuste está sempre presente em nossas conquistas. É como se “fosse bom demais para ser verdade”, e não acreditamos no que nos tornamos ou alcançamos com árduo esforço. A psicanalista Diana Corso resumiu essa propensão neurótica de forma perfeita: “Levante a mão aquele que não se julgar uma fraude”, escreve; e arremata: “ Enfim, é mais fácil lidar com o fracasso do que com o sucesso, pois, pelo jeito, a melhor parte é continuar querendo”. Dar-se conta de que somos sim, dignos do que conquistamos, também faz parte da complicada e difícil arte de viver.

A caixinha de fósforos

Um velho professor, filósofo, gostava de explicar o mistério da transcendência se valendo de uma pequena caixinha de fósforos: “Mirem esta pequena caixa, quantos lados vocês estão vendo?”, perguntava ele aos alunos. “Três!!”, respondia a classe em coro. O professor então continuava: “E se eu virar a caixa vocês irão ver os lados que antes não viam, e os outros terão agora se escondido, certo?”.

Magnífica alegoria para a transcendência. O que transcende é isso: esse algo que sentimos se esconder por detrás do real. Impossível de ver, mas cuja presença é denunciada justamente por aquilo que vemos. Assim como quando notamos apenas três lados de uma caixa, em detrimento dos outros que fogem à visão. Mas nem por isso deixam de existir. É como se o que não vemos fosse essencial para a existência do que vemos. A transcendência é a experiência de tentar nomear algo que nos escapa e pode, talvez, existir para além da realidade. E não importa o que esse além possa significar para cada um de nós. É aquilo que a filósofa Ana Arendt dizia situar-se “além do ciclo da vida”. Ou, nas sábias e esclarecedoras palavras do pensador francês Luc Ferry: “ a transcendência é uma realidade cuja origem nos escapa”. A vida é palco; a transcendência, bastidor. Subirá, algum dia, o pano?

Ser feliz por antecipação

“O melhor da festa é esperar por ela”, diz o conhecido ditado. Agradável sabedoria. Ser feliz por antecipação já é estar feliz. Sentir o prazer das férias por chegar. De um jantar a dois que se aproxima. De um gole na cerveja que gela. Amostras de uma felicidade vindoura que são, de antemão, a própria felicidade. Ser feliz é sentir o aroma da deliciosa comida ainda no fogo e ter o prazer anunciado de saboreá-la. Sempre na confiança, é claro, de que a felicidade esperada se concretize. Ser feliz é também confiar que tudo vai dar certo. Mesmo, que, saibamos, nada, nunca, estará garantido.

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