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A Luz da Morte

Por Rogério Gava

Da morte, nada sabemos. Apenas que ela é uma imposição. A maior que temos ao longo da vida. Pois até da própria existência podemos abdicar, pela via extrema e triste do suicídio. Da morte, no entanto, não há remissão. Dela, em toda a história, nenhum homem conseguiu escapar. Não há fracasso quando se trata de morrer. Ninguém, até hoje, falhou em partir.

A morte nos assusta, e não poderia ser diferente. O horror do caixão, do corpo físico sem vida e que, sabemos, haverá de se decompor. A dor e o sofrimento de quem se despede. E o que mais arrepia: o “não-ser” para sempre: o “nunca mais” para toda a eternidade. Ato de extrema solidão, já que ninguém pode morrer em nosso lugar, a morte nos desafia e devora. Ficaríamos apavorados com muito menos.

É claro que há a questão da fé. A crença no “outro lado”. Sejamos honestos, no entanto: o que há depois da morte, ninguém conhece. Podemos acreditar em uma vida depois que partirmos, ou não, e as duas posições me parecem defensáveis. Mas, provas concretas dos dois estados, até hoje, nos faltam. Nenhuma evidência. A morte, assim, segue sendo o mistério último. Tão impenetrável quanto nosso próprio nascimento. O enigma do Alfa e do Ômega. De onde viemos? Para onde vamos?

De minha parte, tenho mais pena de morrer do que propriamente medo. Apesar dos pesares, a vida é muito boa. E, afinal, é o que temos: é pegar ou largar. Se não houver nada depois, bem, não haverá dor, nem sofrimento, nem saudade. Enfim, por que se preocupar? Essa era a proposta do filósofo Epicuro. Dizia ele que a morte não deveria tomar nosso tempo: pelo simples fato de que, quando ela chegar, já não estaremos. O bom e velho Epicuro nos ensina algo sublime: nosso foco dever ser a vida “antes da morte”, e não uma possível vida “depois” dela. Agora, se houver um “além”, espero que seja uma viagem boa, repleta de luz, paz e de explicações sobre tudo o que não entendemos. E de reencontro com quem partiu antes de nós.

A sombra da morte, porém, também emana luz. Ela nos lembra, a todo instante, que esse pode ser mesmo nosso último instante. A fragilidade da vida, diante da brutalidade da morte, dá ainda mais brilho a tudo de bom que podemos fazer por aqui. Existe algo mais valioso do que estar vivo? Tenho em meu celular um aplicativo que me lembra, cinco vezes ao dia, de que um dia morrerei. Pode parecer algo de mau gosto, mas é justamente o contrário: às vezes estou lá eu correndo de um lado a outro, preocupado com coisas mil e então o celular apita, lembrando da fugacidade da vida e do milagre que é estar vivo.

E uma última questão que não podemos esquecer: a morte, horrível e imperativa, nada pode contra a felicidade vivida. Nem ela, com seu total poder de aniquilamento, pode nos tirar o que vivemos. A felicidade que senti ao ver nascerem meus filhos, isso a morte jamais vai me roubar. Nossos momentos felizes existirão para todo e sempre. Mesmo depois que formos embora. O que vivemos é um pedacinho da eternidade. Nesse sentido, a vida ganha da morte de goleada!

“Memento mori” – lembre-se de que vais morrer –, diziam, com sabedoria, os antigos latinos. Mas lembre- -se não para se mortificar ou se angustiar. Pelo contrário, a lembrança da morte, sempre viva e presente, lança ainda mais luz sobre a preciosidade que é estarmos vivos. Se não podemos vencer a morte, podemos, sim, usá-la para dar mais sabor à vida.

A morte, afinal, esse mistério sombrio e soturno, é o quinhão da própria existência. Nascemos com ela ao nosso lado. É nossa companheira. Aceitá-la, sem se render a ela, penso ser a opção mais sensata. Buscar na sombra da morte uma mensagem de luz: essa é, acredito, a maior vingança contra nosso inexorável fim.

Este novembro de Finados foi o primeiro sem meu pai, falecido em outubro, aos 85 anos. Ele foi o exemplo mais vivo que tive sobre a serenidade diante da morte, da luz que devemos fazer emanar de nosso próprio fim. Um aprendizado de fé e coragem, do qual serei para sempre grato.

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