Interior gera oportunidades de negócios em Bento Gonçalves

Políticas de incentivo têm atingido a produção de multiculturas, gerando alternativas de renda para os agricultores

A constatação de que o número de jovens no campo é menor atualmente do que nas décadas anteriores é uma realidade. Isso pode ser analisado como um reflexo da redução no número de filhos por casal e também da migração de parte desta população para a área urbana. Na contramão desse movimento, a busca do interior como ambiente para instalação de negócios tem crescido exponencialmente em Bento Gonçalves.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, os quatro distritos do município: São Pedro, Faria Lemos, Tuiuty e Vale dos Vinhedos, são sedes de cerca de 700 empresas, que abrangem os mais diversos setores. Além disso, as localidades também abrigam 25 agroindústrias.

Um dos exemplos de empreendimentos de sucesso é a agroindústria Dall’Oglio. A propriedade de Marilice, 37 anos, e Vinicius Dall’Oglio, 48, além de possuir oito hectares de uva, fabrica geleias de figo, uva e amora, cultivados no local, e farináceos que são destinados às instituições escolares em âmbito municipal, estadual e federal.

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Desde a chegada dos primeiros Dall’Oglio, a família sempre teve outras alternativas de receita. Além da uva, eles trabalhavam com caminhões de transporte, vacas de leite ou plantação de trigo. “Inserida nessa realidade, há mais de 20 anos, a nossa agroindústria buscou na produção dos doces uma segunda fonte de renda. Tudo começou com a minha sogra que fabricava bolos e geleias. Eu era muito jovem na época, tinha 15 ou 16 anos, então minha sogra fez um curso de qualificação, e depois eu fiz também. Com isso, aprimoramos nosso processo de produção e veio o conhecimento, que foi fundamental para continuarmos”, lembra Marilice.

Atualmente, a agroindústria produz por ano cerca de 1,5 tonelada de geleia e 8 toneladas de farináceos. “Começamos a vender na Feira do Produtor Rural por uns anos. Depois estendemos para comercialização em mercados, varejos, entregas particulares e nas feiras Fenavinho e ExpoBento. A alimentação escolar também começou disso, em uma feira, a gente fez um pãozinho que foi um sucesso. Com isso fomos convidados a participar do programa.  Quando construí a agroindústria, construí pensando só nas geleias. Hoje, minha principal atividade é a produção dos farináceos. Aqui no interior, tem lugar e tem mercado pra todo mundo ter uma segunda opção”, conta.

Investindo em conhecimento

Em agosto de 2017, o prefeito Guilherme Pasin promulgou a Lei Municipal nº 6.248 denominada Plano Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável. Essa lei foi construída em consonância com as demandas de todas as 39 comunidades do interior, através de reuniões com a presença dos agricultores.

O plano tem por objetivo qualificar os agricultores, agregando renda à família, incentivando e favorecendo a permanência dos integrantes da família no meio rural. Somente neste ano, foram ofertadas 23 capacitações, por meio do Programa de Qualificação e Desenvolvimento Rural, abrangendo as áreas de gastronomia, informática, floricultura e piscicultura, que beneficiaram cerca de 270 pessoas.

Os cursos foram ofertados pela Secretaria da Agricultura, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Emater- RS/Ascar e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves (STRBG).

Mais tecnologia, mais rentabilidade

Na Região Uva e Vinho, outro fluxo constatado é um maior emprego de mecanização e utilização de práticas culturais na viticultura e na fruticultura, que empatam uma maior produção e, principalmente, em produtividade nas áreas instaladas. Segundo dados do Cadastro Vitícola do Rio Grande do Sul 2013-2015, a viticultura ocupa uma área de aproximadamente 40 mil hectares de vinhedos, correspondendo ao dobro do espaço ocupado nos últimos 20 anos.

“Até a poucos anos, se poderia dizer ser preocupante esta redução da população rural, marcando os jovens como os responsáveis por um possível futuro comprometedor. Hoje, pode-se perceber que a zona rural está em um momento real de continuação das culturas tradicionais com a presença de mais tecnologia, mecanização, gestão e rentabilidade”, observa o secretário de Desenvolvimento da Agricultura, Dorval Brandelli.

Jovens retornam ao campo

Na família de Marejane De Toni, proprietária da agroindústria Casa da Serra – Produtos artesanais, no Caminhos de Pedra, o êxodo rural deixou de ser realidade. Talita De Toni, 23 anos, optou voltar a viver no campo ao lado dos pais e da irmã mais nova de 18 anos. A decisão ocorreu depois de se especializar no curso de Tecnologia em Alimentos, no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS).

“Me sinto feliz em poder ajudar minha mãe. A pior parte ela fez, e agora posso dar continuidade ao trabalho dela. Fiz o curso com esse propósito e minha irmã está cursando Logística para que possamos também colocar em prática outro negócio para ampliar a nossa produção. Não é fácil trabalhar em família, mas com jeitinho vou convencendo ela. Não tínhamos um manual de boas práticas e fiz meu TCC em cima disso. Agora, não precisamos pagar um técnico, eu faço esse trabalho. Sem contar que não preciso procurar trabalho fora. É muito bom estar em casa”, reitera.

O negócio em família começou de forma artesanal, há mais de 20 anos. “Com o passar do tempo as exigências aumentaram e precisávamos nos profissionalizar. Conseguimos isso através da Talita que buscou o conhecimento. Pra nós, pais, é muito bom tê-las por perto, trabalhando no negócio da família”, comemora Marejane.

Créditos foto: Divulgação

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