Impressões de Viagem

Por Rogério Gava

Cidades são apenas sentimentos

Bem falou o escritor Donaldo Schüler: “Sentimentos ligam-nos a casas, ruas, montes, rios, aves e homens. Organizam, pela convivência, o mundo familiar. (…) Pelos sentimentos, o mundo estranho converte-se em nosso mundo”.

Cidades são apenas sentimentos. Todo o resto é pedra, tijolo, concreto e paisagem. Pelo menos a mim, uma cidade que não aquela onde cresci e vivi, é somente isso: não bela ou feia (todas as cidades são lindas e horríveis ao mesmo tempo), mas sem nada para me oferecer. Uma cidade estranha é qualquer lugar em que não amo, apenas toneladas e mais toneladas de pedregulhos sobrepostos que me angustiam e que não dizem nada. A cidade que me fala é aquela onde sinto, onde as casas conversam, sorrindo banguelas com suas janelas abertas e fechadas, contando histórias sobre o que fui e o que sou. A cidade mais do que tijolos e pedras e pedras e tijolos empilhados. A cidade que me fala é aquela onde vivo e estou vivo, é onde me reconheço. Longe dela me desintegro e não sou ninguém. Cidades não existem; o que existe é o sentir.

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Brincar de “não-ver”

Às vezes, finjo estar vendo as ruas de minha cidade como pela primeira vez. Me imagino um turista perdido, tentando encontrar o caminho do hotel. E então me envolvo tanto nessa simulação, que até chego a acreditar que realmente nunca vi antes nada do que estou vendo. Até a própria rua onde moro. É uma sensação estranha e estranhamente agradável. Uma maneira de tentar enxergar tudo o que conheço esquecendo de quem sou. O que vejo, igual a sempre, mas em uma percepção diferente. E então me pergunto: onde está o que enxergamos? Fora da gente ou dentro de nós?

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Angústia

O homem é uma aflição que repousa num corpo”, disse o poeta Ferreira Gullar. A angústia existencial que nos acompanha do berço ao túmulo. Pelo menos àqueles que não são tão pueris, a ponto de ter a resposta certa até para o Grande Mistério. Quem pensa que tudo é ralo, simples e claro, ou pensou pouco, ou não pensou direito. A esse respeito, Schopenhauer foi certeiro: “Quanto menos um homem é dotado do ponto de vista intelectual, menos intrigante e misteriosa parece-lhe a própria existência”. E também Comte-Sponville: “Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo”.

Tanto melhor angustiar-se, me parece.

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Antes e depois do homem

Antes do homem era apenas a natureza. Antes dela, o mundo em explosão. Antes ainda, não sabemos. E antes do homem não havia amor, justiça, o belo, a poesia, a cultura, a amizade, o ódio, todas as virtudes e vícios. Tudo somente depois do homem. Antes, não havia mal nem bem, justo ou injusto. Nem ética e moral. O mal como projeto que tanto nos espanta. Antes, apenas o “mal” natural dos animais. Que não têm nunca culpa de nada, pois não escolhem. Tudo o que de mais sublime existe, existe a partir do homem. E tudo o de mais horrível também.

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O tempo que o tempo tem

Os físicos acreditam no tempo. Ao contrário dos filósofos, a quem o tempo não engana. Ou será que são esses últimos que estão enganados? Filósofos acreditam que o tempo é contínuo, eterna e infinitamente divisível. Físicos creem no tempo discreto, medido e domado. Na grande prova do Mistério, qual dos dois grupos terá a resposta certa? Leio que até já se mediu o menor espaço de tempo possível: vale “10 elevado a menos 43”. Um número assombrosamente pequeno, mas, mesmo assim, uma grandeza existente. Trata-se de um segundo dividido em um milhão de pedaços iniciais, cada pedacinho desses equivalendo a um microssegundo. Pois bem, pegue-se esse espantoso microssegundo e dividimo-lo novamente um milhão de vezes. Repita-se cinco vezes esse processo e, ao final, partamos o intervalo que sobra em dez derradeiros pedaços. Pronto, temos em mãos o que a física acredita ser o menor intervalo de tempo possível, batizado de “tempo de Planck”, homenagem ao físico Max Planck, um dos fundadores da mecânica quântica. Essa partícula assombrosamente pequena é o crônon, a menor partícula temporal. Até hoje, porém, jamais se detectou algum fenômeno ocorrido na escala de Planck. Não se sabe se poderemos fazê-lo. Apesar do esforço da física, não se pode afirmar que o tempo é realmente discreto. Ao que um filósofo – não sem uma ponta de maldade com o pobre cientista – perguntaria: e, mesmo detectado, esse crônon não poderia ser dividido?

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Os “deuses” do esporte

Palavras de Xenófanes, filósofo grego, escritas cinco séculos antes de Cristo:

“Se um homem saísse vitorioso nas corridas ou no pentatlo em Olímpia, (…) se vencesse na luta ou na prática do rude pugilato, (…) seria mais glorioso (que antes) para os seus concidadãos, receberia assento de honra, largamente visível, sua nutrição por conta da cidade e uma dádiva preciosa. Se vencedor na corrida de carros, receberia também todas estas (honrarias); mas mesmo assim não teria o meu valor. Pois o nosso saber vale muito mais do que o vigor dos homens e dos cavalos. Tudo isso é mau costume, e não é justo preferir a força ao vigor do saber (…). Não é a presença na cidade de um bom pugilista, nem a de um homem apto a triunfar no pentatlo ou na luta, ou pela velocidade dos pés, que faria a cidade ficar em melhor ordem. Bem pequeno seria o proveito da cidade se alguém, nas margens do Pisa, conquistasse a vitória nos jogos; pois isto não enche os celeiros da cidade”.

Dois mil e quinhentos anos depois, e nada mudou. Todos sabem que é o jogador famoso; ninguém, ou quase, o cientista que inventou uma nova forma para tratar uma doença. Triste mundo que pouco aprende, e segue a venerar os ídolos errados.

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