OTHERSIDE

Por Natália Zucchi

10 de agosto de 2018, sexta-feira. O dia em que meu estômago passou por uma sessão fotográfica. O drama a seguir é pela endoscopia somada a experiência hospitalar, mas que me rendeu uma história que só pode estar aqui por causa da voz do Anthony Kiedis, do Red Hot Chili Peppers. Vou contar rapidinho.

Vou pular a parte em que eu mobilizei uns seis profissionais da saúde diferentes, questionando sobre o que aconteceria e como eu deveria proceder se eu acordasse durante o procedimento (meu pai me contou nas vésperas que ele despertou durante a endoscopia com o cano na garganta. Pra meio paranóico, um pai desses já basta). Já acrescento minha confissão para facilitar o seu entendimento: um dos meus maiores medos, com certeza, é hospital.

Esticada na maca, rapidamente varri a sala com os olhos, localizei um monitor grandão operado por uma enfermeira, mais uns outros equipamentos estranhos e, do meu lado, o monitor cardíaco. Ali estava meu primeiro desafiante.

Logo prenderam meu dedinho e eu passei a acompanhar sonoramente o ritmo do meu coração. Na minha cabeça, eu recitava frases de autoajuda, mas o batuque carnavalesco só aumentava.

As enfermeiras começaram a procurar minhas veias, já que as espertas resolveram sumir – nosso corpo tem reações tão rápidas quando a gente está com medo. Comecei a sentir diversas picadas diferentes, o que fez com que eu procurasse um ponto de concentração para não contabilizar a possibilidade do meu braço se tornar uma peneira. Queridas, elas não tiveram culpa.

Foi aí que percebi a presença de um radinho na sala E TOCAVA RED HOT CHILI PEPPERS. Então eu pensei: pronto, pelo menos uma coisa o universo conspirou em favor.

Mas, não. À medida que eu ia prestando atenção na música, a tradução é inevitável. A canção fala em: morte. Até que I’ve got to take it on the otherside (tenho que levar para o outro lado, em tradução livre). Eu só pensei: É AGORA.

Já era. Chegou minha hora!

“Agora você vai sentir uma leve tonturinha e logo irá apagar”, comunicou docemente a enfermeira. Ansiedade prolonga o tempo mental e para mim já se passavam minutos após aquelas palavras, logo o terror de morrer foi substituído pelo terror de permanecer acordada. Pensei: o negócio não vai fazer efeito e a endoscopia vai ser a seco mesmo. Comecei a reclamar e só elas sabem o que eu devo ter falado. Apenas lembro de reivindicar minha situação desperta até o último momento consciente.

Mas otherside, mesmo, eu fui parar no pós-procedimento, já em casa. Tive uma bela sexta-feira inteira de soninho. How long, how long…

Agradecimento

Obrigada a toda equipe do Hospital Tacchini pela paciência. Vocês, enfermeiras, tenham meu muito obrigado, admiração e respeito! À profe Solange, da escola Cecília Meireles, meu maior obrigado por ter se lembrado de mim da época do ensino médio e por ter conversado comigo para me acalmar durante a espera do procedimento. Admiração por essas profes.

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