Câncer: desafio para restabelecer o fluxo da vida?

Por Kátia Bortolini

Câncer: o imperador de todos os males. Principal causa de morte por doença em crianças e adolescentes

Campanha Setembro Dourado divulga o diagnóstico precoce como forma de vencer o câncer infantil

O câncer não poupa ninguém. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), é a principal causa de morte por doença em crianças e adolescentes de 1 a 19 anos. Mediante essa realidade, está ocorrendo a campanha Setembro Dourado, de amplitude nacional, com o objetivo de divulgar o diagnóstico precoce como forma de vencer o câncer infantil.

Em Bento Gonçalves, a campanha, lançada no último dia 13 de setembro, está sendo promovida pelo Centro Espírita Nossa Casa.

Entre as ações da campanha no município ocorre, no dia 30 de setembro, a primeira edição da ‘Caminhada pela Vida’, com orientações sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer infantil. “Cerca de 80% das crianças diagnosticadas precocemente obtém a cura do câncer, daí a importância de conscientizar a comunidade”, ressalta Susana Lodetti, do Centro Espírita Nossa Casa. Ela acrescenta que, através das atividades da campanha, ancorada em redes sociais, estão sendo promovidas, principalmente entre o público jovem, a caridade e a solidariedade. A ‘Caminhada pela Vida’ partirá às 9 horas do Centro Espírita Nossa Casa, na rua Mário Italvino Poletto, 235, próximo ao Colégio Landell de Moura.

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“Estamos muito engajados nas ações do Setembro Dourado, campanha que estimula os pais a prestarem atenção nos seus filhos e também defende a educação nas universidades para os médicos em formação, a fim de que se faça um diagnóstico precoce a partir dos sintomas nos jovens. Essa é a melhor forma de vencer a doença”, enfatiza a oncologista pediátrica Ângela Rech Cagol, que atende em Bento Gonçalves e coordena o serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital Geral de Caxias do Sul.

Câncer de mama e de próstata lideram o ranking regional de óbitos pela doença na fase adulta

Na fase adulta, o câncer de mama lidera em prevalência na região Nordeste do Estado, seguido pelo de próstata. A informação é do coordenador do Instituto do Câncer do Hospital Tacchini / UNACON Bento Gonçalves, oncologista Fernando Obst. Ele lidera uma equipe composta por 58 profissionais, considerando as especialidades médicas (Oncologia Clínica, Radioterapia, Hematologia, Cancerologia Cirúrgica, Urologia, Mastologia, Cirurgia Torácica, Cirurgia do Aparelho Digestivo, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Ginecologia) e multidisciplinar (equipe de Enfermagem Assistencial com Especialização em Oncologia e Equipe Técnica de Radioterapia, Nutrição, Psicologia, Fisioterapia, Assistência Social, Farmácia, Física Médica e Pesquisa Clínica).

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Segundo Obst, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o UNACON atende a população da microrregião de Bento Gonçalves, que abrange 22 municípios, sob a regulação da 5ª Coordenadoria da Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul.

Ele acrescenta que o Instituto atende também pacientes privados e de todos os convênios, provenientes de qualquer região do Estado, com infraestrutura para o diagnóstico e tratamento completo de todos os casos de câncer, nas especialidades de cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

“Tudo tem sentido, inclusive o câncer”

“O câncer traz em si um forte significado. Nenhuma outra doença que acomete o homem é cercada por tantos eventos paralelos, incluindo a sensibilização de pessoas ao redor do doente”. A observação é ressaltada na contracapa do livro “Tudo tem sentido, inclusive o câncer”, de 190 páginas, escrito pelo médico Dorval de Andrade Tessari, de Caxias do Sul. O livro apresenta, de forma romanceada, o diálogo entre o autor e o médico alemão Georg Walter Groddeck (1866-1934), considerado o pai da Psicossomática.

O cenário é a cidade alemã de Baden-Baden, na região de Karisruhe, onde residiu o médico. Nas conversas imaginárias ocorridas às margens da Floresta Negra, eles discutem o adoecimento humano pela ativação de células cancerígenas do próprio organismo. “A doença pode ser olhada como uma mensagem criptografada que somente o próprio indivíduo tem a capacidade de decifrar, se assim desejar. Nela estarão contidas todas as informações necessárias para que o fluxo de vida seja reestabelecido”, ressalta Tessari, num diálogo da página 60, dentro do capítulo V, denominado “Entendendo a Doença”.

Dorval de Andrade Tessari

“Toda a doença é revestida de um significado pessoal e intrasferível”, ressalta ainda Tessari, graduado em Ginecologia e Obstetrícia pela UCS, com pós em áreas da Psicoterapia. O médico coordena o 19º Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática, que ocorre em Caxias do Sul entre os dias 19 e 22 deste mês de setembro, no teatro da UCS, em turno integral. O evento, organizado pela Associação Brasileira de Medicina Psicossomática – Regional RS, tem como principal objetivo estudar como inúmeros fatores de desequilíbrio acometem os seres humanos, produzindo as doenças.

“Personalidade pró-câncer”

Nos últimos anos, tem crescido a suposição de que a mente tem um papel importante em influenciar o desenvolvimento do câncer. Uma teoria popular sugere que estados emocionais, como a depressão, podem estimular o crescimento de uma doença maligna. Outra teoria sustenta que o estresse e sentimentos negativos suprimem a função imunológica, que é tida como crucial para a prevenção da doença.

Uma grande indústria promove livros, artigos, vídeos, leituras e palestras dedicadas à proposição de que emoções, pensamentos e atitudes positivas podem manter o câncer à distância e mesmo derrotá-lo quando ele já se instalou.

Pesquisadores psicológicos encontram alguns traços e agrupam-nos em uma “personalidade pró-câncer”. Outros indicam estratégias mentais para derrotar a malignidade. De fato, até alguns estudos “mente-corpo” mais radicais chegam perto de culpar os doentes, por terem falhado na luta contra a doença.

A verdade científica destas afirmações é variável. Poucos estudos científicos mostram uma relação entre fatores mentais e o início ou desenvolvimento do câncer, e outros mostram que não existe nada relacionado. Críticos, ainda, mostram que os estudos que indicam a relação entre o status emocional e o câncer são mal desenhados e malconduzidos.

No início de 2003, foi publicado o primeiro estudo com padrão científico rigoroso. Segundo o estudo, mulheres que passaram por momentos de stress emocional apresentam chance maior do desenvolvimento de câncer de mama. Em especial, mulheres após o divórcio ou a morte do cônjuge apresentaram chances aumentadas da doença.

Mas outros estudos com desenho científico mais adequado foram publicados posteriormente e não reproduziram estes resultados. O sabido é que realmente deve existir algum impacto do estado emocional na progressão da doença. Os mecanismos exatos e em que doenças a importância é maior ainda é uma incógnita. Mas, comprovadamente existe um modo em que as emoções podem aumentar o risco de câncer de forma direta: o hábito de fumar, o alcoolismo e outros comportamentos ligados ao câncer às vezes representam uma alternativa que caminha junto com o estresse e depressão.

Siddartha Mukherjee: tratar câncer é um desafio, mas os avanços são poderosos

Do primeiro minuto até a última resposta, a fala do oncologista Siddhartha Mukherjee no Fronteiras do Pensamento mereceu a atenção total do público que lotou o Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, no último dia 3 de setembro. O médico indiano radicado nos EUA fez um rápido histórico do câncer, doença com o primeiro registro há cerca de quatro mil anos. Porém, focou principalmente em lançar luzes nos futuros tratamentos.

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Mukherjee destacou que hoje já é possível saber a altura que um adulto terá só analisando o código genético ainda na fase de feto. De forma semelhante, se um bebê em desenvolvimento terá alguma doença grave e em qual fase da vida. Questionou os presentes para saber se teriam interesse nessa informação. Poucos responderam afirmativamente. “Você gostaria de saber antes? Esse é o dilema”, afirmou. “O medo do câncer se espalhou pela nossa cultura”.

Imperador de todos os males

O oncologista é autor de “O imperador de todos os males: uma biografia do câncer”, lançado em 2012 no Brasil e vencedor do Prêmio Pulitzer 2011. O livro de 640 páginas, voltado para todos os públicos, retrata a história da doença, os avanços no tratamento e o impacto na sociedade. “Nenhuma doença tem essa diversidade. A diversidade do câncer é igual à diversidade do número de pacientes. Então, não é simples: é um desafio. Mas tivemos avanços poderosos”, declarou.

Mesmo com a evolução, não é possível prever a eliminação da doença nos próximos anos, mas haverá tratamentos mais eficientes. “Todos somos pré-câncer. Quanto mais tentamos diagnosticar de forma precoce, mais nos tornamos paranóicos. Somos futuros pacientes de câncer em vigilância”, afirmou.

Em razão de a doença se apresentar de forma diferente em cada paciente, apontou que uma tendência é o tratamento cada vez mais individualizado, analisando hereditariedade, genética e hábitos de vida. Como exemplo, citou a americana Barbara Bradfield, a primeira a usar a droga Herceptin contra o câncer de mama há 18 anos. Ela está viva. “Só funcionou porque havia sido detectada uma determinada mutação genética individual nela que responderia a esse medicamento. Caso contrário, o remédio seria tóxico”, disse.

O médico ressaltou que hoje a ciência oferece técnicas para rastrear e detectar precocemente genes que aumentam o risco para tumores. Segundo ele, um laboratório nos EUA faz entre 15 e 20 sequenciamentos genéticos por semana. Sequenciar 23 mil genes custa cerca de US$ 1 mil, e o resultado fica pronto em uma semana.

Na parte final, o momento de perguntas do quinto Fronteiras do Pensamento do ano foi conduzido pelos médicos Carlos Alexandre Netto, ex-reitor da UFRGS, e Luiz Antonio Nasi, superintendente Médico do Hospital Moinhos de Vento. Questionado pelo público sobre tentativas para evitar o surgimento da doença, Mukherjee enfatizou a importância de medidas preventivas, como controle da obesidade. Excesso de peso é um fator de risco pelo estado inflamatório continuado que cria um ambiente propício para o surgimento de células neoplásicas

O palestrante acrescentou que está em fase de estudo um tratamento médico associado à dieta alimentar com a finalidade de potencializar os resultados. Sobre isso, citou quatro estudos publicados na Nature, demonstrando que o câncer usa mecanismos particulares para bloquear a quimioterapia. “Se você combina o medicamento com a dieta correta, a chance de sucesso é maior”, afirmou. No próximo mês, começará a primeira pesquisa nesse rumo com 24 pacientes de câncer de mama nos Estados Unidos.

Na abertura do evento, foi apresentado um vídeo produzido pelo Hospital Moinhos de Vento, um dos patrocinadores do Fronteiras do Pensamento, destacando os dois anos do Centro de Oncologia alinhado com a visão do palestrante em relação ao tratamento e à prevenção do câncer.

Quem é Siddhartha Mukherjee

Nascido em Nova Deli, Índia, Siddhartha Mukherjee foi aluno destacado em seu país. Mudou-se para os Estados Unidos em 1989, estudou Biologia na Universidade Stanford, Imunologia na Universidade de Oxford e formou-se em Medicina na Universidade de Harvard, especializando-se em Oncologia. Atualmente, aos 48 anos, trabalha no centro médico da Universidade Columbia, onde também é professor assistente.

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