A influência dos algoritmos na vida de usuários da web

Por Júlia de Freitas

Na era da internet, os algoritmos, série de instruções matemáticas simples realizadas para resolver um problema, tomaram novas proporções e estão influenciando direta e profundamente o cotidiano da sociedade contemporânea. Os computadores possibilitaram construções algorítmicas maiores e mais complexas que resultaram numa tecnologia responsável por selecionar as informações consideradas relevantes aos usuários da web. Atualmente, os algoritmos analisam milhões de dados de usuários de redes sociais. O Facebook, por exemplo, coleta dados como parte do modelo de negócios adotado pela empresa, que utiliza algoritmos para direcionar propagandas aos usuários.

Com base nas pesquisas, cliques e tempo gasto olhando as publicações do “feed” os algoritmos identificam o perfil da pessoa e direcionam publicidades de acordo com o gosto de cada um. Também gerenciam as interações sociais nas redes, ressaltando publicações de alguns e excluindo de outros no mesmo espaço, para a oferta de produtos. Além disso, as modificações no algoritmo que decide o que aparece mural do Facebook, conhecido como EdgeRank, muitas vezes causam grande confusão entre os usuários.

Alta dependência atual do mundo real em relação ao Facebook

No início de 2018, a administração do Facebook decidiu dar mais importância aos usuários particulares do que empresas, marcas e meios de comunicação, na tentativa de tornar a rede social mais “social”. Com a alta dependência atual do mundo real em relação ao Facebook, a mudança causou imprevistos para empresas que adotaram forte presença na rede social como determinante no impulsionamentos das vendas de seus produtos e serviços.

Em abril deste ano, o fundador e executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckeberg, foi intimado a prestar depoimento sobre as atividades da empresa ao Congresso dos Estados Unidos em relação à venda de dados dos usuários da rede social. A ação fez parte do caso Cambridge Analystica, uma empresa de consultoria que desempenhou papel central no vazamento não autorizado de dados pessoais de usuários do Facebook. O processo foi resultado de uma investigação jornalística dos canais The Guardian e The New York Times que revelou o vazamento irregular de dados pessoais de mais de 50 milhões internautas inscritos no Facebook.

Já no último dia 10 de julho, o Facebook foi penalizado com pena máxima no Reino Unido e deverá pagar 500 mil libras esterlinas por conta do escândalo envolvendo a Cambridge Analytica. A decisão foi tomada após o Escritório do Comissário de Informação (ICO) do Reino Unido avaliar que o Facebook não ofereceu as proteções de privacidade adequadas em sua plataforma, permitindo que informações pessoais fossem utilizadas de forma inadequada. O Facebook ainda deverá recorrer para tentar alterar a decisão da autoridade britânica. “Temos trabalhado em conjunto com o ICO em sua investigação da Cambridge Analytica, assim como temos feito com as autoridades dos Estados Unidos e de outros países”, disse Erin Egan, diretor de privacidade do Facebook.

A empresa também é investigada pela Comissão Federal do Comércio (FTC) dos Estados Unidos. O órgão americano quer saber se houve a violação de um acordo de 2011, quando a companhia se comprometeu a pedir a autorização dos usuários para compartilhar informações com terceiros.

“É preciso diversificar as equipes que escrevem os algoritmos”

Enquanto alguns veem com bons olhos os avanços proporcionados pela algoritmização de grande número de aspectos da vida em sociedade, outros tratam a questão com preocupação. A interferência em resultados eleitorais e a falta de regulamentação do uso de dados pessoais por grandes empresas são algumas das problemáticas apontadas por especialistas no assunto. Apesar do reconhecimento de que não existe “caminho de volta” no uso de algoritmos para a venda de produtos e gerenciamento de informações na internet, existe a demanda por um maior controle do que as empresas podem fazer com os dados que obtêm.

“É preciso obrigar empresas como o Facebook a explicar o que de fato estão conseguindo fazer com a posse de informações dos perfis de milhares de usuários. Já temos a suspeita de que o Facebook ajudou a divulgar notícias falsas, a influenciar o resultado de votações, a fazer com que as pessoas acreditassem em teorias da conspira ção. Por que não temos as provas reais ao contrário, por que não as mostram? ”enfatiza a especialista Cahty O’Neil, matemática e autora do livro “Armas de Destruição Matemática”. Na obra, ela atenta ao fato da perpetuação de desigualdade social provocada pela tecnologia dos algoritmos nas mãos de poucas e grandes empresas. Também cita casos de algoritmos do Google e do Facebook que desencadearam em preconceitos. “No Google um deles identificou um negro como um gorila em uma foto e outro relacionou a máquina de lavar com uma mulher. Já um algoritmo do Facebook mostrava anúncios de casas à venda somente a usuários brancos”. Cahty observa que os engenheiros dessa área pensam apenas em termos de otimização dos recursos. De acordo com ela, é urgente a diversificação das equipes que escrevem os algoritmos com a inclusão de pessoas sensíveis as violações dos direitos humanos e a forma como esses códigos irão afetar a sociedade.

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