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O OUTRO LADO DE BENTO

Reportagem: Júlia Beatriz de Freitas
Edição: Kátia Bortolini
Fotos: André Pellizzari e Júlia Beatriz de Freitas

Recentemente, o município de Bento Gonçalves foi manchete nos principais veículos de comunicação do estado do Rio Grande do Sul. Dessa vez, não por se destacar como destino turístico brasileiro ou pela alta taxa de qualidade de vida apontada em relatórios anteriores, mas sim pelo crescente número de homicídios na cidade. Os representantes da segurança pública do município atribuem esse acréscimo de assassinatos na cidade a ações de duas facções criminosas de Porto Alegre, em busca do domínio do tráfico de drogas em Bento Gonçalves.

Em 2016, foram 28 mortes violentas registradas e, em 2017, o município fechou o ano com o número recorde de 34 homicídios. Nos três primeiros meses deste ano, mais da metade dessa taxa já foi atingida: foram 23 mortes violentas registradas. Em 2016, a Brigada Militar realizou 56 prisões em flagrante referentes ao tráfico de drogas, em 2017 este número subiu para 107. Neste ano, 52 prisões foram realizadas no período de quatro meses.

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De acordo com o Atlas da Violência publicado em 2017 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Bento Gonçalves figura entre as 20 cidades mais violentas do Rio Grande do Sul. No ranking nacional, ocupa a 221ª posição de municípios brasileiros mais violentos com população superior a 100 mil habitantes.

“No tráfico, não pagou, morreu”

O secretário de Segurança Pública de Bento Gonçalves, José Paulo Marinho, ressalta que a maior parte das vítimas tinha envolvimento com o tráfico de drogas. “Tudo começou no ano passado. Normalmente, ocorriam cerca de 20 homicídios por ano. Em 2017, foram 34 casos, chamando nossa atenção”. Ele acrescenta que a Polícia Civil e a Brigada Militar trabalham com a hipótese de que os recentes crimes fazem parte da atuação de facções de fora do município tentando tomar o controle do mercado ilícito de drogas da região. Marinho ressalta que alguns homicídios foram de pessoas que consumiram a droga destinada à venda e não conseguiram pagar os fornecedores. “Infelizmente, no tráfico, não pagou, morreu”, diz. Os homicídios, segundo o Secretário, são uma forma de demonstração de poder destes grupos.

Na avaliação do Secretário, após o estabelecimento do controle, o número de homicídios deve diminuir novamente, mas isso não significa paz na cidade. Diferentemente dos traficantes “locais”, esses grupos criminosos utilizam armamento pesado. “Aí a nossa cidade ficaria um tanto mais perigosa, visto que eles usariam este tipo de armamento até mesmo contra a própria polícia”, ressalta.

Além disso, Marinho ressalta a existência de uma nova rota de tráfico que ultrapassa as fronteiras do Rio Grande do Sul e do país. “Bento Gonçalves está muito próxima da região do Vale dos Sinos, hoje a mais violenta do Estado, então, obviamente, temos reflexo disso”, explica. Crimes, como furtos e roubos, estão diretamente relacionados ao tráfico de drogas, afirma ainda o Secretário. “É aquele traficante que deve para alguém, ou alguém que necessita comprar a droga e precisa de uma moeda de troca e furta uma residência, uma loja”.

Maior lucro proporcionado pelas regiões interioranas

De acordo com o major Álvaro Martinelli, do 3° Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas, a motivação dos grupos criminosos é o maior lucro proporcionado pelas regiões interioranas. “Se tem mais concorrência de mercado lá e aqui não, mas tem demanda, eles vêm e ganham mais”, explica. Segundo Martinelli, o número de pessoas abordadas aumentou consideravelmente nos últimos dois anos, junto com o volume de apreensão de drogas. “Antes eram algumas gramas, hoje em dia as apreensões são de quilos”, diz. Apesar do alto número de mortes, os índices de outros crimes baixaram de 2016 a 2017. A queda foi de 7% em número de furtos e 15,8% em ocorrências de roubos. O número de mortes violentas, entretanto, aumentou em 47,8%. Para o militar, os homicídios também estão ligados à diminuição do número de outros crimes. “É um a menos na prática daquele tipo de delito. O número total de pessoas envolvidas com a criminalidade não chega a 1%, ou seja, são alguns poucos que praticam diversos crimes ligados à mesma atividade”. Marinho afirma que os traficantes migrantes se instalam em bairros mais vulneráveis, como o Zatt, Municipal, Ouro Verde e Tancredo Neves.

Tanto o Major quanto o Secretário afirmam estarem preocupados com o eventual estabelecimento desses grupos criminosos no município. “O cara que trafica é o mesmo que assalta e que rouba, e se não é, está vinculado”, afirma Martinelli, ao reiterar que a cidade está passando por uma fase específica após acelerada expansão demográfica. “Quando passa dos 100 mil habitantes, consequências de ações que não foram tomadas antes começam a aparecer”.

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Migração e crescimento desordenado

O processo migratório intenso para Bento Gonçalves, que resultou no rápido crescimento da população local, foi desencadeado na década de 70 pelas indústrias moveleiras, em função da falta de mão de obra local. As primeiras levas de migrantes se estabeleceram na zona sul do município, dando início a bairros como Santa Marta e Santa Helena. Outros migrantes passaram a ocupar espaços periféricos e áreas verdes da cidade, aglomerando-se em locais sem planejamento e infraestrutura. Segundo dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, mais de 40% da população de Bento Gonçalves já era de migrantes. “Essa explosão demográfica faz aumentar o número da criminalidade”, afirma Martinelli.

“Esses bairros periféricos são propícios para o aliciamento de jovens que vivem à margem da sociedade. São lugares onde o Estado se ausenta”, afirma o Major da Brigada Militar. Ele acrescenta que muitos jovens em situação de vulnerabilidade social buscam no tráfico e/ou no uso de drogas uma saída, “caminho que, na maior parte das vezes, se mostra sem volta”. Martinelli ressalta que as crianças desses bairros têm muitos exemplos de pessoas honestas, que trabalham, mas, ao mesmo tempo, convivem com pessoas com correntes de ouro, que viajam e conseguem ganhar em um dia o que a família leva um mês para conseguir. “Isto, aliado à pressão da moda, que exige marcas e consumo de produtos, acaba estimulando a retroalimentação deste submundo do tráfico”, complementa. Na avaliação do Major, o consumismo incentivado cotidianamente pelos meios de comunicação é um dos fatores que resulta na disposição de jovens a entrar no mundo do crime com o objetivo de suprir o desejo de comprar determinado produto e ostentar um estilo de vida diferenciado da sua realidade.

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Desemprego impulsiona a criminalidade

O acréscimo da taxa de desemprego registrado no Brasil nos últimos anos é mais um fator que impulsiona a entrada de jovens em vulnerabilidade social no crime. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2017, o mesmo ano recorde de homicídios na cidade, foi o ano com a maior taxa de desemprego no país desde
2012, com 12,7% da população desocupada, o equivalente a 12,3 milhões de brasileiros. Dados do IBGE apontam que o número de empregados sem carteira assinada em dezembro de 2017 corresponde a 37,1% da população brasileira, ou seja, 34,2 milhões de trabalhadores informais. De acordo com o órgão, foi a primeira vez na história que o número de informais superou os formais, equivalentes a 33,3 milhões de brasileiros.

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Segundo pesquisas do Atlas da Violência, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cada decréscimo de 1% na taxa de desemprego resulta na queda de homicídios em 2,1%. O relatório do Ipea também mostra que em cidades com geração de renda significativa, como é o caso de Bento Gonçalves, a maior circulação de dinheiro incentiva o mercado informal, que torna viável o tráfico de drogas. A consequência é o aumento da violência letal. Conforme conclusão do Atlas da Violência, o aumento na criminalidade acontece quando as transformações urbanas e sociais ocorrem rapidamente e sem as devidas políticas públicas preventivas e de controle, não apenas no campo da segurança pública, mas também na esfera da educação, assistência social, cultura e saúde. Neste quesito, Bento Gonçalves não cresceu na mesma proporção que sua população.

Um retrato do Zatt

Com o sol alto, poucas crianças insistem em jogar futebol na quadra de cerca quebrada e envolta de entulho. Se chutada com força, a bola cai em uma vala construída em frente ao local para escoar a água que, nos períodos de chuva, alagava a rua e as casas dos moradores que foram morar na parte baixa do bairro Zatt. Desabamentos causados por chuvas torrenciais já colocaram vidas de moradores em perigo. Em troca do novo escoamento, o esgoto a céu aberto. Nada é de graça para quem vive em lugares como o Zatt. Ao lado da vala, a área verde que deveria servir de espaço para crianças brincarem virou depósito de material e estacionamento irregular de carros e caminhonetes.

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Nessa vizinhança, quem fica doente sobe dois quilômetros até a Unidade de Saúde do bairro. Isto em ruas estreitas e inclinadas – muitas delas, sem calçada. As crianças e os idosos são os mais afetados pelo dificultoso trajeto, é o que diz o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Zatt, Antônio Dallasen. Só neste ano, seis dos 23 homicídios aconteceram no bairro, que, segundo o Secretário Municipal de Segurança, também é foco das ações de desmantelamentos de organizações criminosas.

“Depois dessa onda de mortes, agora está mais calmo”, diz Dallasen. O frentista, natural do município de São Francisco de Assis, vive há 23 anos em Bento Gonçalves. Veio atrás de melhores oportunidades depois de um ano de safras ruins de grãos que cultivava. De acordo com ele, a maior parte dos moradores do bairro migrou de outros municípios em busca de melhores condições de trabalho. Questionado sobre a quantidade de moradores do bairro, Dallasen afirma que o número é maior do que a prefeitura tem controle. “Estávamos em 700 famílias cadastradas junto à prefeitura, mas, contando com as pessoas que vivem de aluguel, passa das três mil”, calcula, ressaltando a importância do cadastramento desses moradores para a promoção de mais políticas públicas.

Grande parte dos imigrantes haitianos escolhe para morar em bairros como Zatt por causa dos preços baixos de aluguel. Dallasen conta que os estrangeiros não usam drogas, não cometem crimes e são muito agradecidos por qualquer ajuda oferecida a eles. “O preconceito de muitos moradores, entretanto, é grande. Há quem corte os pés de bergamota e limão do quintal para evitar que os haitianos passem e peguem as frutas dos galhos que invadem a rua”, afirma o líder comunitário.

Alguns moradores reclamam pelo número limitado de atendimento médico da Unidade de Saúde Caic Zatt. São doze fichas por dia e, segundo o presidente, para conseguir a consulta o paciente tem de chegar no local por volta das quatro horas da manhã. “Mas o médico faz um bom serviço, às vezes se passa o número de fichas ele até atende mais”, conta. A maior reclamação é pela falta de atendentes e melhorias na estrutura do local.

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Trilhas de terra percorridas entre o mato e as ruas são utilizadas diariamente pelas famílias em seus trajetos de casa para o trabalho. Em uma delas, uma ponte improvisada e sem corrimão intermedia a passagem por cima do esgoto à céu aberto. Em outra, uma abertura no mato fechado indica um caminho que leva a local frequentado para uso de drogas, indicado por cobertores, papelões e lixo jogado no chão. Ao lado da entrada “misteriosa”, entulhos e maquinários industriais abandonados acumulam água parada e sujeira. Embaixo de uma estrutura de metal enferrujado, algumas peças de roupa demonstram ali ser espaço utilizado para alguém dormir. À noite, é mais perigoso. “Muitos assaltos e crimes já aconteceram nesse canto”, confirma Dallasen, ressaltando que a prefeitura deveria colocar mais postes de iluminação na área.

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“É um bairro bonito, de gente boa”, afirma o presidente da Associação. Apesar de todas as faltas, ama o lugar onde mora. Conforme ele, os envolvidos em tráfico de drogas e nas últimas mortes não eram conhecidos de moradores do Zatt. “Não se tem controle, nem fiscalização de quem chega aqui no bairro. Tem gente que vem e da noite para o dia levanta um barraco”, conta, apontando para casebres cercados de árvores nos morros. “Além de controle para evitar essas invasões, também precisamos de mais creches”, reivindica Dallasen.

De acordo com a secretária Municipal de Habitação e Assistência Social, Milena Bassani, a fiscalização é atuante na prevenção de invasões e, quando estas acontecem, a prefeitura busca tomar medidas de reintegração de posse.

Conforme Milena, a Secretaria tem condições de contabilizar apenas o número de famílias migrantes que se inscrevem no Cadastro Único. “Os que vêm com emprego ou para frequentar os cursos universitários oferecidos na cidade não se encaixam no perfil do Cadastro”, explica ela.

Em dezembro de 2016, 5.777 famílias de baixa renda estavam cadastradas na Secretaria pelo Cadastro Único. Em março deste ano, baixou para 5.103, indicando uma diminuição de 674 famílias.

Escolas Infantis

A secretária municipal adjunta de Educação, Adriane Zorzi, ressalta que no próximo mês de agosto serão inauguradas duas escolas infantis na região do Zatt e do Ouro Verde, nos loteamentos Santa Fé e Bertolini, com capacidade total para 240 crianças de zero a três anos.

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As construções dessas escolas infantis foram iniciadas em 2014, com previsão de entrega para julho de 2015. Alegando falta de repasse de fundos do governo federal, a prefeitura de Bento Gonçalves interrompeu as obras, retomadas em julho de 2017, com previsão de término para dezembro do mesmo ano. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) destinou verba para a construção das escolas, mobiliário para as salas de aula e equipamentos. Em contrapartida, a prefeitura ficou responsável pela cedência dos terrenos, cercamentos, implantações dos parques infantis e aquisições de utensílios de cozinha, rouparia, mobiliário administrativo, além de apoio pedagógico, material bibliográfico e recreativo. O investimento na viabilização das duas escolas infantis está orçado em R$ 1.769.578,33. Atualmente, a prefeitura compra 400 vagas em escolas infantis para suprir a demanda de creches na rede pública municipal.

Esporte e Cultura

Cultura e esporte estão em segundo plano no Zatt. O único divertimento é o proporcionado por bares – muitos deles, ainda de acordo com Dallasen, irregulares, com prostituição e strip-tease, inclusive de adolescentes. “Antes, o Conselho Tutelar tinha mais atuação”.

O lugar mais próximo de convivência e ações culturais é o Centro de Arte e Esporte Unificado (CEU), localizado no Ouro Verde, bairro vizinho. O projeto do CEU foi apresentado pela prefeitura em 2015 e inaugurado um ano depois, em junho de 2016. A estrutura compreende quadra poliesportiva coberta, pista de caminhada, academia ao ar livre, pista de skate, mini palco para apresentações, espaço para leitura e um Centro de Referência e Assistência Social (CRAS). No último dia 4 de abril foi inaugurada uma biblioteca no CEU, numa área construída de 56 metros quadrados e um acervo de aproximadamente 2,5 mil livros. No último dia 14 de maio, o prefeito de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin, assinou um contrato de aquisição de materiais esportivos para o Centro.

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Municipal, lugar de esperança

O bairro Municipal foi palco de cinco homicídios neste ano. Com três escolas e uma creche, o Municipal oferece maior estrutura para jovens e crianças do que o bairro Zatt. Também não possui tantos problemas estruturais, como esgoto à céu aberto. Apesar disso, algumas obras no bairro, de projetos de administrações passadas, começaram a ser realizadas há pouco tempo, com atrasos significativos.

Para o ex-presidente da Associação dos Moradores, Nestor Nunes, é o melhor lugar do mundo. Natural do município de Progresso, veio para a cidade com 13 anos. Chegou a comprar uma casa em outro bairro, mas relata que não aguentou nem um ano fora. “Tive que voltar, aqui tem esse contato com a vizinhança que eu gosto, é um bairro muito bom”, conta. Mesmo com o aumento no número de mortes violentas no local, o músico afirma que o bairro teve diversas melhorias nos últimos anos. Atualmente, quase todas as vias públicas estão pavimentadas. “Tem tudo agora. Entre os bairros mais pobres foi um dos mais beneficiados nos últimos anos”, diz.

Um projeto elaborado em 2012 pelo ex-prefeitoRoberto Lunelli (in memoriam), aprovado pelo Governo Federal, previa investimento público de 11 milhões de reais em obras de revitalização no bairro. O projeto contempla canalização de esgoto, pavimentações e alargamentos de ruas em áreas com habitações em situação de risco, localizadas em encostas e à beira de riachos. Também inclui construções de condomínios verticais, obras de recuperação ambiental e a construção do Centro de Atendimento a Crianças (Ceacri).

Seis anos depois, apenas algumas obras foram  concluídas. De acordo com Nunes, a canalização de esgoto foi feita e a rua Lajeadense, uma das mais problemáticas do bairro, foi pavimentada e passou por melhorias. Ainda estão em fase de construção os condomínios, com 800 apartamentos destinados a abrigar famílias em áreas de risco, como a da beira do rio Pedrinho, que transborda e causa enchentes em dias de chuva forte. Segundo Nunes, 40 famílias em situação social mais vulnerável moram nessa área do bairro.

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A construção do Ceacri Carrossel da Esperança parou por duas vezes. A primeira intempérie nas obras aconteceu ainda em 2012, com a crise financeira nas contas municipais. Em abril de 2015, a construção foi retomada. Em setembro do mesmo ano, atrasos nos repasses de verbas federais causaram nova interrupção. As paralisações causaram encarecimento e deterioração da obra, afirma o vereador Moacir Camerini. “Tinha um depósito de água em cima das lajes do centro e materiais de construção se deteriorando ou sendo furtados”, conta. A situação chegou a ser pauta de uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) para averiguar desperdício de dinheiro público.

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Em maio de 2017, a prefeitura apresentou um relatório afirmando a realização de 15% das obras e um prejuízo de mais de R$ 30 mil em danos na alvenaria dos prédios, nas entradas de energia e outros itens. Em 2017, um novo edital foi elaborado e garantiu o repasse de 1,2 milhões de reais para a conclusão das obras. Em abril deste ano, a construção foi retomada com a previsão de término de sete meses. A reportagem foi até a construção e confirmou o andamento das obras. Uma equipe de 15 pessoas trabalha diariamente no local.

Para Nunes, o centro é uma grande conquista do bairro. “Falta muita coisa, mas estamos satisfeitos com o que está sendo feito”, conclui; enquanto aponta para as ruas asfaltadas interligando estabelecimentos comerciais, como mercados e lojas de vestuários. “Isso parece vila? Tem tudo aqui, só falta uma farmácia agora”.

O músico também relaciona os recentes assassinatos no Municipal a disputas entre facções que vêm de fora do município. Mesmo assim, afirma que a população anda com segurança pelas ruas do bairro. “A maioria dos furtos que ocorrem no bairro são feitos por dependentes químicos”, conta, ao enfatizar a benéfica atuação da polícia na região. Nunes se mostra otimista quanto ao futuro do local onde vive e acredita que projetos culturais, essenciais no combate ao consumo e tráfico de drogas, serão concretizados para benefício dos jovens e crianças do bairro.

“Consumo de drogas é generalizado”

Se há quem venha de fora para vender é porque existe consumo. Isso é o que afirmam em consonância as autoridades policiais de Bento Gonçalves. Mas, enquanto as disputas entre facções por pontos de venda é particularidade de algumas regiões da cidade, o consumo de drogas lícitas e ilícitas é generalizado. A Praça Centenário, no centro, é um dos pontos mais comuns de uso de drogas ilícitas, como maconha e crack. O major Martinelli explica que drogas sintéticas, como LSD e ecstasy, têm mercado entre as classes sociais mais abastadas e causam tantos malefícios quanto drogas como o crack, esta considerada a mais devastadora.

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O consumo de crack, de acordo com o major Martinelli, é insustentável e caro, dado o poder de dependência da droga. “É um mito dizer que o crack é uma droga barata por poder ser comprado por cinco reais. Se o dependente tiver acesso vai fumar 24 horas por dia. É um efeito muito forte, instantâneo e rápido, que dura segundos. Quando passa, ele quer mais e por isso a droga se torna cara”, explica.

O crack tem nocividade extrema ao organismo humano. Leva à subnutrição, corrói as vias respiratórias, intoxica o sangue e causa danos às vezes irreversíveis no sistema cognitivo. Noções básicas de sobrevivência como higiene, alimentação e sono adequado são desconsideradas pelos dependentes da droga, conhecidos como “zumbis” pela aparência degradada. “Basta olhar as imagens do que é a cracolândia em São Paulo”, ressalta Martinelli.

Os dependentes químicos, com a ânsia de sustentar o vício degradante, realizam crimes como assaltos, arrombamentos e furtos. Corroborando a constatação do Secretário Municipal de Segurança, Martinelli afirma que, muitas vezes, o envolvimento do dependente químico com o tráfico ultrapassa o de “cliente”. Muitos dependentes são contratados por traficantes para a venda da droga. O pagamento é em crack. A prática resulta em homicídio quando o dependente utiliza o produto e fica devendo ao traficante.

De acordo com pesquisas realizadas pelo especialista Francisco Inácio Bastos, do Instituto Fiocruz, o crack, ao contrário do que grande parte da população pensa, não é a droga mais consumida no país. É, entretanto, a mais utilizada em regiões com concentração maior de população em situação de pobreza e com qualidade de vida precária.

“A maconha é uma das portas de entrada para o uso de drogas mais pesadas”, diz Martinelli. Ele também afirma que a glamorização do uso de substâncias ilícitas e a falta de ações do Estado formam o cenário devastador do consumo de drogas no município. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PenSE), realizada pelo IBGE em 2016, apontam que, em 2015, o Rio Grande do Sul foi o estado com maior índice de consumo de álcool entre os adolescentes do país. Enquanto a média nacional se ateve a 55%, a do estado foi de 68% de jovens que admitiram a ingestão de bebida alcóolica ao menos uma vez na vida. Com idade média entre 13 e 15 anos, 26,4% dos adolescentes já haviam experimentado cigarro e 13,2% utilizado drogas ilícitas – nestes dois casos, o Rio Grande do Sul tem o segundo maior índice do país.

Tratamento de dependentes

O município de Bento Gonçalves dispõe de uma clínica de reabilitação, com atendimento totalmente custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A Comunidade Terapêutica, situada numa área de terra de 12 hectares, no distrito de Tuiuty, foi inaugurada em 2011. As internações são coordenadas pelo Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas, que realiza a triagem inicial e encaminha para tratamento. Em sete anos, foram 450 pessoas beneficiadas pela terapia, que inclui acompanhamento psicológico, psiquiátrico e clínico, por seis meses.

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Além disso, o município conta com o serviço do Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas (Caps – AD), que possui uma equipe multiprofissional responsável pelo encaminhamento para tratamento ambulatorial, feito em casa; intensivo, em que o dependente participa de atividades oferecidas no Centro; e internação, quando há a necessidade
de desintoxicação do paciente. O Caps – AD também realiza ações de prevenção como palestras e seminários.

O serviço possui 3.247 pacientes cadastrados. Destes, 2.469 homens e 778 mulheres. Entre os dependentes, 58 têm até 18 anos, 1.426 na faixa dos 19 aos 40 anos e 1.763 possuem mais de 40 anos. A demanda anual do serviço gira em torno de 400 pessoas. Nesse universo, a droga lícita mais utilizada é o álcool, seguido pelo tabaco e a ilícita é o crack, seguido pela cocaína.

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