O sentido da vida

GavaE então, em dado momento, nos defrontamos com a pergunta das perguntas: “a vida tem sentido?”. Freud, lembro, não gostava dessa questão. Dizia que quando a colocamos é porque estamos doentes. Será? Não creio. Discordo respeitosamente do bom doutor de Viena. Perguntar pelo sentido da vida me parece tão natural quanto respirar, comer e beber. Mastigar e digerir essa pergunta, construir nossa resposta sincera a ela, pode nos ajudar a viver melhor, mais lúcidos e felizes.

Acreditar que a vida tem, ou não, um sentido, depende, em primeiro lugar, de que tipo de sentido estamos falando. O que essa palavra representa para cada um de nós. Por certo, fazemos muitas coisas que dão sentido à nossa vida: o trabalho, a formação de uma família, vencer uma doença, enfrentar um medo, educar os filhos, lutar pelos objetivos, arriscar um projeto, superar um luto. Tudo isso preenche nossos dias, corações e mentes. Esses sentidos menores (não pela importância, mas pela abrangência) são o que podemos chamar de propósitos.

São os propósitos que nos fazem acreditar que a vida vale a pena. Que nos fazem pular da cama todos os dias. No entanto, temos que ser francos: esses objetivos particulares não dão conta de um “Sentido Maior”, uma motivação derradeira da existência, ou, se preferirmos definir assim, um “Sentido dos sentidos”.

Nossos projetos são ótimos para dar curso e direção à nossa vida, mas estouram como bolhas de sabão quando o assunto é a finalidade última da existência. Ao final, temos que ser francos: o sentido maior, profundo, nos escapa. Diante das questões críticas da vida, os propósitos perdem utilidade.

A morte, por exemplo, nos faz perguntar: “E então? De que vale toda a correria atrás de nossos objetivos e urgências? Para que tudo isso?”. O enigma do sentido, dessa forma, assim se apresenta: haverá, em suma, um sentido maior, que englobe todos os outros sentidos e a tudo explique? Ou esse sentido último é apenas uma quimera; mais do que isso, uma necessidade humana, um esteio que nos salva do caos, do absurdo da existência? Sim, pois admitir um mundo totalmente isento de sentido é uma sensação que flerta perigosamente com a loucura.

Chegamos nesse ponto, a uma bifurcação e seus dois caminhos possíveis: acreditar que há um sentido maior, último, situado em uma dimensão externa, inacessível, para fora da existência material; ou negar esse sentido derradeiro, colocando o sentido da vida somente dentro dela própria. Duas respostas; duas aberturas absolutamente diferentes. Ambas plausíveis. Defensáveis. Amáveis, até. Diante delas, como em um luminoso, a pergunta final não para de piscar: será o sentido da vida uma ilusão?

Crônica publicada originalmente no livro FELICIDADE, Editora Cipó, 2017.

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