Próximo pleito italiano movimenta candidatos em vários países do mundo

Eleições, com vagas para italianos residentes em outros países e também para ítalo-descendentes com cidadania, mobiliza 89 candidatos pela América do Sul para quatro vagas ao Parlamento e duas ao Senado

Por Kátia Bortolini

A Itália, de sistema parlamentarista, é o único país que reserva vagas na Câmara e no Senado para representantes fora do seu território. A Lei 459/2001, conhecida como Lei Tremaglia, em vigor desde 2006, destina 18 vagas parlamentares, entre 12 Deputados e seis Senadores, para sufrágios de italianos residentes no exterior, nascidos ou não no país, inscritos no Cadastro de Italianos Residentes no Exterior (AIRE). A última eleição foi em 2013, quando foram renovadas todas as vagas da América do Sul.

This picture shows an empty senate prior a session for a confidence vote for the new governement on April 30, 2013 in Rome. Italy's new prime minister will face an early test of his mission to reverse Europe's austerity course Tuesday as he meets German Chancellor Angela Merkel after vowing to stop a policy he says is killing his country. AFP PHOTO / ANDREAS SOLARO (Photo credit should read ANDREAS SOLARO/AFP/Getty Images)

Para a América do Sul há vagas para quatro Deputados e dois Senadores. Elas estão sendo disputadas por 89 candidatos, entre 63 ao Parlamento e 26 ao Senado. Para o Senado só votam os maiores de 25 anos. O mandato é de cinco anos. Na América do Sul estão aptos a votar mais de 1,3 milhão de eleitores, 351 mil dos quais no Brasil e mais de 700 mil na Argentina, que é o maior colégio eleitoral da área,
com mais da metade da soma de todos os outros países. A América do Sul é a região do planeta com a maior comunidade italiana do mundo, e o Brasil é o terceiro país com mais italianos fora da Itália, atrás da Argentina e Alemanha.

Rio Grande do Sul tem cerca de 70 mil eleitores

No Rio Grande do Sul, segundo Estado com o maior número de ítalo-brasileiros, cerca de 70 mil eleitores receberão as cédulas em casa, por correspondência, a partir do dia 14 de fevereiro. O eleitor receberá, pelo correio, a cédula eleitoral, as instruções traduzidas em português e um envelope pré-pago que, após o voto, deverá ser enviado à sede do Consulado Geral da Itália em Porto Alegre (Avenida
José de Alencar,313, bairro Menino Deus). Além disso, para realizar as operações eleitorais, os eleitores receberão uma tradução em português das instruções de voto junto às cédulas eleitorais. O cônsul geral da Itália no Rio Grande do Sul, Nicola Occhipinti, ressalta que agora é a hora dos ítalo-gaúchos mostrarem seu apego a Itália.

Votos serão entregues em Roma no dia 1 de março

Já o embaixador italiano no Brasil, Antonio Bernardini, ressalta que a expectativa para o país é de ampla participação de eleitores, apesar do período do pleito coincidir com o do feriadão de carnaval. “Solicitamos aos eleitores que receberão os envelopes a enviar imediatamente as cédulas votadas ao  consulado”, enfatiza ele. A embaixada fornece informações aos eleitores através dos sites institucionais e das redes sociais. Os votos deverão ser entregues em Roma, por um funcionário do Consulado de São Paulo, até às 16 horas do próximo dia 1 de março. A embaixada e os consulados italianos espalhados no Brasil trabalham incessantemente para organizar
em pouco tempo o procedimento de envio dos envelopes aos eleitores e o sucessivo envio para Roma. O presidente da Itália, Sérgio Mattarella, dissolveu o parlamento em dezembro do ano passado, abrindo caminho para as próximas eleições.

Como Votar IMPRENSA

Luis Molossi

Gaúcho é candidato pelo MAIE

O advogado, natural de Nova Bassano, atua há mais de 20 anos junto à comunidade ítalo-brasileira

O advogado Luis Molossi, natural de Nova Bassano, é candidato a uma vaga à Câmara de Deputados da Itália no pleito do próximo dia 4 de março, mas que no Brasil ocorre alguns dias antes porque o voto é por correspondência. Molossi, atualmente residindo em Curitiba, Paraná, concorre novamente para o cargo de Deputado ao Parlamento Italiano, pelo partido Movimento Associativo Italiano no Exterior (MAIE), que coordena no Brasil. A última  participação foi no pleito de 2013, quando obteve 12.501 votos, ficando como primeiro suplente a Deputado para a América do Sul.

Molossi Veneza 2016

Filho de agricultores, Molossi nasceu e se criou no interior de Nova Bassano, na Linha Nona, comunidade que deixou aos 15 anos para ir estudar em Curitiba, Paraná, onde concluiu o ensino médio e deu continuidade aos estudos, ingressando, aos 17 anos, no curso de Direito da Universidade Católica. No terceiro ano da faculdade iniciou a vida profissional. Também é formado em Ciências Contábeis. No decorrer de sua trajetória profissional intensificou as raízes com a língua de seus ancestrais, lecionando italiano no CCI-PR/SC. Em Curitiba, administra um conceituado escritório de assessoria jurídica e contábil. É casado com Leila Alberti, artista plástica catarinense, também de família italiana originária de Monte Belo do Sul. Tem dois filhos, Lorenzo, de 22 anos e Pietro, de 19 anos.

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Além de coordenar o MAIE no Brasil, atua como Conselheiro do Comitato degli Italiani all’Estero do Paraná e Santa Catarina. Em 2017 liderou, pelo MAIE no Brasil, o movimento vitorioso contra emenda do Parlamento Italiano que previa o aumento da taxa de cidadania de €300 para 400. Além disso, a emenda proposta também geraria restrições na concessão da cidadania.

Família---Lorenzo,-Pietro,-Leila-e-Luís---Bodas-de-Prata-jan-2016

A Lei italiana 459/2001, conhecida como Lei Tremaglia, que entrou em vigor em 2006, destina 18 vagas parlamentares, entre 12 Deputados e seis Senadores, para sufrágios de italianos residentes no exterior, nascidos ou não no país, inscritos no Cadastro de  Italianos Residentes no Exterior (AIRE). Para a América do Sul há vagas para quatro Deputados e dois Senadores.

 “Existe demanda crescente por cidadania italiana, em detrimento às estruturas dos consulados”

Em entrevista exclusiva ao Jornal Integração da Serra, Molossi fala sobre sua atuação e paixão pela política voltada à defesa dos cidadãos italianos residentes em outros países.

Integração – O slogan “Molossi, sempre em movimento pela cidadania plena”, escolhido para a atual campanha, reflete, de alguma forma, a sua personalidade?

Molossi – Absolutamente sim. Esta minha inquietação vem desde a adolescência quando, vendo que a vida no campo não me traria os desafios que esperava, decidi sair de casa e encarar o mundo. Desde então nunca mais parei de viajar para todos os lugares onde sou chamado e, especialmente, conviver com as pessoas nas comunidades e entender suas inquietações. Falta-me conhecer a Ásia, mas isso acontecerá em breve. Só não fui correr uma Maratona na China, em novembro de 2017, devido à proximidade das eleições e a minha função de coordenador do MAIE no Brasil.

Integração – Por que o processo de obtenção da cidadania italiana para a maioria dos ítalo-brasileiros continua tão demorado?

Molossi – Porque existe uma demanda sempre igual ou crescente de pedidos de candidatos oriundi à cidadania e a estrutura consular não tem aumentado, quando não diminuído. Daí criam-se os gargalos, as filas, as polêmicas quanto à gestão, pois o lugar na fila passa a ter um preço e algumas empresas se organizam para “despachar” esses documentos, gerando custos, queixas e desgastes de todos os lados. O que é arrecadado no Brasil com todos estes serviços – e são muitos e caros – geram receitas importantes. Só o Consulado de Curitiba (PR e SC) arrecadou a quantia de € 1.250.000,00 em 2016, com apenas nove funcionários. Isso é absolutamente rentável, mas o problema é que estes recursos são depositados no caixa geral em Roma. No Brasil, a equipe consular trabalha em condições precárias, com excesso de demanda, o que compromete o atendimento ao cidadão que precisa das práticas consulares, o que é um direito e não se discute. Pode-se até discutir se o direito à cidadania deve ser pago, pois isso só acontece no exterior. Na Itália não custa nada, o que é um contrassenso.

Molossi na poda da uva em Curitiba - 2010

Integração – A Itália, como pátria-mãe de milhares de contadinos que imigraram para o Brasil e outros países por volta dos anos 1870, ganhou fôlego na época para enfrentar seus problemas internos. Como a Itália trata hoje os milhões de descendentes desses imigrantes espalhados pelo mundo?

Molossi – No ponto de vista legal não temos o que reclamar, porque a Itália tem uma legislação bastante ampla, já que concede a cidadania
jus sanguinis (filho de italiano é italiano), mesmo morando no exterior. E o SISTEMA ITÁLIA (embaixadas, consulados, centros de língua e cultura, câmaras de comércio, entre outros) está presente em todo o mundo, permitindo que possamos continuar nossos vínculos com a pátria-mãe, mesmo morando no exterior. Claro que a imigração foi um mal necessário em séculos passados, mas boa parte destes imigrantes e seus descendentes não deixaram de ser italianos, nem no coração, nem no cartório.

Molossi com Darcy Loss Luzzatto em Pinto Bandeira, 2013

Integração – Como e quando começou a sua atuação e paixão pela política voltada à defesa dos direitos dos cidadãos italianos residentes em outros países?

Molossi – Foi gradativo, mesmo estando presente no DNA. Na fase adulta frequentei, durante três anos, um curso de italiano, entre eles dois anos voltados à conversação. Após, atuei cinco anos como professor da língua italiana. Em 2005, fui eleito para o Comites e, desde então, só aumentou o interesse pela preservação da língua e da cultura e também pela busca incansável de solucionar os problemas
que toda a comunidade italiana conhece. Desde a eleição de 2013, quando a vaga ficou para trás por apenas 1.500 votos, percebo que a comunidade me incentiva a continuar nesta caminhada, que os 12.501 votos não foram em vão e isso nos dá o combustível necessário para seguir em frente, sempre em movimento.

Integração – Os representantes da América do Sul eleitos para a Câmara e o Senado da Itália nos mandatos compreendidos entre 2006, quando entrou em vigor a Lei Tremaglia até o atual, da eleição de 2013, obtiveram quais conquistas para os jus sanguinis?

Molossi – O primeiro pleito para eleitos no exterior, em 2006, foi sucedido de nova eleição em 2008, em função da queda do Governo Prodi. No mandato de 2013, que agora chega ao fim, não houve nenhuma alteração em relação ao jus sanguinis, embora estejamos discutindo há algum tempo a eventual troca pelo jus soli, semelhante ao que temos no Brasil. No final de 2017, na apreciação da lei
orçamentária para 2018, por proposta do Parlamentar do PD/Europa, Claudio Micheloni, foi tentada uma manobra para criar limites geracionais à cidadania, bem como o aumento da taxa em mais €100,00. Mas, diante dos protestos em todo o mundo, especialmente aqui na América do Sul, dos quais estivemos na linha de frente nos dias 7 de abril e 12 de novembro do ano passado, a emenda foi retirada no momento da votação. Quanto ao resultado prático dos eleitos até agora, diria que é perto do nulo, pois ou estão a serviço do partido que determina como se deve votar e cujas diretrizes partem de Roma, ou estão apenas fazendo política pessoal, para autopromoção e busca de se manter na berlinda, apegados ao posto que conquistaram. O trabalho para o coletivo é muito pouco.

Delegação-de-Curitiba---protesto-12-out-2017-no-Consulado-de-São-Paulo

Integração – Apesar do estreitamento de laços entre italianos e pessoas com o mesmo sobrenome residentes na região Sul do Brasil registrado nas últimas décadas em função de Gemellagios entre cidades daqui e de lá e de festas de famílias, porque os municípios da Serra Gaúcha que utilizam a cultura italiana como carro-chefe ao turismo recebem poucos visitantes italianos?

Molossi – Parece que existe um abismo entre nós, descendentes (netos, bisnetos e trinetos) e os primeiros imigrantes que fizeram a vida no Brasil, mas mantiveram o vínculo com a origem e as gerações que se sucederam na Itália. As referências do Brasil, para a maioria dos italianos, é praia, carnaval e samba. Se olharmos para o Brasil atual, ainda temos divisões importantes nos aspectos econômicos e sociais entre os estados do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e os do Norte e Nordeste. Apenas nas últimas décadas é que a Serra Gaúcha passou a gerar produtos e serviços dignos de serem reconhecidos como marcas de qualidade, avanço que, aos poucos, tem despertado o interesse de empresas italianas em investir e produzir na região. A atual qualidade de vida nos municípios da Serra Gaúcha foi conquistada com muito trabalho e esforço de várias gerações. Mas o turista italiano, na média, quer o calor, as praias do Nordeste e o carnaval. Só aqueles que têm vínculos familiares ou de negócios privilegiam nossa região. Ainda bem que estes são muitos e estão aumentando devido ao bem-estar e à sensação de pertença a uma grande família que ainda proporcionamos, sentimento que está desaparecendo na Itália.

Molossi recebe delegação da Regione Veneto, 2010 Assessore Veneto Brasil Nov-10 - 3

Integração – Como representante da América do Sul no Parlamento Italiano que projetos pretendes apresentar?

Molossi – Estamos em fase final de elaboração de um plano de trabalho, composto por dez diretrizes que nortearão a nossa atuação política. O plano prevê datas para a apresentação desses projetos de lei no Parlamento, com ou sem apoio de outras correntes políticas. O eleitor poderá acompanhar e cobrar do candidato LUIS MOLOSSI a sua atuação como parlamentar. Todas estas iniciativas dirão respeito aos JOVENS, no âmbito da educação, da cultura e do desenvolvimento profissional; à COMUNIDADE ITALIANA, nas áreas social, de
saúde e de cidadania; nos DIREITOS CIVIS, na luta pela diminuição da burocracia para resolver de uma vez por todas o problema de acesso aos serviços consulares e, é claro, por nossa ECONOMIA, ampliando as possibilidades de bons negócios entre o Brasil e a Itália.

Integração – Qual é a abrangência geográfica de sua campanha?

Molossi – Parte da nossa casa, que é o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, hoje nosso Estado por adoção. Também abrange São Paulo, onde temos a maior comunidade italiana no Brasil fora da Itália e o maior número de eleitores. Abrange ainda Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e, com menos intensidade, mas não menos importantes, Brasília, Recife e Fortaleza. Fora do país, na Argentina, no Uruguai, Venezuela, Chile, Peru, Colômbia, Equador e Paraguai, onde também temos uma forte presença italiana e já fomos bem votados em 2013. Todos somados, são 1.368.027 eleitores inscritos e aptos a votar.

Integração – Por que as pessoas com Cidadania Italiana residentes no Brasil e em outros países da América do Sul devem votar em você para o cargo de Deputado?

Molossi – Nossa atuação de mais de 30 anos vem sendo feita no sentido de remover obstáculos, facilitar ações e unir esforços que possam
beneficiar os cidadãos e descendentes de italianos que vivem no Brasil e em outros países da América do Sul. Minha experiência, minha formação profissional, minha forte crença nos valores familiares e nas tradições da nossa comunidade trazem a qualificação necessária para seguir adiante e, dentro das possibilidades que o cargo nos permitir, promover iniciativas que contemplem estas diretrizes.

Integração – De que forma as pessoas com Cidadania Italiana residentes no Brasil e em outros países devem proceder para votar?

Molossi – No período que coincide com o nosso Carnaval, por volta de 12 a 16 de fevereiro de 2018, os eleitores receberão em suas casas os envelopes com todo o material para votar. Analisando bem as propostas dos candidatos, suas trajetórias e compromissos com a comunidade italiana, devem proceder o correto preenchimento do voto e envio do envelope ao consulado, de modo que estes cheguem ao destino, mediante envelope já pré-franqueado, impreterivelmente até o final de fevereiro de 2018. Os envelopes com os votos deverão
estar em Roma a tempo de serem contados até o dia 4 de março de 2018, quando lá acontecerá a mesma eleição, pois a nossa também é considerada uma circunscrição eleitoral, apenas o sistema de votar é diferente e antecipado.

Integração – Considerações gerais em relação ao assunto?

Molossi – Sim, como voluntário, minha luta pelos direitos dos ítalo-brasileiros é antiga. Trabalho ouvindo, orientando e ajudando as pessoas com dificuldades no exercício de seus direitos e na obtenção da sua cidadania plena, no aprendizado da língua e na preservação da cultura, que são a base de todo o resto, pois quando morre a língua, morre o conceito de povo. Atuo há mais de 20 anos em prol da comunidade italiana no Brasil. Também trabalho com empresários italianos que investem no Brasil e os ajudo na concretização de projetos relevantes para os dois países. Trabalho ainda com os jovens para viabilizar sua inserção no Sistema Itália e os ajudo na conquista de mais benefícios econômicos, sociais e culturais. Por tudo isso e por estar sempre em movimento pela cidadania plena de todos nós, peço a você e a sua família que nos honre com seu voto!

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