Gratidão

gratidãoTenho visto, no Facebook, as pessoas postarem a bela palavra: “gratidão”. Agradecer: reconhecer a graça de todos os momentos e da própria vida. Ser grato é saber-se “obrigado”, essa palavrinha mágica, tantas vezes esquecida dos bons costumes, e que sempre lembramos às crianças. A língua é sábia: “obligatus”, diziam os antigos latinos, significando “união, ligação”. Assim, o sentimento de gratidão nos enlaça afetivamente; quando dizemos “obrigado” ou “muito grato” um elo de amizade e cooperação se forma. Se quebra um pouco o gelo da falta de interesse pelo outro, do nosso vil egoísmo. Da mecânica insana do mundo.

Buda ensinava a sermos gratos em todo amanhecer. Faz sentido, afinal, ao deitarmos, sempre há a possibilidade de não despertarmos mais. O filósofo romano Cícero dizia que a gratidão era não somente a maior das virtudes, mas mãe de todas as outras. Em um dos textos mais antigos do Novo Testamento, escrito no ano 50 de nossa era, o apóstolo Paulo nos exorta a dar graça por tudo, sempre. Pablo Neruda, o grande poeta chileno, captou a essência do verbo: “Grato pela palavra que agradece. Grato a grato pelo quanto essa palavra derrete neve ou ferro (…) Grato, és pílula contra os óxidos cortantes do desprezo, a luz contra o altar da dureza”. E o nosso Drummond escreveu: “gratidão, essa palavra-tudo”.

Sabemos, no entanto, agradecer? A gratidão, por certo, não é uma virtude fácil. Ela muitas vezes nos falta. Por culpa do nosso ego. Isso porque, ser grato é dividir. É reconhecer que somos sempre devedores de nossa própria felicidade a outras pessoas. Você é feliz sem aqueles que ama? Com certeza que não. Há que sermos gratos, portanto, primeiro e antes de tudo, pela possibilidade de amarmos e sermos amados. Quando falta esse reconhecimento, a gratidão esmorece.

Ser grato é reconhecer que nenhuma alegria seria possível, que a própria felicidade não seria possível, sem a existência de tudo o que nos rodeia. Sem o Sol, não existiríamos. Sem ar, tampouco. Também sem a comida em nosso prato privilegiado, e que a tantos falta. Mesmo que, saibamos, a vida muitas vezes não nos sorri, sempre haverá o que agradecer. O orgulho, no entanto, eclipsa esse sentimento de graça por tudo. A falta de humildade faz da gratidão uma “in-gratidão”. Achamos que tudo o que temos é nosso de direito, e esquecemos de agradecer.

Como sermos mais gratos? Listar as coisas da vida pelas quais deveríamos todos os dias agradecer, e esquecemos, pode ser um bom começo. Dar graças pelas refeições. Pela saúde. Pelo teto que nos abriga. Por uma boa taça de vinho, lembrando quanto de trabalho e suor nela repousam. A escritora Carolina Chagas, em seu belo “O Livro da Gratidão”, sugere que tenhamos em casa um pote vazio, dentro do qual colocamos pequenos bilhetinhos; neles, escrevemos sobre as coisas pelas quais agradecemos. De tempos em tempos, podemos esvaziar o pote e lermos o que depositamos aí. Uma bela maneira de manter viva a chama da gratidão.

A gratidão é gratuita. Ela não é um dever, tampouco uma obrigação. Ela é, sim, uma virtude, e é bom que a cultivemos. Gratidão, afinal, é valorizar todos os dias tudo aquilo que a vida nos concede. Para sermos realmente merecedores dela. Afinal, como bem dizia uma antiga canção, “quem não dá valor ao que tem, não merece ter nada de valor”.

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *