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“Sem idioma a gente não existe no mundo”

Imigrantes haitianos: crianças, jovens e adultos buscam, através da educação, um futuro mais integrado com a comunidade

Reportagem: Natália Zucchi
Edição: Kátia Bortolini
Fotos: Natália Zucchi

Saudades, esperança e adaptação

Cerca de mil imigrantes haitianos residem em Bento Gonçalves, a maioria inseridos através do trabalho, da educação e da religião

Imigrantes haitianos, a exemplo de levas de países europeus que escolheram o Brasil como a nova pátria a partir do século 19, oscilam entre os sentimentos de saudades dos que deixaram e da esperança de uma vida mais digna em solo estrangeiro. Conforme a Secretaria de Ação Social de Bento Gonçalves, “o ano de 2014 foi fenômeno no município em cadastramento de imigrantes haitianos, todos adultos em idade produtiva, onde podia-se fazer a leitura de que eram pessoas incumbidas a “desbravarem” e abrirem espaço para familiares e amigos”.

Hoje, na sede da Secretaria, é constante a busca de orientações e esclarecimentos por parte de imigrantes sobre a rede de serviços de Bento Gonçalves, tanto públicos como privados. “São indivíduos num espaço e cultura totalmente desconhecidos, buscando a rede para se adaptar e sanar suas demandas. São comuns seus manifestos no sentido de que necessitam de alguns suportes, mas o principal objetivo é conseguir trabalho e organizar suas vidas de forma autônoma, até porque identifica-se, na maioria, bom nível de escolaridade”, salienta o titular da pasta, Márcio Pilotti. Ainda, conforme Pilotti, ao chegar à região é normal o imigrante procurar o auxílio do Bolsa Família, que também dá acesso a outros programas sociais. Os valores do benefício do Bolsa Família para famílias de imigrantes, a maioria formada somente por adultos, fica em torno de R$ 87,00 mensal por núcleo familiar, que pode ser de uma ou mais pessoas.

O Centro de Atendimento ao Migrante – CAM, de Caxias do Sul, tem atuado regionalmente na oferta de apoio, que inclui assessoria jurídica. Os imigrantes estabelecidos em Bento Gonçalves são orientados a buscar o auxílio do órgão, quando necessário.

“Precisava entender o que as pessoas falavam”

irmaõs de billySegundo a Secretaria Municipal de Educação, 63 estrangeiros estão matriculados na rede pública, nos ensinos fundamental e médio. São estudantes entre 4 e 17 anos, haitianos e senegaleses. Somente na Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Borges Frota (CAIC) há 17 estudantes imigrantes no fundamental, além de 11 adultos no EJA.

Billy Jerry Guillaume, de 17, chegou em Bento Gonçalves no segundo semestre de 2016 na companhia de seus quatro irmãos: Rooscarins Guillaume, de 14, as gêmeas Roos Hlanda Guillaume e RooshLandia Guillaume, de 10, e a caçula Henandda Guillaume, de 7. O pai, Henol Guillaume, 40, mecânico no Haiti, veio ao Brasil em 2013. A mãe, Roseline Guillaume Jean Louis chegou depois, em 2015. A família, que reside em Bento Gonçalves, é natural de Petitgaove/ Haiti, e se mantém com o trabalho do casal na linha de produção de um frigorífico de Garibaldi.

Os cinco filhos foram matriculados na Escola Municipal de Ensino Fundamental professora Maria Borges Frota (CAIC), do bairro Zatt, antes mesmo de seus documentos estarem todos prontos. “Precisava entender o que as pessoas falavam. Queria muito me comunicar com elas. Por isso, quis garantir a matrícula numa escola para aprender o português assim que chegamos em Bento Gonçalves”, afirma Billy.

Aulas de inglês, francês e espanhol

Billy conta que na sua ex-escola, no Haiti, procurava sentar próximo aos professores porque a turma era formada por mais de 50 adolescentes. Suas disciplinas preferidas são Biologia, Matemática e Geografia. No Haiti, além das disciplinas de matemática, ciências naturais e humanas, Billy tinha aula de Francês, Inglês e Espanhol. “Aqui no Brasil está mais fácil aprender novas línguas por causa da internet. Uso muito o google tradutor para aprender as palavras. Além disso, os professores são muito atenciosos”, destaca o jovem imigrante. Ele expõe que alguns professores de línguas no Haiti chegam a bater nos estudantes para acelerar o processo de aprendizado.

Billy e familiaHoje, todos os lugares de convívio são um meio de aprendizagem. Billy comenta que a família e ele anotam as palavras ditas pelo pastor da igreja evangélica que frequentam para depois traduzi-las em casa com a ajuda do dicionário e dos aplicativos de tradução. O português agora também está sendo ensinado no Haiti de maneira informal; pois, segundo ele, conterrâneos que retornaram à terra natal estão dando aulas particulares a jovens que pretendem imigrar para o Brasil.

Como forma de socializar e compartilhar os conhecimentos em sala de aula, Billy e outros alunos haitianos têm ensinado aos professores e colegas a língua francesa. Para reforçar essa interação, a professora de geografia, Eliana Passarin, coordena um projeto que envolve a construção de um dicionário Português/Francês, elaborado em conjunto por estudantes haitianos e brasileiros.

“Ele é um aluno muito aplicado e respeitoso. É bonito ver sua dedicação. Ele nos encanta todos os dias por ser tão prestativo e carinhoso. Hoje é raro ter um aluno que nos abrace no fim da aula e ter o abraço do Billy é muito gratificante”, destaca a professora. Ela acrescenta que Billy, sempre o último aluno a deixar a sala de aula, ajuda os professores a levar os materiais.

Alunos excelentes

janta caicA vice-diretora do CAIC do bairro Zatt, Elaine Beatriz Tomasini, explica que a escola desenvolveu uma nova metodologia para alfabetizar esses cinco alunos haitianos, com atividades lúdicas, recursos audiovisuais e jogos, semelhante ao que é trabalhado com crianças. Billy, por exemplo, levou os primeiros seis meses para aprender o português de forma paralela às outras disciplinas da escola. Enquanto isso, todos os professores tiveram a preocupação de passar os conteúdos e auxiliar Billy nas traduções, principalmente dos termos técnicos. “Trabalhar com esses novos alunos tem sido um desafio para os professores e funcionários da escola. Mas, todos nós estamos unidos. Estamos nos adaptando a eles e eles à nós. São alunos excelentes. Nos valorizam demais. É muito gratificante”, destaca Elaine.

Vivência com a tragédia do terremoto

Em casa o pai de Billy, Henol Guillaume, restringiu a fala do dialeto “criolo” entre os membros da família para estimular a fixação do português. “Se falamos com ele não sendo em português ou francês, ele diz que não nos entende”, brinca Billy. Também em casa, os pais acompanham os temas dados pela escola. Billy e seus irmãos procuram fazer as tarefas pela manhã, sob a supervisão do casal. “Minha família está completa com meus filhos perto, todos estudando numa boa escola, tudo está melhor agora”, afirma Henol.

O sonho desse imigrante é de que seus filhos se formem profissionais no Brasil, país que, segundo ele, tem tudo para proporcionar um futuro muito bom para eles.

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Quando questionados sobre o futuro, as crianças demonstram, nas entrelinhas, como a vivência com a tragédia do terremoto que dizimou o Haiti em 2010, tem influência nas suas escolhas. “Eu quero ser construtor, para construir casas como a que eu moro agora aqui em Bento”, afirma o jovem Rooscarins Guillaume. Roos Hlanda Guillaume quer ser enfermeira, RooshLandia Guillaume, professora, e Henandda Guillaume, policial. Billy sonha em ser médico.

Somos todos imigrantes

menina sagrado 5Nephethafa Decleona Louis, 9 anos, chegou em Bento Gonçalves em 2015 junto com a sua mãe, Juliette Gay, e seu irmão, agora com 10 anos. Seu pai, Jean Hippolyte Louis, 35 anos, chegou no Brasil dois anos antes, em 2013. Ele trabalha em um mercado em Bento Gonçalves, e a mãe em um frigorífico em Garibaldi. A família morava em Zanglais/Haiti.

Nephethafa é a única aluna haitiana do Colégio Sagrado Coração de Jesus de Bento Gonçalves. Seu pai conseguiu uma bolsa de estudos através da ajuda da Irmã Olinda, do Colégio Sagrado de Garibaldi, que realiza trabalhos sociais com famílias haitianas.

Nephethafa iniciou os estudos no Colégio Sagrado ainda em 2015, aos 6 anos, na turma infantil. Hoje, ela frequenta o terceiro ano do ensino fundamental e fala português de forma fluente, com sotaque semelhante ao da região. “Quando comecei a estudar, pensei que meus colegas seriam racistas comigo, temia não ser aceita, mas eles me receberam muito bem. Estou muito feliz pelas amizades do colégio”, comemora a estudante.

Entre suas matérias preferidas estão História e Geografia. Inspirada pelo pai, que é músico, Nephethafa sonha com o mundo artístico em que deseja ser cantora ou estilista. As tranças longas em seus cabelos chamam atenção e o estilo é muito apreciado pelas colegas. “Quando a gente brinca, algumas meninas querem também ter trancinhas. Mas por enquanto, estou aprendendo a fazer somente nas minhas bonecas. Também gosto quando elas perguntam como são algumas palavras na minha língua. Se lembro, logo falo”.

A menina imigrante lembra, sem saudades, dos professores da escola que frequentava no Haiti, afirmando que são muito rígidos e inspiram medo. “Aqui as professoras são muito mais simpáticas”, diz Nephethafa.

menina sagrado 4Segundo a coordenadora pedagógica das turmas do segundo ao sexto ano do Colégio Sagrado Coração de Jesus, Sinára Bonatto, inicialmente a metodologia direcionada ao aprendizado de Nephethafa foi para a socialização e alfabetização. Ela acrescenta que a menina participou de muitas atividades no contra turno escolar, voltadas principalmente para a escrita, que era a sua maior dificuldade. “Inicialmente foi um processo lento, mas houve muita colaboração dos educadores, dos colegas e dos familiares, sempre presentes na escola. É uma constante construção que tem dado certo, uma vez que hoje ela está completamente integrada à escola”, destaca a pedagoga.

Como forma de mostrar outras culturas aos estudantes, o Colégio Sagrado promoveu, no último mês de outubro a “Noite Italiana”, em que os costumes e tradições dos imigrantes italianos que chegaram em Bento Gonçalves no final do século 19 foram relembrados através de apresentações. Nephethafa diz ter adorado as danças e as canções. “É importante esses momentos para mostrar que a maioria dos moradores de Bento Gonçalves são descendentes de imigrantes, vindos da Itália e de outros países da Europa”, destaca Sinára.

menina sagradoSinára relata que a equipe pedagógica tem mais contato com o pai, já que a mãe ainda não fala de forma clara o português. Segundo Sinára, a aluna também impressiona por querer ensinar a mãe a falar português. “Ela se dedica demais, temos muito orgulho”, emociona-se o pai.

“Antes de trazer a família para o Brasil, acreditava que seria muito difícil e demorado o processo de imigração, principalmente o das crianças. Estava preparado para dar esse passo. Quando se tem dinheiro, tudo fica mais fácil. Pelo menos hoje estamos conseguindo viver com mais dignidade ”, acentua o pai Jean.

Em casa, a família procura falar somente português devido a educação dos filhos. Como forma de preservar as origens, eles mantêm seu modo de fazer culinário. Para Nephethafa, seu prato preferido é o arroz e feijão, no Haiti chamado em Criolo de Diri Pwa. “Gosto muito da cidade, mas queria ter ficado no meu país. Sinto falta do restante da minha família e dos amigos que deixei”, revela.

“As pessoas precisam abraçar os estudos”

Hugues Roodner Jean Bart, 27 anos, a exemplo de outros onze imigrantes haitianos adultos, frequenta o EJA no CAIC do bairro Zatt. Ele era professor de Biologia na escola Nossa Senhora do Haiti, de Porto Príncipe, capital do país, e estudava para se pós graduar na área. “Ainda quero conquistar meu doutorado”. Ele imigrou em 2013 e hoje trabalha como vigilante noturno em uma empresa local. “Meu irmão gosta muito do Brasil, mas não teve oportunidade de vir para cá. Eu pensei em ir para a França, onde moram familiares da minha mãe, mas depois de passar um tempo no Equador, decidi que viria para o Brasil”, destaca.

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“Sem idioma a gente não existe no mundo”

“Não consigo acreditar que muitas crianças e jovens brasileiros não dão tanto valor para a educação. No Haiti, muitos não têm essas oportunidades. As pessoas precisam abraçar os estudos. Quando falta educação na nossa mente, o mundo fica escuro”, afirma o jovem.

Ele salienta que adora estudar no CAIC. “Sou muito grato pelo carinho e educação que encontro aqui. Às vezes, quando saio desse portão, minha tristeza volta. Quando não consigo dormir, imagino as vozes das professoras me confortando. Isso me acalma”, desabafa.

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“As memórias são muito vivas. Tem dias que eu apenas sobrevivo”

Hugues lembra de como foi triste os momentos passados durante e após o terremoto ocorrido em 2010, em que viu casas de amigos e a escola onde trabalhava desmoronando e vitimando muitas pessoas do seu convívio. Com a informação de que um possível tsunami atingiria o Haiti, Hugues se abrigou numa montanha, em meio à natureza. Com pouca água e comida, sobreviveu durante duas semanas, graças a sua formação acadêmica em biologia. “Nunca imaginei passar um dia sem tomar banho. Foi um trauma muito grande ver que estava perdido e sozinho. Todo mundo estava em pânico. Eu nunca tinha sentido tanto medo”, relembra com pesar.

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“Às vezes me sinto perdido no mundo. Todo dia, quando acordo, preciso passar uns 15 minutos esperando para iniciar minhas atividades, porque simplesmente não consigo me encontrar e entender onde estou. As memórias são muito vivas. Tem dias que eu apenas sobrevivo”, desabafa. Ele acrescenta que tem procurado estudar sobre psicologia e psiquiatria através de livros e na internet para tentar lidar com seus traumas.

Hugges também encontra na poesia uma forma de se acalmar. Diariamente procura escrever parte de sua história em versos. Com a parceria do músico e DJ Mano Leco, que conheceu numa igreja evangélica, Hugues grava esses poemas pensando em futuramente lançar um álbum. “Quero ajudar as pessoas que têm o coração machucado como o meu”, ressalta.

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