Entrevista feita em junho de 2009 com Moysés Michelon

Empresário foi o destaque da Sobrecapa do Jornal Integração da Serra na edição nº 97.

Aos 83 anos, Michelon faleceu na noite da última terça-feira, 31 de outubro, em decorrência de uma parada cardíaca.

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O turismo e outras facetas de Bento Gonçalves na  Interpretação de um empreendedor a moda antiga

Moysés Luiz Michelon é casa do com Leonora Arioli Michelon há 47 anos e pai de duas filhas, Elisabete, médica geriátrica nos Estados Unidos e Elaine, gerente do hotel Vila Michelon. Tem também uma neta chamada Isabella, mesmo nome da empresa que projetou o então técnico contábil a empreendedor de sucesso. Presidiu o Centro de Indústria Fabril (CIF), o Clube Esportivo e a primeira Fenavinho, todos com sucesso, dando grande contribuição para Bento Gonçalves. Hoje, é proprietário e administra o hotel Vila Michelon, no Vale dos Vinhedos. Aos 75 anos, afirma que trabalhar de segunda a segunda no ramo de hotelaria é um prazer que ele nem pensa em deixar de lado. Do ramo das massas e biscoitos ao da hotelaria e turismo Moysés Luis Michelon é um empreendedor nato. Na entrevista abaixo, um pouco de sua história.

Integração da Serra: Quais são suas raízes?

Moysés : Sou filho de agricultores, nascido no interior de Caxias do Sul. Meu pai nos trouxe a Bento Gonçalves quando eu tinha 10 anos. Sou o mais velho de oito irmãos. Meu pai optou por dar estudo para os filhos, ao invés de herança em terra ou em máquina de costura, conforme os costumes da época. Viemos para Bento Gonçalves pela primeira vez para a ordenação de uma irmã como freira. Quando chegamos à cidade nos hospedamos em uma pousada que estava a venda. Ela ficava bem localizada. Perto do colégio, da igreja e do hospital. Meu pai se interessou e fechou negócio em 30 dias.

Integração: Começou o trabalhar com que idade?

Moysés: Na condição de filho mais velho eu tinha alguns bônus, mas tinha o ônus também. Com 10 anos eu tinha que fazer serviço de garçom e ainda à parte da contabilidade do hotel. Quando fiz 16, vagou numa empresa perto de minha casa um emprego de motorista. Mas como para dirigir era preciso ter 18, necessitava do consentimento do delegado. Como ele era amigo do meu pai,prometeu fazer vista grossa. Porém, se eu me envolvesse em acidente meu pai seria preso. Na época a psicologia era o do cinto para o menor deslize, imagine o que seria por ocasionar uma prisão. Eu sempre dirigi com todo cuidado.

Integração: E de que forma o motorista virou empreendedor?

Moysés: Trabalhei de motorista até ir para o serviço militar. Quando eu terminei de servir o exército, com 19 para 20 anos, entrei como sócio no armazém onde trabalhava de motorista com o s 30 mil cruzeiros que havia economizado até então. Lá eu fiquei até os 22 anos e os 30 mil viraram 60 mil cruzeiros.

Integração: Se você estava indo tão bem no armazém, por que resolveu sair?

Moysés: Recebi um convite para trabalhar de gerente em uma empresa de colchões de mola em Garibaldi. Naquela época eu já estava formado Técnico em Contabilidade pelo Colégio Marista. O investidor do negócio era o padre da paróquia. Fiz alguns cálculos e vi que o custo dos colchões era maior que o preço de venda. Ao apresentar o problema ouvi como resposta que o pagamento do imposto era desnecessário. Então eu resolvi sair da empresa, para não contrariar o padre, nem o aprendizado no curso de contabilidade, segundo o qual nenhum imposto deve ser sonegado.

Integração: E como a Isabela entrou na sua vida?

Moysés: Encontrei o Luis Fornazier em uma festa numa noite de sexta-feira. Começamos a conversar e eu contei a ele sobre a minha recente saída da fábrica de colchões. Segunda -feira ele me convidou para ser o gerente da Isabela. Eu aceitei. Na análise inicial do balanço percebi que a empresa estava no negativo. Eu então vi que a única solução era ampliar o horário de trabalho e o mercado. Resultado: de gerente no primeiro turno passei a macarroneiro no segundo. Aí a Isabela come- çou a se desenvolver.

Integração: E por que, depois de tanto tempo de sucesso a empresa foi vendida?

Moysés: Passados 42 anos, nenhum dos 4 sócios iniciais estavam mais a frente da empresa. O objetivo dos sucessores já não era os mesmos dos fundadores. Era um patrimônio grande dividido em 43 acionistas e por unanimidade decidimos vender. Entendíamos que acima do interesse dos acionistas estava a função social da empresa, gerando empregos, fazendo alimentos. E vendemos.

Integração: Paralelo a direção da Isabela você obteve notoriedade no município nas presidências de entidades e eventos. O que marcou dessa época?

Moysés: Nós fundamos o Centro de industria fabril (CIF), que viria a ser Centro de Indústria e Comércio (CIC) e implantamos metas. Entre elas queríamos retirar o campo de aviação da cidade, sanar o problema da água, que não chegava a todas as casas, da telefonia, do transporte, do asfalto de Bento a Porto Alegre. O mais complicado para o CIF era ter a sede própria, pois nem o de Caxias do Sul tinha na época. Antes de entregar o mandato nós construímos uma sede com dois pisos de 300 metros quadrados e conseguimos melhorar consideravelmente as condições para as indústrias. O mais impressionante é que na década de 60 todas as empresas de Bento eram associadas. Até a mais modesta. Havia gente que só tinha um torno e era associado. Outra experiência que marcou foi à presidência do Esportivo.

Integração: E como foi essa experiência?

Moysés: Em 1962 recebi o convite de Pedro Morbini, presidente de honra e de Sylo Michelon, na época presidente do Esportivo. Mesmo sem nunca ter chutado uma bola eu aceitei o desafio. Nós fizemos uma sele- ção dos jogadores de Bento e fomos jogar o estadual. As excursões eram feitas na kombi da Isabela e no carro do Mário Morassuti, diretor de futebol e Irineu Valenti, vice-presidente. Não pagávamos nada para o treinador. Para os jogadores eu pagava 5 mil cruzeiros. O mínimo na época era 18. O bixo era o seguinte: se ganhasse tinha janta, senão cada um jantava em casa. Chegamos em 7º lugar de 12. Passamos longe de cair. Terminando o mandato entreguei o time com todas as contas pagas e com um desafio. Se tivesse alguma conta em aberto na praça, poderia ser cobrada de Moysés Michelon.

Integração: O senhor foi o primeiro presidente e um dos idealizadores da Fenavinho. Como surgiu a idéia da promoção do evento?

Moysés: No ano (1965) eram comemorados 25 anos dos Maristas na cidade e eu, mais alguns ex-alunos, pensamos em um festival para comemorar. A idéia evoluiu para a Festa Nacional do Vinho. Levamos a idéia para o prefeito Milton Rosa. Ele ficou muito interessado porque a cidade fazia 75 anos. Ainda nesse ano seriam comemorados os 50 anos das irmãs Carlistas. Escolhemos e compramos o terreno, construímos o primeiro pavilhão, e recebemos 120 mil pessoas, entre elas o presidente Castelo Branco. Distribuímos uva, lançamos o vinho encanado e fomos notícia na imprensa nacional. A Iª Fenavinho ocorreu em 1967.

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Integração: Onde se encaixa a entrada no ramo de hotelaria?

Moysés: Depois que vendemos a Isabela, eu fiquei pensando no day after (dia depois), e dentro disso conversei com minha família sobre o que fazer. Porque embora eu estivesse com 65 anos e com minhas filhas formadas, eu não queria parar. Sempre trabalhei. Então eu pensei no Vale dos Vinhedos como um pólo enoturístico. E para isso só faltava o setor de hotelaria. Então nós idealizamos o Vila Michelon.

Integração: Quais são os diferenciais do Vila Michelon?

Moysés: Hoje somos muito mais do que um hotel. Nós temos o memorial do vinho, o museu do vinho, duas trilhas ecológicas, onde procuramos preservar a mata nativa. Pomar com mais de mil pés, com frutas durante todo ano. Temos também uma fazendinha, principalmente para a criançada, para eles terem contato com o coelho, a galinha, a ovelha. Um parque, também para a gurizada. Um lago para dar comida aos peixes e um parreiral modelo. São diferenciais para carregar o conceito do enoturismo.

Integração: Existem projeções que dizem que o turismo em Bento irá sobrepujar tanto o setor vinícola quanto o moveleiro. Você concorda?

Moysés: Eu acho que são atividades complementares. Eu creio que realmente a indústria do turismo tem bastante a avan- çar. Nós temos alguns produtos interessantes. O Caminhos de Pedra. O Vale das Antas, que é pouco explorado. O Vale dos Vinhedos esta muito concentrado em cima de vinícolas. Temos que diversificar. O melhor dos produtos com certeza é a Maria fumaça. Mas hoje ela está no sistema bate e volta. Os turistas vêm de manhã e vão embora à tarde. Quando resolvermos o entrave que impede a retomada do trajeto da Maria Fumaça entre Bento Gonçalves – Jaboticaba, no Vale do Rio das Antas, teremos um produto muito superior a qualquer outro.

Integração: O que falta para o Vale dos Vinhedos ser um destino completo?

Moysés: Imagine se no Vale dos Vinhedos conseguíssemos montar um parque de diversões. Porque o que faz o pai? Vai levar a criança no colo e levar para dentro de uma cantina? É complexo. Se nós tivéssemos um parque temático. E temos espaço físico para isso. Nós temos aqui em Bento Gon- çalves cerca de 2,4 mil leitos. Não é muito. Temos potencial para aumentar.

Integração: Qual é sua opinião sobre o atual momento da vitivinicultura nacional ?

Moysés: O vinho elaborado agora é muito melhor que o feito há 10 anos. Eles estão passando por uma crise, mas a crise acaba sendo um problema externo não controlável. Não são as vinícolas que vão controlar o problema do contrabando nas fronteiras. Não cabe a elas também resolver o problema da tributação. Eu não entendo porque em alguns países do MERCOSUL o vinho tem incentivos fiscais e aqui existe uma tributação de cerca de 50%. Essa tributação resolve o problema da receita do governo federal ou estadual? Não resolve. O setor vinícola é muito importante para nossa região. São 300 mil famílias dependendo disso.

Integração: Onde você vê maiores dificuldades? No turismo, nas vinícolas ou no setor moveleiro?

Moysés: A dificuldade maior é exatamente no setor moveleiro. O princípio do empreendedorismo é montar o pólo onde tem mercado ou onde há matéria prima. O setor moveleiro de Bento Gonçalves sobreviveu inicialmente da Movelsul e posteriormente da FIMMA. A Movelsul criou competitividade entre os fabricantes. A FIMMA trouxe a tecnologia e junto eles trouxeram o financiamento, os bancos que criaram alternativas para o crescimento. Só que tecnologia se esconde por um tempo, depois os outros copiam.

Integração: Alguma sugestão para o setor moveleiro?

Moysés: Eu sugiro que setor moveleiro se incorpore ao turismo. As pessoas que entram em cantinas podem muito bem entrar em show rooms. Por que não fazer um shopping dos móveis em Bento Gonçalves? E nós temos produtos para todos os segmentos de mercado. O shopping dos móveis é interessante para o turismo e para as empresas. Hoje temos algumas empresas com show rooms, mas no final de semana, quando há movimento de turistas, eles fecham.

Integração: Quanto a Copa de 2014, a concorrência de Caxias do Sul para ser sub-sede preocupa?

Moysés: Nós estamos melhores preparados. A sub-sede tem de ficar 150 quilômetros da sede, e longe dos grandes centros. O Vila Michelon se encaixa nisso. Claro que teremos que fazer alguns ajustes, mas o Prefeito está muito interessado. Eu disse a ele que podemos fazer um Maracanã aqui no campo do 8 da Graciema. A comunicação externa precisa melhorar muito por causa da imprensa. Então me perguntam: Mas dá retorno financeiro? E não é essa a questão. O importante é colocar Bento Gonçalves no mapa do mundo.

Integração: Quais as diferenças do empreendedorismo em Bento de agora para quando você começou?

Moysés: Há 50 anos não tínhamos acesso tão facilitado como é hoje. Desde a instrução. Íamos mais na inspiração e na coragem. Hoje temos assessoria em tudo. E não se pode hoje dispensar a ajuda do SEBRAE. Não é só vontade. Vontade é a primeira coisa, mas é preciso pesquisa, controle e estudo também.

Integração: Quais os conselhos para um novo empreendedor?

Moysés: O empreendedor nato começa na fase do delírio. Depois ele passa para o sonho. Mas em algum momento é preciso ter um projeto. É necessário buscar aquele delírio e aquele sonho e trazer para a realidade. Embora hoje 80 a 90% dos novos empreendimentos fracassem nos dois primeiros anos, nós temos como minimizar essas chances, desde que tomem consciência de que esse ramo não é para amadores.

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