A Mel

MelEscrevo sob os olhares da Mel, a cachorrinha da minha filha Anna. Chegou em nossa casa em um momento de tristeza, de dor pela perda de um ente querido. Frágil e pequenina, quase nos deixou também. Mas a bolinha de pelos venceu a eterna luta pela vida e agora cresce sem parar.

Rebelde e temperamental, cisma em fazer suas necessidades nos melhores tapetes. Adora deitar de barriga, aproveitando o frescor do piso para arrefecer o corpo. E late sem parar, invocada e autoritária, a cada toque da campainha. Eu, que fui iniciado no mundo dos cachorros depois de adulto – temos também o Bob, um vira-lata turbinado e super esperto, que chegou antes, e, como diz minha filha, é agora irmão da Mel –, me maravilho a cada dia com as peripécias caninas.

De pelo marrom claro e branco, focinho proeminente e dentes afiados, a Mel mais parece uma raposinha fugida da floresta. Possessiva, tomou para ela a poltrona da biblioteca onde trabalho. Ali, no silêncio das tardes mansas, enrodilha-se sobre uma almofada e cai no sono.

Olho a Mel em sua animalidade, mas ela me é mais do que um cão. Penso no que estará sentindo, quando a surpreendo me observando. O olhar transparente e piedoso dos cachorros. Que mistérios guardará? O escritor Alberto Manguel comenta que o relacionamento que temos com um animal, põe em cheque a nossa própria identidade e a do animal com quem convivemos. O olhar de um cão nos obriga a sermos sinceros conosco; ele é uma espécie de espelho a refletir o que nem sabemos que somos. Um olhar que captura o nosso próprio olhar e o devolve.

A Mel me entende, e assim é paciente com minhas leituras; dificilmente as interrompe. Pelo contrário, quase sempre me fita, silenciosa, enquanto anoto partes de um livro ou converso com o autor. Fantasio sobre o que ela pensará dos livros. Já flagrei-a escalando cuidadosamente uma pilha de volumes sobre a mesinha, para em segundos desmoronar lá de cima. Esses dias a vi lambendo um exemplar do Umberto Eco; tem bom gosto a pequena. Já um livro de Nietzsche não teve igual sorte: deu-lhe uma boa dentada. Acho que ela não gosta de filósofos materialistas.

Se às vezes a pequena Mel incomoda, sua ausência enche a casa de vazio. A sensação de prover abrigo para um animalzinho tão indefeso é muito boa. O doce sentimento de cuidar de uma vida. De um ser que, como todos nós, não escolheu estar no mundo. Mas que ao mundo veio e agora trata de viver. Ajudamos a Mel a seguir seus dias e ela nos retribui da mesma forma. Trazendo graça e encanto à casa que descobriu como lar.

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