Anotações de Percurso

rogerio_gavaRogério Gava

Nomes

Os nomes empobrecem as coisas. Penso nas “Três Marias”, as estrelinhas em fileira que todos apontamos ao céu. Pois é, desde que aprendi serem parte do cinturão de Órion, o grande caçador, e que se chamam Alnilam, Alnitak e Mintaka, algo se perdeu. Foi assim também quando gravei a forma das constelações no céu estrelado: nunca mais consegui enxergar apenas estrelas. O saudoso Manoel de Barros, admirável poeta pantanense, contava essa história: quando menino morava junto a um rio que fazia volta atrás da casa onde residia. Então, um homem, belo dia, lhe disse que aquilo se chamava enseada. Desfez-se o encanto. O rio em curva já não era mais um fascinante mistério, que ao poeta menino lembrava uma reluzente e gigante cobra de vidro. Foi, a partir daquele instante, apenas e somente uma enseada. “Acho que o nome empobreceu a imagem”, escreveu ele. Os nomes que damos a tudo depauperam tudo o que nomeamos.

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O mal segundo Schopenhauer

O célebre – e sempre azedo – Schopenhauer era um pessimista nato. Rabugento, sua prosa é uma navalha a cortar qualquer perspectiva de felicidade. Mas isso não impediu (ou, quem sabe, até ajudou) que ele tivesse uma sacada lógica genial a respeito dos males da vida. Dizia o ranzinza filósofo que os infortúnios – que tanto perturbam nosso estado de espírito – podiam ser divididos em apenas dois grupos: os incertos e os indeterminados. Para não perdermos a tranquilidade – articulava ele – habituemo-nos a considerar os incertos como se nunca pudessem ocorrer, e os indeterminados como se não pudessem de modo algum acontecer agora. Reflito a respeito. Os males incertos são aqueles que podem, ou não, acontecer: doença, acidentes, fracassos de toda ordem. Já os indeterminados temos certeza de que irão ocorrer, mas não sabemos em que ponto do percurso de nossa vida. Pergunto: não será um e somente um o mal indeterminado, ou seja, a nossa própria morte?

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O sopro eterno

Anaxímenes de Mileto, um dos primeiros filósofos, a quem tudo era ar, disse assim: “Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o cosmo”.

Leio esse fragmento antiquíssimo e fico pensando em como a alegoria do sopro embala a humanidade, desde os tempos imemoriais. No Gênesis, o sopro é o bafo insuflado por Deus nas narinas do homem. É o pneuma dos gregos, a respiração, o espírito (spiritus) que dá vida ao corpo físico. Também psyche, a “alma do sopro”. É o ruach hebraico, o fôlego, ar vital. É a anima dos latinos, o alento que “dá ânimo” ao corpo. É o ehecatl dos Astecas e o nephesh do Antigo Testamento. O sopro, em suma, é a alma. E sem alma, sabemos, um corpo é apenas um pedaço de carne. O sopro é, assim, o que nos dá substância. Essência. Aragem invisível que a tudo movimenta. “Reflita sobre o que é a respiração: vento, e nem ao menos sempre o mesmo, mas a cada instante expirado, logo aspirado”, escreveu o imperador Marco Aurélio. Somos sopro. Eternamente.

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A poesia é um modo de ver a vida

“É preciso fazer emergir a poesia do cotidiano”, escreveu – poeticamente – Affonso Romano de Sant’anna. Neste mundo em que “tudo nos conduz à superfície do instante”. Brilhante verdade! A poesia, diz um grande amigo, é educada; nunca entra, pois, sem bater. É preciso, assim, abrir as portas para o acaso poético. Deixar uma fresta na janela, ao menos, para que ele adentre sem medo e nos faça respirar ares menos sólidos. Menos rarefeitos. Tudo é poético e nada o é: depende da sensibilidade de quem vê. O poeta é aquele que enxerga de olhos fechados, pois tem a alma aberta.

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