Tuiuty: casarão centenário que sediava a subprefeitura avança para a ruína

Prédio histórico, pertencente ao município de Bento Gonçalves, sofre pela falta de manutenção

Reportagem: Natália Zucchi | Edição: Kátia Bortolini

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A casa centenária que sediava a subprefeitura de Tuiuty, distrito de Bento Gonçalves, desmorona-se ao olhar de quem por ela passa, localizada na Estrada Uva e Vinho, no coração da comunidade. Seus primeiros proprietários foram Orestes Tomasi e Atílio Pompermayer. A residência já foi frigorífico, açougue, casa comercial e ferraria, antes de se tornar patrimônio público e sede administrativa do distrito, por meio de uma permuta entre Pompermayer e a prefeitura, em1979, na administração de Fortunato Janir Rizzardo (PDT).

Como subprefeitura, abrigou correio, central telefônica e posto de saúde. Também foi residência do subprefeito de Tuiuty, em 1994. O administrativo da subprefeitura de Tuiuty trocou de endereço na gestão de Alcindo Gabrielli (PMDB), exercida de 2005 a 2008, mediante a precariedade do casarão.

O prédio, de três pavimentos, totalizando 454,49 metros quadrados de área construída com pedra, tijolo e madeira, foi inventariado como patrimônio histórico da imigração italiana em 1994, em levantamento do patrimônio cultural do Rio Grande do Sul, realizado em conjunto entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE) e o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

materia capa (2)Em 2015, na primeira gestão do atual prefeito Guilherme Pasin, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Bento Gonçalves (IPURB) elaborou um projeto de restauro para o casarão, orçado em R$ 580.696,57, para ser executado em quatro meses. O projeto passou em duas etapas pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural (COMPAHC). A primeira etapa, aprovada em fevereiro de 2015, visava a conservação, restauração e reforma da edificação, sob a responsabilidade do arquiteto Dangle Júlio Marini. Já a segunda, aprovada em setembro de 2015, previa reparos no interior da edificação, incluindo um novo layout. No mesmo período, Eliana Romagna assumiu como arquiteta responsável pela obra.

Ainda em 2015, teria surgido uma tratativa entre o município e empresas do distrito para destinação de impostos à restauração, que acabou não vingando.

Necessária ampla intervenção

materia capa (6)O projeto de restauro, elaborado pelo IPURB, mantém as características externas da edificação e resgata o seu uso como sede da subprefeitura de Tuiuty. Também propõe a criação de auditório e espaços para atividades anexas, como o escritório da Festa da Colheita, promovida pela comunidade. Ainda segundo o projeto, tendo em vista o avançado estágio de degradação da parte interna da edificação, será necessária ampla intervenção para que o espaço ofereça as condições necessárias para as atividades pretendidas.

Moradores lamentam o descaso

A importância desse prédio histórico permanece viva na memória dos moradores mais antigos da localidade. Muitos deles sentem grande pesar ao observar a edificação “caindo aos pedaços”, como vê diariamente o vizinho do prédio, Primo Pellizzari, 83 anos. Natural de Cotiporã, o funcionário público municipal aposentado está há 43 anos morando em Tuiuty, numa residência situada nos fundos da antiga subprefeitura. Ele conta que durante temporais fica na janela olhando o casarão com medo que o prédio desabe. Segundo Pellizzari, há mais de 30 anos começou a apodrecer a parte interna do térreo e primeiro andar dos fundos do prédio. “Nenhum Prefeito se interessou de verdade pelo casarão. Por dentro, faziam reparos básicos quando ainda era habitado. Acompanhamos a evolução da perda. É vergonhoso”, lamenta.

materia capa (4)“É um absurdo a subprefeitura estar numa casa alugada, sendo que tem esse baita prédio para usufruir. Pode cair todo o telhado, mas essa casa tem que ficar em pé para ser reformada. Há muitos pontos turísticos próximos, entre eles a Vinícola Salton. Muitos turistas que visitam a cantina e o distrito observam o casarão e comentam sobre o descaso com o patrimônio”, salienta Ivete Trevisan, funcioná- ria pública municipal aposentada. “Fomos esquecidos”, acrescenta Therezinha Trevisan, mãe de Ivete.

materia capa (7)A aposentada lembra que, em 2016, representantes da prefeitura reuniram a comunidade informando que havia verba para o restauro do telhado, “o que não aconteceu até agora”.

A produtora cultural Fernanda Tomasi, moradora de Tuiuty, que acompanhou visualmente a depreciação do patrimônio, agora está disposta a trabalhar na captação de recursos para o restauro, através da Lei Rouanet. “O telhado apresenta problemas há mais de 15 anos. Com a estrutura interna exposta, houve prejuízos nos três andares que compõem a residência, fazendo com que os pisos cedessem”, relata ela. Fernanda Tomasi ressalta que todos os moradores do distrito anseiam pelo restauro e tombamento do prédio.

Vergalhões de aço

materia capa (3)Conforme análise constante no projeto de restauro, o telhado apresenta diversos pontos de infiltração, ocasionando a entrada de água até o subsolo da edificação. O assoalho do primeiro pavimento é suspenso por vergalhões de aço que, por sua vez, transmitem os esfor- ços e cargas para o tirante inferior das tesouras do telhado. Elas estão condenadas pelo excesso de umidade e a ação agressiva de cupins, não tendo condições de resistir aos esforços a que estão submetidas. A estrutura e o assoalho do térreo também estão comprometidos pela ação da umidade e dos cupins, sendo necessária sua substituição.

Nas fachadas, a instalação elétrica está completamente condenada, com fiação subdimensionada, aparente e com emendas fora de padrão, gerando risco de curto-circuito e possível incêndio, precisando substituição, de acordo com o padrão normativo. Na parte inferior das paredes da fachada principal há umidade ascendente, sendo necessária a instalação de um dreno sob a calçada e junto ao prédio, de modo a conduzir a água até o dreno pluvial mais próximo.

Interior sedia 290 imóveis inventariados como patrimônio da colonização italiana

A área rural de Bento Gonçalves tem cerca de 290 imóveis inventariados como patrimônio histó- rico da colonização italiana. Somente em Tuiuty tem 37, entre eles 24 são residências.

materia capaa (1)Em Faria Lemos, o prédio da atual sede da subprefeitura, de propriedade do município, é um dos que foi inventariado e restaurado. O município teve que desocupar o prédio da antiga subprefeitura, pertencente ao Estado, passando a ocupar prédio próprio, até então sede de um cartório de registros.

Segundo a arquiteta Cristiane Bertoco, é considerado patrimônio histórico todo o complexo habitacional das famílias da imigração italiana, incluindo a moradia, cozinhas, paiol e estrebarias, além de outras construções como igrejas, capitéis, cemitérios, prédios públicos e de comércio, entre outros. “As pessoas têm um preconceito referente ao patrimô- nio tombado. Elas aceitam o tombamento, as reformas, mas parece que tem receio de dizer que é tombado, por medo de mexer na casa ou que alguém vá interferir no patrimônio. Além disso, muitos proprietários acham que essas casas não têm tanto valor. Eles sabem da importância histórica dessas edifica- ções, porque muitas delas foram apenas residências e não locais de “relevância social”. Eles apenas valorizam entre a família, mas não para o coletivo, como patrimônio cultural”, destaca.

Prefeitura prevê medida emergencial

Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura de Bento Gonçalves, como medida emergencial será feita uma reforma no telhado, aplicando uma estrutura metálica na parte interna da residência, até que seja possível fazer toda a substituição do madeiramento e das telhas. A medida emergencial ainda não tem dada definida para o início, mas a assessoria afirma que acontecerá o mais breve possível. Ainda conforme a assessoria, essa etapa demanda um investimento de R$ 129 mil, proveniente de recursos públicos municipais e de donativos de empresas sediadas do distrito. A assessoria de imprensa adianta que a execução do projeto de restauro, agora avaliado em R$ 600 mil, deverá ser financiada com recursos da Lei Rouanet, através da conversão de impostos de empresas sediadas no distrito.

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