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Casa Zandoná: Comércio à moda antiga sobrevive ao tempo

Por Natália Zucchi

A Casa Zandoná, com 69 anos de história no comércio de Bento Gonçalves, estilo armazém, mantém suas portas abertas na rua Góes Monteiro, 302, bairro São Francisco, cultivando sua clientela fiel e mantendo sua tradição familiar.

zandonaA história do armazém iniciou em 1948, quando o carreteiro Angelo Zandoná, de 27 anos, deixou de fazer frete com carroça na região de Bento Gonçalves, para abrir um bar na localidade chamada de “loti” (lotes) pelos moradores do município. O bar, que inicialmente vendia bebidas como vinho, cerveja, graspa e suco de uva logo transformou-se em um armazém com oferta de diversos produtos alimentícios e de limpeza, entre outras utilidades domésticas.

Em meados de 1949, Zeferino Maria Zandoná, sobrinho de Angelo, de 14 anos, passou a ajudar seu tio nos negócios do armazém. No mesmo ano, a Casa Zandoná amplia sua oferta de produtos, entrando no ramo de armarinhos, ferramentas agrícolas e ferragens. O irmão do Zerefino, Célio Antônio, entra no negócio familiar em 1973, aos 19 anos.

Com o falecimento de Angelo, em 2008, aos 87 anos, o estabelecimento ficou a cargo de Zeferino e Célio.

Nessa trajetória, fatos pitorescos como garrafas resfriadas em fonte de água e ranchos entregues de cariola (carrinho de mão) fizeram parte da rotina do estabelecimento e de seus clientes.

Espaço de amizade e memória

zeferino,-celio-e-borgesA Casa Zandoná é hoje espaço de amizade e memória. “Muitas pessoas que saíram da cidade há 30, 40 anos, voltam para relembrar os bons tempos vividos no nosso armazém”, ressalta Zeferino, hoje com 86 anos. Prova disso: no momento da entrevista chega ao armazém para uma visita corriqueira, Pedro Borges, 83 anos, conhecido como bananeiro. Pedro Borges era proprietário de um comércio de frutas com seu nome na rua Gomes Carneiro, centro de Bento Gonçalves. Ele forneceu bananas ao armazém Zandoná durante 40 anos e hoje está aposentado. “O Zandoná foi o único que sobreviveu ao tempo”, observa Borges.

Nesse encontro, Zeferino, Borges e Celio se divertiram ao relembrar os acontecimentos pitorescos ocorridos no armazém ao longo dos anos. Célio, hoje com 63 anos, lembra de uma manhã em que um saco de milho chegado ao estabelecimento acabou rasgando em frente à Casa Zandoná. “Um dos vizinhos, indignado com o desperdício do alimento, trouxe suas galinhas para bicar no local. A movimentação durou uma semana”, comenta aos risos.

Zandoná-(3)Houve também o episódio dos ovos, no qual um cliente antigo comprou cerca de seis dúzias, levou até seu carro, deixou no banco do motorista e voltou às compras. Ao retornar ao veículo, distraído, sentou sobre os ovos. “Não sobrou um inteiro. O estado do carro era de dar pena”, contam eles às gargalhadas.

Os comerciantes também relembram com carinho as edições da Festa Nacional do Vinho (Fenavinho), na década de 80. Segundo eles, muitos turistas de São Paulo e do Rio de Janeiro visitavam o armazém à procura da graspa, na época produzida por Bigolin, de Pinto Bandeira. “Eles enchiam o porta-mala de seus Monzas com a bebida para animar as festas em seus estados de origem, diziam”, complementa Célio.

Bebidas resfriadas em fonte de água

Zandoná-(5)Em 1948, tudo era comercializado a granel no armazém Zandoná. Sacos de grãos diversos, com média de 60 quilos, eram dispostos em gavetões em um amplo balcão de madeira. Na época, nem existia sacola plástica. Os produtos eram empacotados em sacos de papel. Muitos clientes levavam suas sacolas para as compras.

Com a clientela estabelecida, o armazém atendia do período da manhã até o final da noite. Zeferino conta que, na década de 50, na ausência de refrigeradores, os Zandoná faziam buracos numa fonte de água no barranco atrás do armazém para resfriar garrafas de refrigerante e cerveja. “Era o jeito e dava certo”, confirma Zeferino. Ele também salienta que entregava ranchos na vizinhança de cariola. Entre tantos destaques para um comércio da época, a fama virou credibilidade e o armazém chegou a ter 120 cadernetas fixas durante anos.

Zandoná-(1)Zandoná-(4)A variedade de produtos na Casa Zandoná ainda é comentada entre muitos moradores da região. Até hoje o local é lembrado por dispor produtos e utensílios de marcas antigas, de boa qualidade. O armazém comercializa panelas de ferro, de alumínio econômica, lampiões e urinol de esmalte que, segundo Zeferino, tem boa saída. Na infraestrutura do estabelecimento se destaca um grande baleiro, o mesmo da época da abertura do armazém. Para fazer os cálculos do estabelecimento, os irmãos Zandoná usam uma somadora datada de 1950. Eles acentuam que aprenderam a consertar essa somadora para prolongar seu uso. Com a atmosfera de saudades das décadas passadas, Célio e Borges concordam com a afirmação de Zeferino: “Foi um tempo muito bom, de muitas histórias”.

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