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Irma de Carli Moro – Uma mulher à frente do seu tempo

Homenagem póstuma

047Uma mulher à frente do seu tempo, que doou sua vida a família e a educação. Começou e terminou sua passagem na terra de forma sublime. Na quinta-feira santa do dia 5 de abril de 1923 nascia Irma de Carli. Olhos azuis e sorriso espontâneo. Vaidosa, mas simples, viveu de acordo com o pensamento de Augusto Curry. “Construi amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, bati na porta da vida e disse-lhe: não tenho medo de vivê-la”.

Dedicada ao saber, Irma lecionou durante cerca de 40 anos em escolas da linha Pradel, de Tuiuty e São Valentim. No decorrer de sua vida profissional, arrecadou mais de 70 certificados de cursos, aprofundando-se na gramática. Irma deu seu último adeus, aos 94 anos, na última quinta-feira santa de 13 de abril, sendo enterrada na sexta-feira santa, totalmente lúcida, deixando paixão pela vida, força e sua história.

Leitura e música

Filha de Giuseppe Valentino e Maria Marqueto de Carli, imigrantes italianos da região de Trento e Vicenza que aportaram no Brasil em 1875, se estabelecendo nas terras onde hoje é a comunidade de São Valentim. Irma foi a caçula entre nove irmãos. Inteligente e destemida, identificou-se na função de professora muito jovem.

Ao completar o quinto ano do primário, aos 13 anos, iniciou sua profissão como professora substituta na Escola Municipal Andrade Neves, na Linha Pradel distante cerca de dez quilômetros de sua casa. Ela percorria o trajeto com sua égua de cabeça branca, montada em seu selim, como lembra o seu ex- aluno Benjamim Comparin, 86 anos.

Em 1948, foi nomeada titular. Lecionou também nas escolas municipais Felix Faccenda, na Linha Picadella, Barão do Rio Branco, em Tuiuty e Senador Salgado Filho, de São Valentim, onde permaneceu por 27 anos. Incentivada desde cedo pelos pais à leitura e à música, sempre manteve suas leituras ativas, com jornais, revistas, romances e literaturas, como a Seletta e Monteiro Lobatto, o escritor favorito de Irma. Ela tinha uma memória privilegiada.

Oração para afastar o medo

Ainda no início da carreira, Irma ficou descontente ao ser transferida para a segunda escola onde lecionou, por estar localizada na estrada próxima ao cemitério de São Valentim. Passar pelo cemitério, ainda de madrugada, deixava Irma muito apreensiva, a ponto de pensar em abandonar a profissão. No entanto, sua mãe, sensibilizada com a vocação da filha em lecionar, ensinou a ela uma reza em italiano e latim para afastar o medo durante o trajeto. “Ve saludo anime sante, non ve conosco perche sei tante, valtre ere come me e me vegno come valtre. Anime sante. Requiem eaterman dona eis. Domine, Et lux perpetua luceat eis Riquiescant in pace. Amém”. Em tradução livre: eu vos saúdo almas santas, não nos acompanhe porque são tantas, vocês eram como eu e eu serei como vocês. Almas santas. Descansem eternamente onde estão. Ó Senhor, deixe brilhar a luz perpétua sobre eles que descansam em paz. Amém.

Família

242Casou-se somente aos 38 anos, com Waldyr Moro, com quem teve cinco filhos: Mauro Marcos casado Maria Inês, Mauri Miguel, casado com Mara Ficagna, Amarildo, casado com Geni Cainelli, Rosa Maria, casada com Ademar Titton e Vânius Attílio casado com Helena Szimanski, que lhes deram os netos Marcelo, Maisa, Carolina, Gabriel, Alana, Maurício e Vitória.

Perdeu seu pai muito cedo, fazendo com que o matrimônio trouxesse a ela uma nova família, tratando seus sogros como pai e mãe. Irma ficou viúva em novembro de 2015, após 54 anos de casamento, guardando saudade e amor ao seu marido, por quem tinha muito afeto. Também se dedicava ao serviço do lar.

Nos últimos anos, tinha alegria ao cultivar a horta e ver seus filhos felizes com suas esposas e seus netos, realizados no trabalho. Gostava ainda de ligar para as rádios pedindo orações e músicas antigas que a faziam lembrar dos momentos especiais com o marido e de suas serenatas.

Ela também se dedicou a agricultura familiar, ajudando o marido e o filhos na poda e colheita da uva, além de cuidar da horta que garantia os alimentos da família. Em 2016, aos 93 anos, Irma recebeu uma homenagem da Cooperativa Vinícola Aurora por ser a agricultora mais idosa entre os associados.

Versos e canções

Muito religiosa, Irma era católica, devota a Nossa Senhora do Carmo e usava seu escapulário diariamente. Em dias de temporais, Irma abria a janela, invocava Santa Bárbara, benzia fazendo o sinal da cruz com o escapulário ou água benta, queimava folhas de oliva e rezava para distribuir tranquilidade ao lar.

Também devota a Santo Antônio, rezava o sequeri, para achar objetos perdidos. Mulher de muita fé, sempre fez orações em nome da família e buscava atrair o melhor para quem amava. Segundo a nora Maria Inês Sgarioni, Irma mantinha sempre seu pé de oliveira perto de casa como forma de proteção contra temporais.

A família relembra que Irmã era muito alegre, sempre de bom humor, cantarolando e declamando versos carinhosos para as pessoas que tanto gostava. A visita dos netos toda a semana sempre a deixava de alto astral. Administrou a casa até seus 85 anos, mesmo com dificuldades em caminhar.

Sala de aula

Grande parte das pessoas que residem em Tuiuty e São Valentim foram educados por Irma. Segundo relatos dos ex-alunos e familiares, Irmã era exigente e acreditava nos diálogos em sala de aula. Não costumava castigar seus alunos com as torturas da época, como as reguadas nos dedos ou o milho moído espalhado no chão para as crianças ajoelharem. Mas, mantinha uma vara de marmelo atrás da porta da sala de aula, que servia para intimidação. Na educação criou laços de amizade. De acordo com o filho Mauro, ex-alunos a encontravam na rua e puxavam conversa amigá- vel, relembrando os tempos de aula e apresentando a professora aos filhos e aos netos.

Aluno de Irma em 1950, o viticultor Valdir Postal, 74 anos, lembra que ela frequentava sua casa para tomar café com seus pais. “Ela era a única professora que ia para escola a cavalo, achava aquilo muito diferente. Aprendi com ela matemática, ortografia, português e tabuada. Ela gostava dos alunos, sempre foi atenciosa e brincava com a gente”, declara.

A professora aposentada Terezinha Lunelli Tureck, 64 anos, aluna de Irma durante a década de 60, em São Valentim, lembra que ela era muito dinâmica e criativa. “Devo a ela minha alfabetização. Ela atendia toda as turmas, do primeiro ao quinto ano, numa única sala. Mesmo com tantos alunos, ensinava a todos com paciência. Era uma mulher muito querida e sabia ensinar. Na época não tínhamos material didático, nem quadro, então a metodologia era ensinar através da ortografia, com exercícios de repetição das palavras. Lembro que adorava ver ela cantar os hinos, nacional, rio-grandense e do exército brasileiro. Acabei aprendendo todos eles. Conheci um pouco de tudo e ficava encantada por ela saber tanto”. Terezinha lecionava na Escola São Valentim que, em 9 de outubro do ano passado, em homenagem aos Avós, recebeu a professora Irma. Na ocasião, declamou versos e com outros vovôs da região, cantou cantigas que hoje são esquecidas. Ainda na ocasião, os convidados anciões contaram aos estudantes e professores como eram suas rotinas escolares nas décadas passadas.

Irma faleceu como viveu, lúcida, tendo recebido a Eucaristia e por último a Unção dos Enfermos. Vá em paz esposa, mãe, sogra, avó e professora! Te amamos para sempre!

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