Primeiras Palavras: Carpe Diem de Botequim

 Rogério Gava 

sem-titulo-1

A máxima é conhecida: Carpe Diem. “Aproveita, colhe o dia”. Nos foi legada pelo poeta romano Horácio, que em suas Odes escreveu: “A vida é curta; abrevia as remotas expectativas. Mesmo quando falamos, o tempo, malvado, nos escapa. Aproveita o dia, e não te fies tanto no amanhã”. Uma verdadeira pérola de sabedoria.

Horácio escreveu esse texto há dois mil anos. Sua mensagem continua simples e encantadora. Pena que acabou mal interpretada. O Carpe Diem, coitado, virou sinônimo de puro hedonismo, de busca pelo prazer desenfreado. Afinal, se algum dia vamos morrer, o melhor é aproveitar ao máximo o aqui e agora. E que se dane o resto! É o “Carpe Diem de Botequim”, típico da conversa de bar. Pobre Horácio: ficaria triste em saber que rumo tomou seu ensinamento.

Nestes tempos vaporosos, onde o novo fica velho em um dia e os valores estão um tanto desbotados, o “Carpe Diem de Botequim” ganhou lugar de destaque: “Viva o hoje, esqueça do amanhã. Aproveite enquanto é tempo! Goze ao máximo! Afinal, você tem o direito de ser feliz”. O culto ao prazer instantâ- neo virou a religião moderna. Repare como ele domina a propaganda, os anúncios nas revistas e na televisão. Na internet. E vai entupindo a cabeça de todos nós, com a falsa promessa de que aproveitar a vida dessa forma exacerbada é o segredo da felicidade. Ledo engano.

Se tudo fosse “aproveitar o presente”, então para que se preocupar com as gerações futuras? Com nossos filhos e netos? Por que lutar contra as injustiças? Se preocupar com as crianças abandonadas, refugiadas? Com a corrupção que grassa? Para que, afinal, ser honesto? Fiel às pessoas que amamos? Se o negócio é aproveitar o dia, então, quem pode mais, chora menos! Eis justamente a falha do “Carpe Diem de Botequim”. Ele nos reduz a meros hedonistas festeiros, irresponsáveis, para quem curtir a vida é a única coisa que importa. Triste existência essa, subjugada pelo prazer egoísta e insensato.

O Carpe Diem legítimo tem outro significado. Ele nos fala que nossa existência é curta, sim, frágil como a chama de uma vela ao vento. Que não temos certeza de nada, a não ser do instante que estamos vivendo. E que, cientes disso, não devemos perder o momento presente. O Carpe Diem verdadeiro não propõe que esqueçamos nossos projetos, dando de ombros ao dia de amanhã. Tampouco que devemos nos atirar ao gozo de todas as nossas veleidades. Ele só nos lembra que somos mortais, e, ao final, o que importa é viver enquanto é tempo. É bom fazer planos, mas, sejamos honestos, não sabemos se vamos estar aqui para realizá-los. O certo, então, é seguirmos com eles, mas sem jogarmos a felicidade para algum ponto futuro. O que importa é o caminho; não a chegada. Mais vale a paisagem da estrada do que o próprio destino.

Horácio nos diz que o tempo não deve ser desperdiçado. Isso não significa, contudo, que devamos viver de forma irresponsável. Tresloucada. Pelo contrário: saber que a areia da ampulheta está escorrendo deve nos fazer viver “a cada dia o seu dia”. Sabiamente. De que forma? Por exemplo, quando não deixamos para amanhã aquilo que podemos fazer hoje, estamos sabendo “aproveitar o dia”. Quando, em meio à correria cotidiana, lembramos de dizer “eu te amo” para as pessoas especiais de nossa vida, estamos vivendo no verdadeiro espírito do Carpe Diem. Parar para contemplar o pôr do sol, admirar o firmamento estrelado, saborear uma refeição singela feita com carinho. Sentir o cheiro da grama molhada. Tomar banho de chuva e voltar a ser criança. Tudo isso é Carpe Diem.

“Tempus fugit”, cantava Virgílio – outro poeta famoso –, lembrando que “o tempo voa”, foge de nossas mãos. Colhe o dia, responde Horácio. Mas, colhe-o com sabedoria. Há que se viver o hoje, sem dúvida. Mas, não há que se querer fazer tudo neste exato instante. “Apressa-te lentamente”, diziam os sábios antigos. Isso nos ensina a passear pelo nosso singelo jardim sem perder tempo, mas saboreando o instante. Sem a ansiedade de querer percorrê-lo em um só dia. Querendo todas as flores que encontramos pelo caminho. O Carpe Diem autêntico nos lembra que colher flores, por certo, não é o mesmo que arrancá-las.

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *